Paixão Inexpugnável
1 Paixão Inexpugnável
Lysa
Quando as primeiras réstias de sol ainda penetravam discretamente nas janelas do solar da Torre da Mão, Jon já estava de pé há muito. Lysa sabia, a bem da verdade, que ele não dormira a noite toda, assombrado por suas preocupações, suas perturbadoras suspeitas. Se chegasse à conclusão definitiva a respeito da família real — e Lysa sabia que chegaria — , os eventos seguintes mudariam drasticamente algumas posições no jogo do poder. Lysa sentia-se nos momentos que antecedem uma tempestade, quando o ar está absolutamente parado. E ela teria movimentos importantes nesse jogo, sem dúvida.
Ao perceber que ela despertava, seu senhor voltou-se para ela.
– Tenho assuntos a resolver, mulher. Talvez demore mais do que pretendo, portanto não me espere para a ceia.
– Mais bordéis? Jon, assim vou acabar suspeitando que os bastardos são seus — respondeu Lysa, com um sorriso amigável.
– Não seja estúpida, mulher! Sabe bem que o assunto é da mais alta gravidade. Antes de mais nada, preciso de seu apoio e compreensão — respondeu Jon. Estava com aquela ruga entre as sobrancelhas, típica de quando algum problema além de seu poder surgia no pequeno conselho.
– Certamente, meu senhor — disse Lysa. — Sabe que pode contar comigo. Pelo visto a longa conversa com Lorde Stannis ontem à noite o deixou ainda mais preocupado — Lysa podia ouvir mentalmente o ranger de dentes do Mestre dos Navios ecoando pelo castelo.
– Stannis é um homem correto — ponderou Jon. Tem argumentos plausíveis, mas teme que seja mal interpretado pelo irmão. A sombra de Robert parece pesar muito sobre ele.
Ao acordar com a conversa, o pequeno Robert levandou da cama num salto desajeitado, sonolento e com as habituais olheiras.
– Me leva, pai! — resmungou o pequeno. -Também quero ver os bastardos!
– Não diga essas coisas, Rob! — ralhou Lysa. — Os assuntos de seu pai são segredo! E você não pode se arriscar a andar pela imundice de lugares como a Baixada das Pulgas. Quem sabe as doenças que permeiam aquelas vielas?
– A senhora sua mãe tem razão — disse docemente Jon. -No entanto — dirigiu-se a Lysa — leve-o para um passeio hoje. O menino precisa de um pouco de sol e ar fresco.
– O farei — respondeu Lysa, embora tivesse outros planos.
Após tomar seu habitual caneco de hipocraz — ele bebia um antes de dormir e outro ao acordar — , Jon partiu e Lysa pôs-se a pensar no sonho que tivera: ela, Catelyn e Petyr, quando jovens, em Correrio. Brincavam à beira do Tridente, como de costume, quando ela flagrou Petyr e Cat de mãos dadas. Ao perceber seu olhar de reprovação, Petyr a empurrou no rio, e ela afundou como uma pedra. Enquanto caía lentamente para o fundo, lágrimas misturando-se com a água do rio, conseguia ver os dois na margem, ainda de mãos dadas, encarando-a. Foi só um sonho bobo– pensou, lutando para afastar a sensação ruim.
Saíram para o desjejum na sala de audiências da Torre. A mesa estava posta, mais pomposa do que de costume, e a serviçal dirigiu-se a ela:
– Tem visita, milady.
Naqueles tempos de tensão, a notícia causou uma ligeira aceleração em seu coração. Abriu a boca para questionar, mas antes de dizer qualquer coisa, a porta dupla se abriu. A rainha adentrou, a boca fechada curvada num malicioso sorriso disfarçado de cortesia. Lysa não pôde deixar de notar sor Jaime Lannister e sor Arys Oakheart, que ficaram de guarda atrás da porta.
– Vossa Graça! — Lysa tentou fingir entusiasmo.
– Lysa. Suponho que lhe agradaria quebrar o jejum em companhia real! — Disse Cersei, já puxando uma cadeira e sentando-se.
– Certamente, Vossa Graça — respondeu suavemente. O que essa cadela está pensando? Não quero sua companhia, volte por onde entrou!– imaginou-se dizendo.
Em vez disso, falou, sentando-se:
– No entanto, se é a Mão do Rei que procura, ele já saiu há algum tempo. Lamento.
– Já estou sabendo, querida. Seu marido tem andado muito ocupado. Percorrer bordéis deve exigir muita energia, especialmente para um senhor da idade dele — disse a rainha, num tom de voz mais doce que o doce dos venenos.
O cândido sorriso nos lábios de Lysa desapareceu. Sentiu lágrimas quentes de ódio quase brotarem no canto de seus olhos.
– Vossa Graça, não saberia dizer sobre esses assuntos de meu marido. Sua puta.– Sugiro que pergunte a ele pessoalmente — respondeu.
Cersei lutou contra um sorriso mais largo, e fincou seus olhos verdes fundo em Lysa:
– Entendo. No entanto, gostaria de dizer-lhe que não me agrada que lorde Arryn esteja apadrinhando os bastardos de meu marido. Diga-lhe que volte a se ocupar com os assuntos de Mão, que não são poucos. Transmita a seu marido minhas palavras — disse Cersei.
– O farei, Vossa Graça — respondeu Lysa. Gostaria de ver esse sorriso petulante quando seu segredinho for revelado– pensou, enquanto a rainha saía, sem tocar em nada da refeição.
Ao voltar para o quarto, Lysa encontrou debaixo do travesseiro — como já imaginava — um bilhete, deixado por algum serviçal:
"O Septo estará livre esta tarde, como a senhora prefere. Pode rezar aos Sete pela saúde de seu filho no meio da tarde."
Lysa aguardava um contato dele há semanas. Enfim, chegava a hora de econtrar-se novamente com seu Petyr. Seus lábios curvaram-se em um suave sorriso de satisfação e um brilho radiante despontou em seus olhos. Meu Petyr... pequeno apenas no apelido – pensou. Estremeceu, ao lembrar da última vez em que estiveram a sós. Sentiu suas partes femininas umedecerem. Lembrou-se de suas palavras:
– Quando puder ter tudo e ainda mais, querida. Então sim poderemos ficar juntos, mas não antes. Primeiro, tenho grandes planos.
Debruçada sobre a janela, Lysa observou por uns instantes o horizonte. O sol já levantava-se alto, semioculto pela Torre da Espada Branca. Recordou-se de repente que lorde Varys chegou a sugerir que seu marido usasse um provador. O ar puro da manhã gradualmente dava lugar ao odor de fumaça e esgoto habituais que, vez ou outra era afastado pela brisa marinha. Esse é o verdadeiro cheiro da cidade. Uma grande latrina fervilhando de vermes– pensou.
À tarde, encarregou uma serviçal qualquer de levar Robert para passear. Estava pronta para sair quando bateram à porta: era o Grande Meistre Pycelle.
– Minha senhora, trouxe o livro que a Mão pediu. O livro era imenso: "As linhagens e histórias das Grandes Casas dos Sete Reinos, de Grande Meistre Malleon". Lysa o pegou sem dizer nada e deixou-o encima de um móvel.
– Com sua licensa, senhora — disse o velho, fazendo uma mesura e desaparecendo tão rápido quanto surgiu.
O pátio interno da Fortaleza Vermelha estava com o movimento habitual. Sor Meryn Trant e sor Barristan Selmy ocupavam-se com algum evento que não interessava a ela. Passou por lorde Renly, que a cumprimentou com um certo ar curioso. Estão todos com as atenções sobre Jon– pensou. Lysa foi ao septo realmente, mas apenas para mascarar seu verdadeiro rumo. Depois, adentrou no jardim real, que estava pouco movimentado esta tarde — o que Lysa julgou muito apropriado para não ser obra de Petyr. Displicentemente, chegou ao local de sempre, enfiou-se no meio de um muro de arbustos, e ali ficou esperando por seu amante. O tempo passou e passou, e Lysa viu-se desesperada de ansiedade, suando no calor infernal do verão em Porto Real.
Certo momento, em outro local do jardim, bem próximo a seu local secreto, alguém aproximou-se. A princípio, pensou ser ele, e quase saiu dos arbustos, mas percebeu que eram duas vozes, então permaneceu escondida, pondo-se a ouvir — involuntariamente — a conversa sussurrada.
–Quase desisti de encontrá-lo, velho amigo. Sabe que não posso ficar muito tempo por aqui. Por quê demorou tanto a me encontrar? Quase desperdiçamos essa viagem. — A voz era calma, apesar do tom exigente, e Lysa percebeu um certo sotaque Tyroshi.
– Paciência, velho amigo. — Respondeu a outra voz, estranhamente familiar a Lysa, mas impossível de identificar. -Sabe que o sucesso de nossos planos repousa no segredo. Como estão nossos pequenos?
– Os dois dragões estão prestes a mudar de direção. Casarei Daenerys com Khal Drogo dos Dothraki. Assim, ganhamos um exército respeitável para nossa causa, e ainda nos livramos de Viserys — respondeu a voz com sotaque.
Um inseto picou o pescoço de Lysa, e uma ardência queimante logo deu lugar a uma coceira insuportável. Não queria saber daquela conversa idiota, queria que fossem embora logo, para não atrapalhar o momento com seu Petyr.
– Excelente — respondeu a voz familiar. Quando nosso dragão negro emergir, não vamos querer outro pretendente, e precisaremos de todo o apoio militar com o qual pudermos contar. As coisas por aqui estão perigosas. Não sei por quanto tempo mais a paz vai durar, mas ainda tenho as coisas sob controle.
–Bom — disse o outro. Precisamos agir no momento certo. Enviarei mais 50 passarinhos, todos bem jovens, como prefere, e trouxe uma boa quantia em dinheiro também. Trabalhe em sua teia, como sabe muito bem fazer, amigo.
– Espere... shhhh! — interrompeu a voz familiar. — Parece que alguém está vindo. Encerremos nossa conversa aqui.
Os dois então saíram e Lysa pode espiar, avistando um deles, imensamente gordo, mas parecendo flutuar sobre os pés. Finalmente saiu dos arbustos para seu local secreto, podendo respirar melhor. Mais um minuto ali e ela saltaria pra fora, enxotando os dois idiotas. O calor e a coceira a deixaram levemente indisposta, sem ar e tonta.
Após mais uma hora, ele finalmente veio, disfarçado com trajes simples, rosto encoberto por um capuz.
– Petyr! — sussurrou Lysa, quase chorando. Ambos entraram no muro de arbutos. — Já estava desesperada! Achei que não viria mais...
– Sabe que é difícil conseguir um encontro a sós, querida Lysa. Um pequeno deslize poderia por tudo a perder. Como estão as investigações da mão?
– Ele já tem certeza, apenas quer mais provas — disse Lysa. — Stannis o tem visitado mais frequentemente, assim como lorde Varys. Pycelle já trouxe o livro, como você disse que aconteceria. Essa noite mesmo, ele lerá e terá a confirmação de que precisa sobre a cadela Lannister. Ela veio me ameaçar esta manhã, Petyr, ela deve saber das suspeitas.
– O momento é perfeito! Precisa tomar muito cuidado com a Aranha. Cersei saiu de viagem hoje, não podemos errar agora, hoje mesmo fará aquilo. Essa noite, encontrará um pequeno frasco com lágrimas de Lys debaixo da cama. Já sabe como agir.
– Farei tudo o que você quiser, e ainda mais, meu amor. Agora está perto, não é? O dia em que seremos um do outro para sempre?
– Sim, meu amor. Faça como eu disse e será possível. Dentro de alguns dias, partirá para o Ninho da Águia e enviará uma carta para Winterfell. Preciso ir agora. — disse Lorde Baelish, tocando firmemente suas partes femininas. Lysa arrepiou-se e sentiu que poderia desmaiar ali mesmo.
Naquela noite, Jon Arryn bebeu seu hipocraz antes de deitar, como de costume. Na madrugada, quando começou a gemer, Lysa demorou muito a pedir ajuda.
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