PREMONIÇÃO - A Última Nota
1 Ninguém sai vivo
Notas iniciais
O furgão de Steven estava exatamente como Jamie se lembrava: sujo, barulhento e cheirando a gasolina velha misturada com fast food esquecido em algum canto.
A lataria azul desbotada refletia as luzes da rua em tons pálidos e o rádio tocava um rock antigo e arrastado, uma música que Jamie conhecia mas não lembrava o nome.
Só percebeu a letra porque a voz rouca do vocalista murmurava repetidamente algo como "No one gets out alive". Logo, ele conectou a frase com o nome da música: How Did You Love.
Aquilo o fez franzir o cenho, mas Steven aumentou o volume sem perceber a tensão de Jamie.
Randy estava largado no banco de trás, com as pernas abertas e o boné de aba reta virado para trás, soprando preguiçosas baforadas de um cigarro barato.
— Cara. — resmungou Jamie, abrindo um pouco a janela — Esse cigarro tá matando.
Randy deu uma risada seca.
— Relaxe, Corman. Vai fazer bem para esse seu humor de velho.
O cheiro era enjoativo e grudava na roupa. Randy tinha aquele tipo de personalidade que Jamie simplesmente não suportava — o tipo de cara que ria alto demais, falava besteira quando não devia e fazia piadas pesadas para chamar atenção.
Além disso, tinha um histórico de provocar os outros até passar do ponto. Jamie lembrava bem da vez, no último outono, quando Randy roubou o carro de golfe do zelador do campus e quase atropelou um grupo de calouros. Desde então, Jamie evitava qualquer encontro que envolvesse o cara.
Jamie se controlou para não retrucar.
— É melhor você apagar isso, cara. — disse Steven, dando um tapa leve no ombro do amigo. — Sabe como Ruby é controladora com essas coisas.
— A gente tinha que chamar ela? — Falou Randy no banco do carona, jogando a bituca de cigarro pela janela.
— Ei! Sem falar mal das minhas paqueras. — Stevie defendeu — Você fala isso porque o Cupido ainda não acertou uma flecha nesse seu coração de pedra.
O garoto riu.
— Espero que eu não fique tão meloso assim quando me apaixonar.
Chegaram ao bar onde Ruby trabalhava pouco antes das nove. O letreiro antigo piscava em vermelho, mas algumas lâmpadas estavam queimadas, formando uma palavra quebrada. Ao invés de "BLACK FLAME", as letras iluminadas diziam apenas "FLAME".
Jamie encarou aquilo por alguns segundos, sentindo um calafrio sem motivo concreto.
Ruby Raimi saiu pela porta lateral, secando as mãos num pano e ajeitando o cabelo escuro ruivo em uma trança. Usava batom escuro, delineador marcado e a clássica camiseta preta de banda, dessa vez uma do Sisters of Mercy.
— Demorou, hein, Stevie? — ela disse, mas sorriu ao ver o namorado. — Meu chefe quase me fez lavar o banheiro de novo. Aquele velho é um cretino.
Steven riu e se debruçou para fora da janela, dando um beijo nela.
— Ainda bem que você escapou. Trouxe reforço. — Apontou com o polegar pra Jamie. — E claro, o insuportável ali atrás.
— Oi, Jamie — cumprimentou Ruby, simpática, entrando nas portas de trás do veículo.
Ele reparou quando ela se sentou na sua frente com um fardo de latas de cerveja fechadas. Jamie lançou um olhar julgador para ela, onde a garota apenas sorriu e levou um dedo sobre os lábios.
— Peguei emprestado.
Jamie gostava dela. Diferente de Randy, Ruby tinha um humor ácido, mas era legal. E mais importante: ela sacava quando as coisas passavam do limite.
No banco da frente, Stevie ligou o motor de novo, e a música no rádio voltou. Outra faixa antiga, que Jamie também reconhecia vagamente. A letra falava sobre quando morrer ir para um lugar melhor e encontrar o Espírito do Céu.
"Spirit In The Sky", pensou Jamie. "Ramon tocava essa música antigamente..."
Enquanto seguiam em frente, deixando o comércio de Hope Hills para trás, Randy tamborilou seus dedos no encosto da janela. Ele se virou e encostou em Jamie de propósito, como quem queria provocar.
— E aí, Corman. Já decidiu se vai falar com a Megan hoje ou vai ficar só babando de longe de novo? Ouvi dizer que ela anda curtindo uns caras mais... confiantes.
Jamie fechou a expressão, já cansado daquilo.
— A gente só é... amigo de corredor.
Randy só riu.
— Amigo de corredor?
— A gente só se encontra nos corredores do campus. — explicou ele, tentando se distrair ao pegar uma lata de cerveja — A maioria das vezes só um "oi" ou algo assim. Nada demais.
— E ela se mostrou interessada em você?
Jamie tomou um breve gole de sua cerveja e avaliou a pergunta. Megan sempre foi bastante cordial com ele, mas ela gostava de viver em seu mundo particular. Sempre com sua câmera nas mãos e com o desejo voraz de coletar o máximo de notícias que podia para seus estudos de jornalismo.
Se existisse algum sinal de interesse da parte dela, ele nunca havia notado.
— Eu não sei.
— É... dá para ver que você tem grandes chances com ela.
— Randy, já deu — cortou Ruby, seca. — Se continuar, vou fazer você engolir essa caixa de cigarro.
Randy soltou uma risada, mas ficou quieto.
Pegaram a estrada, e a cidade ficou para trás, engolida pela noite. As luzes dos postes ficavam cada vez mais escassas e o breu só era cortado pelos faróis amarelados do furgão.
A Fazenda Peterson ficava afastada de praticamente tudo, sendo uma das últimas propriedades que delimitavam a cidade. Ninguém morava lá já tinha um bom tempo e o lugar regularmente era servido para festas clandestinas como aquela todos os anos.
— Porque não fizeram isso em uma das casas de alguma irmandade? — Jamie perguntou, para ninguém em específico.
Stevie respondeu:
— A faculdade não aceita pessoas de fora e como seu irmão não faz parte do grupinho de estudantes nosso, cá estamos nós indo até onde a bagunça nos espera.
O furgão de Steven rangeu ao passar pela estrada de terra, subindo poeira e folhas secas no ar pesado da noite. À medida que se aproximavam da antiga fazenda, as luzes distantes ficavam mais nítidas, piscando feito vaga-lumes presos em potes. Carros amontoados, caminhonetes velhas e até algumas motocicletas estavam espalhados de qualquer jeito no terreno irregular.
O celeiro, gigantesco e pintado com um vermelho já descascado, parecia ter saído de algum filme de terror barato. A madeira das paredes externas estava rachada, escurecida pelo tempo e pelos festeiros de shows passados, e a janela superior parecia um olho oco espreitando à noite.
Jamie desceu do furgão olhando em volta. Já fazia tempo que evitava lugares assim — não por medo da bagunça ou da galera — , mas porque aquilo lembrava demais os anos em que ele e Ramon ainda dividiam o mesmo teto.
A mãe deles era paranóica com a ideia de que a Morte os espreitava. Desde crianças, ouviram histórias de conhecidos que haviam morrido de forma estranha, acidentes banais que viravam tragédia.
Ela não deixava eles saírem à noite sem antes conferir o tráfego da rua ou qualquer suposto problema nos postes. Com o tempo, Ramon debochava disso e Jamie tentava esquecer. Quando os dois cresceram, seguiram caminhos bem diferentes.
Ramon se jogou no mundo das bandas, de bar em bar, de ensaio em ensaio, caçando qualquer brecha para tocar. Jamie afundou nos estudos, tentando manter distância daquele caos e da tensão constante em casa.
Eles praticamente não se viam mais. Só trocavam algumas mensagens de aniversário e feriados.
— Olha essa porra! — Stevie disse animado, apontando a mão para estrutura. — É a porra de um santuário underground!
Steven desligou o motor e olhou animado para todos.
— É aqui, senhoras e senhores. O templo da destruição!
— Vai ser um milagre se essa droga não cair — murmurou Jamie, encarando a construção.
Ruby desceu do furgão ajeitando a jaqueta jeans surrada e passou o olhar pelo lugar, desconfiada.
— Ramon fez isso tudo escondido? Achei que o velho dono dessa fazenda tinha proibido qualquer coisa aqui depois daquele incêndio de dois anos atrás.
— Dinheiro compra silêncio, minha querida — disse Randy, acendendo um cigarro, para o desgosto dela — E Ramon tá ganhando uns bons trocados agora.
Eles começaram a caminhar em direção ao celeiro, passando por grupinhos que bebiam e falavam alto. Na grama rala que se misturava com terra batida, já tinham bitucas de cigarro e copos plásticos amassados. Um cartaz amassado preso numa cerca de arame enferrujado anunciava:
"Wild Strangers & Ceifadores — Só os Loucos Sobem Aqui".
Luzes penduradas em fios improvisados iluminavam de forma irregular o caminho, lançando sombras distorcidas nas paredes da construção. Foi quando Jamie viu alguém sair de dentro as pressas, empurrando um casal que estava se beijando na entrada.
Um rapaz pálido, de olhos fundos, usando uma regata branca embaixo de uma jaqueta de couro surrada, estava vindo até eles. Ele tinha sua cabeça raspada e o ralo couro cabeludo dele estava platinado. Jamie teve que sair da frente para não ser empurrado.
— Esse lugar vai desabar — disse o estranho, quase num sussurro, antes de continuar andando e desaparecer no meio da multidão.
Jamie parou por um instante, sentindo um arrepio gelado na espinha.
— Quem era aquele? — perguntou Stevie.
— Sei lá — respondeu Jamie, tentando ignorar.
E com isso, eles foram para o interior do celeiro, bastante convidativo e atraente para uma noite fria e soturna.
O cheiro de madeira úmida, suor e cerveja derramada se misturava com a fumaça da fogueira improvisada criada dentro de um barril de metal assim que dava alguns passos para dentro do celeiro.
As tábuas velhas e mal pregadas da passarela em formato de “U” rangiam a cada batida da bateria dos Ceifadores, rugindo sua sinfonia em alto e bom som. As luzes penduradas por piscas-piscas tremulavam, criando sombras distorcidas nos rostos dos festeiros que pulavam e cantavam as letras.
Foi quando Jamie a viu. Megan Lawton.
Ela estava do outro lado do pátio de terra batida, perto de uma viga decorada com ferraduras penduradas. Os cabelos castanho-escuros presos em um coque frouxo, a câmera pendurada no pescoço e os olhos curiosos iluminados pelo brilho fraco das lâmpadas.
Usava uma camiseta larga com a estampa da banda do irmão, “WILD STRANGERS”, e jeans rasgados. Ela estava rindo de algo que uma garota ao lado dela dissera, mas o sorriso enfraqueceu quando os olhos se cruzaram com os de Jamie.
Sem pensar, Jamie se afastou do grupo e foi até ela.
— Ei — disse ele, parando a poucos passos.
Megan virou a câmera nos dedos, um leve sorriso nos lábios.
— Jamie Corman no meio da bagunça? Isso é raro.
— Stevie me arrastou — ele admitiu, dando de ombros. — E... ouvi dizer que você ia estar aqui.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Ouviu, é? Quem anda espalhando essas coisas?
Jamie sorriu de leve.
— Você sabe como é... as paredes falam.
Eles ficaram em silêncio por um instante, e Jamie pensou em dizer mais alguma coisa, mas Megan olhou para o palco que estava mais a frente.
— Preciso pegar umas fotos antes que fique impossível lá dentro — disse ela. — Mas... é bom te ver.
Jamie sentiu aquele aperto estranho no peito e assentiu.
— Você também.
Megan deu um leve aceno com a câmera e entrou, sumindo na multidão. Jamie ficou parado por um segundo, até que Steven apareceu e deu um tapa nas costas dele.
— Vamos, pombinho. Quero te apresentar pro Ramon antes que ele suba no palco.
XX
O grupo de Jamie seguiu até o final da parte lateral do palco improvisado, passando atrás de uma imensa cortina negra que separava o caos do show da entrada de um pequeno galpão enferrujado e que emanava tétano só de olhar.
O irmão de Jamie estava ali, encostado perto da porta de correr do galpão. Ramon tinha cabelos negros que caíam como cascata sobre seus olhos penetrantes e ávidos por adrenalina.
Ele estava vestindo um colete de couro surrado, mostrando suas infinitas tatuagens nos braços nus e seus jeans negros estavam completamente rasgados nos joelhos.
Segurava uma lata de cerveja e conversava animadamente com uma bela garota que deveria ser parte da banda assim como outros dois rapazes que afinavam seus instrumentos esparramados pelo lugar.
Quando viu Jamie, os olhos de Ramon se iluminaram.
— Olha só quem resolveu sair da toca! — disse ele, abraçando o irmão de forma quase sufocante. O universitário retribuiu o abraço de forma tímida — Caramba, cara. Achei que só ia te ver no meu velório.
Jamie sorriu, mesmo desconfortável.
— Pois é, mas o Stevie quase me sequestrou.
Ramon riu assim que viu o casal de amigos logo atrás dele e Randy entrando no recinto com seu cigarro entre os lábios. O irmão mais velho cumprimentou todos calorosamente antes de retornar para Jamie.
— Sério, cara. Queria que você aparecesse mais. Tô montando algo grande. Os caras tão começando a falar de mim por aí. Shows em cidades vizinhas, gravação no mês que vem... Você devia estar junto, Jay. Como antes.
Jamie hesitou. Por um segundo, lembrou das tardes tocando violão com Ramon no quintal de casa, antes das brigas da mãe e das crises dela sobre a Morte. Antes de cada um tomar seu rumo.
— Vou pensar no caso — disse apenas.
Jamie sentiu aquele peso de novo no peito. No entanto, o que chamou a atenção de Jamie foram os galões de combustível empilhados num canto. A mistura do cheiro forte de gasolina e o som abafado do rock vindo do celeiro criavam uma atmosfera sufocante.
Ele fez uma careta.
— Por que diabos esses galões tão aqui? Isso é um barril de pólvora.
Ramon deu de ombros.
— Eu consigo esses lugares por preço de banana. Não é o lugar mais seguro do mundo, mas quem liga?
Randy tragou o cigarro e soltou a fumaça, deixando um sorriso enviesado no rosto.
— E aí, Ramon... Vocês tão bem depois que a velha surtou de vez, ou ainda trancam as portas depois que escurece?
Jamie teve que se segurar para não voar no pescoço dele. Randy sempre soube dos boatos sobre a família deles, principalmente da mãe superprotetora. Vivendo em uma cidade pequena era fácil as pessoas conhecerem o passado de uma das outras e infelizmente Randy sabia demais da vida deles
Jamie cerrou o maxilar, mas Ramon foi mais rápido.
— Não sei, cara. Minha vida só está fluindo para frente. Essas coisas, histórias do passado, eu não costumo levar comigo. Não acrescentam em nada para mim e acho que posso dizer o mesmo para meu irmão também.
— Ah, mas a história é boa demais pra esquecer. — Randy insistiu, se aproximando. — Tipo... quem sobrevive a um engavetamento, vê o capeta de perto e não fica maluca? Dizem que ela gritava à noite achando que a Morte ia puxar vocês da cama.
Sem dizer mais nada, Jamie avançou rápido, empurrando Randy com força no peito, fazendo-o desequilibrar para trás. Ele acabou acertando uma viga que estava servindo de repouso para algumas forquilhas e uma picareta enferrujada.
O choque do impacto acabou tombando a picareta para frente e entrando em uma fresta entre a parede e os tambores cheios de combustível.
A ponta afiada raspou contra a lataria enferrujada e frágil, criando uma linha diagonal para uma abertura de milímetros fosse necessária para começar a escorrer os primeiros filetes de um óleo parado e abandonado por pelo menos uma década.
— Sai daqui.
Randy riu, levantando as mãos.
— Beleza, beleza... já entendi. — E sumiu entre as pessoas.
Ninguém falou nada. Todos estavam absortos, ouvindo outro cover dos Ceifadores, desta vez, a letra era sobre o amor ser como círculos de fogo. “Ring Of Fire?” pensou Jamie.
— Vou buscar mais cerveja antes que esvazie. — Steven falou, tentando quebrar aquele clima pesado que ficou — Bora, gata?
Ruby revirou os olhos, mas sorriu.
— Só se eu escolher a próxima rodada. — Ela se voltou para Jamie, tocando em seu ombro — Não liga para aquele idiota, ok? Se depender de mim é a última vez que ele vem uma festa com a gente.
Os dois se afastaram, sumindo no meio da muvuca. Jamie esfregou o rosto, tentando aliviar a tensão, se encostando na mesma parede que seu irmão estava apoiado.
— Você devia escolher melhor quem fica ao seu lado.
Ramon ficou em silêncio por um instante, depois olhou para o irmão, mais sério.
— Eu sei que caguei muito, Jay. Que não fui o irmão que devia. Mas eu queria que a gente... sei lá... se acertasse. Nem que fosse de vez em quando. Você é a única porra de família decente que eu tenho.
Jamie hesitou. Parte dele queria simplesmente virar as costas, voltar para segurança dos livros, da rotina previsível. Mas outra parte... aquela mesma que se agarrava às lembranças boas antes das tragédias... queria acreditar.
— Tá bom, Ramon. A gente pode tentar.
Ramon sorriu de lado, aquele sorriso de quem sabia que era meio improvável, mas queria se agarrar à ideia.
— Beleza... eu tenho que me preparar para entrar, mas curte a festa! E se encontrar aquele babaca de novo, me chame para ajudar a quebrar a cara dele. Entendeu?
Jamie ergueu as mãos, sem responder.
Quando ficou sozinho, deixou o peso daquele momento escapar no peito. E então pensou em Megan. No olhar dela mais cedo. Precisava falar com ela de novo.
Então ele saiu, sem ele ou qualquer outra pessoa notar que um rastro de óleo de trator estava se espalhando entre a parede de metal e os tanques empilhados de qualquer jeito.
O líquido viscoso estava deslizando em direção as cortinas negras que levavam ao palco.
XX
Assim que passou pela pesada cortina escura, o som dos amplificadores chegaram até os ossos de James Corman.
As luzes coloridas improvisadas penduradas nas vigas do teto lançavam sombras tortas sobre os rostos suados da multidão, que pulavam e gritavam sob o ritmo agressivo da banda. Mas ele não conseguia focar em nada disso.
Seus olhos varriam a multidão até encontrar um rosto conhecido, enfim, achou um inesperado. Megan Lawton. A garota com uma câmera pendurada no pescoço, as mechas escuras iluminadas pelas luzes estroboscópicas. Ela estava logo acima de todos no pequeno segundo andar do lugar, tentando captar a cena perfeita, o rosto iluminado pela concentração.
O coração de Jamie bateu mais rápido — mas não do jeito certo. Era diferente. Um aperto no estômago, um zumbido nos ouvidos que abafava até mesmo os acordes dissonantes da guitarra. Como um aviso.
Ele se aproximou, avaliando a passarela a cada passo que dava entre a multidão. Uma estrutura improvisada de madeira escura, sustentada por colunas e cabos, onde alguns mais ousados subiam para assistir o show lá de cima.
— Ei!
Megan olhou para baixo, tirando uma lata negra de energético da boca. Ela ficou surpresa e então sorriu.
— Ainda está sóbrio, cara?
— Um pouco – mentiu – Posso te sequestrar por uns minutos?
— Claro! – ela deixou seu energético em cima da grade de madeira – Estava aqui para tirar algumas fotos. Melhor lugar para ver o caos.
Jamie sentiu um arrepio involuntário ao ouvir aquilo.
Ela desceu por uma escada lateral, o ferro rangendo sob o peso dela. Cada degrau parecia protestar, e a mão de Megan deslizava suavemente no corrimão gelado.
Ele olhou para cima. A passarela vibrava um pouco a cada pulo que os vinte adolescentes faziam para acompanhar o ritmo frenético da bateria e da guitarra.
— Ainda bem que me chamou! Tava chato ficar lá sozinha. – Megan falou , sorrindo.
Jamie sorriu.
— Se quiser... eu posso te acompanhar até o campus depois do show. É meio perigoso ir até lá de noite.
Antes que ela pudesse responder, o som de um microfone estalando cortou o ar.
— E aí, seus desgraçados!
A voz rouca de Ramon, o vocalista da próxima banda, ecoou pelo celeiro. Ele surgiu no palco improvisado, a camisa sem mangas colada no corpo suado, os cabelos desgrenhados. O nome da banda, “WILD STRANGERS”, estava rabiscado em um pano preto pendurado atrás.
— Vamos fazer essa noite ficar na história, porra!
A multidão explodiu em gritos.
Mike, com seu cabelo desgrenhado, iniciou um solo de guitarra como se estivesse possuído. Seus dedos magrelos dançavam contra as cordas esticadas do instrumento enquanto todos pulavam quase em uma sincronia perfeita.
Jamie varreu seu olhar pela multidão, encontrando algo incomum. Um rapaz de óculos escuros mesmo à noite, o casaco caro refletindo a luz das chamas, estava acompanhado com uma garota asiática com a cabeça baixa, os olhos varrendo nervosa a multidão.
Eles pareciam deslocados, mas ainda assim, atraíam olhares.
— Ai, meu Deus! – resmungou Megan, notando a mesma coisa que ele – É o Jacob Ulrick? Você lembra dele? E parece que está acompanhado da Sasha de Artes Visuais.
Ele tentou se recordar da face esnobe daquele rapaz alto e de cabelos ondulados para trás em uma perfeição exagerada, mas sua cabeça não conseguiu pensar assim que a voz do irmão estourou no palco.
Ramon cruzava o palco como um animal solto, segurando o microfone com as duas mãos, os pés pisando forte nas tábuas antigas que protestavam com rangidos abafados.
Ele começou a berrar as letras com um tom que era raiva e euforia ao mesmo tempo. As veias saltadas no pescoço e a camiseta rasgada grudada no corpo suado.
— “I’MA TAKE MY BABY TO THE ROCK SHOW!” – a voz dele arranhava os ouvidos e inflamava o peito da plateia.
Jamie reconheceu a letra, sendo algum cover do cantor Dultch Melrose que ele não conseguiu reconhecer. As pessoas pulavam e se empurravam, as luzes giravam e a poeira criava um nevoeiro dourado no ar.
Jamie viu por cima das cabeças das pessoas Steven e Ruby perto do bar improvisado, do outro lado do caos. Ele apenas conseguiu ver uma fração de segundos Ruby dançando com uma garrafa de cerveja na mão enquanto Steven estava colado nela por trás, beijando sua nuca de forma picante.
No canto esquerdo, a garota dos piercings dominava um teclado antigo, com teclas amareladas. Seus dedos passavam velozes, criando camadas de som que faziam as notas graves vibrarem como se o celeiro tivesse seu próprio coração batendo. A cada nota mais longa, ela se inclinava para frente, o cabelo negro com mechas azuis estava preso em um coque frouxo balançando.
Era caótico, intenso, perigoso. Ninguém queria que aquilo parasse.
— Tem alguma coisa errada...
XX
Uma brisa fria e sorrateira se espalhou pelo gramado sujo de tantas porcarias jogadas por tantos adolescentes. A entrada do celeiro foi aconchegada pelo vento, tremulando as chamas de dentro do barril que estava servindo de fogueira.
Ninguém percebeu quando uma pequena brasa, carregada por pela corrente de vento, flutuou para dentro do show. Ela dançou no ar, cruzando por cima da multidão animada e do palco improvisado.
A pequena centelha seguiu em direção ao canto mais escuro do galpão, onde três tambores metálicos de óleo velho descansavam esquecidos, empilhados atrás do palco.
A brasa tocou a superfície de um dos tambores, escorregando até uma poça de óleo que se derramava em um pequeno filete perfurado da lataria.
Em num instante, uma reação se iniciou. Primeiro, um leve tremor no metal, depois um silvo abafado.
XX
— O quê você disse? – Megan perguntou, tentando ouvir ele acima do som.
Jamie abriu a boca para falar, mas foi o primeiro da plateia a reparar no leve clarão alaranjado por trás das cortinas que levavam até o galpão abandonado.
— Mas que....
O chiado foi sutil. O impacto, avassalador.
BOOOOOMMM!
Uma explosão brutal ergueu uma bola de fogo e estilhaços, iluminando todo o celeiro em tons de laranja e vermelho-sangue. As chamas engoliram quem estava perto do galpão. A música ainda estava à todo vapor quando os primeiros gritos cortaram o clima daquela noite.
Jamie sentiu o calor esquentar sua barba por fazer e sentiu um leve ardor assim que uma peça de metal raspou em seu braço, xingando entre os dentes cerrados.
Os acordes de guitarra ainda estavam dispersos no ambiente quando Mike foi atingido por uma parede de chamas.
Ele berrou, mas durou pouco. Um amplificador foi jogado pela explosão contra sua cabeça, produzindo um som horrível assim que uma talho sangrento na lateral de seu crânio.
Os cabos elétricos por baixo do palco foram destroçados pelo fogo, se partindo e chicoteando para frente. Jamie viu seu irmão pulando para trás assim que uma explosão de fagulhas azuladas pipocou na primeira fileira de pessoas perto do palco.
O curto-circuito foi instantâneo.
— JACOB! – berrou Sasha, sendo empurrada por ele para trás.
Faíscas voaram, e o corpo de Jacob foi tomado por espasmos violentos. Jamie assistiu, horrorizado, ele gritando, o som cortado pelo zumbido agudo da eletricidade. Outros oito jovens próximos também foram pegos pelos cabos que chicoteavam no chão.
O pandemônio começou.
— RAMON! – Jamie berrou, tentando se aproximar da banda – RAMON! SAI DAÍ!
A multidão pareceu não se importar com o jovem universitário que tentava ir contra a maré de passos que estavam convergindo para a entrada do celeiro. Jamie sentiu seus pés serem pisoteados e seu braço ferido ser raspado por pessoas, mas ele não se importou. Ele queria salvar seu irmão.
— Ei! – Megan gritou em seu ouvido, agarrando seu ombro com força – Eles vão ficar bem! Temos que sair daqui!
Então ele viu todo o lado esquerdo do celeiro, exatamente onde estava a entrada do galpão, destroçada em uma cratera fumegante.
Seu coração acelerou assim que deixou ser levado por Megan para longe dali. Vários rostos de pânico cruzaram sobre seus olhos, até ele ver o inconfundível corte militar de Steven e as mechas ruivas de Ruby mais adiante.
Jamie ficou feliz em pelo menos ver as pessoas que amava prestes à saírem pela porta congestionada de pessoas.
“CRECK!”
O estalo chamou a atenção de alguns jovens, mas todos continuaram avançando. A passarela acima da entrada estava cheia de adolescentes correndo, pressionando suas frágeis vigas para baixo cada vez mais.
Um segundo depois, as vigas superiores se partiram e toneladas de madeira despencaram. Ruby tentou se esquivar , mas não havia saída. Ela, Steven e outras dez pessoas foram soterradas ao mesmo tempo. Aqueles que estavam em cima da estrutura, caíram em cima dos outros.
— NÃO!
A única saída visível havia sido bloqueada completamente por uma montanha de entulhos e vigas retorcidas. Alguns desesperados tentavam arrancar as tábuas, pisando sobre os corpos recém falecidos sem um pingo de pudor.
— Que merda! – Megan choramingou, agarrando a mão de Jamie para longe dali – Acho que vi outra saída! Vem comigo!
O ar estava começando a ficar sufocante. Tosses e lamentos eram ouvidos por todos os lados. Jamie tentou cobrir sua boca com o braço bom, mas a fumaça negra estava em todo o teto. Ele correu atrás de Megan, onde sua câmera balançava no pescoço, até chegarem na lateral do celeiro.
Esforçando sua visão sobre a fumaça, ele viu uma porta escura de metal e totalmente enferrujada escondida na parte direita atrás do palco. Os dois correram até lá, sendo seguidos por Randy e outras pessoas que estavam vendo a movimentação.
A placa de neon escrito SAÍDA piscava fracamente.
Jamie sentiu suas esperanças surgirem dentro do peito assim que viu Megan colocar sua mão na maçaneta e escancarar a porta para fora. Ela saiu, porém o galpão estava ao lado e de repente, uma segunda explosão colossal surgiu.
— MEGAN!
A garota foi engolida pelo fogo, retalhos de metal e partes de tambores cheios de gasolina – esquecidos no fundo do galpão – enquanto Randy acabava de chegar atrás dela.
A explosão fez tombar parte da parede de ferro do galpão, justamente onde Randy tentava voltar para dentro com outros quatro rapazes. Jamie deu um salto para trás assim que a armação metálica em chamas esmagou o grupo e fechou à saída.
— SASHA!
Jamie avistou Sasha Wong tentando apagar as chamas da barra de seu vestido florido. O garoto tirou sua jaqueta jeans e apagou com rapidez, vendo a garota asiática arfar de alívio.
Os dois ouviram o estalo da madeira sendo consumida pelo incêndio acima deles. Eles tinham que se proteger da ameaça em suas cabeças, correndo para baixo do que ainda estava de pé da passarela.
Jamie ainda estava arfando e tentando processar tantas perdas. Por sorte, ele avistou Ramon e a tecladista colados contra a parede, tentando sem sucesso arrancar as tábuas para sair.
— Lá em cima! — Ramon gritou, tossindo pela fumaça – Tem uma janela lá em cima! Acho que dá para pular e sair correndo desse forno!
O calor era sufocante. O ar, denso de fumaça e cinzas, tornava impossível respirar. Corpos em chamas, destroços e gritos ecoavam em meio à fumaça. Correram desviando de vigas e pessoas.
A velha escada de metal rangeu perigosamente quando subiram. A tecladista foi a primeira a subir, logo em seguida foi Jamie, sentindo o metal quente sobre suas mãos.
— Não para! – ordenou Ramon atrás dele – Sobe!
Lá de cima da passarela, Jamie viu o inferno se espalhar.
Lá embaixo, o desespero era absoluto. Pessoas se amontoavam na porta principal bloqueada, batendo nas paredes, gritando. Alguns tentavam erguer os escombros que soterraram Steven e Ruby. Outros corriam em direção aos fundos, apenas para encontrar o caminho já tomado pelo fogo.
E então, o som final.
Um longo estalo, como o lamento de uma fera morrendo. O teto inteiro rangeu e se partiu. A multidão embaixo olhou para a estrutura parcialmente incendiada se aproximando. Rostos suados, sujos de fuligem, bocas abertas gritando.
O teto veio abaixo com um estrondo poderoso como de um trovão.
O calor ficou insuportável. Um mar de madeira em chamas e destroços varreu o celeiro, soterrando dezenas de corpos de uma vez só.
Lá em cima, a passarela tremeu. A escada de metal onde Ramon e Sasha tentavam subir rangeu violentamente, empurrada pela montanha de entulhos incendiados.
— SEGURA! SEGURA ESSA PORRA! — Ramon berrou, os olhos arregalados de pânico.
Mas era tarde.
A estrutura cedeu e despencou.
Ramon nem teve tempo de reagir. Ele caiu junto a escada assim que os parafusos se soltaram da beirada, lançando ele e Sasha para dentro de uma coluna de fumaça incandescente, espirrando fagulhas de brasas e gritos sufocados assim que chegaram lá embaixo.
— RAMON!
Jamie entrou em desespero, tentando chegar até a perigosa beirada da passarela, sentindo todo o seu ser se despedaçar dentro de si. A garota dos piercings segurou seu braço machucado acidentalmente, fazendo ele berrar de dor e tristeza, afastando ela.
A garota bateu em uma viga torta e pendurada na parede, fazendo um arrastado rangido assim que ela começou a tombar para frente.
A tecladista apenas teve tempo de tentar se abaixar, mas a pesada pilastra caiu sobre seu corpo e atingiu primeiro sua cabeça. Seu crânio se achatou e explodiu em sangue e miolos no chão.
Não teve tempo de processar o que acabou de acontecer quando a passarela inclinou para baixo, direto para as chamas e vigas quebradas. Ele apenas escorregou e viu seu corpo entrar em queda livre com o recém cadáver ao lado.
Antes de chegar em solo, viu uma chapa quebrada e afiada de metal o esperando. Era como se fosse uma lâmina de uma guilhotina. Jamie gritou ao ver sua garganta indo na direção daquela peça diabólica.
Um golpe brutal e certeiro. Sua cabeça foi decepada no instante seu corpo colidiu contra as tábuas queimadas. O gosto do sangue chegou até a sua boca e ele conseguiu sentir o ardor da espinha sendo atingida.
Sua visão enfraqueceu conforme sua cabeça rolava nos escombros e então...
— Ainda está sóbrio, cara?
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