PTSD
1 All will end up well
Notas iniciais
Harry abriu os olhos de supetão, a mão segurando a varinha o mais forte possível e seus olhos piscando constantemente para espantar o sono. Seu corpo tremia de forma incontrolável, quase dolorosa.
Ele olhou ao redor, alerta, vendo apenas a mobília do quarto de Ron e a cama vazia dele. Harry olhou ansiosamente para a cama do amigo até lembrar que ele estava com Hermione passando o resto do Natal com ela e os pais. Ainda assim, o medo não o deixou.
Ele respirou fundo, soltando a varinha na cama e passando as mãos pelo cabelo revolto. A guerra havia acabado em março, mas ele era constantemente perseguido pelos pesadelos. Pelas lembranças. Pelos arrependimentos.
Ele sentiu-se sufocar. Por mais que ele tentasse respirar, ele não conseguia. O medo em sua mente foi rapidamente substituído pelo pânico. Ele não conseguia respirar. Ele estava sozinho no quarto. Ele tinha certeza de que ia morrer.
E sinceramente, ele desejava isso internamente. Harry se sentia cansado. Exausto. De não conseguir dormir. De não conseguir seguir em frente. De acordar todas as noites depois de ter sonhado com Sirius, com Remus e Tonks, com Fred, com todos os amigos que ele deixou para trás. Todos os amigos que morreram por ele. Todas as pessoas que perderam suas vidas na maldita guerra que ele não conseguiu evitar.
Se ele tivesse conseguido evitar que Voldemort voltasse. Se ele tivesse descoberto antes sobre as horcruxes. Se ele não tivesse sido enganado durante todo seu quarto ano. Talvez Cedric talvez ainda estivesse vivo. Talvez Moody ainda estivesse vivo. Seu padrinho. Talvez Teddy ainda tivesse os pais vivos, acompanhando seu crescimento.
Ele não aguentava mais essa sensação. Essa culpa, essa impotência. Ele não aguentava mais.
Ele sentiu a cabeça leve, como se ele fosse desmaiar. Ele queria desmaiar. Quando ele desmaiava ele não sonhava, ele simplesmente deixava de existir até acordar. Ele forçou mais ainda os olhos fechados e prendeu a respiração, que já não era das melhores, esperando acelerar o processo.
Nada.
Ele continuava acordado. Continuava vivo. E não tinha nada que ele pudesse fazer sobre isso. O pânico dentro de si cresceu, anuviando seus pensamentos e apodrecendo suas lembranças, tomando conta de sua mente e envenenando todos os cantos dela. E ele cedeu, como sempre.
Harry sentiu a pele formigar e a garganta fechar, a necessidade de gritar inflando como um balão dentro de si. Ele queria gritar. Pedir ajuda. Berrar a plenos pulmões toda a sua dor até não sobrar mais nada dentro de si.
Ele enfiou as unhas nas palmas das mãos, contento o grito. Antes que ele conseguisse controlar, a coceira aumentou, fazendo-o passar as unhas na pele de forma dolorosa. Sangue começou a pintar sua pele, cortes reabrindo onde suas unhas passavam.
Ele se encolheu na cama, os joelhos no peito e a cabeça escondida entre eles, as unhas cravadas em sua nuca e a boca aberta em um grito silencioso. Lentamente suas roupas e os lençóis se pintavam em uma mistura de sangue e lágrimas em uma obra de arte macabra que refletia seu interior caótico.
─ Harry? ─ Ginny sussurrou, tocando o ombro dele no escuro. Ele ergueu a cabeça, olhando-a em pânico em um pedido silencioso de ajuda. ─ Ei, sou eu, tá tudo bem. Você tá bem, eu tô bem, Ron e Mione estão bem. Estamos bem. Estamos seguros. ─ ela sorriu, os olhos cansados e as olheiras marcadas em seu rosto pálido e sardento.
Harry soltou um som baixo, estrangulado, como um cão acuado implorando por ajuda, por um lugar seguro. Foi o que bastou para Ginny segurar os dois pulsos dele e o puxar para um abraço apertado e cuidadoso. Ela apoiou uma mão na nuca ensanguentada dele com cuidado e pôs o rosto dele em seu pescoço, a outra mão apoiada na base das costas dele, seu polegar desenhando pequenos círculos em sua camisa. Ela apoiou o queixo na cabeça dele e começou a cantarolar de forma baixa e contida, seus dedos emaranhados no cabelo dele enquanto ele continuava imóvel.
Ele soltou a respiração de forma lenta, os olhos enchendo em uma nova onda de lágrimas enquanto ele enroscava os braços desesperadamente nela e enterrava o rosto mais, tentando sumir nela.
─ Pesadelo de novo? ─ ela murmurou, beijando a cabeça dele diversas vezes. Ele assentiu lentamente, incapaz de falar. ─ Quer conversar sobre? ─ ele negou, apertando ela mais ainda em si, sujando o pijama dela de sangue. Não que ela se importasse.
Ele se afastou dela, as mãos ainda na cintura dela e o rosto manchado de lágrimas. O lábio dele tremia e seus olhos expressavam a forma mais pura de desespero. Ginny queria mais do que tudo ser capaz de tirar esse medo dele, de dar uma vida calma e tranquila para ele.
─ Vá tomar um banho. ─ ela segurou o rosto dele pelo maxilar e deixou um beijo no nariz dele, sorrindo de forma leve. ─ E me encontre na sala, certo? ─ ela beijou a bochecha dele, levantando da cama.
Harry segurou o pulso dela involuntariamente, a olhando.
─ Não vai. ─ ele sussurrou. O peito subindo e descendo ansiosamente de novo, a mão apertando o pulso dela, os nós dos dedos dele brancos.
Ela sentou de novo e segurou as duas mãos dele, o olhando nos olhos, séria.
─ Acabou, Harry. Ele não vai voltar mais. ─ ela apertou as mãos dele com força, a voz tranquila como quem fala com um animal ferido. ─ Estamos seguros, estamos bem. Acabou. ─ ela repetiu, os olhos nunca desviando dos dele.
─ Eu sei, eu só… ─ ele sussurrou, engasgando com a respiração. Ele fechou os olhos, respirando com dificuldade.
─ Ouça minha voz. Não precisa abrir os olhos, mas me ouça, certo? ─ ela soltou as mãos dele, colocando-as nos ombros dele, apertando de forma firme. Ele assentiu. ─ Conta comigo, inspirando. Um… Dois… Três… Quatro… Cinco… ─ ela sussurrou, observando o peito dele encher de oxigênio. ─ Segure até eu mandar soltar, certo? ─ ele assentiu e ela acariciou sua bochecha por uns segundos. ─ Solte devagar. Um… Dois… Três… Quatro… Cinco… Seis… ─ ela continuou sussurrando baixo, repetindo a respiração até ele respirar de forma estabilizada. ─ Consegue abrir os olhos agora?
Ele assentiu de leve, abrindo os olhos e olhando para ela, o cenho franzido e o corpo tremendo ainda.
─ Estamos bem, Harry. Estamos seguros. Eu, você, mamãe, papai, Ron, Mione… ─ ela sorriu, cansada. ─ Acabou. Ele morreu. Você o matou. ─ ela beijou a testa dele.
“Assim como matei seu irmão, como Sirius, Moody…” ele pensou, engolindo em seco.
─ Vá tomar um banho, certo? Eu vou limpar os lençóis e as roupas. ─ ela levantou, estendendo a mão para ele. Ele segurou a mão dela e abriu a boca para responder. ─ Não ouse me pedir desculpas, Potter. Vá tomar banho antes que eu jogue água em você aqui mesmo. ─ ela ralhou de brincadeira, um leve brilho “Weasley” nos olhos, fazendo Harry rir baixo.
O coração de Ginny pareceu aliviar toneladas ao som da risada levemente latido que ele acabou pegando de Sirius. Ela sorriu aliviada e o empurrou levemente para a porta, dando um leve tapa em sua bunda.
Harry revirou levemente os olhos e jogou o pijama sujo nela antes de entrar no banheiro.
Ele parou em frente ao espelho e encarou seu reflexo. Suas olheiras pareciam pintadas de preto de tão escuras que estavam, sua pele pálida que herdara da mãe estava tão fina que era possível ver as veias de seu rosto. Seu cabelo apontava para todos os lados mais do que o normal. As cicatrizes, tanto de batalhas quanto que ele mesmo fizera, decoravam seu corpo e seu rosto. Ele esticou a mão e passou-a levemente pela cicatriz.
Como um trem desgovernado a lembrança veio, atingindo-o na cara. Ele reviu o momento em que a parede explodiu em cima do corpo esguio de Fred, sua garganta fechando em pânico enquanto sua boca se abria para gritar para ele fugir. Mas era tarde. Como sempre.
Ele respirou fundo, apertando a pia com força. Ele entrou no chuveiro lentamente e o ligou, parando em pé debaixo dele.
A água escorria por seu corpo trêmulo, seu peito subindo e descendo ansiosamente. Harry fechou os olhos e abaixou a cabeça, respirando o mais fundo que conseguiu, tentando controlar seus pensamentos e seu corpo. Ele abriu os olhos e observou a água lavar o sangue de seu corpo e escorrer pelo ralo.
Ele queria que fosse fácil assim se livrar de seus problemas e medos, mas não era. Ele sabia que não era.
Ele encostou a cabeça no ladrilho do banheiro e passou as mãos pelo cabelo molhado, repetindo a respiração que Ginny sempre fazia consigo.
Ginny.
Um sorriso involuntário espalhou pelo seu rosto com o pensamento. Ela sempre esteve lá para ele, em todos os momentos possíveis. Desde que ela perdera a vergonha de ficar no mesmo ambiente que ele quando eles ainda eram crianças ela havia se tornado um porto seguro para ele de uma forma que ele mesmo não entendia como. Só aconteceu. Óbvio, ele tinha Ron e Hermione, mas eles também tinham seus problemas, eles também tinham seus demônios para lutar contra e Harry não queria ser um peso adicional para eles, por mais que ele soubesse que se ele externasse esse pensamento ele com toda certeza levaria, no mínimo, uma azaração ferreteante na cara.
Ele suspirou, lembrando dos amigos. Eles haviam passado o Natal na Toca com todos e haviam saído pouco antes do anoitecer para ver a família de Hermione, que milagrosamente ela havia conseguido, com ajuda de Minerva, fazê-los recuperar a memória. O dia tinha sido tenso, uma mistura de luto e alívio, onde todos sentaram silenciosamente na mesa e comeram. Até mesmo Jorge havia saído do quarto para se reunir a família.
De novo, a mente de Harry o levou para Fred. O corpo caído, ensanguentado e sem vida de um dos garotos mais incríveis e risonhos que ele havia tido a honra de conhecer. O fantasma de seu último riso em seu rosto.
Ele sacudiu a cabeça fortemente, tentando espantar os pensamentos, e começou a tomar seu banho, esfregando o sangue seco para fora de seu corpo e limpando suas unhas, resmungando baixo sobre como ele deveria cortá-las.
Ele saiu do banheiro enrolado na toalha, correndo silenciosamente para o quarto tanto pela casa escura quanto pelo frio que arrepiou todos os seus pelos quando ele saiu do banheiro. Fechando a porta rapidamente atrás de si ele viu um montinho com roupas dobradas em cima da cama limpa com um bilhete em cima. Ele se aproximou e leu, soltando uma risada baixa.
“Se vista e venha pro quintal. Não tente me enrolar dizendo que não precisa e que eu deveria dormir porque eu cresci com meus irmãos e eu não tenho medo de te azarar se você não vier.
Com amor, Ginny. ;)”
Ele colocou a roupa e saiu, descendo as escadas o mais silenciosamente que conseguiu. Ele passou pela cozinha e deu de cara com uma caneca de chocolate quente flutuando ao redor da mesa calmamente. Ele sorriu e acenou para a caneca alegremente, mesmo sabendo que ela não acenaria de volta, e a pegou, dando um longo gole e indo para o quintal.
Dessa vez, ele soltou uma sonora gargalhada ao ver a vassoura flutuando na frente da porta com um bilhetinho em cima escrito “considere esse o meu cavalo branco pra você, Potter”. Ele subiu na vassoura enfeitiçada e viu-se sendo levado para um morro perto dA Toca.
Ele desceu da vassoura assim que ela parou e caminhou até onde Ginny estava sentada debaixo de uma árvore. Uma toalha estirada no chão junto de uma cesta de piquenique. Ela olhava distraidamente um vagalume rodando ao redor do pé dela, mal percebendo ele a encarando.
─ Tira uma foto, dura mais. ─ ela sorriu sem olhar para ele. Ele riu audivelmente e sentou do lado dela, colocando a caneca no chão.
─ O que é tudo isso, Weasley?
─ Até a última vez que eu chequei, isso se chamava piquenique, Potter.
Ele revirou os olhos fazendo ela rir.
─ Eu sei que não ia conseguir dormir de novo. ─ ela suspirou, olhando para o céu. ─ Eu também não consigo. Por que não aproveitar isso fazendo coisas inesperadas? ─ ela o olhou, sorrindo. ─ Faz tempos que a gente não sai junto sem Ron enchendo o saco repetindo “cinco pés um do outro!”. ─ ela resmungou, imitando a voz do irmão, fazendo Harry engasgar com o gole de chocolate que havia tomado. ─ Como se o coelho da família não fosse ele.
Harry riu alto da careta de nojo de Ginny, concordando várias vezes com a cabeça. Realmente, nos últimos dias ele havia perdido as contas de quantas fodas ele tinha empatado entre Ron e Hermione.
─ Eca. ─ ela resmungou. ─ Enfim. ─ ela o olhou, um sorriso em seu rosto e os olhos brilhando a luz da lua. ─ Gostou da ideia?
─ Adorei. ─ ele sorriu, tomando outro gole da caneca e deitando a cabeça no ombro dela, dando um beijo doce em sua bochecha. ─ Parece que nem todos os neurônios funcionais estão com Percy afinal.
─ Por que você não vai se fuder, hnm? ─ ela revirou os olhos, passando a mão na cintura dele, a postura relaxada contra o tronco da árvore.
─ Se você for comigo talvez eu aceite. ─ ele sorriu, erguendo a sobrancelha de forma marota para ela.
─ A sua sorte é que eu amo você, ou do contrário eu te azararia aqui e agora. ─ ela beliscou a cintura dele de leve.
Eles ficaram um tempo em silêncio, olhando as estrelas no céu.
─ Você sabe que pode confiar em mim, não é, Harry? ─ ela virou o rosto para ele, subitamente séria.
Ele foi pego de surpresa pela pergunta e se afastou dela, a olhando nos olhos, confuso.
─ Sei sim, por quê?
─ Porque às vezes não parece. ─ ela suspirou, olhando para o céu de novo. ─ Eu sei que a gente experienciou coisas diferentes durante a vida toda. Eu sei que eu não saí e cacei horcruxes como você, ou que não encarei Voldemort cara-a-cara ao longo da minha vida. ─ ela o olhou, os olhos marejados. ─ Mas você pode confiar em mim, Harry. De verdade. Você não tá sozinho. Você nunca esteve e nunca vai estar. Você tem toda a minha família, tem Mione. Você me tem. ─ ela suspirou. ─ Por favor, não se feche. Por favor, não deixe essa nuvem te prender também como prendeu meu irmão. ─ ela sussurrou, olhando para o chão e puxando as pernas para si e abraçando os joelhos. ─ Você não sabe o quanto me dói ver Jorge preso no quarto todos os dias, ver ele doente sem comer e sem vontade de viver mais. É como se eu tivesse perdido ele também. Ele tá lá, mas ao mesmo tempo, ele não tá. Por favor. ─ ela o olhou, lágrimas silenciosas escorrendo pelas suas bochechas. ─ Eu não quero te perder também.
O coração de Harry apertou com a visão e com as palavras dela. Ele a puxou para seu colo e a abraçou forte, enfiando o rosto nos cabelos dela e acariciando suas costas.
─ Eu não vou te deixar, Gin. Nunca. ─ ele murmurou. ─ Me desculpe, é só… É difícil. Muito difícil. ─ ele sussurrou. ─ Todas as noites eu fecho os olhos e eu os vejo. Remus e Tonks, Sirius, Lilá… Eu vejo eles, eu vejo tudo de novo acontecendo. Eu só… ─ ele respirou fundo, umedecendo os lábios com a língua, criando coragem para falar tudo que pensa de uma vez. ─ Talvez se eu tivesse sido mais rápido, mais cuidadoso, mais qualquer coisa. Talvez eles ainda estivessem aqui. ─ ele sussurrou, apertando ela. ─ Toda vez que eu fecho os olhos eu lembro de algo. Toda vez que fica muito silêncio eu ouço a voz de alguém. Eu queria voltar no tempo e só… Arrumar tudo de uma vez e impedir todo esse inferno.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, ouvindo a respiração um do outro e os sons da natureza ao redor deles.
─ Eu não sinto raiva de você, sabia? ─ ela o olhou, séria. ─ Nem mamãe, nem papai, nem Jorge. Tenho certeza de que Teddy não vai sentir raiva de você.
Ele desviou os olhos, olhando para a grama perto de si, arrancando uns pequenos tufos com as mãos distraidamente.
─ Harry James Potter. ─ ela rosnou, segurando o rosto dele entre as mãos, o forçando a olhar para ela. ─ Ninguém sente raiva de você, pelo amor de Deus! Você salvou o mundo de alguém cruel e escroto. Você salvou milhões, trilhões de vidas mágicas e trouxas! Não foi sua culpa, de jeito nenhum, em momento nenhum! Você foi jogado no meio dessa guerra antes mesmo de nascer. Não é sua culpa. E nunca vai ser. ─ ela repetiu, olhando-o nos olhos.
Um leve arrepio desceu pela coluna de Harry enquanto ele se encolhia levemente sabendo que se ele negasse ela ia começar a apertar suas bochechas até ele implorar por misericórdia.
─ Olhe pra mim. ─ ela suspirou, um leve sorriso no rosto molhado. ─ Não é sua culpa, Potter. E realmente nunca vai ser. ─ ela beijou a testa dele de leve, descendo as mãos para os lados do pescoço dele, acariciando-o. ─ Se alguém tem culpa disso tudo além de Voldemort é Snape. ─ ela fechou a cara, revirando os olhos de forma irritada. ─ Se aquele miserável arrombado de uma figa não tivesse falado merda nenhuma da porra daquela profecia pra Voldemort nada disso teria acontecido! ─ ela rosnou, irritada.
Harry soltou uma risada nasalada, abraçando a cintura dela e beijando seu nariz. Depois que ele havia contado tudo que ele sabia sobre seu passado e a guerra para Ginny ela passou a nutrir o mais puro ódio por Severus Snape e Albus Dumbledore que alguém poderia um dia ser capaz de sentir.
─ Zé buceta do caralho. ─ ela resmungou, deitando a cabeça no peito dele e enroscando os braços em sua cintura.
Ele ficou em silêncio por um tempo, olhando para o rosto dela com carinho.
─ Obrigado, Ginny.
─ Por? ─ ela virou a cabeça, apoiando o queixo no peito dele e o olhando curiosamente.
─ Tudo. ─ ele apertou ela. ─ Por ter sido minha amiga na escola, por ter aguentado tudo desde o começo. Por ser meu porto seguro. Por me ajudar com isso tudo. Pelos seus comentários completamente indevidos nos momentos mais indevidos ainda. ─ ele riu.
─ Eu tô aqui pro que der e vier, Potter. Pra sempre. ─ ela sorriu, assanhando ele mais ainda.
Ele sorriu, assanhando o cabelo dela de volta, levando um tapa na mão.
─ Vem, vamos comer. ─ ela sorriu, levantando e puxando a cesta para perto deles.
Ele observou ela arrumar a comida na toalha enquanto falava aleatoriamente sobre como ela havia descoberto uma receita antiga de geleia de ameixa-flutuante que fazia a pessoa flutuar por um tempo depois de comer e sorriu. Ele sabia que não ia sumir de uma vez tudo isso, essa vontade constante de sumir, essa culpa esmagadora e as crises de pânico que sentia, mas ele sabia que ela ia ajudar ele a passar por isso e ia lutar com ele mais uma vez com o queixo erguido e a determinação que ele sabia que ela tinha. E ele não podia ser mais grato por isso.
E assim ele soube que por mais que não estivesse naquele momento, tudo ficaria bem.
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