Painting Flowers
7 Dia 4 - Nine In The Afternoon
Notas iniciais
Arthur deveria estar em pânico. Ele deveria estar correndo pelas paredes, arrancando os cabelos e gritando em frustração. Então por que, se perguntou, por que eu estou tão calmo? O britânico estava sentado no sofá encarando o teto sentido-se mais relaxado do que em anos. Na verdade, parecia muito mais anestesiado do que pacífico. E talvez fosse isso, talvez o seu pânico fosse tão grande que havia entrado em algum estado de choque ou coisa parecida. Era a única solução racional que conseguia pensar.
O britânico mal havia dormido, havia passado grande parte da noite olhando distraidamente para as paredes, sua mente viajando a mil por hora. Ele pensou em tudo, em Alfred, sobre voltar para casa, nas nações, em sua vida, tudo. Mas principalmente em Alfred. Não tinha a mínima ideia sobre o que deveria fazer a respeito de sua relação inexistente no quadrante amoroso com o americano. Não sabia se devia corresponder ao que pareciam ser avanços, se devia agir com normalidade, ou então esquecer qualquer sentimento que sentisse por ele porque, convenhamos, não daria certo.
E em algum momento de seus devaneios, pelo visto, sua mente havia pifado e entrado num estado de torpor.
- Era o Matt, ele e Francis vão chegar um pouco mais cedo hoje e queria saber se vamos jantar juntos. Eu disse que sim. — O protagonista de seus problemas disse voltando da cozinha e pondo o telefone na base.
Arthur concordou e deixou qualquer comentário sobre Francis de lado. Ele bocejou enquanto o americano se jogou no sofá ao seu lado e depois virou a cabeça para encarar a caneca de café em suas mãos. O cheiro não era tão ruim. Arthur apontou sonolento para ela e perguntou:
- É bom? — sua voz soou um pouco mais pastosa do que pretendia. Ele não estava realmente ligando muito para aparências no momento, ou nas últimas doze horas horas no mínimo. Sentia-se mais do que confortável de pijama e descabelado na sala de Alfred. E ele conseguia imaginar outras situações em que se sentiria a vontade descabelado e desarrumado em partes da casa do americano. Não. Não, Arthur, nada disso.
Alfred o encarou por alguns segundos antes de responder:
- É com certeza melhor que o seu chá.
O inglês deixou um riso sonolento que mais soou como se estivesse drogado — escapar antes de pegar a caneca e experimentar um gole. A bebida quente desceu queimando um pouco sua língua e garganta, o gosto era amargo demais, não era como se nunca tivesse tomado café antes, é só que esperava que o café de Alfred fosse diferente dos outros. E era de uma certa forma, um gosto doce ficava depois do amargo e dava vontade de continuar bebendo. Sentido-se um pouco mais desperto, Arthur devolveu a caneca para o americano.
- Desde quando você gosta de café?
- Não gosto foi só o que disse.
Se fosse um humano, tinha certeza de que a resposta para suas dúvidas em relação a Alfred seria: faça logo o que quer fazer, a vida é muito curta. A questão era que Arthur era uma maldita nação, ele não iria morrer. Pelo menos não tão cedo. Já estava farto de todo aquele acumulo de erros que havia cometido e alias, seus líderes haviam cometido em seu nome e o iriam perseguir por séculos. Com o novo milênio todos os outros países pareciam ter decidido fazer o que bem entendessem e esquecer todo o sofrimento e culpa. E a desculpa deles não era a vida é curta e sim: a vida é muito longa para só ser cheia de tristezas. Arthur concordava totalmente com eles, já estava pronto pra jogar os erros embora e começar uma nova vida como uma nova nação, uma nova pessoa. Contudo, ele só não conseguia!
Achava que talvez, se tomasse coragem e resolvesse de uma vez sua situação com Alfred, conseguiria seguir em frente. Talvez conseguisse, mas para começo de conversa esse primeiro passo de desdobrar sua vida amorosa parecia impossível de ser dado.
Perdido em pensamentos, ele não viu a nação mais nova o observando.
- Artie, você está bem? — O estadunidense ficou em silêncio por um tempo, tentando encontrar as palavras certas: — Desde aquele dia em que você caiu dormindo no meu sofá... Aqui. É que, você não me parecia muito bem. Talvez até meio doente.
Arthur moveu a cabeça o suficiente para encarar os olhos azuis do americano. Se perguntou se deveria contar ali mesmo, parecia um ótimo momento, mas não. Ainda não. Só mais um pouco, ele pedia a si mesmo, só mais um pouco com ele antes de eu estragar tudo. Sequer sabia se conseguiria aguentar até o fim do dia.
Pela primeira vez ele notou que amava mais Alfred do que achava. Amava o suficiente para sentir seu coração se apertar e algo dentro de si esquentar pela simples visão do americano daquela forma. Sentado, bloqueando a luz da manhã que vinha da janela, os cabelos loiros parecendo brilhar e os olhos azuis tão ridiculamente claros colados nos seus.
Ele parecia preocupado.
- Por acaso está preocupado comigo? — deixou escapar.
A indignação na expressão de Alfred puxou o inglês para fora de seus devaneios:
- Não, imagine, eu quero mais é que você caía morto. Que diabos você acha? Mas é óbvio que me preocupo com você, Arthur! Achei que, sei lá, estivesse óbvio? — Disse com uma irritação que ate então era desconhecida para o britânico. Ele suspirou e passou a mão pelo rosto, tentando se acalmar, então voltou a falar normalmente. — Você está bem ou não?
- Estou. Estou ótimo. — murmurou.
Alfred se inclinou e pousou uma das mãos no rosto do britânico. A mão quente que cobria desde sua têmpora até parte de seu maxilar era tão confortável que sentiu-se inclinado a se esfregar contra ela. Os olhos azuis pareciam rastrear algo em seu rosto e Arthur não soube dizer se acharam ou não.
- Você devia confiar mais em mim. — Alfred empurrou o corpo para frente para se levantar, mas antes depositou um beijo na testa do menor, então se virou e foi para a cozinha.
Não é justo, Arthur pensou ainda jogado no sofá com as faces corando e o coração acelerado, não é nada justo. Pressionou seu rosto contra o encosto macio antes de correr na direção do banheiro.
Como ele iria suportar mais quatro dias?
De tarde, foram alugar as fantasias. O dia estava muito melhor, o céu estava parcialmente limpo e tirando o vento gelado, a temperatura estava agradável. A loja que foram era espaçosa e estava, para a surpresa de Arthur, quase vazia. Ele esperava encontrar o lugar lotado de pessoas que haviam deixado para comprar suas fantasias na última hora, como eles.
A vendedora no caixa que lia um livro qualquer enquanto mascava um chiclete apontou a seção masculina e voltou a sua leitura.
- Esse lugar é enorme Arthur comentou olhando os corredores compridos com cabideiros cheios. — Acho que nunca vi tantas fantasias num lugar só. Por que está tão vazio?
Alfred deu de ombros, mas um sorriso suspeito estava em seu rosto.
- Vai saber.
Cada um foi para um canto da seção, vasculhando os cabideiros em busca de algo bom que com sorte nenhuma outra nação fosse usar. Arthur só encontrava clichês: zumbi, múmia, frankenstein... Quem diabos se veste de bombeiro no dia das bruxas?
- Hey, Artie! — Ouviu Alfred chamar do outro lado. Levantando a cabeça, deparou-se com o americano com um enorme sorriso no rosto e segurando o que parecia ser uma fantasia de enfermeira curtíssima. — Que tal essa?
- Tem certeza que quer ouvir minha resposta? — perguntou Arthur revirando os olhos.
Alfred riu e devolveu a fantasia ao cabideiro.
Voltando a sua busca, o britânico teve mais sorte. Não havia achado nenhum conjunto bom, contudo havia separado algumas peças de roupas de fantasias diferentes e o resultado parecia promissor. Foi até um dos trocadores no fundo da loja e experimentou sua criação que, de fato, não havia ficado nada mal.
Uma blusa preta e branca listrada com um colete e uma capa azul escura, uma calça preta, uma mini-cartola da mesma cor da capa e, para completar, um pequeno par de asas de morcego nas costas. Estranho, sem dúvida. Mas bom para uma festa de Halloween em Nova York.
Satisfeito consigo mesmo, voltou a se despir e já estava terminando de tirar as calças quando ouviu um barulho às suas costas. Arthur congelou, ele sabia muito bem o que era aquilo. Era o som das cortinas do trocador sendo abertas.
Com o rosto queimando olhou para o espelho a sua frente e viu o reflexo de Alfred parado bem atrás de si, com as bochechas coradas e uma expressão abobalhada.
Arthur ficou parado atônito por alguns segundos, sem saber o que fazer além de encarar o espelho com choque. Alfred estava quase da mesma forma, seus olhos iam do reflexo de Arthur até suas costas ou, como o britânico tinha quase certeza, sua bunda.
E após uma eternidade de silêncio constrangedor o americano conseguiu articular a fala mais propícia para o momento:
- Oh.
Arthur se virou e tentando se cobrir com sua capa, disparou um bolo de palavras que soaram como Oh meu deus saia daqui e empurrou Alfred para longe, fechando a cortina do trocador em seguida.
O britânico então se enfiou em suas roupas com pressa, apanhou sua fantasia e marchou para fora do trocador, sem olhar duas vezes para os lados para se ver se Alfred continuava ali.
Ótima forma de continuar com sua visitar, Arthur, falou para si mesmo, aparecer seminu em público na frente da sua fonte de problemas. Perfeito.
Notas finais
A musica é: Nine in the Afternoon - Panic! At the Disco
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