Pais por acaso
77 Jacob - Consequências
Antes de sair de casa, fiz o que precisava ser feito. Liguei para Bella e pedi que viesse para o apartamento. Disse apenas que precisava sair por algumas horas e que não queria deixar Renesmee sozinha — principalmente depois da noite difícil que ela teve. Bella entendeu de imediato.
Preparei o café enquanto Joseph arrumava a mochila da escola, o semblante ainda meio sonolento. Servi a mesa e me sentei com ele, tentando passar alguma normalidade para o garoto, mesmo com a cabeça a mil.
— Vai dar tudo certo, pai? — Ele perguntou de repente, me olhando com aqueles olhos castanhos iguais aos meus.
— Vai, filho. Prometo.
Ele assentiu e voltou a comer. Pouco depois, me despedi dele com um beijo no topo da cabeça, peguei minha pasta e segui para o hospital.
Carlisle e Edward já estavam à minha espera na sala de reuniões do setor administrativo. Assim que entrei, senti o ar pesado. Os dois estavam de pé, sérios, e cumprimentaram-me com um aceno contido.
Logo o chefe do RH geral dos hospitais Cullen, o senhor Adriano Lopes, entrou na sala com um tablet em mãos e expressão tensa. Era um homem grisalho, meticuloso, que não costumava se abalar com qualquer coisa.
— Bom dia, senhores — disse ele. — Fizemos a busca no sistema como solicitado. O número foi vinculado ao cadastro de uma funcionária do setor de limpeza, contratada há três meses para o novo hospital.
— Quem é? — Perguntei, com a voz tensa.
— O nome dela é Márcia Duarte. Trabalha no turno da manhã, setor de internação e maternidade.
Meu sangue ferveu. Maternidade. Justo o setor onde Nessie ficou internada.
— Márcia… Duarte — repeti com os punhos cerrados. — Ela tem acesso ao sistema de câmeras?
— Não, oficialmente não. Mas o setor de TI está checando se houve algum acesso irregular nos últimos dias. Pode ter recebido imagens por terceiros também — explicou Adriano.
Edward respirou fundo e disse, com o tom firme:
— Quero que ela seja chamada aqui. Agora. Precisamos conversar com ela imediatamente.
Adriano assentiu.
— Vou providenciar isso. Só peço que mantenham a calma… se a situação for mais séria do que parece, será preciso envolver a direção jurídica.
— Envolva quem for necessário — retruquei, olhando firme. — Mas traga essa mulher aqui. Agora.
Adriano saiu da sala com passos rápidos, e o silêncio que ficou foi denso. Eu cruzei os braços, os olhos fixos na porta.
Eu queria respostas. E se Márcia realmente estivesse envolvida com quem quer que tivesse mandado aquela imagem para Nessie... ela ia ter que falar.
Esperei de pé, os braços cruzados e o maxilar travado. A tensão naquela sala era densa como fumaça. Edward caminhava de um lado para o outro, e Carlisle mantinha-se impassível, sentado à cabeceira da mesa. A porta se abriu e Adriano entrou com uma mulher de estatura baixa, pele morena e cabelos presos em um coque apressado.
Márcia Duarte. A mulher que enviou aquela maldita imagem para Renesmee.
Ela olhou ao redor, visivelmente desconfortável. Cumprimentou com um aceno quase imperceptível e ficou de pé, de frente para nós, tentando manter uma pose de inocência mal disfarçada.
Carlisle foi direto.
— Senhora Duarte, sabe por que foi chamada aqui?
— Não, senhor... Eu não faço ideia — respondeu ela, fingindo surpresa.
— Temos acesso ao número que enviou mensagens com conteúdo malicioso para a minha neta. Ele pertence ao seu cadastro no sistema. Gostaríamos que nos explicasse isso — Carlisle disse, calmo, mas com uma firmeza cortante.
Márcia engoliu em seco.
— Deve haver algum engano... Eu não uso meu celular pra esse tipo de coisa. Deve ser outra pessoa.
Edward se aproximou, os olhos fixos nela.
— Márcia, poupe nosso tempo. Nós já sabemos que foi do seu celular. Se continuar mentindo, isso vai se tornar um problema muito maior. Você está ciente de que manipular informações médicas e expor a vida pessoal de pacientes é crime, não está?
Ela hesitou. Começou a se remexer, os dedos das mãos tremendo ligeiramente.
— Olha... eu só... eu precisava do dinheiro, tá? — finalmente disse, quase num sussurro.
— Que dinheiro? — Rosnei, dando um passo à frente. — Quem te pagou, Márcia?
Ela abaixou a cabeça. Respirou fundo. E então soltou:
— Foi a enfermeira chefe, Elizabeth Cullen.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu senti meu sangue ferver. As palavras dela ecoaram na minha mente como um trovão.
— Ela me ofereceu dinheiro... para ficar de olho na sua esposa, senhor Black. E me mandou uma foto de vocês dois na lanchonete... mandou que eu enviasse para ela de um número diferente. Disse que era para mostrar a sobrinha que o doutor Black estava a enganando com a doutora Rodrigues.
— Você... — comecei sentindo a raiva tomar conta. — Você não tinha o direito! Elizabeth manipulou você, e você aceitou? Mandou uma imagem da mãe da minha filha recém-nascida... quando ela ainda estava fragilizada! Como você consegue dormir?
Márcia abaixou o rosto, agora pálida.
— Eu preciso do trabalho... Eu me arrependi, mas já era tarde...
Edward se virou para o pai, com os olhos apertados de fúria contida.
— Isso é inaceitável. Elizabeth colocou a segurança emocional da Nessie em risco. Isso não é só antiético, é cruel. Eu exijo que ela seja demitida. Agora.
Carlisle respirou fundo, se levantando.
— Eu sabia que havia algo errado... Jacob me alertou sobre Elizabeth. E você está certo, Edward. Isso ultrapassa qualquer limite.
Ele olhou para mim com seriedade.
— Hoje à noite, haverá uma reunião da família Cullen. Eu quero você lá, Jacob. Isso diz respeito a todos nós.
Assenti com um leve movimento de cabeça, tentando conter a raiva que fervia por dentro.
Eu só conseguia pensar em Renesmee… tão frágil, tão vulnerável… e na traição que veio de dentro da própria família dela.
Elizabeth ia ter que responder por isso.
O almoço foi leve, mas o clima ainda parecia carregado. Nessie tentava sorrir, mas eu via nos olhos dela que ainda se sentia abalada. Apesar de tudo, ela estava se esforçando — por mim, por Serena, por nós.
— Você vai sair? — Ela perguntou, ao me ver colocando os tênis.
Parei, me aproximei e acariciei seu rosto com carinho.
— Problemas no hospital — murmurei, escolhendo bem as palavras. — Daqueles que só o diretor pode resolver.
Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— Tem certeza que não é comigo? Que não é pelo que aconteceu ontem?
— Amor... — me abaixei até que nossos olhos estivessem no mesmo nível. — Nada disso é culpa sua. E eu prometo que quando voltar, a gente vai conversar com calma, tá?
Nesse momento, a porta se abriu e Seth entrou com aquele jeito sorridente de sempre.
— Olha só quem está acordada! — Ele disse ao ver Serena no carrinho, e foi logo pegando a pequena no colo. — A cara do pai… mas com o charme da mãe, felizmente.
— Fala isso só porque você quer segurar ela primeiro, né? — Joseph apareceu rindo e veio até a irmãzinha, fazendo carinho na barriguinha dela.
Aproveitei o momento.
— Seth, Joseph… preciso de vocês dois aqui. Fiquem com a Renesmee e com a Serena até eu voltar. Pode ser?
— Pode deixar, paizão — Joseph respondeu, firme.
— Claro — Seth completou. — Vamos cuidar bem das meninas.
Me virei para Nessie, a puxei delicadamente para um beijo demorado, como se pudesse nela deixar parte do que meu coração estava prestes a enfrentar.
— Eu te amo — sussurrei.
— Também te amo — ela respondeu, baixinho.
Saí com o peito pesado, mas a decisão estava tomada. Eu não podia deixar aquilo impune. Ninguém mais ia machucar a minha família.
***
Cheguei à mansão Cullen com o céu já tingido de tons alaranjados do fim de tarde. O portão já estava aberto — Carlisle me esperava. Assim que entrei na sala, senti a tensão pulsando no ar. A família toda estava reunida.
Alice estava ao lado de Jasper, a expressão séria. Emmett segurava Rosalie pela mão, e Esme se mantinha entre Carlisle e Edward, com as mãos cruzadas, ansiosa. Bella andava de um lado pro outro como uma leoa prestes a atacar.
— Ela está vindo? — Perguntei direto para Carlisle.
— Liguei há dez minutos. Disse que está a caminho — ele respondeu. — E vai ter que responder por tudo.
Bella bufou, os olhos faiscando.
— Se essa mulher abrir a boca para negar, Jacob, eu juro por tudo que é sagrado, eu vou esquecer que sou mãe e senhora. Eu vou...
— Bella — Edward a interrompeu com uma mão no ombro — a gente vai resolver isso do jeito certo.
Ela se virou de supetão, os olhos furiosos.
— Do jeito certo? Edward, a nossa filha quase teve um colapso nervoso! Ela está em recuperação pós-parto! E por causa de uma brincadeirinha de uma mulher que age como uma adolescente mimada que não suporta ver outra pessoa feliz? Se ninguém fizer nada, eu faço!
Suspirei fundo, me encostando na parede. Eu entendia Bella. Talvez melhor do que qualquer um naquela sala. Mas o que vinha agora… precisava ser frio. Justo. Definitivo.
Elizabeth ia ter que olhar todos nós nos olhos. E lidar com as consequências das próprias escolhas.
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