A luz sempre foi a única coisa capaz de despertá-la. Piratas bêbados cantarolando e sapateando sobre sua cabeça madrugadas inteiras nunca foi empecilho para que conseguisse dormir. Talvez por ter se adaptado aquilo. Mas era só as luzes invadirem seu convés que acordava rapidamente. Esse efeito se repetiu assim que viu a luz do Sol invadir seu quarto de repente. Antes mesmo de abrir definitivamente seus olhos, sentiu uma presença arrastando as cortinas com ar de impaciência.

— O que você tá fazendo aqui? — indagou sobressaltada, levando a mão imediatamente, por debaixo dos lençóis, à clava que havia improvisado na noite anterior, e sentando-se. Fizera a clava com um pedaço de madeira da cabeceira da cama e alguns pregos retirados das ligas dos armários com a colher de metal disponibilizada para seu jantar. Era fiel a ideia de que a diferença entre um gancho e um anzol era o modo de uso.

— A pergunta é o que você ainda faz aqui. A reunião devia ter começado há uma hora. — respondeu Sazuke com o cenho ainda franzido, observando sua postura defensiva, com um dos punhos cerrados e pupilas dilatadas.

— A reunião. — Sakura falou, como se tivesse tomando um nota para si mesma. Lembrava-se de mais cedo a serva ter comunicado que deveria se levantar para comparecer a uma reunião com oficiais, mas seu corpo reagiu remexendo-se na cama uma última vez e murmurando que logo apareceria, antes de deixar-se levar pelo sono novamente. Não tinha problemas para acordar cedo, mas como havia ficado até tarde forjando a clava, deixou-se levar pelo conforto da cama macia, tão diferente do que estava acostumada.— Isso não é importante.

— Claro, suponho que tenha que cancelar, então, senhorita. — disse o general forçando seriedade.

— Só não acho que essa reunião serve pra alguma coisa. — falou Sakura ignorando a ironia e recostando-se na parede que fazia limita com a cama, mantendo a clava escondida entre os lençóis.

— Pode menosprezar ajuda quando decriptografar o Tamísia. — falou Sasuke cansado da prepotência de Sakura.

— É o que pretendo ao invés de fazer sala a seus nobres. — respondeu ela trazendo o lençol para mais perto do corpo. Usava uma camisola branca de linho dada pela serva Naemi na noite anterior, e a presença do general lhe deixava desconfortável.

— Tem cinco minutos. — advertiu, precipitando-se em sair, notando que ela ainda mantinha uma postura defensiva por sua presença.

Sakura esperou sua saída para arrumar a cama e esconder entre as fronhas do travesseiro sua clava, sabendo que deveria providenciar outro lugar o mais rápido possível e se dirigiu para o banho. Assim que acabou, notou o vestido na poltrona que a serva havia deixado na primeira vez que entrou. Beje, com detalhes em tule e saia drapeada, a seu ver, o vestido era como tudo costumava ser no País de Fogo: Em excesso. Rendas demais, babados demais, corpete apertado demais. Jurava que o vestido daria pra vestir umas sete pessoas com tantas anáguas. Havia se acostumado com as vestes de seu povo, que constituía-se basicamente de túnicas de corte simples em cores frias, vestes que poderiam ser consideradas pelo pudor dali como roupas de baixo. Pensando nisso, não hesitou em se focar na chemise de linho, de mangas curtas e decote baixo que costumava ser usado por baixo do vestido e combiná-la com a sobreveste preto de brim, afivelando sua cintura. A combinação ia até o joelho e o único inconveniente era o fato de não ter calças, mas conformou-se com as meias pretas e a bota.

Quando foi conduzida pelos guardas ao salão onde se encontrava o general, recebeu deste um olhar de reprovação, mas ele nada comentou. Assim que entrou na sala de reuniões, olhares curiosos logo se voltaram para ela, que observou com a mesma persistência os presentes. Era aproximadamente quinze homens de vestes negras, a maioria de meia idade murmurando com sua entrada. A única mulher presente localizava-se no centro da sala, com cabelos cinza e intensos olhos verdes. Sakura se sentou na cadeira indicada por seus guardas e observou Sasuke dar início a reunião, resumindo a captura do Tamísia e as informações que tinham até então sobre o mapa e a ilha, que eram demasiadamente incipientes, remontando suposições sobre esta ser uma fenda entre a dimensão espiritual e a real, onde o mapa seria um legado dos primeiros homens.

As primeiras intervenções tiveram como ponto de partida essa suposição e algumas chegaram a propor o uso de mapas geográficos. Um duque do Oeste discursava apaixonadamente sobre ofertar o Tamísia ao deuses para que estes contemplassem seus mistérios quando Sakura não conteve o ímpeto de expressar seu descontentamento.

— Ou poderíamos também fazer uma novena aqui mesmo. — resmungou, fazendo os olhares que não haviam parado até então de cair sobre si, se voltarem para ela definitivamente.— Não é pertinente discutir a origem do mapa nem esses meios... Bem, sendo generosa... ‘’Alternativos’’. — finalizou procurando outra palavra que não estúpidos.

— Sua presença aqui também não é pertinente, assim como uma mulherzinha como você interromper um lorde. — um duque de barba branca e cabelos marcados pela calvície no centro da cabeça. — Sinceramente, nem sei o que faz aqui.

— Ah, não ficou sabendo que seu general precisava de uma corsária. — desdenhou Sakura fazendo a tez do general franzir em desgosto. Ele era um homem orgulhoso, não parecia gostar de nenhuma suposição que atacasse sua imagem. Se soubessem que já eram corsários portando um tratado ao invés de uma carta de corso...

Quando o duque retomou a palavra, tecendo reclamações, sendo seguido por mais teorias e intervenções, ela se recusou a discutir sobre aquelas teorias, limitando-se a sentar e observar aqueles homens discutindo em uma vil guerra de egos até a figura do general irromper à sua frente, pegando-a e pelo braço e a conduzindo para a sala uma particular

— Não trouxe você para assistir nossas discussões como se fosse um jogo de pongue. — reclamou com voz grave e fria, ainda segurando-a pelos braços.

— Acha realmente que eles podem ajudar? — perguntou, procurando esquivar-se do contato. Já era desagradável o bastante saber que estava sobre poder de alguém.

— Creio que temos uma equipe... — ia defendendo Sasuke incerto quando foi interrompido.

— Não, mais uma vez: Eles? — insistiu Sakura, arqueando as sobrancelhas.

O general a encarou conformando-se em concordar com ela. Fora o primeiro olhar cúmplice que trocaram.

— O que propõe então? — aquiesceu frustrado.

— O Tamísia não se descriptografa com rezas, alquimia, oferendas. Ele guarda informações de nossa energia espiritual, codificando o que temos de mais intenso, o que prezamos, odiamos, as coisas mais secretas de nosso subconsciente. Tudo tão particular e íntimo a ponto de nem sempre quem o codificar saber a informação. Por isso é tão indecifrável. — contou — É necessário entrar na mente de quem o codificou.

— Você foi a última a usá-lo, então...

— Não, eu o decodifiquei, mas não usei. — admitiu, acreditara que a Ilha das Pedras seria o caminho para alcançar o que desejara, mas tudo foi inútil. A informação codificada não era sua. — Travei o mapa e as informações criptografadas continuam a ser do último dono.

Ele pareceu surpreso.

— Ele não utiliza a mesma informação. — concluiu sentando-se. — Mas ainda é a mesma pessoa, por que a ilha não estaria no mesmo lugar?

— Pergunte aos deuses — cortou. A ilha não existia no plano físico, era mutável, podia estabelecer-se em qualquer lugar, de acordo com as informações do Tamísia.

O general remexeu-se na cadeira impaciente. Se ela fosse tão boa em responder ao enigma como é em dar respostas malcriadas ele não estaria ali.

— Tem ideia de como podemos começar a desvendar a mente do conde Dominic? — indagou, perguntando-se como poderiam investigar o último dono.

Ela assentiu. Desvendara a mente do conde uma vez e a desvendaria de novo.