Paixão De Uma Meia Viagem
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Dia de chuva na cidade grande do Rio de Janeiro, saio (dez minutos antes da social) da querida Zona Sul para as profundezas da Zona Oeste carioca. O ônibus não demora para passar, porém está lotado, o horário é péssimo, os heróis brasileiros do salário mínimo voltando para casa depois da jornada de trabalho, indo para bairros que meus amigos Classe Média Alta usam para fazer sátiras de pobreza entre outras brincadeiras. Se o meu horário não estivesse bem apertado, estaria apreciando aquele momento, pessoas entre trinta e cinquenta anos, conversando com erros gramaticais, sobre a família, igreja, chefe, vizinha entre outras coisas do dia-a-dia.
Já entrando na Lagoa-Barra, me despido de vez da Zona Sul e imagino como o mundo seria um lugar melhor se os ônibus voassem. — Mas as coisas estavam para melhorar (ou não). Um homem sentado, aparentemente voltando do trabalho também, me chama atenção. Ele é diferente, que se abra um espaço para o meu preconceito já estigmatizado, cabelos castanhos claros, barba por fazer, camisa de botão e gravata folgada. O melhor, posso jurar (até agora, já sem a ereção) que nossos olhares se encontraram na primeira vez que o vi.
Será que ele me achou bonito?! Poxa, eu estou tão bem arrumado, queria que ele reparasse em mim, mas apesar de todas as minhas investidas, nossos olhares não se encontram de jeito nenhum. Seus olhos estão profundos e cansados, algo que, sabe-se lá por quê, o deixa ainda mais atraente.
O ônibus agora para num ponto movimentado, aproveito para chegar mais perto, quem sabe quando ele sentir meu perfume não fica curioso para saber quem é, tenho a impressão que nossos olhares se encontram de novo, foi perfeito, mas infelizmente muito rápido. O ônibus continua andando, olho e desvio o olhar dele o tempo todo. Estou com raiva, porque tenho absoluta certeza que enquanto eu olho para o nada tentando disfarçar, ele se põe a me admirar.
Nos pontos movimentados, evito que as pessoas me encostassem, minha ereção que ia e vinha com certeza acabaria me constrangendo com algum estranho por ai. Em tal ponto, já estou arrependido de não ter tocado uma antes de sair de casa, talvez desse jeito eu poderia ter uma viagem mais normal...
Paro um pouco de tentar chamar sua atenção. Faço como quem não se importa, mas não aguento, me lembrar daquele com cara com seus... sei lá, trinta anos? Aquela barba que eu imaginava me arranhando num beijo caloroso, se ele fumasse, melhor ainda, amo beijar homens fumantes. Seus ombros largos para eu passar a mão, sobre e sob o tecido da camisa de botão, para que eu pudesse sentir seu toque. Ele não tinha músculos muito avantajados, o que nos deixaria mais de igual para igual no meio de um amasso, enfim, me parecia o cara ideal para... bem, tudo.
Nossos olhares se encontram pela talvez terceira e infelizmente ultima vez, pela janela, agora ele parece mais intrigado. Quem sabe se a viagem ao invés de pra Barra da Tijuca, fosse pra Belo Horizonte, a gente se conhecia na parada?!
Desço no meu ponto, com a iludida impressão que rolou uma puta química. Mas agora, minha cabeça já está se concentrando numa boa desculpa para o atraso e uma hora e vinte e três minutos.
Notas finais
Se vocês leram até o final, parabéns, aqui está o seu balão imaginário!
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