Pacifista em Underfell
2 Flowey, a Sofrida Flor
Notas iniciais
Ow, não me lembrava de quando foi que desmaiei, a queda deve ter sido realmente alta para me fazer perder a consciência em pleno ar, mas não pensei muito sobre esse tópico, a minha curiosidade me assaltou assim que acordei sabendo exatamente onde eu estava agora: O Subterrâneo.
Eu havia caído de barriga para baixo, o que me fez primeiro levantar a cabeça e espiar, para então sentar-me.
Estava ainda escuro ali, não dava para ver quase nada. Porém, não foi isso o que me espantou, foi o fato de meu corpo começar a tremer e meu coração bater quase tão forte quanto estava batendo no salto da fé. Não gostei de saber que ainda tinha um pouco de medo do escuro, por isso tratei de me levantar para sair dali o mais rápido possível.
No entanto... Na hora de colocar a mão no chão para me levantar, percebi que deixei de lado o fator mais importante de toda esta situação. Era o por que de eu continuar ileso após uma queda tão alta.
Foram as flores.
Flores douradas acolchoando o chão como se fosse uma pequena cama. Sorri com a beleza daquilo, mesmo que não pudesse vê-las direito. E para crescerem num chão tão sólido e gelado, sem luz solar, conclui que eram mágicas, colocadas por alguém que talvez soubesse que seria perigoso para quem caísse ali, e se só haviam monstros no subterrâneo... Quer dizer que as minhas suspeitas estavam certas! Monstros não podem ser tão maus!
Com a minha Determinação revigorada e um novo calor em minha alma, levantei-me completamente e andei devagar, com as mãos estendidas na minha frente, para encontrar a saída dali.
Para o meu alívio, logo vi luz saindo da próxima sala e entrei com confiança, olhando para cima e para os lados, encantado com a cor daquelas rochas. Até que uma pequena voz fez-me parar onde eu estava.
—H-Humano... O que está fazendo aqui...?
Procurei o dono da voz. Foi quando vi, com espanto, que ele era a pequena flor dourada no centro do local, com a face levemente abaixada na direção do solo, como se murchasse, mas ainda espiando-me por de trás das pétalas levemente chamuscadas. Sua expressão era de sofrimento.
Fiquei nervoso para responder, afinal, era o primeiro monstro que eu via em toda a minha vida... E eu já me sentia muito mal por ele, um monstro triste não era o que eu esperava ver. Quero dizer, é claro que eles devem ser tristes, presos aqui e tudo isso, mas... esse não era o problema com essa flor, não é mesmo? Tinha algo a mais, uma preocupação excessiva e ansiedade sem igual, dava quase para sentir sua aura desesperadora daqui.
—Hm, oi, meu nome é Frisk. Qual é o seu?
Ele me lançou um olhar ainda mais deprimido.
—Meu nome é Flowey... a flor. Frisk, não é? — Ele me viu assentir — Por que veio para cá? E-Este não é o melhor lugar para se estar...
—Eu... Por que não? Você parece legal, os outros monstros não são assim também? — Forcei um sorriso
—Não, nem um pouco — Disse com asco — Deixe-me explicar como as coisas funcionam por aqui, humano — Finalmente, ele levantou o rosto por completo, parecendo extremamente incomodado com algo — Neste mundo, para "eles", é matar ou ser morto. Não importa se você é monstro ou humano, um estranho ou d-da f-família!
Lágrimas saíram por seus olhos e ele continuou, ignorando-as.
—Você precisa seguir as regras se quiser sobreviver! Alguns nem te dão a chance de falar ou se explicar, eles irão tentar te matar antes do seu primeiro movimento! E-Eles... E-Eles são rudes! Cruéis! E-E u-uns i-i-idiotas! IDIOTAS! TODOS ELES!
Por fim, a flor começou a chorar, compulsivamente, preenchendo a sala de soluços e tristeza. Eu havia me assustado quando ele berrou, mas agora, tudo o que eu desejava, era fazer com que aquela plantinha se sentisse melhor, por isso me aproximei e acariciei suas pétalas, sentando-me em sua frente, sem saber mais o que fazer.
—Shh, está tudo bem, Flowey... Não se preocupe, eu vou te ajudar o quanto posso... O que preciso fazer?
Ele parou de chorar aos poucos, voltando a olhar para mim. Sua expressão era de, hm, susto? Melancolia? Era difícil de decifrar.
—B-Bem, não há nada, e-eu sou um caso perdido... Mas se você conseguisse fugir deste lugar terrível e voltar para a superfície, acho que minha consciência ficaria mais tranquila... Eu ficaria realmente feliz por você...
Limpando os olhos com uma das folhinhas, ele abriu um sorriso muito bonito, o alívio de ver aquela expressão... era mesmo muito bom. Logo abri um sorriso também, com uma ideia já em mente.
—Mas não sei se consigo sozinho. Talvez você pudesse me guiar até a saída? Eu seria muito grato! — Acrescentei
Ele hesitou um instante, alternando seu olhar do chão para o meu sorriso e vice-versa. Então, ele parou suspirando e disse baixinho, mas ainda, num tom de contentamento.
—Parece que eu não tenho escolha — Ele olhou-me, sorrindo timidamente — Irei te ajudar então. Só espere um minuto, er...
Flowey inclinou-se em minha direção e suas raízes rapidamente saltaram para fora, escalando-me e segurando-se em meu ombro. Pulei de susto com o assalto, mas logo soltei uma risada, aquilo fazia cócegas. Olhei para ele sorrindo, ele sorria de volta.
—Vai ser um prazer fazer esta jornada com você, Flowey. Agora vamos em frente!
—Sim... M-Mas tome cuidado, a minha ajuda pode não ser muito útil, você provavelmente ainda vai se encontrar com vários deles por aí, nas ruínas.
—Hm, pode me falar mais sobre o subterrâneo? Assim talvez eu tenha uma ideia melhor do que está por vir.
—Claro. Bem... Aqui, onde estamos, é o fundo das ruínas, cheio de monstros e... aranhas. O maior problema será passar por "ela" — Meu olhar de interrogação o fez se aprofundar na explicação após um suspiro de desprazer — Um monstro chefe, como são chamados os de sua espécie, ela vai te parecer amigável no inicio, mas não se deixe enganar, anjo, teremos que fugir rápido para a saída das ruínas enquanto ela não estiver olhando.
—Oh... — Não questionei o novo apelido que ele deu para mim, apesar de não fazer ideia de onde ele tirou isso.
—Depois, vamos passar por uma floresta, e então Snowdin, um lugar muito frio, precisaremos encontrar mais roupas para você... Chegaremos depois em Waterfall, a terra da água, e daí, Hotland, a terra da lava. Seguindo adiante entraremos no Núcleo, lugar horrível de metal, e em seguida, a Capital, onde estará o Palácio Real. U-Uh... Sim... Teremos que passar pelo rei se quisermos sair... Desculpa por isso...
—Não tem problema, vamos conseguir! Não sei bem como... Mas vamos! — Fechei minha mão em punho, sorrindo para ele.
Ele sorriu de volta com tristeza.
—Sabe, anjo, você me lembra um velho amigo...
De repente, ouvimos passos e levantamos o olhar. Na frente de uma enorme porta roxa, um monstro branco de chifres e túnica negra nos encarava, com os dois olhos amarelos arregalados e com profundas olheiras da cor vermelha. Para piorar, ela sorria.
—Uma criança... V-Vem aqui com a Toriel, vem. Não tenha medo, eu não irei machucar você. — Continuava a sorrir de modo macabro — Sou a guardiã das ruínas, é o meu dever cuidar bem dos "hóspedes", principalmente criancinhas tão adoráveis quanto você... — Estendeu os braços em minha direção, chamando-me ansiosamente.
Não entendi por que Flowey havia me avisado que ela pareceria amigável, era tão o oposto que eu sentia vontade de sair correndo de volta e tentar escalar novamente o abismo, ao invés de aceitar de bom grado aquele abraço da morte. Se Toriel era o monstro que mais pareceria amigável, evitei pensar em como os outros pareceriam.
Aquilo não me enchia de Determinação.
O aperto delicado das raízes em minhas costas e a nova amizade que formei com Flowey, no entanto, logo me reconfortou e me deu forças, foi muita sorte eu ter encontrado primeiro um bom amigo para ser a minha coragem dali pra frente.
E isso sim, era o que me enchia de DETERMINAÇÃO.
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