Pacto No Desespero
8 Capítulo 07
As aves noturnas ecoam seus cânticos, competindo contra a canção dos insetos, em meio ao breu da noite. O vento vindo do mar, chacoalha as copas das árvores, fazendo seus galhos finos e grossos rangerem ao se curvarem a sua força.
A névoa branca espreita ansiosa encobrindo a grossa camada de folhas secas no solo, ameaçando se erguer e envolver tudo em sua cor.
O frio torna-se intenso, a cada momento em que a noite se prolonga.
Exausto, ferido e dolorido, rastejo para o meio de um arbusto grande. Cujas longas e cerdosas folhas fornece a camuflagem perfeita e uma cama em potencial.
Desabo e sinto alívio no mísero calor que a planta pode preservar em meu corpo. Minhas pálpebras pesam, à medida que o sono me ronda e, sem aviso, caio na tentação da sua doce promessa de alívio.
Quando volto a abrir meus olhos, minha roupa está seca, e o sol brilha soberano ocupando seu lugar eracular no topo do céu.
Aturdido, sinto a forme queimar meu estomago e, levo a mão sobre ele, sentindo-o grunhir em protesto. Com dificuldade, pelo meu corpo coberto de cortes recentes, me rastejo para fora do arbusto.
Já de pé, me espreguiço, e me maldigo logo em seguida, pois com o ato, aticei a dor adormecida de minha feridas.
Alimento é a primeira coisa que vem a minha mente como prioridade. Pois sem ele eu não vou conseguir chegar ao final do dia, com forças para caminhar.
Olho a procura do meu espírito, mas não o encontro. Então deduzo que ele sumira, assim como todos os espíritos, depois de serem invocados por seus metres. Cogito na possibilidade de invocá-lo, mas logo afasto a ideia, pois precisaria de todas as minha forças, para conseguir alimento no bosque.
Olho ao meu redor à procura de respostas, mas é de fato inútil. Sem qualquer ponto de referência a vista, não é possível para mim identificar em qual dos 3 bosques da Ilha da Caldeira eu me encontro. Pois a montanha, que do alto fui jogado como um saco de lixo pelo meu pai, fica exatamente onde a fronteira dos 3 se encontravam.
Olho novamente ao redor, e a poucos metros vejo uma pinha verde caída no chão e rapidamente corro ao seu encontro. E ávido como um animal que não é alimentado à dias, abro sua mole casca com os dentes e a devoro, sem me importar com caroços, casca ou uma possível larva de algum inseto em seu interior.
A forme persiste, porém com algo para meu estomago se ocupa, um leve animo me impulsiona a continuar pela promessa de uma futura refeição. Tento procurar alguma outra pinha pelo local, quando sou surpreendido por um enlace gélido que envolve meu pé.
— Pensei que havia desaparecido. Não é normal o espírito retornar, seja lá para onde eles ficam, quando seus mestres estão inconscientes?
— Tanto eu como seu outro espírito não nos limitamos a essa deficiência, de retornar ao Mar da Alma, quando nosso mestre está desacordado.
— O que é o mar da alma?
— É o lugar onde sua vida e poder se condensam formando um oceano onde sua alma repousa.
— Não sei si entendi.
— Um dia irá.
— Eu não sei se isso é bom ou ruim. Mas de qualquer forma, onde você estava? Quando acordei eu não te vi.
— Me alimentando!
— Se alimentando, vai me dizer que você achou algum núcleo de besta perdido por aqui? — Pergunto, descrente.
— Não, eu me alimentei de outra maneira.
— Espera um pouco, comumente espíritos são mantidos através da energia vital de seus mestres ou com núcleos de Bestas Demoníacas. Você se alimentou de outra forma, como isso é possível? — O indago me recordando das muitas lições que eu ouvia escondido, do ancião Clartis.
— Seu espírito de pedregulho salvou sua vida ao se alimentar da força vital de peixes, e como seu segundo, eu possuo essa mesma habilidade. Por isso, enquanto dormia, me alimentei da vitalidade de alguns pássaros.
— Nossa, nunca ouvi de espíritos que conseguem fazer isso.
— No meu tempo espíritos que possuíam essa propriedade eram extremamente raros de se encontrar. E se você nunca ouviu falar, presumo que ainda continuam raros.
— Eu não sei se isso é sorte, ou azar. Desperto dois espíritos, mas um deles sem vida. Um do tipo animal, outro do tipo feramente, mas de baixo nível. E agora ambos possuem essa habilidade rara.
— Seu despertar foi especial.
— Tão especial. — Ironizo, e me recordo do que ocorrera. — O druida que realizou o Ritual do Despertar, disse que nunca vou conseguir chegar nem perto do ESTABELECIMENTO DE FUNDAÇÃO por toda a minha vida. — Faço uma pausa, e continuo. — Isso é verdade? Pergunto engolindo em seco.
— Ainda não percebeu?
— O que exatamente?
— Quando me tornei teu segundo espírito, sua energia espiritual cresceu exponencialmente. Agora você está no DESPERTAR 8 ESTRELAS.
Aturdido caio no chão, pelo choque da notícia.
Neste novo mundo, na qual fui encarnado, depois de morrer na Terra, toda criança que passa pelo Ritual do Despertar acorda seu espírito, algumas seguem com uma vida normal depois disso, já outras optam por seguir o árduo caminho do cultivo em busca de poder e fortuna, se tornando mestres espirituais.
O cultivo é uma estrada infinita em busca do impossível, aquilo que desafia todas as leis da natureza, a imortalidade. Por isso os mestre espirituais absorvem a energia do céu e da terra e aprendem habilidade celestiais, para ficarem cada vez mais fortes.
Na hierarquia de poder dos mestres espirituais, a força espiritual é dividida em reinos e, dentro destes, em estrelas.
Todos os mestres espirituais assim que despertam seus espíritos começam no REINO DO DESPERTAR, e a medida em que seu poder vai crescendo, agrega-se estrelas ao seu nível. Estas estrelas são inumeradas de 1 à 9, quando alguém alcança a 10 estrela, seu cultivo ultrapassa seu reino atual, e progride para o próximo.
Despertar
1 x 9
Estabelecimento De Fundação
1 x 9
Refinação Da forma
1 x 9
Refinação Do Poder
1 x 9
Compreensão Do Espírito
1 x 9
Reino Mortal
1 x 9
Reino Terreno
1 x 9
Reino Da Ruptura da Terra
1 x10
Reino Do Céu
1 x 9
Reino Celestial
1 X 9
Reino Do renascimento
1 x 9
13 — Reino Imortal
1 x 9
Há sábios que afirmam que somente quando se alcança a imortalidade é onde o verdadeiro caminho do cultivo espiritual começa.
E para mim, que depois do meu Ritual do Despertar fui rotulado de lixo, chegar no nível em que meu espírito afirma que cheguei, com apenas 6 anos, é um avanço extraordinário. Irreal demais para acreditar.
— Como isso é possível?
— Quando queimei a essência do meu espírito para ter forças para travessar o selo, e reencarnar no corpo do vazio do teu espírito, uma pequena fração da minha energia foi absorvida pelo seu mar da alma. Fazendo com que você rompesse os limites e ter um grande câmbio de poder.
— Quem é o lixo agora! — Grito a plenos pulmões, em um pulo, e ergo o punho fechado para cima.
— A mediocridade te conforta?
— Mediocridade? Como eu posso ser medíocre, se já estou nesse nível?
— Há pílulas que fazem qualquer criança que passe pelo Ritual do Despertar alcançar as portas do ESTABELECIMENTO DE FUNDAÇÃO.
— Mesmo que essas pílulas realmente existam, elas são celestiais, tais medicamentos divinos não são fáceis de conseguir.
— Acha que a jornada do cultivo é tão simples. Há seitas e clãs onde essa pílula, que para você é um medicamento divino, é comumente distribuída a todas as crianças, antes do despertar. E a maioria delas, desperta seu espírito já no REINO DO DESPERTAR 09 ESTRELA.
— Então quer dizer que...
— Se deseja ser grande, deve enxergar além dos limites desta terra.
— Tem razão...- Digo e dou um tapa em minha face com força. — É difícil de conciliar duas vidas, por um momento deixei minha parte débil me dominar, mas isso nunca mais irá acontecer. Pois não me contento com nada menos que o topo.
O espírito, move-se ao passo que aperta levemente meu pescoço, e se desvencilha dele, intentando chegar novamente ao chão.
— Nossa energia está muito baixa, irei continuar procurando por mais fontes de alimento.
— Além de agir de forma independente a minha vontade, também consegue se afastar para longe de mim.
— Não consigo me afastar mais de 10 metros de distância de você, se eu ultrapasso esse limite, meu corpo desaparece, e sou novamente absorvido pelo seu mar da alma.
— Bom saber disso.
— Quando seu cultivo crescer, acredito que a distância que poderei ir deve aumentar.
— Pretende me abandonar?
— Eu sou seu espírito, não há lugar para mim que não seja junto a ti.
— Isso me tranquiliza um pouco. Pois assim diminui as chances de você me trair. — Especulo, e vejo a cobra direcionar suas orbes brilhantes em minha direção.
— Você não confia em mim.
— Não leve para o lado pessoal, tenho experiências demais para saber que a confiança só te leva em direção à morte. — Respondo me relembrando de inúmeras situações que passei na Terra.
— No momento em que me tornei teu espírito, nos tornamos um só, de corpo e alma. Não há como desfazer isso. Permaneceremos juntos, até mesmo além da morte. A traição nunca existirá entre nós.
— Dizendo dessa forma, me sinto tentado em acreditar.
— Deixe que minhas ações falem por si mesmas.
— Ta bom então. — Me dou por vencido. — Mas mudando de assunto, já que você não quer me falar seu nome, como irei te chamar?
— Me chame da forma que mais te agradar, eu não me importo.
— Certo, você irá se chamar. — Faço um pausa enquanto reflito entre muitas possibilidades de nomes. — Loki, vou te chamar de Loki.
— Loki. — Sussurrou a cobra subindo em uma árvore.
— Prazer em conhecê-lo Loki, eu me chamo Gnar. — Me apresento em uma reverencia, irônica, e me ponho a procurar por mais pinhas doce no chão.
Por mais folhas e galhos que eu mexa no chão, não consigo achar nenhuma outra fruta em bom estado. Pois as que encontro estão completamente podres, com mais larvas do que suas polpas podem alimentar.
Me frustro, por não conseguir mais alimento, e quando estou prestes a sair do local, paro, e sinto uma estranha sensação de satisfação, muito maior do que a pinha que comi. Estranhei, e por um momento me coloco a refletir confuso sobre.
Alguns galhos chacoalham em cima de mim derrubando do topo da árvore um vulto negro aos meus pés. Assim que meus olhos assimilam a forma negra, vejo Loki com suas presas enfiadas no lombo de um corvo, enquanto seu corpo o envolve em um aperto mortal.
Me agacho, para testemunhar a cena mais de perto e noto que diferente das cobras comuns que matam por constrição ou veneno e depois engolem suas presas inteiras, Loki parecia mais uma aranha. Pois a cada segundo o corvo se tornava cada vez mais magro, como uma bexiga que vai perdendo seu ar, ao passo que as escamas ónix de Loki ganham uma tonalidade mais brilhante.
Não demorou muito, e quando penso que ele abandonaria o corvo seco, este se desintegra e vira pó, que se perde ralo entre as muitas folhas do chão.
— Você é uma cobra ou um vampiro? — Pergunto ainda descrente do que vi.
— Não tenho conhecimento do que é um vampiro. Porém eu não sou uma cobra, sou um espírito.
— Isso foi bizarro, mas legal. — Digo me levantando. — Quantos bichos você já comeu?
— Com este corvo, foram 3 ao todo.
— Nossa, e ainda não está satisfeito.
— Eu não estou comendo para mim, e sim para ti.
— Acho que entendo agora o motivo de não estar sentindo tanta fome. — Indago, e me escoro no tronco de árvore perto de mim, enquanto dirijo minha atenção a cobra preta de olhos brilhantes próxima a meu pé.
— Precisamos encontrar suprimentos.
— Estou pensando sobre isso. Não posso permanecer neste bosque, a qualquer hora pode aparecer uma Besta Demoníaca e me matar. Também não posso ir para nenhum cidade, pois todas estão sob domínio ou influência dos Marlleos e caso meu querido pai fique sabendo que não estou morto, ele me fará de alvo e logo toda a ilha estará me caçando como um animal.
— Por que seu pai deseja sua morte?
— Tirando o fato que ele me culpa pela morte de minha mãe, de que eu não seja forte como meus outros irmãos e que desgracei a honra do clã ao despertar 2 espíritos de baixo nível, sendo que um era praticamente inútil, por não ter vida. Ele me odeia, porque é um desgraçado filho da puta que não hesitaria nem por um minuto em estrangular um bebê se isso fosse lhe render algo.
— Entendo. — Afirma, subindo em cima de minha perna e logo depois para com sua cabeça em cima do meu peito. — Para fazer com que todo o clã te cace, a posição de seu pai deve ser bem alta.
— Ele é o patriarca.
— A força dele está em que reino?
— Eu não sei, mas já vi ele voltando sozinho de caçadas trazendo consigo Bestas Demoníacas de NÍVEL 3 abatidas.
— Se ele consegue matar Bestas Demoníacas de NÍVEL 3, sua força deve estar próxima da REFINAÇÃO DO PODER, ou superior a esse reino.
— Eu não posso ficar nessa ilha, ou estarei assinando minha sentença de morte. Tão pouco desejo ir para fora do arquipélago, antes de conseguir minha vingança. Por isso preciso encontrar uma forma de ir para outra ilha.
— Seu antigo clã, é poderoso?
— Sim, ele é o mais forte da Ilha da Caldeira onde estamos e um dos mais fortes do Arquipélago Das 7 Ilhas.
— O melhor caminho a ser tomado seria ir para o continente. Pois se esse clã é tão forte assim, sua influência deve atingir todas as ilhas. Não haverá lugar seguro para nós aqui.
— Você está quase totalmente certo, pela exceção de uma coisa. Há uma ilha onde a influência dos Marlleos é nula. A Ilha das Bestas.
— Se seu nome fazer jus ao lugar, está ilha é governada pelas Bestas Demoníacas.
— Sim, a ilha das bestas é a maior ilha do arquipélago, mas totalmente inóspita para humanos. Por isso é o lugar perfeito para você me treinar. Já que afirmou que era um cultivador imortal, antes de ser selado.
— Vejo que recorda muito bem das minhas palavras. — Disse e se aproxima de mim, ficando a centímetros de minha boca, e com a ponta de sua língua bifurcada toca meu lábio inferior. — Eu irei ensina-lo. Porém você derramará suor, lágrimas e sangue para aprender minhas lições. Você está disposto a isso?
— O fácil rende trocados, mas é o difícil que te leva a fortuna. Eu já sei disso há muito tempo, não importa os meios eu sempre consigo o que eu quero.
— Você tem o coração determinado de um cultivador. Sob meus ensinamentos você crescerá.
— Em uma situação normal eu me ajoelharia até minha cabeça tocar o chão e diria: este discípulo saúda o mestre. Mas como você é meu espírito, não sei se essa regra se aplica. Mas em todo caso, se você quiser eu posso fazer sem problema algum.
— Não há necessidade de formalidades. Pois já não sou mais o que eu era.
— Se arrepende?
— Fiquei 10 mil anos preso, atormentado por milhares de almas mortais, clamei muitas vezes aos céus para por algo que pudesse me libertar. Finalmente, depois que eu já tinha desistido, como uma resposta as minhas preces, você apareceu – Da uma pausa e continua. — Quando me pergunta se estou arrependido de ter me tornado seu espírito, minha resposta é somente uma. Não.
Ao ouvir suas palavras firmes, acaricio seu corpo esguio, e sinto a suavidade mármore das escamas que o reveste.
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