Pais por acaso

40 Renesmee- Ciúmes


Os últimos dias foram um turbilhão de emoções que eu mal conseguia processar. A festa de inauguração deveria ter sido um momento especial, mas se tornou o palco para uma das revelações mais constrangedoras da minha vida. Elizabeth, com sua língua afiada e um prazer quase sádico, expôs minha gravidez para todos, deixando meu pai furioso e me sentindo pequena diante de seus olhos.

Edward não era o mesmo desde aquele dia. Embora sua postura fosse educada, seus olhares e suspiros diziam tudo. Ele estava longe de aceitar que seu melhor amigo estava prestes a se tornar pai de seu neto. Não importava o quanto Jacob tentasse tranquilizá-lo ou o quanto eu insistisse que nossa relação era baseada em amor e respeito; para ele, parecia que eu havia cometido um erro irreparável.

E como se isso não fosse o suficiente, Elizabeth ainda estava morando na nossa casa, como uma sombra constante, me lembrando do que aconteceu naquela noite. Sua presença era sufocante, e cada interação com ela parecia carregada de uma tensão que eu não conseguia explicar.

Hoje, ao cruzar o corredor, finalmente a encontrei sozinha na sala de leitura. Ela estava sentada em uma poltrona, folheando um livro, aparentemente tranquila. Minha respiração acelerou, mas sabia que precisava enfrentá-la.

— Posso falar com você? — perguntei, minha voz mais firme do que me sentia.

Ela ergueu os olhos, claramente surpresa.

— Claro, Renesmee.

Entrei na sala, fechando a porta atrás de mim. Cruzei os braços, tentando manter a calma.

— Por que você me odeia tanto? — perguntei diretamente, sem rodeios.

Elizabeth franziu o cenho, mas havia algo nos olhos dela — um brilho de algo que eu não conseguia identificar.

— Eu não te odeio, Nessie — respondeu, sua voz baixa, quase cansada. — Mas odeio essa situação.

— Que situação? — insisti.

Ela suspirou, fechando o livro e pousando-o no colo.

— Jacob assumindo essa paternidade como se fosse o melhor homem do mundo. Ele nunca quis responsabilidades antes, mas agora... agora, de repente, está pronto para ser pai.

Suas palavras me atingiram como uma onda fria.

— O que você quer dizer com isso? — perguntei, confusa. — Por que fala com tanta certeza?

Elizabeth hesitou por um momento, como se tivesse dito mais do que pretendia. Mas logo recobrou sua postura.

— Você é jovem, Nessie. Talvez não entenda. Jacob tem um histórico... ele nunca foi confiável, sempre fugindo de compromissos. E, honestamente, não sei se ele realmente mudou.

Minha garganta apertou, mas não de tristeza — de raiva.

— Você não conhece o Jacob que eu conheço. Ele não é perfeito, mas é um homem bom. Ele me ama e ama nosso filho.

Elizabeth se levantou, segurando o livro como um escudo.

— Talvez você esteja certa. Talvez ele tenha mudado. Mas, de onde estou, tudo isso parece mais um jogo.

Ela saiu da sala antes que eu pudesse responder, me deixando sozinha com uma mistura de dúvidas e certezas que se chocavam como uma tempestade dentro de mim. Por que ela falava como se soubesse mais do que eu? E, mais importante, o que exatamente ela estava insinuando?

Entrei no meu quarto e fechei a porta com força suficiente para expressar a irritação que eu sentia. A conversa com Elizabeth ainda ecoava na minha cabeça, mas decidi me ocupar organizando as caixas para minha mudança. Tudo parecia mais fácil de lidar quando minhas mãos estavam ocupadas.

Estava dobrando algumas roupas quando ouvi uma batida suave na porta. Antes que pudesse responder, Edward entrou. Ele estava com a expressão séria, as mãos nos bolsos, como fazia sempre que estava tentando encontrar as palavras certas.

— Posso falar com você? — ele perguntou, hesitante.

— Claro, pai — respondi, me sentando na beira da cama.

Ele fechou a porta atrás de si e se aproximou, parando ao lado da janela. Ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para fora, como se estivesse organizando os pensamentos.

— Eu ainda não entendo, Nessie — começou, finalmente. — Você recusou o pedido de casamento de Jacob, mas está arrumando suas coisas para ir morar com ele.

Suspirei, já esperando essa conversa.

— Pai, isso não tem nada a ver com não amar o Jacob. Eu amo, mais do que você pode imaginar. Mas casar agora... é um passo muito grande. Quero ter certeza de que estamos prontos para isso, principalmente com um bebê a caminho.

— E morar com ele não é um passo grande? — ele rebateu, sua voz mais firme.

Olhei diretamente para ele.l

— É diferente. É o que faz sentido para nós agora. Não quero criar o meu filho aqui, com Elizabeth me olhando como se eu fosse um erro ambulante.

Edward franziu o cenho, claramente surpreso.

— Elizabeth? O que ela tem a ver com isso?

Suspirei, me levantando e cruzando os braços.

— Ela me expôs naquela festa. E hoje, disse coisas sobre o Jacob, como se ele fosse o pior homem do mundo. Eu sei que você não está feliz com a minha situação, mas pelo menos você nunca tentou me humilhar ou me fazer sentir culpada por minhas escolhas. Ela faz isso o tempo todo, com insinuações e olhares.

Edward passou a mão pelos cabelos, visivelmente desconfortável.

— Vou conversar com Elizabeth.

— Não vai adiantar, pai. Ela está claramente determinada a me fazer sentir mal. É por isso que preciso sair daqui. Não é apenas por Jacob. É pelo meu próprio bem e pelo do meu filho.

Ele me olhou por um longo momento, como se estivesse processando o que eu disse. Finalmente, suspirou e balançou a cabeça.

— Eu só quero que você seja feliz, Nessie.

— Eu sei, pai. E eu quero o mesmo para você.

Ele deu um pequeno sorriso, mas seus olhos ainda estavam carregados de preocupação.

— Se precisar de alguma coisa, estarei aqui.

Assenti, sentindo um nó na garganta.

— Eu sei. Obrigada.

Edward se aproximou e me puxou para um abraço. Por um momento, foi como se nada tivesse mudado, como se eu ainda fosse a menininha que ele sempre tentou proteger. E, de certa forma, acho que sempre serei.

...

Deixei as últimas caixas no apartamento de Jacob com a ajuda da minha mãe. Ele havia me dado uma chave no dia anterior, insistindo que eu deveria me sentir à vontade para entrar e sair quando quisesse. O gesto havia sido doce, mas agora, com a mudança oficialmente em andamento, tudo parecia mais real e um pouco assustador.

— Bem, isso foi mais fácil do que eu esperava — disse Bella, limpando as mãos após posicionar uma das caixas no canto da sala. — Você está pronta?

Assenti, tentando esconder o nervosismo.

— Pronta.

Pegamos o carro e seguimos em direção ao hospital no Pike Street. Bella dirigia tranquila, enquanto eu observava a cidade passar pela janela. Uma mistura de empolgação e ansiedade tomava conta de mim.

Quando chegamos, Bella estacionou na entrada principal e se virou para mim com um sorriso encorajador.

— Boa sorte, Nessie. Tenho certeza de que você vai se sair bem.

— Obrigada, mãe. — Inclinei-me e a abracei.

Saí do carro e entrei no hospital, um prédio moderno com uma fachada de vidro reluzente. Assim que passei pelas portas automáticas, fui recebida por um saguão amplo e bem iluminado. O piso era de mármore branco impecável, refletindo a luz suave que vinha dos lustres minimalistas no teto. À esquerda, havia uma cafeteria movimentada, onde médicos e enfermeiros faziam fila para pegar café. À direita, um balcão de informações com recepcionistas impecavelmente vestidos.

Dirigi-me ao balcão, respirando fundo para conter a ansiedade.

— Bom dia. Sou Renesmee Cullen. Vim falar com o doutor Black.

A recepcionista, uma mulher simpática de cabelos castanhos presos em um coque, me lançou um sorriso profissional.

— Doutor Black mencionou que você viria. Aqui está seu crachá temporário. — Ela me entregou o crachá com meu nome. — Ele está na ala administrativa, no terceiro andar. É só seguir as placas.

Agradeci e prendi o crachá na minha roupa antes de seguir em direção ao elevador. Conforme caminhava pelos corredores, não conseguia deixar de admirar o ambiente. As paredes eram decoradas com obras de arte abstratas em tons suaves, e havia plantas ornamentais estrategicamente posicionadas, trazendo vida ao lugar. O hospital era o retrato da sofisticação e organização.

No terceiro andar, saí do elevador e segui as placas que indicavam "Ala Administrativa". No final do corredor, havia uma grande janela que deixava entrar a luz natural, iluminando ainda mais o ambiente moderno. Ao virar uma esquina, meus passos desaceleraram.

Jacob estava de pé próximo a uma mesa, conversando com uma mulher loira e incrivelmente bonita. Ela usava um jaleco impecável e parecia tão confiante quanto carismática. Ambos riam de algo, suas posturas descontraídas e familiaridade evidente.

Meu coração apertou, e uma onda inesperada de ciúme me atingiu. Era como se o ar tivesse ficado mais pesado, e minhas mãos começaram a suar. Tentei me convencer de que não era nada, que Jacob era apenas amigável e que aquela mulher provavelmente era uma colega.

Ainda assim, não consegui evitar a expressão de desagrado que cruzou meu rosto. Fiquei parada por um momento, me perguntando se deveria interromper ou esperar até que terminassem a conversa.

Caminhei na direção deles, tentando parecer confiante, mesmo que por dentro eu estivesse lutando contra uma onda de insegurança. Quando Jacob finalmente me notou, seu rosto se iluminou com um sorriso largo que fez meu coração dar um salto.

— Meu amor! — Ele disse, vindo até mim e segurando minha mão.

A naturalidade com que ele usou aquelas palavras me surpreendeu. Jacob nunca fora tímido em demonstrar afeto, mas chamá-la assim, diante de outra pessoa, foi inesperado.

— Achei que você não fosse chegar tão cedo — ele continuou, inclinando-se e me dando um beijo rápido na testa antes de se virar para a mulher ao seu lado. — Gabriela, essa é Renesmee Cullen, minha noiva.

A mulher loira sorriu, parecendo genuinamente amigável.

— É um prazer finalmente conhecê-la, Renesmee. Sou a doutora Gabriela Hale. Jake fala muito sobre você.

— O prazer é meu, doutora Hale. — Respondi, tentando soar cordial, mesmo ainda sentindo aquele resquício de ciúme.

— Por favor, me chame de Gabriela. — Ela sorriu novamente antes de olhar para Jacob. — Tenho que voltar para a emergência. Nos falamos mais tarde, doutor Black.

Jacob assentiu, e Gabriela saiu pelo corredor com passos firmes, deixando-me a sós com ele.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Jacob puxou minha mão novamente, fazendo-me dar um passo mais próximo.

— Eu sabia que você ia me fazer parecer ainda melhor hoje — ele disse, olhando para mim com aquele sorriso que fazia meu coração derreter.

— Ah, é? — Respondi, tentando manter o tom leve.

Ele não respondeu, inclinando-se e me beijando, suas mãos firmes segurando minha cintura com carinho. Seus lábios encontraram os meus com uma mistura de urgência e ternura, como se ele quisesse me lembrar que, independentemente de qualquer insegurança, eu era a única coisa que importava para ele.

Quando o beijo terminou, ele encostou a testa na minha e sussurrou:

— Você não sabe o quanto é bom te ver aqui.

Dei um tímido sorriso e desviei os olhos dos dele.

Jacob inclinou a cabeça, me observando com aquele olhar atento que sempre me desarmava. Ele parecia perceber imediatamente que algo não estava certo.

— Está tudo bem? — perguntou, segurando minhas mãos com firmeza.

Eu hesitei, mordendo o lábio. Não queria parecer infantil, mas o desconforto estava ali, latente.

— Sim... — comecei, mas desisti da mentira ao ver sua expressão cética. — Na verdade, não.

— Fale comigo, Nessie. — Sua voz era suave, sem nenhuma sombra de impaciência.

Respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos.

— É sobre a Gabriela. — Admiti, evitando seu olhar. — Ela é... tão bonita. Tão experiente. Ela parece se dar tão bem com você, e... eu...

Ele não me deixou terminar. Puxou-me para mais perto, suas mãos quentes apertando as minhas com firmeza.

— Nessie, pare. — Sua voz era firme, mas ainda carinhosa. — Gabriela é minha colega de trabalho. E, sim, ela é uma excelente médica, mas é só isso. Não há mais nada ali.

— Mas vocês pareciam tão próximos... — murmurei, sentindo o rosto queimar.

Jacob soltou um suspiro e levantou meu queixo delicadamente, forçando-me a olhar em seus olhos.

— Eu entendo de onde vem isso, mas você não tem motivo algum para se sentir assim. — Ele sorriu, aquele sorriso que parecia acalmar todas as minhas preocupações. — Gabriela é uma amiga, alguém que respeito muito como profissional. Mas você, Renesmee, é a mulher que eu amo, a mãe do meu filho.

Eu me senti derreter com suas palavras, mas ainda havia um resquício de insegurança.

— É que ela é tão... impressionante. Eu sou nova nisso tudo. E ela parece saber exatamente como lidar com você e...

— E ela nunca poderia ser você. — Ele me interrompeu, a intensidade em sua voz me pegando de surpresa. — Nessie, você é única. Você me conhece como ninguém. Você me desafia, me faz querer ser melhor. Eu quero passar a minha vida ao seu lado, não ao lado de ninguém mais.

Meu coração disparou, e senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Ele a enxugou rapidamente com o polegar.

— Eu sou todo seu, Nessie. Sempre fui e sempre serei. Não importa quem esteja por perto.

Eu suspirei, finalmente permitindo que o alívio tomasse conta de mim.

— Eu sinto muito. Eu não queria parecer ciumenta ou insegura...boba...infantil...

— Está tudo bem sentir isso, meu amor. — Ele sorriu e beijou minha testa. — Mas sempre que sentir, me diga. Eu quero que você saiba, todos os dias, que você é o amor da minha vida.

— Eu te amo, Jake.

— E eu amo você. Mais do que qualquer coisa.

Ele me puxou para seus braços novamente, e por um momento, todo o resto desapareceu.