Terminei de revisar os últimos prontuários e fechei o computador com um suspiro cansado. Meu plantão tinha acabado e, como de costume, encontrei a doutora Miller no corredor. Ela sempre parecia incansável, mesmo depois de longas horas de cirurgia.

— Doutora Miller — sorri para ela enquanto caminhávamos pelos corredores brancos do hospital —, acho que essa será nossa última conversa como colega de plantão.

Ela arqueou uma sobrancelha e riu baixinho.

— Parece que sim, Renesmee. Vai fazer falta por aqui.

— Você também vai fazer falta. — Confessei, sentindo um aperto no peito. — Vou sentir saudades das suas broncas. Aprendi tanto com você.

Ela me lançou um olhar caloroso, algo raro vindo dela.

— Você tem talento, Renesmee. Seu próximo chefe vai perceber isso, assim como eu percebi. Não deixe ninguém te subestimar.

Senti meu coração se aquecer com as palavras dela. Nunca pensei que ouviria algo assim da doutora Miller. Ela sempre foi exigente, e era difícil arrancar elogios dela.

— Obrigada, doutora. Significa muito ouvir isso de você. — Sorri. — E boa sorte nos seus novos desafios também.

— Vou precisar. — Ela sorriu, um pouco melancólica. — Nos vemos por aí, Cullen.

Quando chegamos ao elevador, trocamos um último aperto de mãos antes de ela entrar e acenar uma despedida. Segui para a sala dos médicos, ainda refletindo sobre nossas palavras. Ao abrir a porta, porém, a visão que tive me atingiu como um soco no estômago.

Seth. Meu namorado, Seth. E... Jane?

Eles estavam se beijando. Ali. Na frente de todos. Minha melhor amiga, Jane, estava nos braços dele, completamente envolvida. Meu coração parou por um segundo antes de explodir em fúria.

— O que está acontecendo aqui?! — gritei, minha voz reverberando pela sala.

Seth se separou de Jane num salto, os olhos arregalados de culpa, enquanto Jane evitava meu olhar.

— Nessie, eu posso explicar... — Seth começou, mas eu já estava cega de raiva.

— Explicar?! — Minha voz tremeu. — Eu não acredito que você faria isso! E com ela, minha melhor amiga?

Jane abriu a boca para falar, mas levantei a mão.

— Não. Nem tenta, Jane.

Meu corpo se movia sozinho, tomado pela adrenalina e pela traição. Antes que eu percebesse, minha mão atingiu o rosto de Seth com força, o som do tapa ecoando na sala.

— Eu não quero ouvir mais nada de você, Seth. Acabou.

Me virei para sair antes que as lágrimas caíssem, deixando os dois atordoados e, espero, arrependidos.

Eu saí da sala dos médicos ainda tremendo de raiva. Fui direto para o vestiário, abri meu armário com pressa e joguei minhas coisas dentro da bolsa. Troquei de roupa quase mecanicamente, tentando evitar que as lágrimas caíssem, mas elas já estavam me cegando. Peguei a bolsa e saí apressada, determinada a deixar aquele pesadelo para trás.

Foi então que Jane apareceu, bloqueando minha passagem no corredor.

— Renesmee, por favor, me escuta — disse ela, os olhos brilhando com um misto de culpa e desespero.

Eu parei, mas apenas por um instante. Tudo que eu queria era sair dali.

— Eu não tenho nada para ouvir de você, Jane. Nada. — Minha voz saiu firme, mas carregada de dor.

Ela deu um passo à frente, como se tentasse me convencer com a proximidade.

— Eu... eu pensei que você e o Seth estavam terminando. Ele me disse que as coisas entre vocês estavam ruins.

Soltei uma risada amarga, cruzando os braços.

— É claro que ele disse isso. Quando começaram a me trair?

Jane hesitou por um segundo, e aquele momento foi suficiente para que eu soubesse a verdade.

— Há alguns meses...

O chão pareceu desabar debaixo dos meus pés. Meu estômago revirou, mas não deixei que ela visse o impacto que aquelas palavras causaram.

— Eu não quero ouvir mais nada. — Passei por ela, sem olhar para trás.

Caminhei apressada pelos corredores do hospital, ignorando todos à minha volta. Eu só precisava sair dali, respirar, processar o que havia acabado de acontecer. As luzes fluorescentes frias do hospital contrastavam com o calor sufocante dentro de mim.

Ao chegar no estacionamento, tirei as chaves da bolsa, mas estava tão desnorteada que mal percebia o que estava fazendo. O lugar parecia mais escuro do que o normal. Suspirei irritada. De novo, pensei. Aquela maldita luz queimou de novo.

Fui até meu carro, ou pelo menos achei que era o meu. As lágrimas ainda nublavam minha visão. Tentei abrir a porta, mas a chave não girava. Frustrada, comecei a socar o vidro com a bolsa.

— Mas que droga! — murmurei, enquanto sentia a dor do impacto subir pelo braço. Em um golpe mais forte, o vidro se quebrou com um estalo.

Meus olhos se arregalaram quando a porta se abriu de repente. Um homem saiu de dentro do carro, claramente irritado.

— Mas que diabos você está fazendo?! — Ele me olhou incrédulo, os olhos fixos no vidro quebrado e depois em mim.

Senti o sangue fugir do meu rosto. Este não era o meu carro. E, definitivamente, este não era o meu dia.