Pais e filhos

1 Pais e Filhos


Notas iniciais
Primeiro, quero deixar claro que sou COMPLETAMENTE apaixonada por Legião Urbana, então meu primeiro pensamento foi: Vou fazer a songfic de uma música deles. Escolher a música, por outro lado, foi um sacrifício. Quando eu já estava sem esperanças, me perguntei: Por que não fazer uma história composta de mini-histórias? E então me lembrei de "Pais e Filhos". Bem, não necessariamente nessa ordem, meus pensamentos são uma bagunça. O resultado... Foi este. Espero que gostem. ♥ OBS: Música para quem quiser ouvir lendo (o que eu recomendo bastante): https://www.youtube.com/watch?v=jgYzyL9m1p0 OBS 2: Esse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=bvIMBVBRpJU é o link da música ao vivo, se alguém preferir. ♥ OBS 3: O link também vai estar no trecho da música logo abaixo

"É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã"

Quinto andar de um prédio qualquer, setembro de dois mil e oito

Há um vento frio correndo pelo quarto, cuja origem é justamente aquela janela escancarada. Elisa sabe que, se continuar ali por muito tempo, vai pegar uma gripe ou algo pior. Sua saúde frágil não lhe permite mais do que umas brisas matinais. Se o vento correr um pouco mais forte, se a poeira for um pouco mais insistente, toda a sua barreira imunológica vai abaixo. Como uma represa arrebentada, dando vazão a todas as doenças respiratórias conhecidas.

É bem verdade que não tem certeza. Como poderia saber? Nunca em dezessete anos havia ultrapassado a barreira do seguro. Não saia do quarto sozinha, não abandone a bombinha, não esqueça os comprimidos, não tire o casaco aqui fora, não coloque a touca aqui dentro.

“Cuidado com o rosto, Elisa, você quer morrer?”

— Eu quero, mamãe. Se morrer significa ser livre, então eu quero.

Um pé depois do outro, Elisa sobe no parapeito. Cinco andares lhe separam do asfalto frio da cidade. Um suspiro, um último olhar. Por cima do ombro, ela espia a escrivaninha recém-arrumada, cheia de todos os livros com os quais ela gastou seus anos. As paredes pintadas em um tom simples de pastel, nem feliz nem triste demais, mas com umas pequenas manchas em roxo e rosa onde ela conseguiu encostar o pincel antes que este lhe fosse arrancado das mãos. Lembranças de minutos em que foi livre.

O olhar de Elisa prende-se sobre o cofre de ferro que guarda suas economias.

“Para que é isso, mamãe?”

“Para a sua faculdade à distância, minha querida.”

— Mamãe, as pessoas fazem faculdade no inferno?

Sobre o cofre, duas estátuas mudas descansam. São Cosme e São Damião, em posições angelicais, parecem encarar o vazio.

“Por que eles, papai?”

“Eles foram grandes médicos, minha filha. E boas pessoas também.”

— Papai, eles vão cuidar de mim quando eu morrer?

Com um suspiro, Elisa volta o semblante pesado para as ruas escurecidas da cidade. Distraidamente, um homem caminha pela calçada. Carrega uma mochila gorda e um casaco aos pedaços. Parece pensar em mil coisas enquanto assovia uma canção antiga. Será que está voltando do trabalho? Deve estar morto de fome. Talvez até coma duas vezes, principalmente se for ensopado. Elisa ama ensopados, mas nunca pode repeti-los.

“Qual é o problema com ela?”

“Um estômago frágil, pobrezinha...”

— Mamãe, desculpe perder o jantar de hoje.

Como se caminhasse sobre as nuvens, Elisa andou para fora da janela. Quando finalmente pisou o ar, a gravidade iniciou seu trabalho. Em queda, o mundo lhe pareceu lindo. Agora, a queda e Elisa tinham algo em comum.

A despeito do ar, ali pareciam livres.

Quarto dos fundos, novembro de mil novecentos e...

Os toques na porta uivavam como lobos, mas Mariane não queria atendê-la. Ela conhecia o peso daqueles dedos porque os experimentara na pele há não muito tempo. As marcas sob a sua blusa de frio ainda queimavam como fogo. Sabia que teria de se preocupar com o roxeado de cada uma delas de manhã, mas ainda tinha algumas horas antes disso.

— Dorme agora, está bem? – ela sussurrou para a criança que descansava na pequena cama à sua frente.

— Mas, mamãe, e o papai?

Mariane respirou fundo, evitando que a mágoa se tornasse líquida. Tinha alguns orgulhos na vida, e o maior deles era não chorar diante do filho.

— Ele não vem hoje.

O menino a encarou com olhos infantis cheios de perguntas.

— Mamãe, que barulho é esse?

— É só o vento lá fora.

Assim que a criança fechou os olhos, Mariane apagou a última luz e fechou a porta do quarto. 'Vento' parecia um nome delicado demais para alguém tão áspero e de mãos tão vis. Por outro lado, 'pai' deveria ser um nome para alguém que significasse proteção, mas aquele homem representava justamente o contrário. Brutalidade e desamparo.

Por um instante, os toques cessaram e Mariane pensou que, por uma noite, estaria livre. Pela manhã, pensaria em algo. Pela manhã, pensaria em como dar adeus ao pai sem destruir o filho, antes que ambos se destruíssem. Seu filho ainda não entendia o que eram todos aqueles machucados, mas e quando entendesse?

Quem ele odiaria: o pai vil, a mãe covarde ou ele mesmo?

Num rompante, os toques retornaram, mais insistentes e firmes. Pelo resto da noite, não importava quão forte Mariane apertasse os olhos, não importava o quanto implorasse para acordar do pesadelo, o barulho continuava lá. Invisível, mas presente, como um lembrete do que a vida havia lhe reservado.

Vento, hematoma e surra emocional.

Alguma casa bonita e enfeitada de dois andares, julho de dois mil e sete

Por fora, os tijolos pareciam intocáveis, mas dentro das quatro paredes orquestrava-se um verdadeiro pandemônio. Entre cada reclamação, ouvia-se um suspiro cansado ora do pai, ora da mãe. Filhos são uma benção até que aprendam a reclamar.

— QUERO COLO! – Louise, pequena como uma ervilha, berra do berço. A despeito de seu tamanho, sua voz facilmente rivalizaria com uma soprano, com a ressalva de que a neném não estava nem um pouco preocupada em ser afinada.

A mãe, esgotada pelo dia cheio na loja de roupas e ainda suja do feijão que tentava inutilmente cozinhar, desliga o fogão e ergue Louise nos braços. Antes de pisar na escada, lança um olhar suplicante para o pai. Ele larga a panela de batatas e vai até a sala, onde quase todos os seus filhos parecem negociar uma terceira guerra mundial. O motivo?

O controle remoto.

O único que se abstém de discutir é Fernando, que permanece sentado num canto com um livro sobre as pernas e um par de fones de ouvido sobre as orelhas. Por mais que ele lute para bloquear a discussão a sua volta, isso é quase inútil.

— Já estou cheio, vou fugir dessa casa infernal! – Fernando resmunga, olhando de soslaio para o resto de seus irmãos. Tudo que queria é que todos eles simplesmente calassem a boca. Era tão difícil ficar em silêncio para variar?

É claro que subir para o quarto é sempre uma opção, mas isso seria admitir a derrota e ceder território. Não, nem pensar.

Sem se preocupar com futuros danos, aumenta o volume para o máximo. “Antes surdo do que louco, antes surdo do que louco”.

O pai seca o suor da testa e se encaminha para o meio das três crianças que estão sobre o sofá se estapeando. Nenhuma delas além de Eloá tem realmente idade para ser considerada criança, mas o comportamento é idêntico ao de uma.

— Muito bem, se vocês não se decidirem agora, vamos nós quatro assistir ao jornal.

Em questão de segundos, a discussão acaba.

Quarto do Matheus, janeiro de dois mil e cinco

As trovoadas ribombavam incessantemente através das janelas, sempre acompanhando os fieis relâmpagos. Por mais que Matheus quisesse se convencer de que elas não trariam mais pesadelos, não conseguia encontrar coragem para fechar os olhos. Escondido atrás das pálpebras, não seria capaz de prever a hora exata em que o monstro do armário o atacaria. Como poderia se defender?

Mais uma luz, mais um berro do céu. Ouvindo a água batendo contra o vidro da janela, ele puxou a coberta sobre os olhos, fingindo que era uma armadura inquebrável contra todo mal e destruição. Estava quase acreditando nisso e fechando os olhos quando mais uma trovoada estourou na noite.

Não tinha jeito, teria que recorrer à saída de emergência.

Nas pontas dos pés, atravessou o corredor escuro. Tropeçou algumas vezes no tapete felpudo, mas é claro que não se assustou. Era um menino corajoso, não se assustava à toa. Aquele grito na ultima trovoada tinha sido mero deslize.

Assim que alcançou a porta de madeira, girou a maçaneta. Com a voz baixa, mas firme, chamou:

— Mamãe? Papai? – e, assim que teve certeza de que os dois o escutavam, completou – Posso dormir aqui com vocês?

Ainda grogues de sono, os pais se afastaram para que Matheus pudesse se acomodar entre eles. Assim que estava devidamente aconchegado, murmurou:

— Desculpa acordar vocês, é só que... – engasgou com o choro – Estou com medo. Ontem eu tive um pesadelo. Tinha um monstro, ele saía do meu armário, queria me pegar e eu... eu...

Tão logo o choro inundou seu rosto, Matheus foi acolhido por um par de braços protetores, ao mesmo tempo em que duas mãos delicadas retiravam de sua testa os fios de cabelo que pregaram com o suor.

— Não se preocupe. – disse o pai.

E a mãe, baixando a voz até o tom de um sussurro, completou:

— Nós estamos aqui.

Banqueta ao lado do telefone, fevereiro de dois mil e dez

“Depois das três”, ela disse, “Vou voltar depois das três”. Já eram oito horas, onde raios ela havia se enfiado? Dona Ilza recostou a cabeça sobre a mesinha que abrigava o telefone, esgotada. Já tentara ligar mais de quinze vezes para o celular da filha, e em todas foi atendida pela caixa postal. Não tinha mais nenhum número a que pudesse recorrer.

Levantou-se, determinada a fazer café. Não dormiria até ter notícias, nem que para isso fosse preciso tomar a garrafa térmica inteira.

Tão logo Eleonora pisasse na casa, estaria de castigo. Só porque completara dezoito anos agora achava que podia tudo. “Depois das três”, ora essa, isso é um horário de verdade? Quanto tempo é depois, afinal?

A resposta veio às onze horas quando, tropeçando, a menina adentrou a sala. Suas roupas estavam sujas de vômito, os cabelos embolavam-se em nós difusos e a maquiagem, outrora perfeita, parecia a lama de uma cova.

Toda e qualquer ofensa que Dona Ilza pretendesse lhe dirigir ficou travada na garganta diante daquela cena. Estava furiosa, é bem verdade, mas estava arrasada também. Ah, os males da maternidade. Reunir em um único ser o motivo da sua glória e da sua ruína.

— Desculpe, mamãe, juro que nunca mais bebo...

— Você disse isso da última vez, Eleonora. Vem, vamos tomar um banho.

Com cuidado, Dona Ilza envolveu os ombros de Eleonora e a encaminhou escada acima, passo por passo. Apesar de dezoito anos transcorridos, era incrível como, de vez em quando, ainda precisava ensinar sua filha a andar.

Chá de bebê, junho de dois mil e nove

Os presentes organizavam-se em uma montanha difusa sobre a mesa. Fraldas, berço desmontável, blusas verdes e algumas toucas amarelas disputavam lugar com as comidas e bebidas que, apesar de se destinarem aos convidados, estavam indo mesmo era para a barriga imensa da noiva.

O noivo roía as unhas como não fazia desde o pré-vestibular, com a diferença de que para casamento e paternidade não existia cursinho, e ele passaria pelos dois sem chances de repetir provas.

De canto de olho, encarou sua futura esposa comendo salgadinhos e tomando refrigerante. Pensou em repreendê-la, dizer que fazia mal ao bebê, que era melhor tomar um suco e experimentar um dos sanduíches naturais, mas não fez nada disso. Limitou-se a sorrir, mandando um beijo invisível pelo ar.

Podia estar uma pilha de nervos, é verdade, porém a amava acima disso.

— Deise, já escolheu o nome do neném? – uma das convidadas perguntou, separando momentaneamente a noiva de seu salgadinho.

— Não... Mas sei que meu filho vai ter nome de santo. Eu quero o nome mais bonito de todos.

— Que tal Tomás? – o noivo perguntou, entrando no assunto.

— Nossa, que bonito. – uma senhorinha, que tricotava um par de sapatinhos para o futuro bebê, murmurou. Ninguém até então tinha reparado nela, só os noivos. Era a mãe de Deise. – É uma bela homenagem, Rafael.

Deise sorriu, grata ao futuro marido. Seria uma forma bonita de dar adeus a seu pai, cuja vida também tinha sido agraciada com aquele nome.

Uma brisa fresca e silenciosa atravessou a sala, sem maiores explicações. Pessoas amadas são como o vento que sopra: ainda quando partem, deixam seus rastros.

Casa de repouso, agosto de dois mil e...

— Os seus filhos vêm te ver hoje, seu Carlos! – uma enfermeira baixinha, de óculos de grau grandes, entrou no quarto, carregando uma bandeja com pães, suco e remédio.

— Sim... – ele murmurou, distante. – Celina, me diga uma coisa.

— Pois não?

— Você já se perguntou por que o céu é azul?

Celina sorriu, acomodando a bandeja sobre a mesinha de canto e se sentando na poltrona ao lado da cama onde o senhor estava deitado. Ele tinha por volta de setenta e sete anos e sofria de mais ites do que gostaria. A que mais lhe incomodava era a labirintite, por isso permanecia quase todo o tempo deitado.

— Para falar a verdade, não. O senhor gostaria de me contar por quê?

Senhor Carlos sorriu, contente.

— Quando eu era pequeno, meu pai costumava me falar sobre o espectro de cores. Ele me explicava em detalhes tudo sobre a atmosfera também. Eu não entendi nada, é claro. Para ser sincero, não sei te dizer de verdade por que o céu é azul. Mas quer saber? – ele pegou um dos pãezinhos e passou manteiga – Eu nunca me importei com a explicação racional. Para mim, o céu é a aquarela de Deus, e Ele pintou como bem quis.

Celina riu.

— É uma forma bonita de se pensar.

— O que posso fazer? – deu de ombros, ignorando a dor na articulação, fruto de uma ite qualquer — Sempre fui mais chegado à poesia que à física.

Celina sorriu, concordando, e se levantou para conferir o horário dos remédios. Enquanto ela olhava a lista com as horas e os comprimidos, senhor Carlos ficou observando à sua volta.

— Você ainda tem tempo, Celina?

— Alguns minutos, talvez uns quinze, por quê?

— Queria lhe fazer mais uma pergunta.

— Faça. – ela sorriu.

— Você acredita na grande fúria do mundo?

A moça franziu o cenho.

— Grande fúria?

O senhor sorriu. Toda vez que ele fazia isso, o canto de seus olhos se enrugavam.

— Quando eu era mais novo, eu costumava assistir ao jornal com a minha mãe. Lembro sempre de ver uma sucessão de desastres naturais e desastres humanos. Furacões e assaltos, tsunamis e sequestros, terremotos e assassinatos. Então, um dia, eu perguntei para a minha mãe por que essas coisas aconteciam, por que o mudo estava tão enfurecido.

— E o que ela respondeu?

— Ela disse que as coisas eram como estavam destinadas a ser.

— Até a maldade humana? – Celina exclamou, surpresa.

— Até mesmo isso. Minha mãe acreditava que bondade e maldade são opções, e os desastres humanos são frutos das escolhas que a humanidade faz. Já os desastres naturais eram frutos do acaso, mas não eram por acaso. Veja bem, são duas coisas diferentes. Eles não eram escolhas, é bem verdade, mas sempre vinham por um motivo.

— E que motivo era esse?

— Eu não sei, ela nunca me disse. Nenhuma teoria humana é perfeita, nem a dela.

— Mas se maldade e bondade são opções, então isso não é destino.

— Ah, Celina, o destino é o que fazemos dele.

Celina piscou, aturdida. Já estava acostumava a conversas estranhas, afinal, convivia com pacientes que mal se lembravam de seus próprios nomes; mas as coisas que seu Carlos lhe dizia sempre martelavam em sua mente como enigmas eternamente insolúveis.

— Bem, quando meus filhos chegam?

— Desculpe, como? – ela piscou mais uma vez, e só então percebeu que derrubara a lista de remédios

— Você disse que meus filhos vinham, não é?

— Ah, claro! Eles chegam às dez e meia.

— Lembrou a eles do meu tabuleiro?

— Claro. – ela piscou um olho – Vê se cuida direito deles, da última vez foi uma bagunça.

Senhor Carlos riu, tomando o cuidado de por a mão na barriga para não engasgar.

— Ah, Celina, nessa altura da vida são meus filhos que tomam conta de mim.

Pracinha da cidade, cinco da tarde

A feira comunitária era o único momento no ano em que todas as pessoas da pequena cidade se reuniam sem preconceitos. Desde o jardineiro até o juiz, todos lanchavam, conversavam e doavam tudo o que podiam. O padeiro fazia uma remessa gigantesca de pão e distribuía entre os moradores de rua, enquanto as roupas eram doadas tanto a eles quanto aos que, apesar de terem casa, não tinham dinheiro.

As crianças da creche eram as verdadeiras estrelas da feira. Guiadas pela professora Tônia, todo ano realizavam um pequeno teatro ou apresentação musical, sempre com o cuidado de trazerem alguma mensagem reconfortante e motivadora àquelas pessoas que se sentiam sem rumo na vida. O dia da feira não era um dia de solidão.

Entretanto, mais do que a caridade, a principal dádiva do evento era a união que provocava, especialmente entre as crianças. Todas elas se reuniam, geralmente em roda, para comer e conversar sobre a vida. Não importava de onde você tinha vindo, contanto que estivesse ali.

Estavam hoje em uma pequena rodinha de histórias, e o assunto dessa vez era família.

— Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar todas as sextas e sábados. – uma garotinha baixinha de óculos grossos murmurou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas pelas lembranças, mas ela engoliu o choro e continuou – Foi difícil quando ele foi embora... A mamãe chorou muito, achei que ela ia me deixar também.

Várias cabeças baixaram na rodinha, em consideração à tristeza da menina.

— Agora tá tudo bem. – ela completou com um sorriso, secando as poucas lágrimas que acabaram escorrendo.

As cabeça se ergueram, vários sorrisos surgindo.

— Agora eu! – um garoto magrelo de cerca de nove anos ergueu a mão. Ele vestia roupas surradas, com vários buracos nas costas. Seus pés estavam sujos, bem como seus cabelos. – Eu moro na rua.

Várias bocas infantis se abriram em “O”. Eram novos demais para serem apáticos com aquilo, isso é um costume de adultos.

— Como assim na rua? E seus pais?

Ele fitou seus próprios pés descalços para responder.

— Eles morreram. Não tenho ninguém. – voltou a erguer o olhar. Ao contrário do que as outras crianças tinham imaginado, ele não estava chorando. – Por isso, eu moro em qualquer lugar. Bem, quando me deixam ficar, né?

— Você é muito corajoso! – um menino, talvez um pouco mais velho que ele, falou. Parecia impressionado.

O garoto magrelo sorriu. Corajoso... Era bom se imaginar assim.

— Minha vez! – uma garota loirinha, de uns nove anos, ficou de pé. Tinha um ar de sabichona – Eu já morei em tanta casa que nem me lembro mais, mas sempre com meus pais. Eles são escritores. Vivem viajando. Já morei até fora do país! – ela sorriu, orgulhosa.

Um murmúrio geral de “uoooow” fez-se ouvir sobre o silêncio.

— Que máximo! – o garoto magrelo, que tinha ficado calado, voltou a falar. – Aposto que você deve comer muito pão!

Ela riu.

— Nunca um melhor do que o daqui!

— Tem razão, o pão do meu pai é o máximo! – exclamou, orgulhosa, uma garotinha baixinha, de uns sete anos. Era a filha do padeiro.

As crianças riram, assentindo.

Em um mundo utópico, em uma cidade imaginária, a feirinha acontecia. Era tudo um sonho, é claro.

No asfalto quente da manhã, o garoto acordou. Recolheu suas coisas e as colocou na sacola de mão, guardando as poucas moedas que conseguira no dia anterior para comprar um pão no almoço. De noite, voltaria a sonhar com a feirinha.

Agora, porém, a vida o chamava.

Praia de dentro, dezembro de dois mil e onze

Quando eu era pequena, eu gostava de observar a areia sendo levada pelas ondas que se quebram na praia. Quando a água recuava, eu corria para afundar meus pés na areia molhada, só para sentir a adrenalina de precisar me desenterrar quando a próxima onda viesse.

Hoje em dia, não faço muito mais isso. Eu cresci. Não sou mais pequena o suficiente para ser criança, apesar de ainda me sentir como uma. Agora, eu tenho uma criança, alguém que me chama de “mãe” todas as manhãs quando a acordo em sua cama.

Eu costumava me sentir como uma gota d’água do imenso oceano, ou como um grão de areia. Brincava que iria me jogar na imensidão e fugir. Toda vez que eu dizia essas coisas, meus pais ficavam loucos.

“Fugir, Marcela, você está doida?”

Eu não estava, eles é que não me entendiam. Não é sempre isso? Não são sempre os outros que não compreendem?

Você diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais. Infelizmente eu percebi isso muito tarde, quando já não podia dizer isso a eles.

Quando a minha pequena Lara nasceu, aprendi uma série de coisas, mas a principal delas é que não faz sentido culpar seus pais por tudo. Isso é um completo absurdo. No fim do dia, quando eles deitam a cabeça no travesseiro para dormir, acabam se sentindo crianças como você. Perdidos, desamparados, com medo do futuro.

E sabe qual é o pior de tudo isso? É a falta de chance de errar. Quando somos pequenos, adoramos brincar de “o que você vai ser quando você crescer?”. Médicos, astronautas, modelos, atrizes, engenheiras... Sonhamos alto e sonhamos livres, porque temos tempo. Já os pais, entre contas para pagar e trabalhos para manter, não podem se perguntar o que querem ser, eles precisam ser agora. E, mais do que isso, precisam ser certo.

Mas eu não entendia essas coisas quando eu era mais nova. Naquela época, eu jurava que a essa altura eu já teria todas as respostas; mas, a cada dia que passa, só me encho de perguntas.

E adivinha só?

Aos trinta e dois anos, ainda não sei o que quero ser quando eu crescer.

Caderno velho, ... de mil novecentos e noventa e nove

“Hoje foi o dia em que minha mãe morreu. Eu não a vi morrer, não pude me despedir, nem ao menos dizer o quanto a amo. Agora que ela se foi, não vejo uma razão boa o suficiente que justifique a minha falta. Ontem, quando brigamos, os motivos pareciam muitos. Agora, eles parecem pouco mais do que nada.

Ontem a noite, eu saí de casa e a deixei chorando. Ela me implorou que voltasse, que não saísse de casa tão tarde, mas eu não dei ouvidos. Eu tinha uma festa para ir e não perderia tempo com uma briga idiota com a minha mãe. De manhã, quando as coisas estivessem mais calmas, eu resolveria tudo.

Mas não houve de manhã.

Agora, meu mundo está ruindo lentamente, e eu não sei o que fazer. Me sinto como um garotinho assustado de cinco anos, embora já tenha dezessete. Meus tios estão levando as minhas coisas para a casa dos meus avós, eles disseram que eu não devia ficar sozinho em um momento desses. Acho que eles sabem que eu me culpo.

Eu não peguei muita coisa da minha mãe, só sua manta de frio. O resto me enche de lembranças dolorosas com as quais eu não conseguiria lidar.

Minha mãe tinha um problema no coração e eu não sabia. Agora, eu não a tenho mais.

Se alguém, algum dia, em algum lugar, encontrar essas anotações, por favor, não cometa o mesmo erro que eu. Ame, ame as pessoas, ame-as apesar de seus defeitos, acima de quaisquer brigas, cuide sempre delas, aja como se não houvesse amanhã.

Porque, na verdade, não há.”

Notas finais
Abraço de urso. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!