A casa de repouso “Morada da Lua” era famosa por sua tranquilidade e recato. Uma construção sólida do século dezenove que abrigava poucas pessoas em seus inúmeros quartos. Mas eram pessoas distintas, e em geral, com muito dinheiro. Uma das mais ilustres hóspedes da Morada era Amélia Cohen, apelidada pelos funcionários, como a Velha Lia. Ela herdara uma fortuna considerável com a morte dos pais e a aumentara em muito por conta do próprio talento, tornara-se antes dos vinte e dois anos, uma das dez maiores fortunas do país.

Sara, sua enfermeira particular, sentia um enorme pesar pelo dia de hoje, com o passar dos anos se afeiçoara de verdade à Amélia que, iria embora dali a poucas horas. Sua filha viria busca-la. Com a maioridade chegando, e com a incapacitação legal da mãe, Fátima Cohen assumiria o controle da fortuna da família, e tomara a decisão de cuidar por si própria da mãe.

- Lia? Lia? Amélia, querida, venha, temos de nos aprontar, hoje é o grande dia – A doçura e paciência na voz da enfermeira eram evidentes; todos na casa de repouso tratavam Amélia com deferência. Apesar do apelido carinhoso, a Velha Lia como era conhecida, não era realmente velha. Acabara de completar trinta e oito anos.

Aos vinte anos, Amélia Cohen, era um nome em eminência no mundo da arte, uma jovem promissora, diziam as revistas da época, com talento e carisma para galgar uma carreira que tinha tudo para ser brilhante, além de um passado trágico, que sempre comovia as grandes massas. Um dia, ela simplesmente se levantou, foi até seu estúdio, onde começou a trabalhar em uma das paredes, e não parou mais. Quando a procuraram para lhe avisar que todas as suas obras haviam sido vendidas na inauguração de sua galeria de artes, na noite anterior, ela simplesmente respondeu:

— Eu sei! – e essas foram suas ultimas palavras em quase duas décadas.

Os críticos ficaram loucos quando viram o resultado final. Toda a parede havia sido coberta por uma fina camada de gesso, depois esculpida e moldada delicadamente até a perfeição, para só então a artista dar vida a sua obra com uma infinidade de cores. Um pequeno anjo ocupava quase a totalidade da obra, rodeado de borboletas e pássaros, uma ilha paradisíaca flutuava no horizonte, para onde o anjo voava. Na parte de baixo da pintura, em meio às sombras, seres malevolentes e invejosos tentavam alcança-lo sem êxito, dando a obra um toque surreal de contraste da inocência contra a ganância dos seres retratados. Infelizmente a obra fora feita diretamente na parede e era impossível remove-la. Amélia, no entanto não esboçou qualquer reação sobre o sucesso de seu trabalho.

Após acabar, simplesmente ficou sentada em sua cadeira. O olhar vagamente perdido no meio do nada, sem nunca mais esboçar, qualquer sentimento, seja raiva, orgulho, tristeza ou alegria. E assim ficara por dezoito anos. Sara, a Enfermeira que a ajudava vestir-se, sabia de tudo isso. A história da Jovem artista que entrara em reclusão mental foi manchete por muito tempo. Principalmente pelo fato dela ser uma das jovens mais ricas da atualidade. Dinheiro este que foi utilizado apenas para pagar a casa de repouso no qual Amélia viveu todos esses anos e na criação e educação de sua única filha, cujo pai Amélia nunca contou quem era.

- Venha querida, sua filha vai chegar a qualquer momento para leva-la, você não está feliz? – a pergunta era retórica, pois Sara sabia que Amélia nunca respondia:

- Aquela criatura não é minha filha.

A surpresa e o choque congelaram as mãos da enfermeira em pleno ar:

- Meu Deus Amélia, vo-você falou comigo?

- Aquela criatura vil e sem coração não é minha filha, ela vem para terminar o que começou a mais de oitenta anos atrás. Preste bem atenção no que vou lhe contar, pois não tenho muito tempo, e quando acabar, irei tornar você, uma pessoa fabulosamente rica, se puder me fazer um favor. Amélia Cohen contou-lhe então sua história, e ela começava assim...

Julho de 1990

- Nããããããoooooooo – O grito cheio de pavor cortou a madrugada, e ecoou por toda a imponente mansão de estilo colonial. Empapada de suor e com lágrimas escorrendo pelas faces, a adolescente abraçava os próprios ombros enquanto chorava continuamente, seu corpo se balançava ritmicamente para frente e para trás, a espera de um conforto... Que não viria, quando a porta escancarou-se com violência:

- Droga guria, oque foi? – Abner Cohen era um homem atarracado e violento. Quando tudo corria bem, no fim do dia seu humor costumava ser péssimo, ao ser acordado no meio da noite... Era algo que beirava o assassino.

– Vai calar essa boca ou oque?

- A ja-janela papai, tem algo na janela. – a voz estrangulada e soluçante de sua filha parecia apenas aumentar sua raiva, Amélia sempre achou que o pai desprezasse tudo que fosse fraco e indefeso, e era exatamente assim que a garota se sentia agora... Fraca e indefesa. Com passos largos e decididos, o homem atravessou o quarto e com um pontapé escancarou as folhas da janela antiga que iam do chão até perto do teto:

- Não tem nada aqui porra! Está vendo? – mas a menina poderia jurar que viu um par de olhos amarelos que lhe sorriram de forma maligna a apagarem-se lentamente.

- Dorme agora. É só o vento lá fora.

Sem mais nada a dizer saiu do quarto da filha, deixando-a aterrorizada na cama.

- Quero colo!

O pensamento atingiu o âmago da menina com tanta força que a deixou atordoada. Amélia não se considerava mais criança, já tinha dezessete anos, era uma mulher. Não tinha sentido esse desejo súbito e despropositado por proteção. Seu pensamento seguinte a surpreendeu mais ainda:

- Vou fugir de casa.

Assim que a ideia lhe ocorreu, começou a seduzi-la com rapidez. Com movimentos nervosos, saltou da cama e dirigiu-se ao armário no canto do quarto, tomando antes o cuidado de trancar a janela novamente.

A família Cohen era de judeus provindos da Alemanha nazista. Os avós de Amélia foram comerciantes poderosos em Berlim que haviam fugido da Europa pouco antes da segunda grande guerra. No Brasil se estabeleceram no ramo de hotelaria, e construíram uma riqueza considerável. Dinheiro nunca fora problema para a menina. Seu quarto lembrava o quarto de uma pequena princesa de conto de fadas. Casas de bonecas enormes, centenas de bonecas provindas de quase todos os lugares do mundo, brinquedos exóticos.

Quando deixou de se interessar por brinquedos, seus pais haviam comprado para ela, todo tipo de aparelhos eletrônicos que um adolescente desejaria, uma TV gigantesca, aparelho de som, videogames. Amélia desistiria de tudo isso por um pouco de atenção. Não que ela pensasse tais coisas, jamais formulara esses pensamentos conscientemente, mas no intimo, sentia mais falta dos pais do que poderia admitir. Apesar de morarem na mesma casa, fazia três semanas que sua mãe se dignou a recebê-la pela ultima vez, trocaram meia dúzia de palavras, antes que o pai a mandasse sair dali e procurar o que fazer em outro lugar.

A menina pensava nessas coisas enquanto procurava uma bolsa no armário bagunçado. Encontrou uma mochila e esvaziou seu conteúdo em cima da cama, eram cadernos, canetas e livros:

- Dane-se – pensou – não irei voltar à escola mesmo.

As lágrimas que ainda teimavam em escorrer pelo rosto juvenil, agora eram amargas de raiva. De todas as joias que tinha, escolheu um pequeno pingente de rubi, em formato de rosa, cujo caule era em ouro branco, assim como o cordão em que estava pendurado. Não o escolheu pensando no seu valor, que com certeza era muito alto, mas por que fora um presente de sua avó.

Ainda se lembrava do dia em que o havia ganhado. Tinha apenas seis anos e achara muito estranho, pois era a joia predileta da velha senhora, que nunca a tirava do pescoço. Uma tarde simplesmente chamou a neta até seu quarto e a presenteou, suas palavras, no entanto foram mais enigmáticas que o gesto em si:

- Aqui winzig* – Amélia aprendera desde pequena, os rudimentos da língua Alemã; o suficiente para saber que a avó lhe chamava de pequenina, em parte isso a irritava, pois como qualquer criança, queria crescer logo e deixar a infância para trás, e em parte gostava do apelido, pois era algo que apenas as duas compartilhavam, ninguém mais a chamava assim -eu gostaria que isso fosse enterrado comigo, mas infelizmente a semente que essa rosa trás dentro de si, jamais deverá voltar para baixo da terra. Então eu a lhe dou. Você nunca vai saber o quanto isso me entristece, mas sua mãe não é sangue do meu sangue, e eu nunca tive filhas, apenas seu pai. Quer dizer que você é minha única herdeira mulher. Sinto muito minha querida, mas cabe a você carregar esse fardo. Espero que um dia possa me perdoar. Eu tomei isso de uma fada, e tinha mais ou menos sua idade. Quando me tornei mais velha e mais sábia, me arrependi de tê-lo feito, mas aí já era tarde demais.

Algumas semanas depois sua avó falecera. E Amélia nunca mais a tirou do pescoço, não seria agora que se desfaria da corrente. Independente da estória da carochinha que a acompanhava, ainda era uma recordação da velhinha que ela tanto amara. Deixou para trás todo o resto.

- Se não me querem aqui, não tem problema – pensava com fúria, enquanto separava algumas roupas velhas e enfiava de qualquer modo dentro da mochila – vou embora. E duvido que sintam minha falta tão cedo.

Com a bagagem pronta, desceu até o escritório do pai. A antiga mansão estalava as tabuas do assoalho vez ou outra, arrancando da menina sustos de gelar o sangue. Ela quase podia sentir uma presença a perseguindo pelos corredores mal iluminados, e não pela primeira vez se perguntou por que os pais insistiam em morar naquele lugar. Por que não se mudavam para um apartamento moderno no centro da cidade. Já dentro do escritório, foi direto até a gaveta em que sabia que o velho guardava algum dinheiro. No local de sempre encontrou um pacote de notas de cem presas com um elástico, enfiou-o no bolso da calça:

- Um adiantamento de minhas mesadas – disse em voz baixa, e chegou à conclusão de que se pedisse o dinheiro ao pai, tudo que ele exigiria em troca seria um recibo. Sem perguntas e sem interesse aos planos da filha. Tal pensamento fez com que sua decisão de fugir tornasse-se ainda mais irrevogável.

Vasculhou a escrivaninha em busca de mais alguma coisa que lhe pudesse ser útil e para sua surpresa encontrou na gaveta de baixo, varias seringas e algumas ampolas de narcóticos a base de ópio.

- Patético – pensou com repulsa – agora o velho pulha anda se drogando.

Saiu de casa e passou pelo jardim sem sequer olhar para trás, desviou-se ligeiramente do caminho. Apenas o suficiente para pisotear com satisfação as flores que a mãe tanto amava. Ganhou as ruas pela saída dos fundos. A noite estava fria e silenciosa, com um ou outro gato miando ao longe. Levantou o colarinho da jaqueta surrada que usava para proteger o pescoço do vento e apressou o passo. Não tinha idéia para onde iria, mas sabia que queria sair da cidade o mais rápido possível.

Se tivesse olhado uma única vez para trás, teria visto um vulto que a seguia discretamente. Uma garota de uns cinco anos. Os cabelos loiros escorriam por baixo da touca de lã, um vestido fino era tudo que protegia seu corpinho frágil do frio da madrugada; sua face estava avermelhada por conta dos ventos gélidos, e seus lábios começavam a perder a cor. Seus olhos, negros como a noite, não piscavam nunca, e mantinham se fixos nas costas de Amélia. Com um movimento súbito, uma língua bifurcada, com mais de trinta centímetros saltou de sua boca e lambeu-lhe os olhos; umidificando-os. Um sorriso frio assomou-se em seu rosto, agarrou com força um velho urso de pelúcia que carregava, e apertou o passo, para não perder a adolescente de vista.

Amélia vagou a esmo. Raramente saia de casa sem o motorista particular, e foi apenas por volta das quatro da manhã que encontrou a rodoviária. O próximo ônibus para fora da cidade infelizmente só saia depois das sete. Um carro de polícia passou bem devagar, procurando por alguma atitude suspeita, e a garota achou que uma adolescente sozinha na rodoviária, em plena madrugada, talvez fosse uma atitude muita suspeita. Saiu sorrateiramente e viu alguns mendigos dormindo em meio a muitos cães, aproximou-se timidamente. O cheiro pestilento de álcool urina e podridão acertou-lhe o nariz com força, tão tangível quanto um soco, mas a pequena fugitiva não iria desistir, e disse com relutância:

- Posso dormir aqui, com vocês?Decisões

Notas finais
Winzig quer dizer Pequenina em alemão
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.