PS: NÃO ESCREVA

2 Segundo capítulo


Notas iniciais
Eis que eu voltei, um pouquinho atrasada, mas voltei ♥ Diferente do capítulo anterior, esse eu mudei MUITA coisa, então acabei demorando mais tempo do que tinha planejado! E prometo tentar postar o próximo ainda esse mês, já que minha primeira semana de julho está completamente impossível e não vou ter tempo nem de respirar nesses dias asoudhsifuhusdif felizmente minhas férias estão chegando, então talvez até consiga diminuir o tempo entre as postagens de um pra outro ♥ Espero que gostem do capítulo!

CAPÍTULO 02

Sem querer me gabar, mas eu costumava aproveitar muito a noite quando era mais jovem — saía de casa logo ao anoitecer, e só voltava de manhã cedo, quando o café estava sendo servido. Mike sempre me acompanhou durante minhas saídas desde que teve idade para tal e continuou sem mim quando o casamento me impediu de manter a mesma rotina. Era por isso que eu e meu irmão compartilhamos os mesmos amigos desde muito tempo, e tínhamos o mesmo gosto para as estranhas boates da cidade. Esse era o motivo pelo qual eu justificava minha permanência na festa, mesmo detestando-a imediatamente.

Mal tinha entrado na boate e a altura exagerada da música já incomodava meus ouvidos desacostumados. Estava desconfortável, e não tinha vontade de beber nada. Perguntei-me o quão velho eu estava por não suportar mais algo que já fez tanta parte da minha vida. Pelo visto não muito, respondi a mim mesmo ao ver Noah e Hanna correrem para a pista de dança no instante em que conseguiram suas bebidas. Se eles conseguiam, eu também deveria, certo?

Não. Em meia hora de festa eu já estava sentado.

Elizabeth, doce de pessoa como era, pediu um drink de nome engraçado para nós dois, e me fez companhia como era comum nos meus últimos anos como estudante de medicina. Ficou ali comigo, sentada nos bancos desconfortáveis do bar, contando algo sobre seu novo residente no hospital parecia querer tirá-la do sério ultimamente.

“E o que você achou do meu novo corte de cabelo?” ela perguntou, balançando a cabeça para os lados, como se os curtos cachos fossem se mexer com ela.

“Ei! Eu sei que não te vejo há muito tempo, mas Mike me mostrou fotos no dia em que você cortou, então sei que o corte não é tão novo assim” argumentei, gargalhando da sua careta. Liza sempre foi uma das garotas mais bonitas que já vi em toda minha vida: tinha os cabelos crespos, escuros feito seus olhos redondos e grandes, dona do maior sorriso de todo o continente americano. Era diferente de Linda em todos os pontos possíveis, e tinha se tornado minha melhor amiga logo nos meus primeiros anos de curso.

“O que importa é que você só viu hoje” ela respondeu, terminando seu drink cor de rosa em goladas gordas, “E que ainda não me fez nenhum elogio.”

Gargalhei alto entre os sons estridentes da música pop. “É verdade. Você tá uma graça assim.” Pedi outra rodada do drink colorido para nós dois, já relativamente animado com a ideia de beber mais de um copo de qualquer coisa, por não ter trabalho nenhum amanhã cedo.

“Ai meu deus, eu amo essa música!” Liza me disse, animada, levantando do banquinho em um pulo. Puxou-me pelos braços, convidando-me a participar da dança esquisita que acontecia na pista, mas neguei com gestos simples. Não conhecia nenhuma das músicas que tinham tocado desde o momento em que entrei pela porta da boate.

Ela não insistiu, e foi em passos apressados até onde meu irmão e nossos outros amigos dançavam desajeitados. Recebi as duas bebidas com um sorriso, acreditando que Elizabeth não voltaria tão cedo para pegar a parte dela. Lembro de ter pensado, feito um bobo, que dobrar a dose poderia me ajudar a aproveitar a noite como fazia antigamente. E ali, bebendo bebidas de dois canudinhos diferentes, eu quase preferi estar em outro lugar. Em casa, talvez, onde o silêncio iria ocupar todos os espaços do meu corpo, e a quietude seria o suficiente para ignorar meu próprio pensamento. Vi as luzes mudarem de verde para roxo em movimentos geométricos, colorindo a bancada do bar. Quis rir de mim mesmo — o silêncio insuportável da minha casa era o que tinha me levado até ali, não é mesmo?

Eu estava ali, sentado em um banco desconfortável, me acabando em bebidas cor de rosa e ouvindo divas pop atuais porque não conseguia mais ficar sozinho comigo mesmo sem me corroer por dentro. Minhas idas e vindas tinham acabado há anos. Eu já não tinha mais vinte anos, e me sentia velho demais até mesmo para ficar em casa. Avistei meus amigos na pista de dança cheia, e os invejei por alguns breves instantes. Decidi largar os canudinhos e virei um dos drinks goela abaixo. Debrucei no balcão, do mesmo jeito que os adolescentes faziam em minhas consultas sem graça, e peguei o terceiro copo sem muita vontade.

Tinha passado praticamente uma hora de festa apenas, mas eu já me perguntava se seria muito chato da minha parte ir embora tão cedo, de fininho, sem avisar ninguém. Levantei para fazer o quarto pedido da noite, quando uma voz desconhecida me pegou de surpresa.

“Quer dançar?” a voz grave me perguntou, e eu pulei de susto. A música parecia mais alta do que nunca, mas eu tinha aquela estranha sensação de que sua pergunta tinha sido feita perto de meu ouvido, em um sussurro. Virei para trás e encarei um belo par de olhos castanhos.

Por algum motivo do qual desconheço, segurei minha respiração por alguns instantes. Algo correu pela minha espinha vertebral de forma lenta, como uma sensação estranha de desespero. Seus olhos castanhos permaneceram ali, olhando-me, descascando-me. E quando eu encarei os olhos bonitos de volta, senti meu peito se contorcer, gritando para mim mesmo que não era uma boa ideia manter aquele contato por mais nenhum segundo. Eu não sabia exatamente o que tudo aquilo significava, mas tinha plena certeza que não era nada muito bom; já não existiam sentimentos bons em meu frágil coração. Abri a boca e fechei algumas vezes, tentando falar qualquer coisa inteligível.

“Quer me matar de susto, garoto?” perguntei, e ele sorriu. Não era um sorriso aberto e cheio de dentes como o de Liza, que me fazia querer sorrir junto, ou um riso debochado igual o do meu irmão mais novo, que me dava nos nervos. Era conciso, quase milimetricamente calculado de tão perfeito. Tombava para o canto, mostrando apenas a pontinha dos dentes brancos. “Você quer dançar?”

“Sim” o moço em minha frente me disse, breve, com um gesto exagerado de desculpas para se fazer entender no meio da música alta. “Perdão pelo susto”.

“Bom, a pista de dança está logo ali, ó” eu respondi, apontando para as dezenas de pessoas que pulavam debaixo das luzes coloridas atrás da mesa do dj. “Tem um monte de gente dançando lá”.

Meu drink (que eu já tinha esquecido ter pedido) tinha ficado pronto no mesmo instante, então decidi voltar para minha posição inicial e dar a conversa por encerrada. Beberiquei da bebida forte com um sorriso e, dessa vez, já tinha pedido ao bartender que não colocasse nenhum canudinho. E então, antes de voltar meu olhar para onde meus amigos até então estavam, o mesmo cara se colocou na minha frente, com cara de poucos amigos.

Não ter visto seu sorriso contido me decepcionou por uma fração de segundos, e não mais do que isso. Levantei minhas sobrancelhas, um tanto quanto já sem paciência para aquilo, esperando que ele dissesse logo o que queria.

“Posso te pagar uma bebida, então?” ele insistiu.

Alguma coisa em minha careta de indignação deve ter sido muito engraçada, pois o vi cair na gargalhada. Voltei a beber do meu drink, ainda o encarando sem acreditar na existência daquela pessoa. Eu já havia lhe dado um fora, desses que não teria como ele ter alguma dúvida ainda se poderia ser um talvez. Eu sabia bem o que ele queria, e seria melhor já deixar claro de uma vez que não estaria disponível para que ele pudesse ir logo tentar jogar seu charme em outra pessoa.

“Infelizmente, garoto, acabei de pegar minha bebida e não devo precisar de outra por agora” respondi ríspido, ainda sem entender no que ele via tanta graça.

“Eu não sou nenhum garoto, sabia?” ele questionou, agora com o sorriso bonito de volta no rosto. Senti meu rosto arder, envergonhado por reparar em coisas tão pequenas.

“Bom, você parece com um e age feito um, então para mim, é garoto” me expliquei, sem entender porque tinha entrado naquela conversa que, definitivamente, não me levaria a nada. E ele ficou me encarando, de sorriso crescente, os olhos grandes prestando atenção em mim.

“Oh, não seja precipitado. Só porque está sentado com cara de antipático agindo feito um ranzinza, eu posso sair por aí te chamando de velho?” ele perguntou, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, me fazendo engasgar. Tossi algumas vezes enquanto o via gargalhar de novo, tentando acreditar na sua insistência. Eu com certeza não iria levantar daquela cadeira e, se o fizesse, seria em direção a porta de saída. Procurei de novo meu irmão na pista de dança, sem o encontrar no meio da multidão que havia se formado por lá.

Senti seu hálito quente bater no meu pescoço nu; prendi minha respiração mais uma vez. Meu coração acelerou sem compasso, e minha voz não saiu. Sua mão forte segurou meu braço esquerdo, e seus lábios subiram para meu ouvido: “você me parece muito interessado na pista para não querer dançar”

Soltei-me do seu toque com pressa, nervoso. Olhei mais uma vez para seus olhos castanhos, escuros, cheios de brilho. Virei o rosto, incontestável. Não importava o quanto ele fosse bonito, era muito atrevido para meu gosto. “Já te disse que não quero dançar, ensurdeceu?”

Ele fez como quem tinha sido derrotado, e puxou um banco para sentar do meu lado. Pediu para o bartender uma bebida, e escorou o rosto em ambas as mãos. Ele era pálido, esguio e novo demais para flertar com alguém da minha idade. Perguntei-me se ele tinha mais do que 23 anos. Eu já tinha meus recém vinte e nove, e seis anos de diferença era uma quantidade de tempo considerável. Claro que, além disso tudo, tinha ainda o indiscutível fato de que eu era casado, e não existem par de olhos bonitos ou sorrisos indecentes que pudessem refutar isso. Não há como mudar o meu amor imperfeito por Linda.

“Não custava nada perguntar de novo, não é mesmo?” ele retrucou, roubando um gole do meu copo. “Mas não se preocupe, eu te faço companhia”.

“Custava, sim. Agora, eu te acho um chato insistente, pra ser sincero. E não preciso de companhia” respondi, revirando os olhos. Tomei meu copo de volta, dando largos goles no líquido cor de rosa, me perguntando qual tipo de álcool tinha ali. Senti minha língua dormente, e o estômago reclamar.

“Companhia não é algo que a gente precisa, bobo. A gente só faz” ele me disse, agradecendo ao bartender pelo drink. Nós brindamos, e eu pedi mais da bebida rosa. Olhei para suas bochechas coradas de álcool, os olhos fechados ao bebericar do drink forte e a careta sincera após os goles pequenos.

Nós não conversamos por alguns instantes; apenas ficamos ali, bebendo, ouvindo da música que eu não conhecia e fazendo companhia um para o outro. E então, naquele momento, eu me surpreendi aproveitando um outro tipo de silêncio. Não estava em casa, escutando o eco dos meus próprios barulhos, ou sozinho em uma festa, desconfortável demais para ficar sóbrio. Eu estava com ele, calado, apenas sentindo o quão bom era poder ficar comigo mesmo naquela situação que só uma pessoa desconhecida poderia fornecer.

Talvez, eu já estivesse pra lá de bêbado.

Foi por isso que, sem me dar a chance de pensar duas vezes, empurrei meu banco para o seu lado e puxei um assunto qualquer. E ele, muito educadamente, ignorou os minutos anteriores em que eu tinha lhe respondido grosseiramente com a tentativa de aproximação, fingindo que nada tinha acontecido. Esperei por uma brincadeira, um deboche, ou um sarcasmo, qualquer coisa por sua parte que dissesse “está vendo? Você fez toda uma cena, pra depois vir sedento atrás de mim”, mas nada parecido aconteceu.

Ele respondeu todas as minhas perguntas, e me perguntou mil outras.

Conversamos sobre tudo que dois bêbados poderiam conversar: porque tínhamos vindo para a boate naquela sexta, sobre nossas bebidas, o que normalmente fazíamos fim de semana. E ainda assim, nós não contamos exatamente nada para o outro sobre sua própria vida, como um combinado sem sentido desses que vemos em filmes de romance.

Quando Mike apareceu de novo, nós ainda estávamos conversando. Hannah tinha bebido mais do que deveria, Noah estava morrendo de sono e Mike e Liza confessaram precisar acordar relativamente cedo no dia seguinte e, por isso, decidiram ir embora um pouco antes do normal. Eu apenas concordei, bêbado demais para dizer que não tem nada de cedo em sair da boate três e meia da manhã.

“Espere um instante!” o moço me chamou, mais uma vez, percebendo que eu estava indo embora sem nem me despedir. Disse para meu irmão que poderia ir na frente, que já aparecia em alguns instantes, e ele me olhou curioso antes de sair. “Me desculpe por ter sido insistente antes, sério. É só que você faz a melhor cara do mundo quando é contrariado e eu simplesmente não resisti”

“Ok, eu vou fingir que isso não é um absurdo” eu reclamei, com um sorriso bobo no rosto.

“Será que posso saber seu nome?” ele me perguntou. Olhei para suas mãos tímidas, grandes e provavelmente quentes demonstrarem todo seu nervosismo ao me fazer aquela pergunta, balançando pra lá e pra cá. Não teria problema em lhe contar meu nome, teria? Quero dizer, provavelmente não o veria de novo e, queira eu ou não, só tinha ficado até aquele horário louco por ter companhia.

“Meu nome é Brian” contei.

Ele olhou confuso para minha mão estendida, antes de corresponder ao meu cumprimento com um aperto de mão quente. “Matt”

Saí da boate sem olhar para trás, e corri até Mike, que segurava a porta do uber com muita paciência. Noah e Liza já tinham ido para casa, me contou, e ele iria levar Hannah para o seu apartamento já que não confiava em motorista algum para deixar a moça em casa. Nos despedimos com um abraço rápido. Quando enfim meu uber apareceu, eu corri para dentro e fechei a porta com força, desesperado para sair do frio gélido que estava a noite na rua. Deitei minha cabeça no estofado do banco e ri bobo de mim mesmo. De alguma forma, ainda conseguia sentir o perfume cítrico de Matt na ponta do meu nariz.

***

Diferente do que tinha imaginado, ter saído na sexta-feira me fez aproveitar o dia de folga melhor do que faria normalmente. Maratonei filmes clichês, fui à academia no meio da tarde e não me preocupei com horários para fazer minhas refeições. Dormi cedo, com a cara enfiada no livro, e acordei enrolado nas cobertas. Era bom finalmente poder mexer o tanto que eu gostaria a noite, sem me preocupar em acordar minha esposa. Imaginei, sem querer, se aquela seria minha vida hoje, caso não tivesse cegamente apaixonado nos últimos anos de minha faculdade.

Apesar do ótimo sábado, coisa que eu não tinha há anos, domingo foi um dia pesado de plantão no hospital. Quatro horas de sono depois, fui para meu consultório meia hora mais cedo que a primeira consulta, como sempre fazia. Gostava de programar meu dia com calma, relembrar a ficha de todos os pacientes e só depois de colocar tudo no seu perfeito lugar, eu estaria pronto para recomeçar o trabalho.

Então, sim, sexta a noite e todo o sábado tinham sido maravilhosos, mas não foi preciso mais do que a segunda-feira para me fazer voltar à rotina como se nunca tivesse saído dela. Era tão automático e protocolado, que eu sequer percebi quando suspirei pesado após cumprimentar meu secretário.

“O que temos para hoje?” perguntei contente, tentando deixar pra trás todo o cansaço do plantão enorme do dia anterior.

Frank correu os olhos pela agenda e conferiu o nome dos pacientes no papel com aqueles cadastrados no computador. “São seis consultas antes do almoço”

“Bom, parece que hoje temos bastante coisa a fazer” anunciei, depois de um instante calculando quando seria meu horário de almoço. “Depois que o último paciente entrar, não precisa esperar para começar seu horário de almoço, ok? Eu posso fechar o consultório depois que terminar.”

Ele fez que sim em silêncio e continuou trabalhando, sério como sempre. Frank era um cara diferente de muitos. Era magrelo e alto, dos cabelos ruivos e muito curtos. Usava sempre as mesmas blusas de estampa xadrez, com enormes quadrados coloridos e sóbrios, e pareceria ser um cara engraçado se não fosse completamente desprovido de humor. Lembro-me do dia em que bateu na porta do meu consultório logo nos meus primeiros dias de trabalho, pedindo por um emprego de meio período para conseguir pagar as contas da faculdade de direito. Hoje em dia, já com a faculdade acabando, Frank acabou por pegar mais horários no cargo de secretário, onde aproveitava o tempo das minhas consultas longas estudando livros pesados para seu concurso público. E como sempre acontecia todos os dias desde então, nós não trocamos nenhuma palavra a mais do que as necessárias durante a troca de pacientes.

Não me lembrava de ter aceitado uma manhã tão cheia de consultas após um domingo de plantão e, apesar de me sentir cansado antes mesmo de começar o dia, o tempo passou voando até meio dia. Existia algo de muito mágico na pediatria. Em alguns dias, como aquele, eu agradecia a mim mesmo mentalmente por ter escolhido uma área que me fazia tão bem quanto a pediátrica, no lugar de me enfurnar em uma outra que me desse mais dinheiro. Eu realmente gostava das crianças, e amava os pais. Sempre aquecia meu peito lidar com os mini-seres-humanos, e o tempo de trabalho se tornava o menor dos problemas para mim.

Só fui me espreguiçar por volta de meio dia, quando faltava apenas uma consulta. Samantha Scott era uma garota de quatro anos que nunca tinha aparecido no meu consultório antes, e a ansiedade de ter a primeira consulta parecia nunca sumir, mesmo depois de anos atendendo. Estiquei meus braços para trás e estralei os dedos, um por um, antes de chamar a última paciente.

“Ela ainda não chegou, Dr. Brian” Frank disse, pelo telefone. “Mas seu irmão está na segunda linha, insistindo para falar com o senhor”

Suspirei. Michael estava tentando falar comigo desde sábado de manhã, na verdade, e eu tinha ignorado suas ligações e mensagens desde então. Teria de atendê-lo uma hora, não é mesmo? “Pode deixar que vou atendê-lo. E pela milésima vez, Frank, não precisa me chamar de doutor e muito menos de senhor.”

Frank não respondeu antes de desligar a ligação.

“O que te fez perder a vergonha na cara e ligar pro meu consultório, Mike?” eu perguntei assim que o atendi. Deitei na poltrona confortável, contando os minutos para almoçar qualquer coisa. Ouvia mais os roncos da minha barriga do que minha própria voz naquele momento.

“Infelizmente tive que ligar para o único lugar que você me atenderia se eu estivesse morrendo, já que você é muito importante para atender o celular” ele resmungou, do outro lado da linha, claramente chateado por não ter atendido seus chamados. Nada respondi, esperando que ele continuasse a falar. Eu já sabia sobre o que Michael queria conversar sobre, e não era nada que eu gostaria de colocar em pauta. “Quem era aquele cara bonitíssimo com quem você tava conversando lá na boate, ein?”

“Ah, eu conheci ele lá mesmo. Como vocês me abandonaram, fiz novas amizades” brinquei, revirando os olhos. Mesmo sem querer conversar sobre sexta-feira, lá estava eu, aberto como um livro, respondendo o que quer que meu irmão perguntasse.

“Você o conheceu no bar? Como? Você falou com ele, ou ele falou com você? Ah, melhor: vocês se beijaram? Ele era tão maravilhoso, Brian, quem diria que depois de anos sem ação o seu gosto continuaria impecável?” Michael fez tantas perguntas ao mesmo tempo que elas só pareciam chegar no meu ouvido instantes mais tarde.

“O que, Michael, eu, ei! Eu sou casado, pelo amor de deus! Claro que não beijei ninguém, merda” xinguei, já nervoso, sentindo uma leve dor de cabeça começar em minhas têmporas. “Além disso, ele parecia muito mais novo que eu, de qualquer forma. Nós nunca mais vamos nos ver, então não precisa ficar curioso.”

“Nossa, mas você é um pé no saco mesmo” ele respondeu, no meio de uma risada. “Olha, mano, eu vou ser sincero com você. Seu casamento praticamente não existia nem quando você e Linda moravam na mesma casa, quem dirá agora que ela tá em outro continente! Ainda mais sendo paparicada por todos os médicos e cientistas da área. Sério, não sei como médico consegue ser tão puxa-saco um do outro assim”

Com o telefone no ouvido e nenhuma vontade de interromper o monólogo incrível do meu irmão mais novo, vi Frank abrir a porta com educação, sinalizando que o próximo paciente já havia chegado. Assenti, colocando o telefone para longe e dizendo que já poderia entrar.

“Mike, não importa o quanto meu casamento esteja péssimo para você, eu ainda não assinei nenhum papel de divórcio e não pretendo mudar isso no próximo mês, okay? Agora preciso muito desligar, pois ainda falta uma paciente antes do meu almoço. Vê se não me enche mais hoje.” Desliguei o telefone, massageando o canto de minha cabeça. Provavelmente, a dor de cabeça não iria passar sem nenhum remédio.

Menos de um minuto depois, ouvi a porta de entrada mexer em um barulho típico de quem tentava abri-la com cuidado, e a próxima criança entrou em passos saltitantes. Levantei da poltrona e fui até onde a garotinha estava, agaixando-me para ficar quase da sua altura.

“Ei, mocinha! Você é a Samantha, certo? Posso te chamar de Sam?” perguntei, acariciando seus cabelos compridos, e ela fez que sim, sem pronunciar nenhuma palavra. Ainda na porta, procurei por seus pais. Olhei para as calças jeans rasgadas, a blusa preta, o cabelo bem penteado e os olhos castanhos.

Matt estava ali, fechando a porta do consultório.

Senti meu coração acelerar por alguns segundos, antes de parar por um tempo indeterminado e longo. A fome tinha passado e eu não soube direito o que estava sentindo. Ele sorriu contente ao me ver, e eu não consegui falar uma única palavra sequer.

“Então o Brian da boate, que toma bebidas cor de rosa, é o mesmo Brian que atende crianças? Como é pequeno esse mundo” ele debochou de minha cara, sem parar de sorrir por nenhum segundo. “Venha, Sam, vamos sentar aqui”

Contorci meu rosto em desaprovação. Será que Matt era casado? Será que seu casamento era tão triste como o meu, a ponto de estarmos nós dois na boate sexta a noite apenas fazendo companhia um para o outro, ou seria aquele casamento construído e perfeito, em que ainda assim o marido traía a mulher? Céus, Matt parecia tão novo para ter filhos! Parecia muito distante da garota para ser um pai presente, e ter notado isso me fez questionar todos os tipos de coisa em seguida.

Eu ainda estava meio atônito, caminhando de pernas bambas até meu lugar atrás da mesa, quando Matt colocou-se a explicar o motivo da consulta:

“Samantha teve febre alta nas últimas duas noites. Ela tá aí toda serelepe porque tomou um antitérmico, mas mal conseguia comer nos últimos dias.”

“Só febre?” perguntei, já me preparando para o exame físico da garota. Estava muito nervoso para fazer um bilhão de perguntas e esperar suas respostas saírem debochadas daquele sorriso maldito. Já que era importante fazer todas as perguntas que precisava, que o fizesse enquanto examinava a menor, sem precisar encarar os olhos castanhos e redondos, que pareciam mais claros naquela segunda-feira.

“Pelo o que eu sei, sim” Matt respondeu sem se levantar da cadeira, vendo-me carregar a Samantha para a maca limpa.

“Teve alguma dor? Alguma alteração na cor do xixi? Alguma diferença no sono que você notou?” perguntei, palpando seu abdômen estufado e macio, como sempre eram nas crianças daquela idade. Para todas essas perguntas e todas outras, a única coisa que ele conseguiu me responder foi “Não”, “Não sei” e “Isso é mesmo importante?”

Examinei com cuidado sua garganta, ouvidos e nariz. Deixei o termômetro calculando sua febre e, já puto da vida, virei-me para falar com Matt. “Deve ser apenas amigdalite. Sua garganta está bem inflamada, então faz sentido nossa Sam aqui não ter consegui comer nada nos últimos dias.”

Por algum motivo infeliz, lembrei-me daquela conversa desgastante que tive com Linda durante o almoço, poucas semanas antes dela partir. Ninguém vai morrer de amigdalite só porque você ficou uns dias fora.

“Onde vai almoçar hoje?” ele perguntou, parecendo ter ignorado meu diagnóstico e todas as instruções que dei logo em seguida. Pisquei algumas vezes incrédulo, antes de realmente entender o que ele queria dizer.

“Vou fazer a receita do antibiótico. Ela pode continuar tomando o antitérmico também, como vou deixar escrito aqui na receita, já que teve a falta de educação de ignorar tudo o que eu falei” respondi ríspido, voltando a sentar atrás da mesa. Passei a digitar os medicamentos, detalhe por detalhe. Pais que não sabiam nada sobre os filhos e não faziam o mínimo de esforço para entender a doença da criança certamente eram os piores. Conseguiam me tirar do sério com pouco.

Bati o carimbo com força nas duas cópias do papel, e arrastei pela mesa de vidro até ficarem em sua frente. Ele agradeceu, dobrou os papéis em quatro sequências e colocou no bolso do blazer escuro. “Ainda não me respondeu sobre seu almoço”

Quantos anos você tem mesmo, garoto?” perguntei, verdadeiramente cansado. Já havia acabado a consulta e sua presença no local enquanto Samantha vestia as roupas de qualquer jeito me incomodava. Levantei-me para ajudá-la a vestir o pequeno moletom, passando pelos seus braços redondos um por um.

“Vinte e seis” ele respondeu, sem dar muita importância a minha pergunta. “Conheço um ótimo italiano aqui perto”

Encarei os olhos divertidos de Matt, sem ter muita certeza que acreditava naquela idade que ele tinha me informado. Depois que Samantha já estava devidamente vestida e Matt não tinha mexido um músculo do seu lugar, coloquei a menina de volta no chão.

“Olha só, não deixa seu pai esquecer de te dar os remédios na hora, tudo bem? Se você não melhorar rapidinho, é só voltar aqui que eu te ajudo de novo” falei para a pequena, enquanto tinha minhas mãos abaixo de seus bracinhos. Olhei de novo para Matt, mais uma vez, antes de sair do meu próprio consultório. Ele era, sim, bonito o suficiente para me fazer esquecer de Linda por alguns instantes. “Está atrasando meu almoço, garoto. É só encostar a porta depois que sair.”