Painting Love
10 Epílogo - Em que há amor
Notas iniciais
Epílogo – Em que há amor
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— Sorte que tivemos tempo até o baile para você sarar. Juro que ainda vou contratar assassinos profissionais para eliminar aqueles babacas. – Ino rosnou, zangada, terminando de ajeitar minha gravata.
— Como diabos você sabe mesmo dar um nó em uma gravata? – perguntei, tentando analisá-la sem muito sucesso.
— Eu ensinei a ela depois da transa. – Shikamaru sorriu de forma pervertida para Ino, o que a deixou irritada e corada. Aquela era uma novidade sinistra, tentei tirar uma foto correndo, mas capturei apenas Ino e seu vestido esvoaçando para cima de Shikamaru, pronta para esganá-lo.
Minha mãe entrou naquela hora na sala, seus tamancos anunciando sua chegada. Ela tinha um avental enrolado em si e seus cabelos estavam na cor de cenoura. Ela ate tinha ficado bem com a cor, demorei uma semana a olhando com assombro para me acostumar. Mas ela estava muito feliz consigo mesma, inclusive fez Sasori pintar borboletas laranja-cenoura perto de sua cama. Lembrei do dia em que ele fez aquilo e corei de forma violenta. Droga, minha mãe nos pegara justo quando eu pulei como Ino em cima dele. Minha mãe ainda não sabia lidar muito bem com tudo aquilo, embora nunca tenha maltratado Sasori. Apenas era complicado para ela ver seu filho beijando outro garoto, algo que há uns 2 meses e meio eu também sequer pensava.
— Tá, pensando em pornografia, Dei-Dei? – Ino provocou, no colo de Shikamaru e parecendo bem confortável. Ela usava um vestido azul elétrico cheio de brilho, seja de paetês, seja de tecido brilhante. Inclusive fez Shikamaru usar uma gravata da mesma cor, algo que ele reclamou bastante.
— Quer virar serva de Satã?
— Meu deus, Dei-Dei e Ino, que linguajar é esse? Vou conversar com sua mãe, mocinha. E saia de cima do pobre cabeludinho, está deixando-o desconfortável. – pobre mãe, se ela soubesse das putarias da sobrinha ela estaria apoiando levar Ino para um convento.
Mas Ino largou Shikamaru com relutância, sem graça, enquanto ele controlava um sorriso. Ela aparecera ali dizendo que iria me ajudar a me vestir, carregando Shikamaru a tiracolo. Dissera que fugira da mãe querendo tirar uma foto dos dois, o primeiro baile de debutante da filha, de acordo com ela. Na verdade, nossas mães pareciam bastante puras em relação à vida dupla dos filhos.
Ino fez uma cara feia para minha gravata ser um tom fechado de violeta-uva, algo assim. Mas eu estava feliz por ter trocado de cor preferida com Sasori, ele iria com uma gravata de um tom azul parecido com o vestido de Ino. Nem sei como consegui o feito, mas ele resmungara feio durante uns 3 dias sobre a escolha. Parecia ilógico alguém gostar tanto de azul ciano, na visão dele. E, na verdade, eu não entendi muito porque Ino estava de azul, sendo que ela amava lilás. Mas ela disse que Sakura iria de rosa e queria contrastar com ela, algum tipo de rivalidade sem noção.
O baile de primavera chegara suavemente, quase três semanas depois do evento da, hum, violência. Agradeci por isso, pois sobrara nada grave em meu rosto, mesmo Ino querendo me maquiar para deixar minha pele como de porcelana, o que rendeu mais ameaças entre nós. Quando sugeri para Sasori comparecermos, ele fez uma careta engraçada. Ainda estava lidando com “agir como um casal normal”, o que me fez encher seu saco por um bom tempo, querendo saber se ele nunca se envolvera com alguém a sério. Acho que a cara vermelha e irada dele dizia muito sobre tudo.
Quando ouvi a campainha tocar quase saí pulando sobre todo mundo para alcançar a porta.
— Seja menos idiotamente apaixonado, Deidara! – Ino alfinetou a tempo.
— Então pare de querer montar o Shikamaru toda hora, tarada! – ouvi a exclamação de minha mãe, o que me fez rir enquanto abria a porta.
Sasori me olhou sem entender, enquanto mantinha as mãos atrás das costas. Ele usava um terno também, exigido pela formalidade desnecessária do colégio. Mas ao ver a gravata eu tive que me segurar um pouco, querendo fazer diversas coisas ao perceber aquele azul reluzindo em meus olhos. Ele ficava infinitamente melhor de cores claras.
— Isso ficou muito bom. – puxei-o pela gravata, beijando-o. Sasori nunca tinha chance para com meus ataques, tsc. Mas ele nem tentava resistir, o que eu apreciava mais ainda.
— Eu que sou a tarada, não é?! – Ino gritou no meu ouvido, nos assustando. Quase vomitei meu coração, era hoje que eu faria ritual com boneca voodoo dela.
— Vai agarrar o Shikamaru, Ino. – a olhei feio, mas o constrangimento entre nós dois era indisfarçável. – Tchau! – acenei para minha mãe, empurrando Sasori para andar na minha frente. – Vamos, porca, dirija. – apontei para seu carro estacionado de forma horrível na frente de casa.
— Continua abusando que você vai se tornar a nova concubina de Satã. – ela ameaçou.
— Não esqueça da chave. – sorri, irônico.
— Da última vez você perdeu a chave no baile de boas vindas, realmente, não faça isso, princesa. – Shikamaru apareceu, segurando o molho de chaves com chaveiro de uma cabeça de Barbie toda rabiscada. Olha, eu fiz aquilo quando tínhamos 10 anos, justo com a Barbie preferida de Ino. Ela conseguiu cortar um pouco do meu cabelo naquele dia. Bons tempos.
— Uau, você ainda mantém isso? – apontei para a Barbie decapitada.
— O mais puro amor entre primos. – ela sorriu, o que me fez sorrir também. Ela fechou a cara e pegou o celular que vibrava do meio dos seios. Infernos, como ela conseguira fazer aquilo sendo que era um decote tão apertado? – Eu estou indo, vaca, calma! – ela gritou, talvez para Sakura. – Vamos. Tchau tia! – saiu marchando para o carro, fazendo seus saltos ressoarem pelo concreto.
—Tchau! – Shikamaru e Sasori acenaram, sem muita chance, já que Ino estava quase correndo. Minha mãe parou na porta.
— Venham cedo! Fiz mais cheesecake para vocês! – ela piscou um olho para mim.
— Acho difícil isso acontecer. – Shikamaru levantou as sobrancelhas para Ino, entrando na frente. Ela apenas abriu aquele famoso sorriso tarado da família.
***
Não deixei Sasori me escapar na entrada, segurando sua mão firmemente. Sua mão estava gelada, o que era bom, porque a minha suava. Muita informação em apenas uma noite, claro que estávamos até andando de forma rígida para o ginásio, o local mais clichê para festas escolares. A garota vestida de verde que pegava os ingressos sorriu para nós dois, o que me fez soltar o ar com força. Sempre haveriam os apoios e a rejeição, sempre de mãos dadas, Deidara. E houve os olhares mal encarados, mas eu me fechei a eles. Nada poderia estragar aquela noite.
Sakura apareceu na nossa frente, vestida com um rosa suave longo, o que contrastava com seus cabelos pintados de um rosa bem forte.
— Quanta demora! Vamos nos divertir, anda! – ela correu para Sasuke, também usando um terno, só que com gravata rosa. Ele parecia tão tenso quanto Sasori.
— Quer dançar? – perguntei. Ele arregalou os olhos.
— Eu não danço.
— Ótima hora para aprender.
— Deidara. – ele reclamou.
— Sasori. – sorri brilhantemente.
— É só que... – ele respirou fundo, me deixando ver o receio em seu olhar. Levei minha mão livre até sua bochecha, fazendo-o parar de olhar ao redor e focar em mim.
— Eu também estou me cagando. Mas estamos juntos nisso, não? – desde quando eu arranjara as palavras certas a se dizer? Merda, eu ficava bom naquilo.
Ele ainda manteve um medo nos gestos quando o arrastei até a pista, seguindo Ino e Shikamaru. Por sorte estava lotada já, tendo chegado meio tarde para o baile. E mais sorte ainda por tocar uma música lenta. Eu não ia dizer que eu também não sabia dançar, apenas uma vez fui obrigado a fazer aulas de dança com minha mãe, mas desistira na primeira semana. E olha que começamos com valsa.
Ele ficou de frente para mim e sorri de leve.
— Olha a diferença de altura. – apontei para nossas cabeças se desencontrando um pouco.
— Três fodidos centímetros... – ele começou a rosnar, já estava aprendendo comigo como a agir como um animal quando zangado, mas aí percebeu que eu estava só provocando. E ele nem percebeu, pelo menos não de cara, que eu enrolara meus braços em seu pescoço e ele abraçara minhas costas.
Iniciei os movimentos sem muita segurança. Ele encarou nossos pés, focando bastante em me imitar. Ficamos dando dois passos para cada lado, mal nos movendo, aproveitando a suavidade da música e a incapacidade de Sasori de dançar. Apoiei a testa na sua, encarando-o sem reservas e sendo bem recebido. Aquela liquidez voltara aos seus olhos, quase enviando ondas de confiança e calma para mim. O que eu mais possuía naquele mundo era insegurança e impulsividade, era bom ter um contrapeso ao meu lado para me frear. Mas não totalmente. Mesmo eu querendo ficar calmo e apenas aproveitar o momento, fiz meu rosto se aproximar mais, deixando nossos lábios apenas roçarem. Acho que Sasori esqueceu o mundo ao redor, pelo menos durante aquele instante, o que eu tinha que aproveitar, claro. Mas apenas rocei os lábios, uma brincadeira provocativa idiota típica. Quando ele se aproximou, buscando mais, me afastei, sorrindo.
Ele me olhou feio, o que me deu mais vontade de rir, mas voltei ao lugar. Apenas para ele tentar me beijar e eu me afastar novamente. A determinação tomou conta dele, suas mãos segurando meu rosto em cada lado, me prendendo e me beijando. Ele tomando controle era igualmente gostoso, deixava mais equilibrado, eu com minha impulsividade, ele com as ideias bem planejadas. Mas o ritmo foi calmo, se comparado à impetuosidade que levou ao beijo. Sem muito foco na exploração, apenas mantendo o contato entre os lábios, testando novos encaixes entre nossas bocas.
A taquicardia se manteve, mas todo o ambiente colaborou para o relaxamento de ambos. Senti os dedos de Sasori se enroscando em meu cabelo, o que me fez ter certeza de que ele realmente gostava dele. Ino tentou prendê-lo, mas insisti em que o mantivesse em um rabo de cavalo não muito alto. Aquilo me fez sorrir por entre o beijo, o que o fez parar e me olhar com curiosidade.
— Meu cabelo. – falei baixo, me divertindo. Ele ficou vermelho, retirando a mão, mas mantive-a ali. – Pelo menos alguém que gosta dele. – comentei.
— Muitas pessoas gostam dele. – ele franziu a testa. – Sakura disse que ainda iria cortar uma mecha e fazer um ritual para fazer seu cabelo cair, já que ela o invejava, algo assim. Eu realmente nunca entenderei isso. – ele concluiu, confuso.
— Mas o que importa é que meu namorado gosta dele. – eu meio que tive um infarto mínimo dizendo aquilo, o que ele reparou muito bem, conseguindo ficar mais vermelho ainda, olhando para o chão.
— Namorado, huh?
— Namorado, hum-hum. – confirmei, levantando seu queixo e consequentemente seu olhar. Eu tinha que dizer aproveitando a impulsividade que dava coragem, mesmo que eu também ficasse tão vermelho quanto ele. – Acho que podemos passar para essa fase. — Ele concordou com um aceno de cabeça, aceitando a seriedade da coisa. – Então. – limpei a garganta, também querendo olhar para o chão, mas resistindo. – Aceita me namorar? – perguntei, tornando tudo mais oficial. O nervoso fazia meu estômago trocar de lugar com o coração, algo anatomicamente impossível, mas parecia muito real naquele momento.
O olhar líquido se infiltrou em mim.
— Claro. – confirmou.
— Pelo amor de Deus, diga em todas as letras. – ele fez uma careta.
— E-eu quero te namorar. – nunca o vi gaguejar, o que me deixou surpreso. Ele imitou a minha limpada de garganta.
Encontrei sua boca no meio do caminho, esse beijo sendo menos suave do que o anterior. A queimação interior piorou, pensei seriamente se pessoas nunca morreram durante o ato de se apaixonar, porque eram muitos sentimentos envolvidos e eles influenciavam todo o físico. Mesmo querendo vomitar o coração, o engoli e me concentrei apenas em beijá-lo. O conhecimento era bom, principalmente em relação ao que a pessoa gostava.
Mordi seu lábio inferior, puxando-o para mim. O barulho que ouvi, infinitamente mais baixo que o da música, me deixou mais surpreso do que antes. Sasori gemera. Eu nem percebi que o atacara até sentir que poderíamos estar ousados demais para uma maldita pista de dança do baile da escola. Senti-me bem perto de ir para um canto e piorar toda aquela situação, principalmente quando senti uma mão em meu quadril, especificamente meu bumbum, aproximando-me dele. Foi aí que o ato de “se tocar da realidade” foi mútuo. Afastamos-nos o bastante para dançarmos uma valsa bem longe e rígida. Eu precisaria de ir além da limpada de garganta naquele momento. A surpresa em nossa cara foi divertida, mas eu não estava muito no modo de rir. Puta merda, eu tinha que ver o que ia além da mordida e do gemido. Inclusive sentir um leve fluxo de sangue descendo suavemente para uma região entre minhas pernas era bastante inapropriado para a pista de dança do baile do colégio.
— Arranjem um quarto! – Ino gritou, sussurrou, perto de nós, abraçada a Shikamaru. Sua expressão me fez puxar Sasori para o outro lado da pista. Pelo menos o ato não parecia ter causado muita comoção ao nosso redor, muitos casais preocupados em se beijarem e manter o clima romântico causado pela música.
— Isso foi muito bom. – comentei, ansioso. Ele mal conseguia me olhar. – Sasori. – puxei-o para mim. – Quero fazer de novo. – ele conseguiu deixar o sorriso sair.
— Quanta impulsividade. – comentou, sua voz um pouco rouca.
— Tudo culpa sua. – avancei para morder seu lábio novamente. Ele ficou surpreso, engolindo em seco. – Droga, eu vou te fazer gemer de novo. – eu havia baixado o espírito de Ino Yamanaka ali, não estava entendendo muito bem que o dizia e fazia. Mas estava tudo muito bom, para eu conseguir interromper. E aquele olhar dele dizia que ele também não tentaria fazer isso.
— Acho que eu quem deveria tentar fazer isso. – sussurrou.
— Eu gostaria bastante de ver isso acontecer. – eu tinha feito tripas de laringe, pois estava cagando palavras a torta e a direita, um provocando o outro.
— Público demais para isso. – ele mal olhou para o nosso lado, voltando a mim. Na verdade eu poderia gemer só com a sugestão que ele fazia.
— Droga, vamos. – antes que eu tivesse a chance de nos enfiar em um lugar mais tranquilo, Ino materializou do nosso lado, nos assustando.
— Oi, Sasori. Oi, Deidara. – a expressão em seu rosto era assustadora, mas eu ainda queria arrancar sua alma do seu corpo através de um ritual de magia negra africana. – Estamos indo dar um rolé pela cidade, vamos?
— Porque diabos viemos para o maldito baile de primavera então? – rosnei, irado com ela.
— Porque não tinha aparecido um programa melhor ainda. – deu de ombros.
— Sorte sua que não é minha aluna mais. – Sasori disse, sombrio. Ela o olhou com receio pela raiva não explosiva dele.
— Tenha medo, muito medo. – afirmei,
— Vocês dois, não é uma boa ideia. – apontou, temerosa.
— Só porque agora duas pessoas podem te mandar para o Tártaro, a pior parte do Inferno, onde você vai agonizar até o fim dos tempos? – Sasori assustou até a mim.
— Okay, não precisa ir. – Ino saiu rapidamente, sua saia esvoaçando atrás de si.
— Ritual satânico em conjunto? – perguntei em voz baixa.
— Algo assim. – disse, franzindo a testa e voltando ao normal.
— O que diabos aconteceu com você, mas que foi bom pra caralho mesmo assim? – perguntei, ainda não conseguindo me recuperar.
— Tudo culpa sua. – sorriu, divertido. Pisquei. Engoli as palavras antes que saíssem de forma impuslvia, para variar.
— Vamos. – fechei sua mão na minha e fui atrás de Ino.
— Mas...
— Acho que pode ser divertido. Não é como se o baile do colégio fosse algo maravilhoso mesmo. – acenei, desprezando o redor. Parei, fazendo-o bater contra mim. – Mas é melhor estar cercado por quem nos acolhe. – falei, contente por pelo menos termos esse grupo que não nos rejeita. Ele relaxou e me acompanhou.
***
— Comer no Ichiraku’s, quanta originalidade, Ino. – soltei, mordaz.
— Oras, pelo menos todo mundo teve a chance de experimentar esse famoso milk-shake de café agora. – deu de ombros, se enrolando em seu casaco. – Mas que droga de primavera é essa do hemisfério norte que é quase tão gelada quanto o outono?! – gritou para o céu.
— Demora para as coisas descongelarem, princesa. Por isso sua nota está baixa em geografia? – Shikamaru provocou.
— Eu vou te matar, Nara. – ninguém levava a sério mais as ameaças de Ino para ele. Acho que ele mesmo nunca as levou a sério também.
— AH! Sinto que ainda posso comer mais um lámen! – Naruto disse, passando a mão sobre o estômago. Ele usava uma gravata laranja brilhante, algo que apontei para Sasori. Ele apenas soltou algo como “pessoas malucas que amam cores claras”.
— Você é um ruminante, come tudo que vê pela frente. – era surpreendente ver Sasuke falando algo. Mas pelo visto ele e Naruto possuíam uma rixa, algo que fazia Sakura brigar com ambos ao mesmo tempo para pararem com a infantilidade.
Antes que Sakura começasse, me virei para Sasori, que enrolava seu cachecol cinza escuro no pescoço. Realmente demorava até ocorrer o desgelo completo e o clima começar a esquentar bem, mas eu não queria que acabasse tão rápido. Pelo menos eu poderia abraçar Sasori, culpando frio, enquanto tentávamos andar com dificuldade pelo meu grude em cima dele. Por isso nem hesitei ao grudar nele, o mesmo já acostumara com aquilo.
— O milk-shake de café está ficando famoso demais. – ele resmungou, não gostando daquilo.
— Você é um floquinho de neve que adora ser diferente, não é mesmo? – sorri torto.
— Quando fica popular perde a graça. – afundou no cachecol.
— Hum, algo que esqueci de perguntar. Como você lidou com seu pai, após aquele, hum, evento? – perguntei. Ele ficou pensativo.
— Ele não ligou tanto assim. Apenas queria que eu não provocasse mais os outros.
— Provocar?! – me zanguei. – Mas...
— Ele ainda não sabe bem de todos os motivos e não vejo porque pô-lo à parte. Não há um interesse real de um pelo outro. – ele encerrou ali, se fechando um pouco.
Decidi não encher o seu saco sobre aquilo.
Os seguimos em silêncio, enquanto eles discutiam sobre comida e a capacidade do estômago. Os momentos de silêncio entre nós eram quase tão bons quanto os de provocação pura. Sasori era melhor demonstrando com ações do que com palavras, como quando ele também me abraçava, às vezes com mais força do que eu. Mesmo que ele amasse olhar o chão, era maravilhoso fazê-lo se soltar. E também me fazer parar com as dúvidas e confusões, tornando tudo mais certo e emocionante. Mas as ideias impulsivas permaneciam, como agora, ao puxá-lo para longe do grupo, atravessando a rua correndo e nos enfiando no parque onde ficava aquela pista de gelo de antes.
Ele já se acostumara também com minhas manias sem noção, aprendera a apenas me seguir e esperar para ver o que diabos eu inventara agora. Uma relação se construía muito bem ali, o que me deixava ansioso mesmo assim.
Nos sentamos no banco do parque, bem próximos, tentando aquecer as mãos. Olhei para o céu e vi que era uma noite limpa, pelo menos, mesmo com a poluição das luzes da cidade ainda dava para perceber algumas estrelas. Cutuquei Sasori, apontando para cima. Fingi seriedade extrema.
— Olha, ali está a Ursa Maior. – apontei uma estrela brilhante.
— Aquela nunca que é a Ursa Maior. – ele estragou minha tentativa de parecer um astrônomo amador.
— Droga, você não sabe nem brincar.
— Você que finge mal. – devolveu.
Puxei seu cachecol, enrolando uma ponta no meu pescoço também. Ele ficou olhando, tentando entender o gesto.
— Pra que isso? – questionou.
— Agora estamos ligados. – falei, como se fosse óbvio.
— Não tem muito sentido.
— Não é pra ter todo o sentido, Sasori.
— Você gosta demais de coisas sem sentido, Deidara. – balançou a cabeça, me reprovando.
— Mas você também gosta delas. – arqueei uma sobrancelha.
— Hum?
— Afinal, gosta de mim. – eu e minhas lógicas, realmente. Tudo para vê-lo sem graça. Ele sorriu torto, não me levando a sério. – Acho que vou começar alguma luta. – comentei.
— Porque? – ficou surpreso.
— Para me proteger. Nos proteger. Te proteger. – sorri, aumentando o sorriso ao ver uma cor se instalando em suas bochechas.
— É mais fácil eu conseguir aprender uma do que você.
— Diabos, porque?
— Você possui muita compaixão. –
— Isso me faz pensar em algo... Como você conseguiu o apelido de Demônio Vermelho? – aquilo deixou realmente constrangido. Ele tentou se afastar, mas o cachecol em seu pescoço o manteve grudado a mim. Ótimo cachecol, lindo cachecol. – Sasori?
— Eu entrei em uma briga no início do ano. Foi apenas isso. – ficou encarando os tênis. Só mesmo Sasori para usar terno e tênis surrado ao mesmo tempo.
— Eu ainda vou mexer nessa história. – ameacei em voz baixa.
— Estou esperando. – deu um sorriso contido. A compulsão por piscar voltou ao observá-lo ali, de terno, tênis, casaco e cachecol escuros. Apenas a gravata azul ciano destacando no conjunto. Eu não conseguia segurar muito bem as coisas, já era uma vitória eu ter conseguido até agora.
— Sasori. – chamei-o. Ele arqueou uma sobrancelha, me instigando. Suguei o ar com força. – Eu acho que... Hum, te amo. – soltei junto com a respiração, definitivamente a coisa mais séria já dita por mim. E com um peso muito grande. Deve ter sido culpa do milk-shake de café.
Sasori sorriu de forma calorosa antes de morder os lábios, voltando a encarar o chão. Havia muitas pessoas constrangidas naquele banco. Mas sua mão encontrou a minha e a apertou, transmitindo confiança.
— Eu sei. – disse, o que me fez liberar tudo pela raiva.
— Você não é Han Solo para soltar um “eu sei” depois da maior confissão da minha vida! – esbravejei, irado. Ele gargalhou-roncou, quebrando todo o clima. Sasori não possuía nenhuma chance contra mim, mas eu possuía menos ainda contra ele. Droga, ele me quebrava demais. – Eu vou te enforcar.
— Antes de eu dizer que é recíproco? – ele me quebrou de novo, dessa vez sem encarar o chão, mas ainda se divertindo. Meu coração perdeu uma batida e eu apertei o terno sobre ele.
— Nunca mais faça isso comigo. – tentei voltar a respirar com ritmo normal, mas eu corria um sério risco de infartar ali.
— Mas é muito engraçado. – bateu sobre nossas mãos fechadas com sua mão livre, tentando me acalmar.
— Pois bem, agora vai ter que dizer com todas as letras também. – aquilo o deixou sério. Ele teve que respirar tão fundo quanto eu.
— Eu também acho que te a-amo. – puta merda, ele gaguejou de forma quase imperceptível, mas nada escapava à mim.
Dei meu famoso pulo de predador sobre ele, beijando-o com força. Sasori quase caiu do banco, me levando com ele, mas conseguimos nos segurar. Ele parou o beijo para soltar seu riso roncado, me olhando com uma expressão estranha. Desviou sua boca para meu pescoço, beijando ali. Sua respiração quente me arrepiou quase tanto quanto sentir seus lábios tocando minha pele levemente, puxando meu cabelo para fora do caminho, me fazendo me contorcer. Quase rasguei seu casaco, puxando seus ombros com força, engasgando. Todo o sangue do meu corpo fora parar no meu rosto, claro, aquilo não me ajudava a me recuperar do ataque anterior. Consegui me afastar, quase caindo do banco de novo, dessa vez sozinho. O sorriso no rosto de Sasori era demais para meu cérebro confuso.
— Merda, quase foi. – entendi a alusão à conversa de horas antes, sobre gemidos. Engoli em seco com força, nervoso.
— Puta que pariu, você me assombra às vezes. – disse, ainda abalado.
— Não tanto quanto você me assusta. – ele levantou as sobrancelhas. Aquilo ligou meu interruptor, me preparando para a vingança.
Puxei seu lábio inferior com força, o fazendo agarrar meus braços como garras. Ele me beijou com impetuosidade, e eu nem sabia que sua língua poderia se enroscar daquele jeito na minha. Puta merda, parecia quase uma simulação de sexo oral ali, o que nos deixou depois com o rosto pegando fogo e sem graça. Mantivemos as mãos unidas, sorrindo, mesmo que meu celular vibrasse com toda a intensidade no meu bolso. Obviamente Ino estava me enchendo para saber onde nos enfiáramos. Nem me pagando eu ia deixar ela quebrar o momento.
Permanecemos olhando para o céu, enquanto Sasori brigava e tentava me ensinar quais as constelações corretas, sendo que eu não via nenhum desenho ali, realmente. Falei que era mais fácil ele me ensinar a desenhar uma cadeira parecida com uma cadeira do que identificar constelações. Ele apenas suspirou, resignado.
Me afundei em seus braços, deixando-o me abraçar e aproveitando seu calor. Foda-se Ino, naquele momento estávamos ocupados demais nos apaixonando para aturá-la.
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