Notas iniciais
Fala pessoal! Essa é a minha segunda fic de Premonição, espero que curtam essa nova visão que tenho sobre a franquia. Boa leitura!

A tarde começava a declinar quando o Volvo C30 de Lana estacionou no complexo da Oceanic Line, uma imponente construção costeira que abrigava o recém-reformado Oceanic Line Aquarium — agora anunciado como o maior aquário do leste do país.

O estacionamento já estava lotado de famílias, repórteres, influenciadores e curiosos. Balões azuis e com gravuras de peixinhos dourados flutuavam nas laterais da entrada, e uma faixa anunciava a grande reinauguração da atração principal: um túnel cilíndrico espiral feito de vidro que levava os visitantes até uma cúpula panorâmica no topo.

Dentro do carro, Miley Aster fitava o local com ceticismo contido. Jornalista investigativa da revista HADES, especializada em matérias urbanas e desmistificações, ela não estava se sentindo nem um pouco animada com o reencontro.

Lana sorriu ao ver como a amiga estava usando uma blusa escura de botões que deixavam uma discreta fenda entre seus seios quase inexistentes. Seu cabelo ruivo e ondulado despencava em cachos sobre seu rosto firme.

— Você tá mesmo nervosa por isso? — perguntou Lana, sua colega e colunista de temas esotéricos, com um tom debochado. — Ele nem era tão gostoso assim na adolescência. Vai ver agora tá barrigudo, calvo e espiritualizado.

Miley riu com um suspiro.

— Brad Eggers... espiritualizado? Ele só quer rever uma velha amiga. Que, por acaso, tá divorciada há um ano e meio.

— Exato. E é por isso que eu estou aqui: apoio emocional, observação à distância e se necessário, um pé na bunda nele. — disse Lana, abrindo a porta do carro. Seus anéis tilintaram enquanto ela gesticulava, e o cheiro leve de sálvia exalava de seus trajes leves — Vamos. Já que você veio até aqui, que seja com dignidade.

As duas desceram e caminharam em direção à entrada do aquário. Um coral de risadas, flashes e anúncios de microfone envolvia o lugar. Miley observava o fluxo de visitantes com atenção jornalística — mães com crianças nos ombros, casais jovens de mãos dadas, adolescentes filmando tudo para as redes.

Mas algo desviou sua atenção.

— Você tá bem? — perguntou ela, notando que Lana parara por um segundo, as sobrancelhas franzidas.

— Sim... só uma vibração estranha. — murmurou a amiga, apertando discretamente o colar em forma de pentagrama no pescoço. — Não sei... parece carregado aqui.

Miley bufou, sorrindo.

— Eu prefiro acreditar que isso é só nervosismo mesmo. Sempre que eu quero ignorar o mundo, você vem com seu sexto sentido gritando.

— E você me ama por isso. — rebateu Lana com um olhar divertido — Agora vai lá. Seu príncipe das mangueiras te aguarda.

Afastando-se com uma piscadela, Lana seguiu seu próprio caminho pela passarela de vidro, decidida a explorar o local com calma. Miley ficou ali por um momento, se recompôs e logo viu Brad se aproximando.

Ele era bem mais que uma lembrança do passado. Alto, braços largos marcados sob a camisa de botão azul-marinho, barba bem cuidada e aquele mesmo olhar gentil que ele tinha no colegial — só que agora acompanhado de uma voz firme e presença de quem lida com o perigo todos os dias.

— Miley? — ele disse, abrindo um sorriso caloroso — Uau... você não mudou nada.

— E você ficou... funcionalmente bonito. — respondeu ela, um pouco surpresa com o próprio comentário.

Brad riu e a cumprimentou com um abraço que durou um segundo a mais do que o necessário. Eles começaram a caminhar para dentro do saguão principal enquanto o vidro ao redor refletia a dança hipnótica dos peixes tropicais.

Enquanto isso, Lana subiu pela espiral de vidro, onde luzes azuladas iluminavam cada passo. Ao seu lado, um casal gay de meia idade subiu lentamente. Um deles era aparentemente cego pelos olhos esbranquiçados e óculos escuros, mas sorriu enquanto o companheiro descreveu cada detalhe ao redor — desde o brilho dos cardumes até a imitação de corais exóticos.

— Tem uma arraia linda logo acima... parece que tá flutuando no céu. — falava ele, com carinho.

Lana sorriu. Era bonito de ver. Mas um calafrio inesperado percorreu sua espinha. Ela tentou ignorar, mas era mais forte que ela e a obrigou a observar para o saguão lotado.

De repente, os alto-falantes tocaram uma música pop animada — “Blow” da Kesha — que reverberou pelas paredes de vidro. O som, para os outros, era apenas trilha sonora. Mas para Lana, era um gatilho.

"No one's getting out

This place about to blow (oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh)

Blow (oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh)

This place about to blow (oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh)"

Seus dedos se contraíram. A respiração ficou irregular. Os olhos fitaram o teto como se esperassem algo cair de lá.

— Está tudo bem, moça? — perguntou o homem que guiava o cego, gentil.

— Sim... só me deu um mal estar passageiro. — disse ela, forçando um sorriso. — Não se preocupe.

Mas dentro dela, algo havia estremecido. Como se um alerta silencioso ecoasse na frequência que Miley sempre insistiu em deixar de lado.

E, pela primeira vez em muito tempo, Lana teve medo de estar certa.


○○○

Brad caminhava ao lado de Miley, atento ao ritmo dela, como se temesse andar rápido demais e deixar a conversa para trás.

— Sabe que eu ainda lembro da sua franja azul no terceiro ano? — disse ele com um riso nostálgico — E do seu caderno cheio de adesivos de bandas que ninguém conhecia.

— É... eu era um caos organizado. — respondeu Miley, cruzando os braços com um sorriso envergonhado — Mas confessa, você só lembra disso porque zoava meu aparelho.

Brad abriu um sorriso sincero, os olhos se iluminando.

— Tá, talvez um pouco. Mas olha você agora... sem aparelho, jornalista de revista séria. Mudou bastante.

— Só por fora. — ela respondeu, tentando soar casual, mas ainda meio desconcertada com o elogio — Você também mudou. Tá... diferente.

— Diferente bom ou diferente “nossa, que pai de pet crossfiteiro”?

Miley sorriu.

— Um pouco dos dois.

Os dois riram juntos enquanto se aproximavam de um grupo de visitantes reunidos no hall da segunda ala. Era uma antesala grande com um tanque interativo para as crianças tocarem pequenas arraias vagando em águas rasas e cristalinas.

O guia já os esperava: Wayne O’Brien, um homem alto, barbudo, de expressão firme e cabelos escuros tão volumosos quanto os fones de ouvido pendurados no pescoço. Usava um colete com o crachá da Oceanic Line e olhava com frequência para uma garotinha de cerca de 10 anos, de tranças castanhas e macacão jeans, que observava os peixes com o nariz colado no vidro.

— Filha, eu já falei para você não tocar nas vidraças.

A garotinha revirou os olhos e fechou à cara, cruzando os braços enquanto Miley observava a teimosia dela ao longe

— Sejam muito bem-vindos à reinauguração do Oceanic Line! — disse ele ao notar os olhares. — Irei levar os interessados aos novos tanques instalados na nossa cobertura! E quem gosta de comprar brindes, temos lojas especializadas lá em cima!

O grupo começou a seguir Wayne, que conduziu os turistas com profissionalismo. Suas instruções reverberavam pelas paredes de vidro enquanto subiam uma longa escada rolante cercada de tanques iluminados, formando um túnel aquático onde belos corais com ouriços e enguias nadavam ao redor como num balé sombrio.

Miley observava tudo, mas algo fora da estética perfeita do lugar a fez parar.

Na entrada da ala dos tanques interativos, dois adolescentes se destacavam pela postura desconectada do resto do ambiente. Um deles estava em uma cadeira de rodas, vestindo moletom escuro e uma manta cobrindo suas pernas.

O outro empurrava a cadeira com passos pesados e uma mochila grande nas costas. Tinha o olhar duro, os ombros tensos e uma tatuagem chamativa na lateral do pescoço: uma caveira em chamas, que pareceu pulsar sob a luz azul do aquário.

Miley franziu o cenho.

— Aquele ali... — murmurou para si.

Brad olhou na mesma direção.

— Conhece?

— Não. Mas... — ela hesitou. — Meu faro de repórter costuma apitar quando alguma coisa não encaixa. E aqueles dois estão completamente fora de sintonia com esse lugar.

Brad manteve os olhos nos garotos por mais um segundo, depois encolheu os ombros.

— Pode ser só uma tarde ruim. Às vezes, a gente também é o estranho no cenário, né?

Miley assentiu lentamente, mas sua atenção permaneceu ali, naquela imagem congelada de algo que pareceu fora do lugar — como uma peça escura forçando espaço num quebra-cabeça colorido.

Na escada rolante, Wayne animava o grupo:

— Essa próxima seção é a mais nova do complexo. Vocês vão subir até a cúpula panorâmica, que oferece visão de 360 graus do oceano simulado, com tubarões, mantas, peixes-lua e até uma simulação noturna das profundezas. É o coração do Oceanic Line.

Miley e Brad se posicionaram lado a lado, e ele aproveitou a calmaria momentânea para entrelaçar suas mãos. Ela gostou, sem notar o aviso discreto escrito na lateral da escada: "OLHE ONDE PISE".

— Posso te perguntar uma coisa? Porque você decidiu me chamar?

— Bem... — Ele coçou a nuca, sorrindo. — Eu queria ver quem você se tornou. A Miley de agora. Ver que tipo de pessoa eu perdi de ver enquanto estávamos longe um do outro.

Ela desviou o olhar, mordendo um sorrisinho que não quis mostrar. Brad continuava o mesmo garoto educado e gentil como ela se lembrava na escola.

— Bom... você me encontrou. — disse, tentando suavizar com ironia. — Espero não decepcionar.

Antes que ele pudesse responder, um pequeno grito infantil ecoou escada acima. Um garotinho de cabelos cacheados chorava enquanto o pai tentava limpar sua camiseta branca.

— Ah, droga. — disse o homem, segurando um copo de milk shake derramado. O líquido escorreu vermelho, manchando a roupa do menino como uma poça de sangue brilhante.


○○○

O grupo enfim alcançava a cúpula panorâmica, e a mudança de atmosfera era quase física. Um silêncio reverente tomou conta do ambiente assim que as portas automáticas se abriram, revelando o interior do novo tanque cilíndrico — uma maravilha de engenharia com paredes de vidro curvas que circundavam os visitantes em 360 graus.

Luzes suaves oscilavam sob a água artificial, criando reflexos dançantes sobre os rostos fascinados. Tubarões, peixes coloridos e mantas gigantes nadavam com elegância, como se deslizassem em câmera lenta. Acima, o teto era uma abóbada de vidro puro, revelando criaturas abissais replicadas com precisão — inclusive um enorme tubarão-branco, cujas barbatanas roçavam a estrutura como se testassem seus limites.

— Essa é a alma do Oceanic Line. — disse Wayne, com a voz firme projetada para o grupo — Esse tanque cilíndrico é alimentado por um sistema fechado de oxigênio e filtragem que simula a pressão e o ambiente das profundezas reais. O vidro que nos cerca tem três camadas e resiste a até uma tonelada de impacto. — Ele sorriu, orgulhoso. — Ou seja, estamos seguros... teoricamente.

Algumas pessoas riram. Miley não. Ela observava o guia com um olhar sutilmente crítico, depois desviou o foco para o interior da cúpula. Ali havia mais do que peixes e maravilhas visuais.

Uma ala lateral em formato de meia-lua abrigava uma fileira de lojas temáticas, vendendo de tudo: camisetas com estampas de águas-vivas, souvenires com miniaturas de arraias e, curiosamente, uma loja com cara de conveniência e pescaria — ganchos de pesca reluzentes, redes e até um arpão de verdade, fixado no centro do balcão com um suporte metálico.

Lana chegava por ali, vinda da escada em espiral, e parou por um instante ao observar o objeto. Havia algo desconfortável naquela arma. Não pelo contexto — afinal, era parte da decoração temática —, mas pela forma como o arpão parecia deslocado, agressivo, bruto.

Ao virar-se para sair da frente do expositor, esbarrou sem querer em uma mulher alta e magra, de vestido verde-musgo, óculos escuros na cabeça e um celular colado ao ouvido.

— Olha, eu não quero saber se o diretor não aprovou a cor da água. Eu TOMEI banho naquela água pra aquela campanha da EcoShine e as fotos ficaram incríveis, tá? — dizia a mulher com um sotaque levemente afetado e arrogante.

— Desculpa. — murmurou Lana, recuando.

A mulher olhou de relance e arregalou os olhos ao reconhecê-la.

— Espera... você é da HADES, não é? Lana West? Você me entrevistou na sessão de “Beleza orgânica no caos urbano”.

Lana sorriu de canto.

— Sadie Bruckner, claro. A modelo que se recusou a fotografar com rímel vegano porque não dava o mesmo volume.

Sadie sorriu sem graça, mas rapidamente voltou ao celular como se o mundo girasse ao redor de sua voz. Lana se afastou, ainda observando o arpão por um segundo a mais.

Do outro lado da cúpula, um segundo grupo turístico subiu pela escada oposta, conduzido por outro guia com colete esverdeado e prancheta nas mãos.

Esse grupo era menor, formado por cerca de doze adolescentes uniformizados — moletom branco e vermelho com o logo da Mountain High School, de Nova York. Riam entre si, tiravam selfies, e um deles tentava fazer o tubarão do teto parecer que nadava entre suas mãos na foto. Um típico grupo em excursão escolar, barulhento e despreocupado.

Mas Miley se mantinha alheia àquele caos jovem. Sua atenção foi capturada por outra figura.

O adolescente da tatuagem de caveira ardente surgia no topo, sozinho. A cadeira de rodas do outro rapaz não estava à vista.

Seu corpo estava mais relaxado, mas seus olhos mantinham a dureza anterior. A mochila ainda presa às costas, pesada, firme. Miley franziu o cenho. A escada era o único meio de acesso direto à cúpula. Se ele subiu ali... onde estava o cadeirante?

Algo dentro dela soou como um sussurro de alarme.

— Tá tudo bem? — perguntou Brad, percebendo a mudança em sua expressão.

Miley hesitou, mas deu de ombros.

— Sim. Não é nada demais.

— Você sempre foi observadora. — Ele sorriu, e os dois caminharam até o centro da cúpula, bem ao lado da parede do tanque cilíndrico.

Ali, envolta pela luz azulada e os peixes que deslizavam silenciosos, Miley se permitiu um momento de deslumbre. Um tubarão colossal nadava acima dela, projetando sua sombra sobre seu rosto e refletindo nos olhos como se o tempo tivesse parado.

— Ainda gosta de peixes? — perguntou Brad, quebrando o encanto do silêncio com delicadeza.

Ela virou-se para ele.

— Um pouco. Meu sonho era ser nadadora, sabe? Mas... a vida se encarregou de me levar para outros lugares.

— Eu também, mas ser bombeiro não é tão ruim assim.

Miley não respondeu de imediato. Um sorriso nasceu devagar.

— Você não tem medo? Tipo... de acordar e ir trabalhar sem saber se é o seu último dia?

— Pelo contrário — disse ele, e por um instante os olhos dele não fugiram dos dela — Essa adrenalina de saber que o perigo me espera é o que me deixa com mais vontade de viver.

Um aviso de promoções interrompeu o momento e Brad, sem jeito, apontou para a área de lojas.

— Vou pegar um milk shake. Quer um?

— De morango. — respondeu ela, rindo. — Aquele vermelho artificial que parece sangue.

— Gosto do seu gosto macabro.

Ele se afastou, ainda sorrindo, com as mãos nos bolsos e um sutil marca de queimado na nuca. Miley o observou por um tempo, depois voltou a olhar ao redor, relaxada. Estava sendo um fim de tarde bom.

Até demais.

O tipo de tarde que dava vontade de acreditar que, pela primeira vez em muito tempo... nada de ruim iria acontecer.

Lush Life tocava nos alto-falantes do aquário como uma trilha irônica.

"It was a crush, but I couldn't, couldn't get enough…"

O ritmo leve contrastava com o frio que começava a tomar o ambiente. Um frio que não vinha do ar-condicionado. Era o tipo de frio que gelava os ossos, sem vento, sem motivo — o tipo que avisava algo sombrio.

Miley parou de caminhar. Os reflexos azulados do teto de vidro tremularam sobre os rostos das pessoas como uma miragem aquática. Crianças rindo. Casais posavam para selfies. O céu artificial de luzes e tanques aquáticos pareceu prestes a engolir sobre eles.

O som da música pareceu distante agora. Abafado. A batida pop arrastada, como se tocasse debaixo d’água.

— Foco, garota. — Falou Miley para si mesma— Deixe as vibrações estranhas com sua amiga.

Ela se virou para chamar Brad, a mão já estendida — mas então o viu.

Um vulto encapuzado saiu do banheiro masculino. Alto, pálido, firme. A tatuagem grotesca de uma caveira flamejante se estendendo pelo lado esquerdo do pescoço.

E ele estava armado. Uma pistola automática em punho. Um rifle pendurado nas costas que fez a jornalista gelar a espinha.

— Merda.

Ele mirou e o clarão da pólvora no ar durou nem um segundo, assim como a vida atingida.

O primeiro tiro explodiu a cabeça de um adolescente risonho e atlético, bem no centro da loja de conveniência temática. Os outros jovens da Mountain High School, em pânico, gritaram, mas não houve tempo.

As balas riscaram o ar e se alojaram nos corpos deles rapidamente, esguichando sangue sobre o chão e as pelúcias de animais marinhos.

— CORRE! — gritou alguém, mas era inútil.

Um a um, os adolescentes tombavam contra o chão. Lana, ao perceber o ataque, se jogou atrás do balcão, engolindo o grito. A vitrine atrás dela se estilhaçou em uma explosão de cacos.

Um dos estudantes, já morto, caiu para trás — seu peso acionou um antigo disparador decorativo de arpão.

CLACK!

O objeto voou na velocidade de um raio e cravou com violência no abdômen do marido de Dylan, que tentava proteger o companheiro cego.

Travis olhou para baixo, incrédulo. O arpão tremeu dentro de si. O mecanismo retrátil puxou de volta com um estalo úmido. Suas vísceras saíram como um novelo de lã vermelho, se esticando para fora e esguichando sangue.

Dylan tocou o rosto e sentiu o sangue.

— Travis...?

Mas Travis já não respondeu. Sem ver, Dylan não reparou que o homem que amava estava caído no chão, sem vida.

As pessoas mais afastadas começaram a correr desesperadas para a escada rolante. Entre elas, Sadie, ensandecida, berrava como uma atriz em fim de carreira:

— ME TIRA DAQUI! PELO AMOR DE DEUS!

Lá embaixo, na base do aquário, o falso cadeirante se levantava devagar. Tirou do colo um dispositivo metálico rudimentar, enrolado em fita adesiva, com fios expostos e um botão vermelho.

— Vão pro inferno! — Falou ele, sorrindo.

A explosão despedaçou ele.

Pessoas vaporizaram no impacto, espirrando labaredas de fogo contra seus corpos. A onda de choque subiu com a força de um terremoto pelas escadas-rolante.

— NÃO!

Sadie tentou recuar, mas foi empurrada pela multidão, sendo engolida pelas chamas. No segundo seguinte, a explosão chegou na entrada das escadas-rolante na cobertura, queimando qualquer um que estivesse na frente.

Miley foi jogada contra o tanque cilíndrico com a força do deslocamento de ar. Sua perna protestou em uma dor lancinante. O mundo girava.

O alarme de incêndio apitou enlouquecido enquanto estalos do crepitar do fogo e gritos cortavam o ar.

Dylan havia se aproximado da escadaria quando sentiu seu corpo arder violentamente. Ele tentou se debater, mas caiu para trás exatamente quando as portas automáticas iriam selar o compartimento incendiado.

O sensor das portas derreteu com a onda de fogo e faíscas soltaram sobre as chamas do casaco do homem que tentava tirar seu pescoço prensado entre as portas automáticas.

Miley tentou se levantar para ajudar o idoso que gritava, mas escorregou no sangue de alguém. Ela ouviu um estalo no pescoço dele e viu que havia demorado demais.

— DROGA!

Ela tossiu. A fumaça já tornava tudo pesado e os sobreviventes tentavam correr em uma manada até a escadaria de vidro do outro lado. O guia Wayne liderava a corrida com a garotinha atrás de si.

— POR AQUI! RÁPIDO!

Ele começou a descer a escada em espiral com outras famílias. No entanto o atirador encapuzado estava poucos metros dali, erguendo seu rifle.

— Ei! Onde vai?

BANG.

A bala arrancou a mandíbula de Wayne, que caiu de bruços nas escadas, o sangue jorrando como fonte viva.

Pessoas gritavam, mas eram silenciadas por balas. O atirador viu elas tentarem correr paras as lojas, mas uma a uma, caíam no chão sangrando. A garotinha, filha de Wayne, seria a próxima.

Por um milagre, o destino cruel foi evitado. Brad apareceu atrás dele como um raio, saindo atrás de uma pilastra chamuscada.

— BRAD! — Miley falou, se arrastando com a perna ferida — PARA!

Brad e o atirador rolaram pelo chão, lutando. Miley gritou, em choque. Engatinhou até a garotinha, que estava caída e chorando, com um corte na têmpora e suja de sangue do próprio pai.

Brad tentou arrancar o rifle das mãos do encapuzado, dando socos poderosos nele que fizeram gotículas de saliva e sangue saírem da boca. Tudo parecia favorecer Brad, mas então veio um disparo acidental.

Os dois pararam com a arma colada entre os corpos deles. Silêncio. Brad e o atirador não se mexeram mais.

— Brad...?

Ela chorou, abraçando a criança em seu colo e tapando seus olhos para aqueles dois corpos caídos. O homem que ela mal reencontrou havia se sacrificado por elas.

Miley se levantou com o coração martelando no peito. Ela e a garota começaram a caminhar entre os corpos até a escada em espiral, tomando cuidado para não pisar em ninguém.

Porém, o piso estalou abaixo dos pés da menina e uma rachadura grotesca se intensificou nos degraus de vidro adiante.

— MERDA! VOLTA!

Porém Miley conseguiu retornar a cobertura, pisando em alguém no processo. A garota de tranças parou para ver o pai estirado nos degraus por um breve segundo que não foi gentil com ela. A gravidade estilhaçou a escada e ela caiu.

— GAROTA!

CRACK!

A cabeça da menina bateu num corrimão metálico. O corpo caiu mole, sem resistência quinze metros abaixo em uma esguicho vermelho escuro sujando o chão.

Miley parou. Estava presa ali em cima. Os únicos companheiros sendo os cadáveres fuzilados e os peixes agitados que nadavam sem rumo em uma coloração alaranjada opaca contra o azul profundo.

Ela começou notar os animais tentando escapar de algo, mas não sabia exatamente o que era. Foi então que viu rachaduras se espalhando pelo tanque cilíndrico como se fossem teias de aranha.

O coração de Oceanic Line iria parar.

— Só falta você. — Sussurrou uma voz.

Miley girou a cabeça com pavor e o coração batendo forte. O atirador ainda estava vivo. Ele empurrou o corpo de Brad para o lado.

O pior foi que aquelas palavras não foram ditas para ela, mas para Lana. A mulher de cabelos castanhos estava de mãos erguidas em sinal de rendição atrás do balcão da loja cheia de corpos com brasões do Mountain High School.

Seu rifle se ergueu na direção de Lana e Miley viu a seneridade no olhar da amiga.

O dedo estava no gatilho, pronto para atirar, mas o vidro cedeu. O oceano invadiu.

A onda os engoliu como um castigo divino. Miley viu o instante exato em que um peixe-espada atravessou o pescoço dele. Antes dele parar de respirar, o atirador ainda disparou em Lana. A bala quebrou-lhe os dentes e abriu sua boca num ângulo impossível.

— NÃOOO! LANAAAAA!

Miley tentou correr, mas ela foi arrastada pela água, tingindo tudo de vermelho carmesim. Seu corpo se debateu até entrar na loja e bater contra uma prateleira cheia de ursinhos de pelúcia.

A perna dela quebrou finalmente após a sua fratura velada se intensificar com a prateleira tombando contra ela. O osso da tíbia rasgou sua pele e se mostrou como uma lâmina afiada e branca que emanava uma dor horrível e aguda.

O peso a impediu de se erguer acima da linha d'água. Lutava para sair, mas não havia mais ar. Apenas sangue.

Lana apareceu, boiando como se fosse um boneco de pano. Os olhos sem vida a observando.

A água salgada subiu e ardeu nos pulmões de Miley, tentando sair debaixo daquela prateleira inutilmente.

Sua visão começou a escurecer lentamente com o ardor na garganta e as últimas bolhas de ar escapando de sua boca.

A água vermelha foi a última coisa que ela viu.

○○○

— Você sempre foi observadora. — repetiu Brad, ao seu lado.

O mundo de Miley pareceu diferente, totalmente reestruturado antes de todas as toneladas de água afogassem ela. Todo aquele vidro estava exatamente onde deveria estar e então ela viu seu rosto pálido no reflexo azulado.

Ela estava viva.

— Ainda gosta de peixes?

Ela sabia o que viria. Sentiu no corpo. No suor gelado da nuca e no aperto no estômago se intensificando pela ansiedade.

— A gente tem que sair daqui, Bradley. — Ela falou, sabendo que era a primeira vez que ela falava o nome real dele — Vai ter um ataque terrorista aqui! Todo mundo vai morrer!

— Ei, ei, ei! — Ele a tocou, tentando acalmar ela — Respira fundo! Você tá bem? Tá pálida.

— Dois imbecis vão tentar matar todo mundo! Eu, você, todos!

— Calma! Acho melhor a gente pegar um ar puro.

Algumas pessoas começavam a observar a cena que Miley estava fazendo. Alguns do grupo de adolescentes olharam para ela como se fosse maluca e riram sem saber que suas vidas estavam por um fio.

O guia Wayne continuou explicando sobre os cardumes que passavam em uma parede de vidro do outro lado, parecendo incomodado com ela. A garotinha estava atenta e prestando atenção no que ela falava.

Miley relembrou aquela cabeça frágil e pequena batendo com violência no corrimão e ela fechou os olhos, tentando afastar aquela imagem obscena.

— Ele vai sair naquele banheiro, Brad! É sério!

E então, ela o viu.

O encapuzado. Tatuagem flamejante no pescoço. Saiu do sanitário masculino com os olhos varrendo o ambiente com a calma de um monstro antes do massacre.

Miley congelou. As mãos apertaram os pulsos de Brad com força. Não podia esperar.

— SE ESCONDE! — Ela falou, empurrando ele.

Miley correu, empurrando uma socialite loira que não parava de conversar no celular para o lado. A ruiva girou os olhos frenéticos pelas paredes até ver o que queria: A caixa vermelha.

ALARME DE INCÊNDIO.

Ela puxou com força, quebrando o lacre com um estalo alto como se partisse um osso. Miley sorriu assim que as sirenes estouraram seus tímpanos.

— SAÍAM DAQUI! — Gritou ela — AGORA! TEM UM ATIRADOR ALI!

Luzes vermelhas tomaram o aquário como se fossem sangue e as pessoas começaram a se assustar com a presença de um homem armado saindo do banheiro. Wayne agarrou a filha pela mão com pavor.

— DEPRESSA! PELA ESCADARIA!

A voz metálica ecoou nos alto-falantes:

"Atenção. Procedimento de evacuação em andamento. Dirijam-se às saídas com calma."

As pessoas não obedeceram e começaram a correr pelas saídas, mas Miley reparou que o homem tatuado havia sumido entre os flashes escuros que as luzes vermelhas intercalavam.

A música seguiu tocando nos alto-falantes.

"It was a crush, but I couldn't, couldn't get enough..."

Ela varreu com o olhar se alguém estava em perigo, correndo até as escada-rolantes e impedindo que elas descessem por lá com um empurrão. A mesma mulher ao telefone foi jogada de lado e reclamou:

— Qual é o seu problema?

— Tem um homem-bomba lá embaixo! Saiam pela escada dos fundos! Por favor!

Enquanto a loira tentava entender o que estava acontecendo, Miley viu pelo ombro dela algo aterrador. Os olhos do atirador encontrando os dela.

E ela soube. Ele ia atirar. Agora.

— ABAIXA! — gritou. — AGORA!

Gritos foram dados enquanto a maioria obedeceu, vendo um casal gay de idosos se curvando contra o chão rapidamente. O mais atlético e de cabelos grisalhos protegendo o cego com o próprio corpo.

Quando não ouviram os disparos, viram que o atirador havia sido contido. Brad tinha se lançado por trás dele, aplicando um mata-leão.

— BRAD!

Os dois rolaram pelo chão entre os gritos.

A multidão abriu espaço. Alguns correram pela escadaria, espurrando uns aos outros sem um pingo de delicadeza.

— SOLTA! — rosnava o rapaz.

— NEM PENSAR! — Brad apertava com tudo.

Dois seguranças surgiram, armas em punho, seguidos de um terceiro com algemas.

— NO CHÃO! LARGA A ARMA! MÃO NA CABEÇA!

Brad soltou. O encapuzado caiu arfando, imobilizado.

O rifle caiu com um baque seco no piso. A multidão explodiu em gritos de comemoração. Uma mulher começou a chorar. Um garotinho vomitou enquanto os clientes das lojas estavam saindo de seus esconderijos.

Miley sorriu, se aliviando pelo pior não ter acontecido. Porém não tinha acabado.

O cadeirante. O outro cúmplice.

Ela levantou-se.

— TEM OUTRO! — Miley apontou. — LÁ EMBAIXO! FINGINDO QUE É CADEIRANTE!

Mas já era tarde. O rapaz havia desaparecido por uma porta lateral, deixando a cadeira para trás com seu dispositivo de detonação no chão. Um segurança foi atrás, mas o garoto já havia sumido como um rato no esgoto.

Miley cambaleou.

O corpo dela agora sentiu o que a mente ainda gritava. Tudo que ela viu, tudo que sentiu teria acontecido. O sangue, as mortes, Brad, Lana...

— Miley! — disse uma voz familiar.

Era Lana, surgindo entre as pessoas correndo. Miley não aguentou. Caiu nos braços dela.

Chorou. Chorou como se estivesse de volta ao útero da mãe.

Lana a segurou firme, sem dizer nada. Só passava a mão pelos cabelos da amiga, tentando trazê-la de volta à superfície.

— Acabou... — sussurrou Miley, soluçando. — Eu vi tudo, Lana... eu vi... eu morri.

Lana não respondeu. Apenas a abraçou mais forte, como se tentassem proteger ela do que teria acontecido com todos naquele aquário.

Notas finais
Esse primeiro capítulo, em particular essa visão , deu um trabalho pra fazer kkk a principio seria apenas um acidente comum, mas acabei adicionando um perigo humano na trama para dar uma diversificada. Me baseei um pouco nesse acidente no acidente real de um aquário que explodiu seu tanque em Berlin em 2022 e também um pouco nos massacres escolares dos EUA. Acho que a fusão desses dois deu uma tragédia interessante de se ler e sentir a tensão. Músicas tocadas nesse cap: BLOW - Kesha LUSH LIFE - Zara Larsson