PS: NÃO ESCREVA
4 Quarto capítulo
CAPÍTULO 04
A terça-feira tinha passado tão pacata, que até mesmo pareceu com a quarta-feira. E com a quinta. E quando finalmente sexta-feira chegou, uma sensação estranha tomou conta de meu corpo. Estava em casa sozinho já há 40 minutos, além dos oito dias que estava sem Linda.
Eu me sentia estranho, sem saber ao certo o que acontecia em minhas entranhas. Sabia, de certa forma, que tudo isso tinha a ver com minha esposa. Sabia, também, que algum sentimento novo corroía cada canto dos meus ossos. Sentia meu estômago pequeno e deserto, e meu pulmão parecia mudar de formato toda vez que um suspiro cansado saía fugido de minha boca. Eu me sentia gelado e denso, e independente do que fosse o que sentia por Linda, eu tinha a prévia certeza de que não era saudades.
Eu estava sozinho e estranho, porém não sentia saudades. Claro; sei que uma hora ou outra a falta de Linda iria chegar. Firme, dura e cruel. Por isso, enquanto a saudade não viesse, eu iria ficar ali, olhando o teto vazio do nosso quarto, aproveitando do estranho alívio que era finalmente poder permanecer em silêncio. Não que meu relacionamento com Linda fosse feito de palavras — a maior parte do tempo em que convivemos, sequer nos falamos. Os dias eram calados, e as poucas conversas que tínhamos eram carregadas de desconforto. Agora, diferente de antes, o silêncio existe por si só. Era vasto e me deixava inquieto, mas era diferente do silêncio infantil que aturava para sustentar meu casamento quase inexistente.
Estiquei-me na cama, conferindo quanto tempo ainda teria de descanso até voltar para o consultório às duas da tarde; com sorte, conseguiria ler um bocado antes de partir. Apanhei o suspense esquecido em minha cabeceira e desisti depois de vários minutos encarando as páginas amareladas. Minha cabeça não se prendia nas palavras impressas, e meus dedos brincavam sem paciência com as páginas. A frustração me fez olhar para o outro lado da cama, e perceber a escrivaninha de Linda estranhamente vazia. Michael tinha aparecido na quarta-feira passada, em uma das suas tentativas amáveis e não efetivas de me distrair, e pegou emprestado o tal romance do escritor famoso. Jurou que traria de volta na próxima quarta assim que acabasse de ler: nós dois sabíamos que isso era mentira.
Pensei em colocar alguma música, mas caí na contradição do sono. Cochilei sem vontade, na esperança boba de que uma hora de sono poderia tirar de mim todo o cansaço da semana.
Fechei os olhos. Não sonhei.
Quando acordei, assustado, ainda faltavam quinze minutos para o despertador tocar. Minha roupa tinha amarrotado, tudo o que eu mais quis no mundo foi poder dormir mais toda a tarde, feito um adolescente. Ainda um tanto quanto perdido, notei que tinha sido acordado por uma mensagem no celular que estranhamente não estava no silencioso.
Era Linda. Ela dizia não saber que horas eram no próprio país, mas tinha se lembrado com a troca de dias que hoje era o fatídico dia de pagar as contas da casa. Ela não tinha como fazer o pagamento de lá, (coincidentemente!) e me pediu com pouco carinho para fazer o que era preciso eu mesmo. Bom, pensei, no mínimo tenho com o que me ocupar nos quinze minutos restantes, certo?
Certo.
Acontece que, como aparentemente este não era o meu dia de sorte, não consegui achar meu cartão de crédito por nada nesse universo. Procurei nas gavetas, quinas. Olhei sete vezes em minha carteira. Não estava no carro. Já estava perdendo a paciência, quando lembrei-me da minha bolsa de trabalho. Como poderia estar em outro lugar senão ali? Tirei com pressa os materiais médicos que sempre andavam comigo, e viviam em um compartimento separado. Em seguida, busquei da bolsa tudo o que meus dedos alcançaram sem a necessidade de acender a lanterna. Veio a mim todo embolado o carregador do celular e algumas notas de compras que não me lembro de ter feito. Minhas duas únicas canetas pretas e os fones de ouvido. Até que me apareceu um papel.
Papel este que eu não reconhecia; não me lembro de ter colocado nada parecido dentro de minha bolsa, e sequer reconhecia a caligrafia do bilhete.
(XXX) XXXXX-XXXX
PS: ligue se sentir saudades.
Li mais duas vezes, virando o papel amassado em busca de alguma assinatura. Nada. Não me perguntei muito sobre de onde teria vindo aquele estranho número de telefone — encontrei meu celular entre as cobertas grossas de minha cama e digitei a ordem ali escrita com certa euforia. Poderia ter sido Michael, pensei, fazendo alguma gracinha comigo por ter trocado de telefone. Poderia ser um engano, quem sabe, de alguém que colocou o bilhete entre minhas coisas, na esperança de que eu fosse outra pessoa. Independente do motivo, sentia-me incrivelmente curioso para descobrir de onde o papel viera, e com certa amargura quanto a mim mesmo, por perceber que um número estranho tinha me causado mais reações do que os últimos sete dias.
Ouvi uma voz que conhecia, porém não esperava, me cumprimentar. Fiz uma careta.
“O que passou por essa sua cabeça, quando colocou um maldito papel no meio das minhas coisas?” perguntei, um tanto sem paciência.
Ouvi a risada de Matthew risada anasalada do outro lado da linha, como quem realmente achava graça de tudo aquilo. “Na verdade, eu fiquei me perguntando quanto tempo demoraria. Quero dizer, você tem muita cara de ser alguém chato com organização, mas pelo visto nem olha o que tem dentro da própria maleta”
“Pois eu olhei, garoto. Estou te ligando agora, não?” retruquei. Ele não voltou a rir, mas era possível sentir sua voz cantarolando de deboche.
“Sim, você está me ligando. Porque sentiu saudades, eu imagino” respondeu Matthew, se referindo ao próprio recado. “Quer dizer, isso imaginando que você encontrou o próprio bilhete na segunda, e deixou pra me ligar só hoje. Ou, é claro, você só encontrou meu número agora. Mas tudo bem, Brian. Eu também estou com saudades.”
“Você me irrita, juro” eu disse, sem conter uma risada pouca. Matt disse mais um punhado de coisas, todas de uma vez, e eu achei graça de sua reação. “Ok, ok. Eu confesso que só encontrei agora. Mas saiba que, independente disso, sou muitíssimo organizado.”
“Claro, claro. Ah, já sei!” exclamou Matt, aparentemente alegre consigo mesmo por sua recente descoberta, “Vou aí te ver hoje a noite, e a gente dá uma olhadinha no seu quarto.”
“Ah, claro. Aproveita e traz um vinho que tal?” respondi de má vontade.
“Sem problemas. 20h então, pode ser?” ele perguntou, feito o sem vergonha que ele era.
“Certo. Você sabe que eu fui irônico, então não vou voltar nisso. Mas boa sorte tentando chegar até aqui, em um horário desses.” eu disse, depois de um suspiro pesado. Será que a maior habilidade de Matthew era ser incrivelmente inconveniente?
“Oh, Brian. Claro que eu sei que você foi irônico, mas fazer o quê se foi uma sugestão tão maravilhosa? Mas tudo bem, eu posso ir mais tarde. Vê se não dorme cedo, ok? Ah, e obrigado por ter ligado, vai ser ótimo ter seu número. Preciso voltar ao trabalho agora, certo? Até mais tarde.” disse ele, uma frase após a outra. Desligou antes de ouvir qualquer resposta minha.
Joguei o celular de volta na cama, sentindo mil coisas ao mesmo tempo. Para ser sincero, não sei dizer porque fiquei tão surpreso com algo tão óbvio como quem teria me mandado tal bilhete inexplicável. Mal conhecia Matthew, porém de alguma forma isso parecia muito a cara dele.
Nos minutos seguintes do meu pequeno intervalo até a próxima consulta, decidi por organizar meu guarda-roupa e avaliar a necessidade de algumas peças (tanto de adquirir algumas novas, quanto de doar umas antigas), e eu juro, por tudo que é mais sagrado, que isso nada tinha a ver com o fato de Matthew me chamar de desorganizado. Pensei em Noah instantaneamente, e mandei uma mensagem despreocupada o convidado para ir fazer compras no meio da semana que vem.
Não me lembrei mais do cartão de crédito e pouco me importei de onde ele poderia estar.
E quando Michael chegou em casa para me dar uma carona até o trabalho, eu ainda sentia o gosto amargo da surpresa em minha boca. Meu irmão mais novo riu da minha cara, apontando dedos para minha careta.
“Mas sério, que bicho te mordeu?” ele perguntou, risonho.
“Meu carro já está arrumado, sabia? Eu posso muito bem dirigir até o consultório.” respondi. Mike reclamou alguma coisa ou outra, justificando sua boa ação com algum motivo não plausível. Eu sabia que ele tinha aquele carinho inexplicável por mim, e talvez vir conferir como eu estava poucas vezes por semana fazia mais bem para ele, do que para mim. Quase como se tivéssemos os papéis da idade invertido. Todavia, eu realmente não gostava de incomodá-lo com minhas carências afetivas. Mike tinha sua própria vida, seu próprio emprego e próprios problemas amorosos. Ele tinha sua própria casa, seus gatos para cuidar e roupas para lavar. Michael tinha seu próprio carro extravagante, cuja cor vermelha me irritava e a gasolina não merecia ser gasta comigo.
“De qualquer forma, você sabe que é meu caminho” ele terminou de se explicar, aguardando o sinal abrir para dar continuidade ao trajeto. Olhou-me mais uma vez. “Mas sério, o que aconteceu? Foi a Linda?”
O olhei curioso. Era relativamente difícil ver meu irmão se referindo à Linda sem ter nenhum adjetivo depressor ao lado, como tinha sido daquela vez. Provavelmente ele realmente estava preocupado, pensei. O que significa que eu estava com um aspecto pior do que imaginava. “Não, nada a ver com a Linda. Na verdade, sequer tinha pensado nela até agora.”
“Cacete. O que foi que te fez esquecer da bruxa?” ele perguntou. Aí esta, ri comigo mesmo, o defeito acompanhado ao nome de Linda. Não importa quanto tempo passe, aqueles dois nunca se dariam bem.
“Não é nada. Bom, eu acho.” Senti os olhos saltados e azuis me encararem, e não o olhei no rosto. Cocei a garganta. “Você se lembra daquele cara, com quem conversei na boate?”
“Na boate?” ele questionou, surpreso, como se conferisse a informação.
“Sim, na boate. Enfim. Nós nos encontramos de novo na segunda. E aí, por algum motivo estranho eu conversei com ele por telefone hoje, e, não sei, talvez nós nos vejamos de novo?” tentei afirmar, mas não consegui conter o tom de pergunta. Michael estava verdadeiramente surpreso. Tinha levado a mão magra ao rosto, fingindo choque.
“Nossa, Brian, como você é safado! Mal Linda tirou o pé do país e você já está em cima de outro? Quem te viu, quem te vê” ele brincou, e eu fechei a cara.
“Não é nada disso, imbecil. Ele sabe que eu sou casado, inclusive.” revirei os olhos. Mike era mestre em pensar bobagens e distorcer fatos.
“Então ele tinha esse tipo de interesse em você!” disse eufórico. Graças ao bom deus já conseguia ver o consultório do outro lado do cruzamento, indicando que aquela conversa definitivamente não demoraria muito mais tempo. Pensei em responder que sim, é óbvio que ele tinha esse tipo de interesse, uma vez que nos conhecemos na boate. Quero dizer, com qual outro motivo as pessoas se aproximariam uma das outras em um ambiente tão propício?
“Calma. Então você está me dizendo que sabe as intenções dele, muito conscientemente, e ainda assim está se aproximando? Isso me parece um pouco passivo-agressivo demais até mesmo para você, Bri.” disse o caçula. Eu o olhei surpreso, depois de um tempo evitando suas feições. Que merda. Senti a verdade inesperada cair dura em meu colo, como chumbo. Eu sabia, sim, onde estava me enfiando ao deixar Matt se aproximar, certo? Sempre respondia aos seus deboches e provocações a altura, como em um flerte despretensioso, e mesmo que eu negasse sua presença no início, em ambas as vezes em que nos vimos, fui eu quem o procurou instantaneamente. Bom, pensei, não é bem um assunto que eu gostaria de pensar no momento.
“Eu não estou se aproximando. Ele que é insistente.” desconversei. Ele me olhou como quem duvida de cada palavra, e estacionou com tranquilidade em frente ao prédio enorme em que eu trabalhava. “É sério, ok? Hoje, tenho certeza que vai ser a última vez. E eu nem vou deixar ele entrar em casa.”
“Calma, o quê? Vocês vão se encontrar na sua casa? Puta merda, Brian, volta aqui, seu falso, anda logo e me dá mais detalhes disso!” o ouvi reclamar, enquanto saía do carro apressado.
“Não. Vai trabalhar. Obrigado pela carona, sim?” o ouvi reclamar algumas vezes mais após ter me virado de costas, e ri divertido da reação do meu irmão mais novo.
***
Já era tarde quando uma brisa gélida fez as cortinas balançarem. Levantei-me das cobertas com preguiça para fechar as janelas; o frio parecia ter se agravado naquele início de novembro. Fiz força para fechar a madeira, como se esta estivesse empinada, e me perguntei se nevaria logo. Tropecei em meu próprio pijama e decidi ir até a cozinha, optando por um chocolate quente por já estava em pé. Meus passos saíram sem som pelo arrastar da meia branca, e aproveitei o passeio pela casa para fechar as demais janelas da casa. Perguntei-me, sem querer, se iria nevar mais cedo esse ano.
Foi quando o leite quase estava fervendo, que ouvi o barulho escandaloso da minha campainha tocar. Olhei as horas no enorme relógio pendurado atrás de mim: onze horas. Um riso escapou dos meus lábios. Não poderia ser Matthew, certo? O mais provável, é que fosse Noah e Elizabeth ansiosos para o dia de compras que combinamos para o dia seguinte, cheios de histórias e cobertores quentes para dormirem no sofá, como costumavam fazer há praticamente cinco anos. Mas coisas que costumavam acontecer há praticamente cinco anos, não voltam a acontecer de novo com tanta facilidade. Por isso, quando andei arrastado até a entrada da casa, fiz com a menor pressa possível: fui arrastado, ouvindo o som do meu moletom se encostar à medida que eu balançava minhas pernas, e demorei a encontrar as chave certa da porta.
“Matthew.” afirmei. E, impressionantemente, não pareci tão incrédulo como acreditei que ficaria ao vê-lo lá, parado no frio, na porta da minha casa. Ele estava escorado na porta, com os cabelos escuros e castanhos emaranhados debaixo de uma touca alaranjada. Seus olhos cor da noite me olharam com diversão, e um sorriso torto apareceu em seu rosto.
“Uau. Estou procurando por um tal de doutor Brian Gallagher, mas parece que vim ao lugar errado” Matt brincou ao me ver de pijamas, feito de panos grossos e desenhos coloridos.
“Estou me preparando para ir dormir, como você pode ver. O que você está fazendo aqui essa hora, inclusive?” eu perguntei, fazendo o possível e o impossível para segurar um sorriso.
“Vim trazer os dois vinhos, como prometido. Lembra? A gente conversou disso hoje cedo, não acredito que você já se esqueceu.” ele respondeu, mostrando as duas garrafas em suas mãos, que eu não tinha notado ainda.
“E o meu endereço? Andou me perseguindo?” perguntei sarcástico. E então ele deu um suspiro pesado, fingindo cansaço ainda com um sorriso no rosto.
Matt deu um passo para frente, e eu pude sentir seu perfume caro invadir meu olfato pouco aguçado. Deixei meus olhos correrem pelos seus. Já bem próximo, ele disse baixo: “Sério. Como você é esquecido! Isso é porque você trabalha demais, Brian. Juro. De segunda pra cá tem o quê, quatro dias? E você já esqueceu que me deu seu endereço depois de perder em uma aposta vergonhosa?”
Abri a boca e fechei algumas vezes, sem saber o que falar. Merda. Tinha me esquecido totalmente dessa aposta idiota, e quando ele disse que viria na minha casa hoje, tinha levado muito na brincadeira. Quero dizer: pensei que talvez ele tivesse, sim, como saber onde eu morava por algum outro motivo que não fosse minha estupidez ao decidir beber no horário do almoço, e apostar em algo tão bobo só por ser muito competitivo. Olhei-o torto e dei um passo para trás, nos afastando.
“Não vai me convidar para entrar?” ele perguntou, também voltando um passo para trás. Esperou minha resposta com dúvida, quase pronto para voltar exatamente por onde veio. Olhei para a rua e o vento frio bateu na porta. Esfreguei as mãos. Perguntei a mim mesmo o que raios eu queria. Disse ao Mike mais cedo que não o deixaria entrar se ele aparecesse, pois na hora, me pareceu o mais certo a se fazer, caso eu me encontrasse realmente na situação em que estava agora.
Então por que raios isso me parecia a pior das opções possíveis no momento?
“Bom, está bem frio aí fora, não acha?” perguntei, dando a ele espaço para passar por mim. Matthew não demorou muito para fazê-lo; logo passou por mim, se espreitando pelo buraco que havia entre meu corpo e a porta. Voltei a chave para o ponto inicial.
Quando voltei a atenção para Matthew, ele estava parado em minha sala de estar, e as duas garrafas de vinho já estavam repousadas na minha mesa de centro. Seus olhos correram pela sala, como se guardassem todo detalhe possível. Achei, por alguns breves segundos, que ele realmente estava analisando tudo como disse que faria. E então, para a minha surpresa, o que ele disse a seguir nada tinha a ver com a decoração da minha casa.
“O que está queimando?”
“Puta que pariu”, soltei, apressado, correndo até a cozinha. Tinha me esquecido do leite, sendo que ele já estava fervendo quando saí de perto! Desliguei o fogão e abri as janelas da cozinha, para deixar sair a fumaça que já tinha começado a se formar. Ouvi Matthew gargalhar.
“Poxa, pelo visto você já estava mesmo indo dormir.” ele comentou, ainda entre risadas, “mas veja o lado bom: pelo menos eu trouxe vinho. Então você não precisa mais de chocolate quente para dormir”.
“Meu leite queimou por sua causa, idiota” respondi, olhando para ele de relance.
E mesmo reclamando todo o tempo, a primeira coisa que eu fiz ao terminar de arrumar a bagunça que tinha feito na cozinha foi apanhar duas boas taças de vinho no armário.
Voltamos para a sala, onde estavam os dois vinhos. Ele ligou a televisão e escolheu algum programa bobo para passar enquanto conversávamos. E nós conversamos. Muito. Eu não saberia dizer, nunca nessa vida, o que passava na cabeça de Matthew. O que o fez realmente aparecer lá em casa naquela noite, ou deixar o bilhete com seu número em minhas coisas de trabalho, ou até mesmo o que o fez falar comigo naquele dia da boate. Não teria como eu sequer adivinhar o que poderia ter levado-o a fazer cada uma dessas coisas — tudo era muito espontâneo e provavelmente muito pouco pensado, completamente diferente do modo pragmático com que eu levava a vida. Eu sei que, mesmo que cada uma dessas coisas e seus motivos nunca fossem entrar na minha cabeça, tinha algo sobre Matthew que me encantava muito.
Nossa conversa passou de uma taça de vinho para duas, e de duas taças para uma garrafa de vinho. E quando finalmente estávamos já em meados da segunda, já nem prestávamos mais atenção na televisão, e minha sala estava uma bagunça: todos as almofadas estavam fora do lugar. Em cima do sofá estavam três cobertores grossos que Matthew tinha insistido em ser muito necessário, mesmo que ele só tenha usado um único por apenas um tempo. A garrafa vazia tinha caído no chão e, por sorte, não havia sequer uma gota para sujar o tapete caro de Linda. Na mesa de centro, tinha variados pacotes de salgadinho abertos, desses que a gente compra e provavelmente nunca comeria se não fosse em uma situação como aquela.
“Eu te disse que você definitivamente não precisava de tanto cobertor!” brinquei. Estavamos sentados no tapete, pois concordamos em algum momento de sobriedade que não seria muito sábio de nossa parte beber tinto em cima do sofá claro.
“Claro que precisava! Ainda preciso, na verdade. Acha que eu vou dormir no frio?” ele perguntou, fazendo bico. Eu ri, bêbado, e voltei a bebericar do vinho.
“O que te faz pensar que você vai dormir aqui, garoto?” retruquei, também em forma de pergunta.
“Os vinhos. Eles me contaram que eu vou dormir aqui” respondeu Matthew, rindo de si mesmo. Apanhou a garrafa pela metade e voltou a servir as taças, dando-nos mais do que beber. “E não sou garoto”, complementou.
Eu nada disse. Bebi, em silêncio, vendo-o tentar inutilmente a garrafa com a rolha já quase esfarelada. Ele voltou a falar algo sobre como era eu quem tinha jeito de velho, já que ele tinha bons vinte e seis anos. E era bem verdade; se eu havia reparado em algo nas duas vezes que nos vimos fora da boate, é que Matthew era um homem completo. E por completo, eu quis dizer que ele é desses caras altos de costas largas, cheio de tônus muscular. Desses que hidrata o cabelo e sempre deixa a barba por fazer. Que usa bons perfumes caros, tem olhos bonitos e a voz grave, e provavelmente já foi o sonho americano de alguma garota no ensino médio.
“O que você está fazendo?” ele perguntou em um sussurro. Nós estávamos próximos. Bem próximos, na verdade. Eu havia me inclinado para frente e largado a taça na mesinha de centro. Seu hálito tocou minha pele, e tive vontade de fechar meus olhos. “Oh, Brian. Não acredito que me deixou bêbado para tentar me beijar a força.”
Afastei-me em um susto, batendo de leve a mão em minha própria taça. Matthew logo tirou alguns guardanapos do pacote e se prestou a secar a mesa antes que o vinho acabasse no tapete caro.
“Puta merda, me desculpa. Sério” eu disse afobado, indo até a cozinha achar algum pano livro escondido por ali. Onde raios eu estava na cabeça, pelos céus! Voltei apressado para a sala, pedindo desculpa mais uma vez.
Matthew tinha voltado sua atenção para a televisão e o programa desnexo que aparentemente passava sempre às madrugadas, e deu um longo gole no vinho tinto antes de dizer: “Deixa pra pedir desculpas pelo beijo quando eu me desculpar por não ter te beijado de uma vez”
Eu ri alto, e ele me encarou divertido. Ele, de roupas rasgadas e meias escuras no pé.
Matthew Scott estava lindo, e eu me perguntei quando meu coração iria parar de dar falsos pulos dentro do peito.
Aproveitei que tinha levantado para terminar de limpar a bagunça que fizemos na sala. Matt reclamou ao me ver tirar os cobertores da sala, mas logo contei para ele que tinha um ótimo quarto de hóspedes no qual ele poderia passar a noite sem se preocupar. Quando subi até o quarto, ele logo foi atrás de mim oferecer por ajuda, e eu aceitei.
Foram tantas conversas e brincadeiras sem motivo, que já passava das três da manhã quando tínhamos finalmente terminado tudo. “Amanhã preciso acordar cedo” contei, mesmo que não fosse lá muita verdade.
“Tem bastante espaço aqui” disse ele, rindo de canto, caindo como um peso na cama recém arrumada; acompanhei cada um dos seus pequenos movimentos, com plena consciência de tudo o que ele fazia. Mordi o lado inferior, nervoso.
“Espero que isso significa que você está bem confortável” pronunciei antes de sair, sem desejar boa noite.
Matthew nada disse como resposta. Muito menos no dia seguinte — quando acordei, ele já tinha saído. Não é como se eu esperasse que ele estivesse aqui ao acordar, certo? Mas ainda assim, algo em mim aconteceu quando fui curioso até o quarto de hóspedes, e encontrei a cama muito bem arrumada. Lembrei-me das nossas conversas; sorri bobo.
Quando voltei para a cozinha, encontrei a mesa de café da manhã já posta. Despejei o café ainda quente em uma xícara grande. E no meio de todas as maravilhas que uma padaria poderia fornecer, encontrei um bilhete escondido.
Brian,
Espero que o café da manhã sirva como agradecimento por ter me deixado passar a noite aqui.
Vou te buscar para o almoço amanhã!
PS: pare de resmungar meu nome enquanto dorme.
Ri alto, sozinho. “Ele é um idiota mesmo.”
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