Painting Love
1 Parte 1 - Em que Deidara conhece o inimigo
Notas iniciais
Essa é minha primeira incursão, de verdade, no mundo do yaoi, sos. Estou querendo fugir de uns estereótipos, então é só uma fic de romance normal entre duas pessoas (e é o que importa ♥). Não quero ficar focando no sexo e putarias, cof, cof, afinal, na minha fic Sasori e Deidara possuem 15 anos e ainda estão lidando com isso de apaixonarem um pelo outro ~já perdi leitores só por não ter lemon, a Força me diz isso, hu~
Mas quem quiser acompanhar a construção desse amorzinho fofolete, sejam bem vindos.
Vamos lá!
Parte 1 – Em que Deidara conhece o inimigo
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As salas de aula que eram utilizadas para as aulas complementares ficavam em um prédio novo da escola, pelo que Ino disse. Cheiravam a tinta ainda, mas devido à superlotação das outras turmas, a sala de pintura era a mais nova e, claro, o cheiro de tinta lá era pior. Mesmo andando no corredor, tentando lidar com toda a papelada e achar a sala ao mesmo tempo, eu poderia identifica-la pelo cheiro horrível que escorria pelos corredores.
Era a única aula complementar que estava com quase a totalidade das vagas vazias. Todo mundo mudara para as outras, incluindo a que eu almejava com toda a minha alma, escultura, por causa dos boatos. Era uma escola nova para mim, minha mãe deu um de seus pitís egoístas e eu ainda estava tentando lidar com a mudança de casa e escola. Agora vivia muito perto, perto demais, da minha prima hiperativa Ino e sua mãe, irmã da minha. Era uma família meio desconjuntada, desmiolada provavelmente, mas eu tentava ao máximo parecer o mais normal. Talvez eu falhava por causa do cabelo e as roupas dos anos 80, mas eu odiava ser associado à inconstância da família.
Voltando aos famigerados boatos, todos diziam que a culpa era do novo monitor. Um garoto maluco, do primeiro ano como eu, mas que conseguiu ter a sala de pintura só para ele. Ino disse que a culpa foi da professora, ela dormia quase todas as aulas, isso quando não faltava, e quando viu a megalomania do garoto, logo entregou o cargo de monitor para ele. E em um semestre ele expulsara todos para as outras turmas.
Eu estava sinceramente preocupado, afinal, já não estava no que amava, escultura, e ainda teria que lidar com um monitor carrasco? E isso tendo que acostumar a uma escola nova, entrando no segundo semestre, sem contar a casa nova. Mas era aquela coisa, eu não tinha a mania de fugir da família e lutava para não ser associado a ela. Então tinha que encarar tudo aquilo emburrado, mas encarando.
As duas últimas aulas da quarta eram de pintura, o que aliviava um pouco a carga horária. Eu só esperava que o monitor não me expulsasse por desenhar mal e pintar pior ainda. Só eu mesmo pra me matricular em pintura sendo que sou ruim até com lápis de cor. De qualquer forma, as outras aulas estavam lotadas, até marcenaria. Como diabos marcenaria lota, essa é uma boa pergunta. Mas acho que é uma boa aula para quem não quer muito trabalho, já que eles passam o semestre todo tentando fazer uma casinha de pássaros, pelo que Ino resmungou.
Enfiei a maioria dos papéis na mochila-carteiro e entrei na sala. Obviamente eu não tinha errado o lugar. Não quando ele estava impecável, apesar de haver centenas de quadros, a maioria sem cor neles. Havia uma cômoda lotada de toda a variedade existente e possível de cores. Até minha alma de escultor ficou impactado. Alguns bancos espalhados e até cavaletes. Talvez aquilo não fosse tão ruim.
Só consegui enxergar a pessoa depois de três inspeções com o olhar. Ele estava sentado em um dos bancos, perto da maior janela, completamente concentrado no quadro à sua frente. O cabelo dele era um ruivo escuro, o maior contraste nele, já que estava usando só roupa escura. E estava de costas para mim, de forma que provavelmente não havia me visto.
— Pode deixar suas coisas sobre a cômoda e ache um lugar. – ele falou sem eu nem ter aberto a boca. Será que fiz tanto barulho assim quando cheguei? Hã?
Encarei a cômoda lotada. Isso era um desafio? Já me senti desafiado, era o que importava. Quando levantei a bolsa e ia ajeitar as tintas, o barulho do banco rangendo me chamou a atenção naquele silêncio.
— Não aí, na outra cômoda. – ele me olhou com uma expressão séria.
— Especifique então. – vou nem falar que não vi outra cômoda ali. Suas sobrancelhas franziram.
— Menos 1 ponto.
— O que?! – berrei, deixando a bolsa esbarrar nas tintas e derrubando tudo em carreirinha. – Ah! – berrei de novo ao ver o desastre.
— Não responda se não houve pergunta, não bagunce desnecessariamente. – ele olhou com tamanha intensidade para a tintas no chão que achei que iria abrir um buraco.
— Isso são as regras? – tentei pegar as tintas e melhorar minha situação. Nem consegui pegar três e ele se materializou do meu lado, tomando tudo de mim.
Fiquei observando ele arrumar tudo numa ordem caótica para mim, mas pelo visto tinha uma lógica para ele. Quase furei sua cabeça, devolvendo o olhar dele. Ele usava um avental que originalmente era branco, mas tinha toda as cores do planeta ali. Talvez uns três centímetros menor do que eu, cabelo desordenado, olhos castanhos e cara levemente zangada de forma eterna. Não parecia realmente intimidador pela aparência, mas havia algo em seu tom de voz que impunha tamanha ordem que dava medo.
Obviamente odiei ele.
Finalmente virou e me encarou.
— Sasori Akasuna, monitor de pintura. – e foi só isso, voltou tranquilamente para seu banco.
— Você precisa assinar... – olhei melhor ao redor. – Cadê a professora Kurenai? – perguntei, confuso.
— Transando com o Asuma, de educação física. – novamente poderia ter furado sua cabeça com o olhar.
— Hã? – assustei.
— Ela vive fazendo isso, ou dorme, ou falta, ou mata aula para transar com ele. O colégio todo sabe. – continuou, calmo, como se explicasse para uma criança.
— Meu deus. – comentei.
— Hum. – ele resmungou.
Ficou aquele silêncio novamente. Comecei a andar em sua direção e ele olhou para os meus tênis.
— Levante os pés na hora de andar. – disse apenas, com a testa franzida, e voltou a mexer uma tinta na palheta. Mas que inferno, até meus tênis entraram no jogo para conseguir nota.
Andei de forma afetada, como se estivesse na lua ou qualquer lugar com uma gravidade menor. Tá, eu era bem maduro, muito inteligente. Se está na merda, provoque o predador. Vai lá, Deidara, consiga um A+ provocando o monitor. Voe, borboleta burra.
Ele nem se dignou a prestar atenção em mim. Praticamente joguei os papéis na cara dele, interrompendo sua mistura. Ele parou e eu senti uma onda negra circular ao ar ao redor. Foi intenso.
— Nunca interrompa. Menos 1 ponto. – eu conseguiria um F- antes do mês acabar. Vai lá, Deidara!
— Preciso da sua assinatura. – falei, zangado também.
Consegui fazer ele se levantar e tomar o papel da minha mão com força, indo para uma mochila que nem percebi que estava jogada no canto da cômoda. Só aí reparei que havia uma outra cômoda, mas tinha tanto quadro em cima dela, aos lados, simplesmente jogados, era impossível distingui-la. Inferno, eu teria que pintar tudo aquilo ou era material para uma turma completa? Era difícil conseguir alguma informação do irado ali sem perder pontos, onde diabos estaria essa professora? E, oh, eles transavam aonde? Ino deveria saber, claro.
O papel apareceu na minha frente e começou a flutuar para o chão, peguei-o antes disso acontecer. Ele já havia voltado para seu trono impenetrável. Vi a assinatura embaixo, uma letra bem-feita e organizada. Só me fez pensar no meu garrancho. Inferno, eu deveria estar na aula de escultura.
— Escolha um banco, um quadro e um cavalete. – ele disse simplesmente.
— Nada teórico? – havia um teor de medo na minha voz, mas não vamos no ater à isso.
Sua cabeça girou para mim e havia um sorrisinho de canto nele. Aquilo suavizava muito mais sua cara. Mas era um sorriso tenebroso.
— Não. – e voltou a misturar.
— Homem de poucas palavras, prático. – resmunguei, jogando minha mochila ao lado da sua. Escutei um rangido de madeira, mas ignorei.
Puxei qualquer coisa para o outro lado da sala, eu ia sentar o mais distante possível dele. Eu poderia fazer meus rabiscos em paz, pelo menos. Fiquei sentado, observando a tela em branco. Até imaginei uma paisagem completa ali, o problema era pô-la no tecido. Se fosse a querida argila eu já estaria fazendo uma paisagem completa só com ela. Meu professor antigo gostava do meu trabalho, pelo menos, mesmo que eu quase destruísse tudo tentando pintá-la. Então ele deixou eu fazer esculturas sóbrias mesmo, me dando a mesma pontuação que os outros. Houve discussões sobre favoritismo, mas quando me desafiaram e eu trouxe o Titanic de argila, calaram a boca. Eu poderia ser realmente bom naquilo. Mas agora era um tecido em branco.
— Lápis. Tintas. Pinceis. – ele comentou, do outro lado, me despertando. – Pinte qualquer coisa, já vai ser mais do que os outros conseguiram fazer. Hum. – ele já estava colocando a tinta na tela e me perguntei o que diabos estava desenhado lá.
— Tem mais alguém na turma? – perguntei. Ele parou e me olhou feio. Ah, tá, perguntas. Levantei as mãos, me rendendo.
— Duas pessoas. Mas elas obviamente estão matando aula, como a professora. – havia uma crítica pesada em sua voz. Quanta intensidade para uma pessoa de 15 anos, puta merda. Ele assustava até os veteranos?
— Isso acontece sempre? – amargurei. Dessa vez ele só parou de movimentar o pincel. – Tá, saquei. – suspirei.
Passeei pela sala, tentando achar coisas para fazer. Eu tinha decidido pintar alguma coisa. Pelo menos para não dizer que tentei, não é? E durante aquele tempo todo ele ficou pintando. Bateu uma curiosidade, enquanto eu fuçava os lápis para desenho. Observei seu pincel e tentei pegar um parecido. Ao seu lado havia uma maletinha cheia de tintas, o que me fez pensar se ele não tinha suas próprias. Seria bem provável, considerando todo o aspecto da pessoa. Hum.
Peguei um lápis que não parecesse macio demais, eles apenas borram comigo ao invés de riscar. Arranjei uma borracha também e voltei para meu lugar. O que diabos eu iria desenhar? Confesso que preferia pessoas. A figura humana me interessava bastante. Até mesmo animais. Mas paisagens não eram lá meu ponto forte. Enviei pensamentos ao lápis, no nível de “aja como um bloco de argila e eu extrairei a imagem de você”. Quanto mais surtado melhor.
Comecei tentando desenhar a figura mais abundante ali, um quadro. Até que não saiu ruim. Linhas retas, algo bom de se fazer, o problema é quando elas curvam. Assoprei o quadro, segurando-o e analisando bem. Agora um banco. Também haviam muitos. Okay, o banco poderia ter ficado melhor. Talvez pequeno demais para o quadro. Puxei as linhas abaixo, fazendo o cavalete. Se você batesse o olho e pensasse por dois segundos, aí reconheceria o que desenhei. Nada mal, Deidara.
Tentei desenhar uma maletinha como a de Sasori e gastei metade da borracha nisso. Um pouco mais de curva, Deidara. Não forte demais. Não fraco demais. Isso tá parecendo um tijolo, Deidara. Mas o que diabos é isso, Deidara? Agora é um sanduiche, Deidara. Eu estava deitando sobre o quadro, tamanha concentração.
— Tem certeza que está na aula certa? – uma voz soou atrás de mim, me assustando. Agora a maleta fora trucidada por um risco forte, bem no meio.
— Obrigado. – quase joguei o lápis nele. – Eu queria escultura. – sussurrei, frustrado.
— Hum?
— Eu nasci para esculpir, não desenhar. – falei, mais alto.
Sua cabeça apareceu do meu lado, o que me assustou de novo, assim como seu braço. Ele era silencioso, diabos, poderia ter me esfaqueado e eu só perceberia quando estivesse desmaiando pela falta de sangue.
— Isso aqui está precisando de profundidade e proporção. Além de não parecer uma maleta. – ele apontou o óbvio, com descrença.
— Ah, sério? – isso, ironize, Deidara.
— Você quer tirar média para passar de ano? – houve um brilho sombrio em seus olhos. Me controlei para não encolher os ombros. – Faça o que digo e talvez você termine o ano sabendo desenhar um círculo que se pareça com um círculo. – se afastou.
— Okay, eu sei fazer uma bola...
— Comece com formas geométricas. Depois eu te passo as noções básicas, estou ocupado. E é um círculo, não uma bola. – voltou para seu quadro que já estava me deixando irado.
— Como o que? – se eu mirasse bem, conseguiria fazer do lápis uma lança em seu olho?
— Refaça o quadro. Com profundidade, dessa vez. – seu pincel deslizou com cuidado, como se aquilo fosse muito importante.
Tentei fazê-lo prestar atenção em mim por uns 10 minutos, encarando-o. Mas ele me ignorou com convicção. Gemi, voltando a rabiscar no quadro. Duas aulas. Duas aulas de Deidara e seu lápis, tentando extrair alguma vida dele.
E logo a tela já estava cheia de quadros, bolas, triângulos, paralelepípedos, o diabo a quatro e comendo. Talvez menos, mas havia todas as formas, de todos os tamanhos e até que foram melhorando com a repetição. Pelo menos a bola não ficava mais tão tremida. Até tentei colocar uma sombra nas figuras, o que ficou meio esquisito. Quando o sinal soou, até fiquei surpreso. Mas Sasori continuou a pintar. Juntei minha paciência e fui até ele.
Ele estava pintando... Uma coisa escura. Era um quarto escuro, como se estivesse à noite e houvesse apenas a penumbra das luzes lá fora. Mas eram todos tons escuros. O resto não havia sido terminado, ele era cuidadoso mesmo com seus traços. Mas havia a maldita profundidade ali, pelo que pude olhar. Mas logo sua cara enfezada entrou em meu campo de visão.
— Aconteceu algo? – perguntou.
— Er, nada. A aula acabou. E acho que terminei...
— Uma obra nunca é terminada. – ele comentou, quase pra si mesmo. Deu uma olhada no que fiz e não esboçou nenhuma reação. – Você é bom esculpindo?
A pergunta me pegou um pouco desprevenido. Mas deixei a paixão aflorar.
— É a melhor coisa que sei fazer. – sorri. As linhas entre suas sobrancelhas diminuíram um pouco.
— Pelo menos alguém que conheça a importância da arte. – concordou. Mas logo voltou à careta zangada. – Até a sexta feira.
Retornou ao seu lugar, se sua bunda tivesse calos eu não me surpreenderia.
— Sobre a questão de pontos...
— Sem perguntas. – disse apenas.
Isso foi uma bela dispensa. Peguei minha mochila e empurrei meu cavalete para um canto onde não atrapalharia. Olhei para ele novamente. Ele ficaria após a aula, apenas pintando? Isso era meio obsessivo. E eu achando que tinha problemas com a escultura. Ele me olhou, finalmente, franziu um pouco mais as sobrancelhas, como se desse, mas indicando confusão. Logo a expressão desapareceu de seu rosto.
— Deidara. – foi quase um convite para a minha saída. Tá, saquei.
— Sasori. – bufei, saindo da sala.
Espera, ele disse meu nome pela primeira vez?
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