Notas iniciais
Fala, galera! Saiu um pouco atrasado, mas está entre nós mais um capítulo... com mais uma vítima💀

O cheiro de café recém-passado se espalhava pela casa antiga, invadindo os cômodos como uma lembrança boa de tempos mais tranquilos. A cozinha estava envolta numa luz pálida e morna que entrava pelas cortinas gastas, iluminando as marcas do tempo nos azulejos e no fogão envelhecido.

Ramon surgiu na soleira da porta, ainda com os cabelos bagunçados e os olhos semicerrados, farejando o ar como um cão atrás de coisa boa.

Ele avistou sua mãe no pátio ao lado, cortando lenha com um machado longo e antigo. A lâmina dividiu ao meio um toco de madeira, caindo as duas partes para cada lado. Ela colocou os pedaços em uma cesta e entrou com ela em uma das mãos.

— Se eu soubesse que você sabia fazer café assim, Kim... tinha jogado aquele chá amargo fora há anos. — provocou ele, pegando uma caneca e se servindo.

Kimberly deu um meio sorriso, atravessando a cozinha e pondo a lenha em um suporte ao lado da lareira.

— Eu era péssima fazendo aquilo. Meu pai fazia sempre quando estava mal...

Ramon se encostou na bancada, servindo-se de um gole quente. Fez uma careta e assobiou.

— Caramba... tá forte. Parece o petróleo que o velho Daniel servia no Black Flame quando era criança.

Kimberly riu de leve e voltou a cuidar da louça.

Ramon observou o final do corredor e viu a porta entreaberta que dava para o quarto de hóspedes. Jamie ainda estava dormindo no colchonete, a corrente com a placa de identificação de Matt Collins repousando sobre o peito, meio virada. Ramon olhou para o irmão por um instante, com a prazerosa sensação de ter vencido a maldição que destruiu sua família.

O celular de Jamie, em cima da mesinha, vibrou por alguns segundos. Ramon sorriu, achando que era a garota que havia abraçado ele na faculdade. Porém, sentiu seu próprio celular vibrar também e sua alegria parou.

Ramon pegou seu próprio aparelho para conferir e franziu a testa ao ver a tela cheia de notificações.

— Só pode ser brincadeira...

14 mensagens não lidas.

Leu rapidamente algumas. As palavras "acidente", "quase morreu" e "preciso falar com vocês" apareciam entre os textos avulsos de Steven Flanagan.

Foi nesse instante que Jamie acordou, se arrastando até a cozinha com a cara amassada e uma antiga regata que era de seu pai. Ele sorriu para seu irmão, pegando uma caneca de café sem dizer nada.

— Dormiu? — Ramon perguntou, sem tirar os olhos do celular.

— Melhor do que imaginei. Graças a... sei lá. Isso. — Jamie ergueu a placa militar no pescoço, e então deu um gole longo.

Enquanto pegava o pão, Jamie se distraiu e acabou se cortando ao tentar passar manteiga com uma faca de lâmina cega. A ponta de seu indicador formou uma esfera vermelha lentamente, sumindo assim que ele limpou na barra da regata.

— Droga. — resmungou.

Ramon hesitou por um momento, depois respirou fundo.

— Jay... a Ruby... aconteceu uma parada ontem. Ela quase morreu no Black Flame. Steven mandou umas mensagens. Foi feio.

O irmão congelou, a expressão mudando de imediato.

— O quê? Como assim?

Jamie avistou o jornal do dia do outro lado da mesa — um velho costume de Kimberly — e o pegou de lado para ver se havia alguma notícia sobre isso. Mas, no movimento, esbarrou na caneca de café, derramando boa parte sobre o jornal. O líquido quente se espalhou rápido, borrando as letras impressas.

Ele resmungou, pegando um pano para limpar. No entanto, ele parou. O jornal ficou manchado, as palavras se dissolvendo em manchas amarronzadas... todas, exceto uma.

"PARTIDO"

A palavra permaneceu nítida, como se estivesse estampada ali de propósito, destacada no meio da mancha escura. Os olhos dos dois se encontraram, cheios de tensão.

— Você tá vendo isso? — murmurou ele, apontando.

Ramon hesitou. PARTIDO.

Kimberly, que voltava da varanda com mais lenha, parou na porta e olhou para os dois, o olhar cansado mas atento, como se tivesse aprendido a decifrar o medo antes mesmo que fosse dito.

— O que foi agora? — perguntou.

Jamie desviou os olhos do jornal, engolindo em seco.

— Nada. Mas... acho que a gente precisa ir encontrar meus amigos. Agora.

Kimberly não fez perguntas. Sabia reconhecer o tom. Na casa dos Cormans, há tempos, as coisas não precisavam mais de explicações.

XX


O sol da manhã estava batendo fraco sobre o bairro modesto de Blackwood, tingindo os telhados gastos e os postes de iluminação enferrujados com uma luz dourada suja. Era o tipo de lugar onde os carros velhos ficavam parados nos quintais e cachorros magros dormiam nas calçadas rachadas.

Ruby Raimi saiu de seu trailer, ajeitando a jaqueta de couro sobre os ombros e batendo a porta metálica com força. O som ecoou pelo beco, assustando um grupo de pombos. Um deles acabou soltando um precioso borrifo de fezes no para-brisa de seu veículo.

Ela bufou. Havia começado o dia bem.

Do outro lado, Steven Flanagan já a esperava ao lado de sua van azul desbotada, um modelo dos anos 90 que fazia mais barulho do que deveria a cada manhã. Ele a observou com preocupação, o maxilar cerrado. Uma camiseta negra com um desenho de um buldogue no centro escondiam o tórax esguio do rapaz.

— Você tem certeza que tá bem? — perguntou, abrindo a porta do passageiro.

Ruby sorriu fracamente, jogando a bolsa no banco.

— Estou inteira, Stevie. Nem um arranhão. Só mais um susto para coleção.

Mas no fundo, ela sabia que tinha sido por pouco. Se Francis não a tivesse empurrado naquela fração de segundo, ela estaria agora com a cabeça rachada ou dentro de um caixão naquele momento. E o pior... era a maneira como tudo aconteceu. Como se as coisas no bar tivessem conspirado.

Steven deu a volta e entrou pelo lado do motorista.

— E agora? Vai continuar achando que o Jamie tá delirando?

Ruby entrou em silêncio, olhando pela janela. As ruas estreitas de Blackwood desfilavam diante dela, com casas tortas e pequenos mercadinhos de fachada descascada.

Ela não era do tipo que acreditava fácil. Mas haviam sido coincidências demais... E aquilo já estava mexendo com seu ceticismo endurecido.

— Olha... — murmurou, hesitando — ...só porque um punhado de coisa bizarra aconteceu, não quer dizer que o Jamie deixou de ser um cabeça de vento.

Steven soltou um suspiro, mas havia um traço de sorriso no canto da boca.

— Ele não é tão ruim assim. E salvou a sua vida naquela noite no celeiro, lembra? Se não fosse ele, a gente nem tava tendo essa conversa.

Ruby revirou os olhos.

— Tá, tá. Herói do ano. Mas ainda fala mais merda do que deveria.

Steven ligou o motor, estremecendo o veículo um pouco e olhou para ela, sério.

— Ele marcou de encontrar a gente no Café Miro 81. Quer conversar, planejar as coisas. Se tem mais perigo vindo, melhor a gente saber antes.

— Eu devia ter morrido ontem, cara... mas tô aqui. E talvez isso tenha acabado. — murmurou, quase para si mesma.

Steven lançou-lhe um rápido olhar, colocando o cinto de segurança com um estalo baixo.

— Não sei como isso funciona, Ruby... só quero sair disso inteiro.

— Você acredita mesmo nele, né?

— Ele é o meu amigo de infância, Ru. Conheço ele tempo suficiente para saber que ele não iria brincar com coisa séria.

Ruby assentiu com relutância.

A van saiu do bairro, subindo a estrada estreita que levava até a parte mais antiga da cidade. Ao longe, o Rio Rubro cortava a cidade ao meio, sua superfície calma refletindo o céu cinzento, e a ponte levadiça com seus vinte metros de comprimento se erguendo como uma relíquia enferrujada dos velhos tempos de Hope Hills.

Quando estavam cruzando um semáforo, Steven teve que desviar de um buldogue que estava tentando ir atrás de um esquilo. O seu dono tentou puxar a coleira, mas o cachorro já estava no meio da rua.

— Toma cuidado, querido.

Steven obedeceu. A van desviou, mas passou por um buraco traiçoeiro no asfalto. O veículo chacoalhou e um som metálico ecoou.

Steven resmungou e controlou o volante. Sem perceberem, a calota havia se entortado de leve, criando uma lasca de metal irregular e afiada perto do pneu dianteiro.

Ruby pegou seu celular, tentando se distrair.

— Stevie... dirige com cuidado ou nós dois vamos acabar mortos antes da hora.

Seu namorado soltou uma risada nervosa.

— Para com isso, Ruby. Já falei pra você parar de brincar com essas merdas.

Ela deu de ombros, um meio sorriso brincando no rosto.

— Se você tivesse senso de humor, não seria um santo tão fácil de assustar.

Steven a olhou de soslaio e sacudiu a cabeça.

— Vai me fazer arrepender de te pegar em casa, Raimi.

Ruby riu de leve, mas o som saiu estranho, como se carregasse algo quebrado por dentro. A lembrança do extintor pousado no chão em meio a cacos e garrafas quebradas a fez estremecer. Aquele chão quase não havia ficado vermelho.

Ela afastou essas imagens ao colocar seus fones de ouvido.

XX


A Ponte de Blackwood estava visível para Megan.

Megan Lawton pedalava ao som de um velho vinil no toca-discos portátil pendurado a tiracolo. A agulha arranhava os primeiros acordes de "Highway To Hell". A trilha sinistra acompanhava o céu cinza da manhã, como se o mundo tivesse acordado com gosto de ferrugem.

Ela passava pela ponte levadiça, sem pressa. O som abafado das sirenes de aviso começaram a soar, mas ela já cruzava aquela ponte centenas de vezes. Sabia o ritmo da cancela, o tempo exato da subida. Daria para passar antes.

Os pneus de sua bike passaram sobre o metal liso e molhado da chuva passava. Ela admirou o rio pairando como um véu esverdeado-escuro, onde um veleiro com sua ponta alta e fina como uma agulha estava se aproximando.

Atrás dela, o som irregular de um motor cansado cortou o ar.

Steven estava seguindo com certa pressa, com Ruby ao lado, enquanto o aviso sonoro da ponte anunciava seu fechamento iminente. A van velha, castigada e com um dos pneus comprometidos, oscilava a cada buraco no asfalto.

Ruby, sentindo o estômago revirar, comentou:

— Você tá acelerando demais...

— Temos que chegar logo lá.

Na beirada da ponte, a cancela começou a descer. Steven acelerou. O pneu dianteiro estourou quando a velha lasca de calota — raspando sobre sua superfície durante todo o trajeto — cortou a borracha com precisão cirúrgica.

A van puxou para a direita.

— O que é isso? — resmungou Ruby.

O lado direito do veículo foi atraído como um imã para a grade metálica da ponte, raspando e soltando faíscas. Uma ciclista estava poucos metros na frente. A distância diminuindo cada vez mais entre eles. Megan virou o rosto ao ouvir o estrondo.

Ela viu a van se aproximando, derrapando.

Em um reflexo preciso, saltou da bicicleta e rolou para a lateral. As sirenes gritando pelos ares assim que a cancela abaixou por completo. O desespero tomava conta dentro da van descontrolada e Steven, assustado, tentava parar o veículo que só arrancava sua pintura contra as grades.

— PARA! — gritou Ruby — A PONTE TÁ SUBINDO!

Os pneus deslizaram sobre as placas de metal encharcado, diminuindo sua velocidade até chegar na divisa entre as duas partes da ponte. As correntes rangendo abaixo deles, soando uma sentença, conforme o chão estava abrindo uma fresta de centímetros à frente.

A van parou, passando suas rodas dianteiras do outro lado da ponte que estava se inclinando cada vez mais. Um baque forte chacoalhou o veículo e Ruby gritou. O fundo da van havia sido tocado pela parte da ponte em que as rodas traseiras estavam.

Steven tentou dar ré, mas o motor morreu. Ele tentou ligar a ignição novamente, o coração batendo forte.

Nada.

Ruby agarrou o painel.

— Merda, Steven! Sai daqui agora!

Ele tentou abrir a porta do motorista — bloqueada contra a grade de ferro retorcida. Steven cerrou os dentes de frustração. A única saída era pelo lado de Ruby.

Ela se moveu rápido, abrindo a porta do passageiro, mas a frente da van ficou pendurada no ar conforme era erguida. Ruby arregalou os olhos quando percebeu que teria que pular para trás se quisesse não cair na água.

A ruiva se preparando para pular, mas a inclinação brusca da ponte a puxou de volta. Seu pé se prendeu no cinto de segurança pendurado.

Ruby escorregou, batendo seu tórax contra a beirada da ponte com força. Um berro de dor cortou os ruídos das sirenes. Seu corpo ficou pendurado do lado de fora, onde o veleiro atravessava lentamente com sua ponta em riste.

— Steve! Me puxa!

Steven esticou o braço, mas a van deu um tranco. A estrutura já estava com 45° graus de inclinação. Megan rolou pela ponte, chegando até a sua base enquanto uma fresta estava se abrindo para mostrar engrenagens girando.

Ela deu um pulo para fora, pousando em terra firme. Megan se virou para ver a van se balançando como um pêndulo no alto.

— Socorro! — berrou ela — Alguém ajuda!

Steven se jogou para ajudá-la . Por um milagre, ele conseguiu pousar sobre a beirada da ponte, se deitando para pegar a ruiva apavorada.

— Eu tô aqui! Calma!

Ele tentou forçar ela a subir para cima, mas a ponte já estava quase em pé. Com um grito de pavor, ele perdeu o equilíbrio e despencou pelo piso inclinado da ponte.

Steven caiu até a base móvel da ponte, onde as enormes engrenagens de ferro giravam pesadas e lentas, erguendo o lado da estrutura. Por instinto, Steven plantou os pés na borda de aço, ficando de cócoras, as costas pressionadas contra o chão inclinado, tentando não ser levado pelas engrenagens devoradoras logo abaixo dele.

Ruby, pendurada, viu tudo.

— Stevie! Aguenta!

A van começou a deslizar para trás, movida pela gravidade. O ronco das engrenagens aumentou, tentando se erguer com o peso extra. As correntes estalaram de forma perigosa.

Um pino de trava se soltou abaixo dos pés de Steven. A van, trêmula, escorregou completamente.

— STEVEN!

Ruby tentou subir, mas seus dedos escorregaram e despencou no ar, o corpo cortando a neblina da manhã.

SPLASH!

A água fria a engoliu, os sons abafados debaixo do rio gelado.

A van deslizou veloz pelo piso inclinado e, como um aríete de aço enferrujado, direto na costas de Steven contra as engrenagens.

Megan deu alguns passos, tentando estender sua mão para ele. Mas foi tarde.

O impacto foi seco e grotesco.

A traseira da van empurrou o peito de Steven Flanagan contra a borda metálica da terra firme, quebrando suas costelas e uma delas, perfurou fundo seu pulmão esquerdo como uma navalha.

O sangue espirrou, um instante antes de o corpo ser esmagado entre os dentes de ferro. Ossos estalaram, e pedaços dele desapareceram no maquinário enquanto a van travava contra a estrutura.

No rio, Ruby lutava para emergir. As luzes da ponte giravam sobre sua cabeça.

O veleiro modesto, pintado de azul desbotado, passava próximo. O velho capitão, ao ver o corpo na água, jogou uma corda. Ruby agarrou com a força que restava.

O homem a puxou a bordo, os olhos arregalados pela cena na ponte. Ruby, ensopada e arfante, olhou para cima a tempo de ver o veículo parcialmente destroçada e um rastro de sangue escorrendo pelo metal.

Algumas coisas grotescas caíam na água. Ruby não queria ver, mas viu. Eram vísceras.

— STEVEN!

O rádio do veleiro, preso no painel quebrado, ainda tocava, abafado:

"...and I don't know what to do... I'm fallin' for you..."

XX

As luzes da ambulância cortavam a leve neblina da manhã como facas de vidro, refletindo na água turva do rio que margeava a velha ponte Blackwood.

O ar estava saturado de cheiro de óleo queimado, ferro úmido e sangue. Eram quase 09:30 e o bairro estava um silêncio estranho, onde até as sirenes das viaturas soavam abafadas, como se o mundo se recusasse a testemunhar mais uma tragédia.

A velha caminhonete de Kimberly parou na beira da multidão.

Jamie saltou da cabine antes mesmo de sua mãe desligar o motor, a garganta seca, os dedos trêmulos. A mulher vinha logo atrás, as feições cerradas pela dor de mãe que já sabia o que a cena reservava. Ramon surgiu de moto, o capacete pendurado no cotovelo, o olhar sombrio como a noite.

Jamie viu o saco preto sendo erguido sobre uma maca atrás de uma van negra. A cabeça de Steven, ensanguentada e com olhos vidrados para o além, pendendo fora do saco. O zíper foi fechado sobre seu rosto e Jamie sentiu o chão vacilar.

Uma corrente de lembranças o arrastou: Steven aos 13 anos, metido numa briga no parque porque um valentão tinha chutado a bicicleta dele. Jamie entrou no meio, tomou um soco que o fez cuspir sangue, mas saiu dali com um amigo para a vida inteira.

Eles tinham roubado cerveja juntos, jurado nunca se apaixonar pela mesma garota e planejado deixar aquele buraco de cidade quando tivessem idade. Steven tinha prometido que, quando conseguissem, seria de van, ouvindo Creedence a todo volume pela estrada.

Aquela mesma van agora estava retorcida, presa no vão da ponte, manchada de vermelho. Um guincho estava na entrada da ponte, bloqueando a passagem para tentar tirar as ferragens das engrenagens sangrentas.

Jamie mordeu o lábio até o gosto metálico preencher sua boca.

— Porque... — ele sussurrou, os olhos ardendo.

Ruby estava sentada no meio-fio, as margens do Rio Rubro. Seus braços abraçando o próprio corpo, o rosto abatido como se anos tivessem passado nas últimas horas embaixo de uma manta térmica e uma jaqueta amarelada doada por Megan.

Jamie avistou a fotógrafa ao lado da ruiva. Megan estava tentando consolar, os olhos inchados, a expressão de quem começava a perceber que estava no meio de algo muito maior. Ele caminhou até elas, se agachou diante de Ruby.

— Você tá bem? O que... o que aconteceu? Recebemos sua mensagem lá no Café Miro 81 e viemos correndo para cá.

Foi Megan quem respondeu. A voz dela soava mais velha do que na tarde anterior.

— A ponte se levantou e... Steven e ela estavam lá no topo... ele tentou ajudar ela a sair, mas... — as palavras sumiram num soluço.

Jamie apertou os olhos, tragando a dor como uma brasa. Ramon e Kimberly chegaram logo depois. Ramon olhou para o corpo coberto e rangeu os dentes.

— Você não quebrou a maldita lista, cara? Porra... isso devia ter parado.

Kimberly, observou o rio fluindo mais a frente lentamente, ela suspirou. A mulher tentou achar explicações para aquilo. Isso tinha dado certo antes, mas porque não tinha dado agora? Uma apreensão tomou conta de si.

— Era para isso ter funcionado. Não me olhe assim, Ramon! Eu não faço ideia do que aconteceu!

Jamie fechou os punhos.

— Aquele cara do velório tinha dito que a Morte também pode burlar o esquema assim como nós. Ela aprende. Se adapta. Talvez esteja usando as nossas tentativas contra a gente.

— Cara do velório? — indagou Kim — Se for o mesmo cara que eu conheço... isso pode significar algo.

Ruby se ergueu, os olhos ardendo de ódio e dor.

— Não importa! E eu sobrevivi... e ele não. Você vai dar um jeito, Jamie! Vai achar uma forma ou juro por Deus que eu...

Ramon interveio.

— Calma, Ruby! Isso não é culpa dele!

Megan, até então calada, se manifestou.

— Do que vocês estão falando? Isso... isso tem a ver com o acidente do celeiro... com as mortes... Com o Mike?

Jamie respirou fundo, encarando Megan. Era cruel, mas esconder não salvaria ninguém. Ramon cruzou os braços e falou em um tom cortante.

— A gente se safou de um acidente fatal, mas parece que a própria dona foice está querendo nos tirar da jogada.

— Para, cara! — Jamie falou e se voltou para a garota — Olha... sei que é difícil, mas parece que ainda estamos correndo perigo. A Morte está tentando acertar as contas.

Megan empalideceu.

— É... faz sentido. E quem... quem é o próximo?

Jamie hesitou. Ela realmente havia acreditado naquilo com uma rapidez absurda. Ele sabia que o faro jornalístico dela era apurado e que era muito estranho três sobreviventes de um show de rock estivessem morrendo de forma tão rápida e brutal.

Esconder de Megan que ela estava correndo perigo não era o certo. Ela tinha o direito de saber.

— É você.

A garota ficou imóvel, como se o mundo a tivesse puxado para baixo. Ela assentiu lentamente, processando tudo e observando a ponte levadiça erguida mais adiante. O rastro de sangue ainda visível sobre seus pilares.

Jamie estendeu a mão e a tocou no ombro.

— Eu juro... Megan, eu juro que vou proteger você. Eu não vou deixar essa merda te levar. Nem você, nem mais ninguém. Eu vou encontrar uma maneira.

— Eu sempre pensei que morrer seria algo natural, sabe? — Jamie sabia que ela estava falando da morte do pai. Megan vivia com uma tia desde então. Sendo seu único porto seguro — Mas nunca pensei que seria de uma forma tão bizarra como esta. E agora? Como vou evitar de morrer como Steven morreu?

— A gente tem que descobrir um novo jeito. — falou ele — Já que o antigo... não deu muito certo.

As lágrimas de Ruby vieram antes das palavras. Ela apertou os lábios, olhando para o grupo como se eles fossem terroristas ou algo pior que isso.

— Então é melhor você correr, James. Porque eu não quero morrer tão cedo.

Kimberly interveio.

— Existe alguém... alguém que sabe demais sobre isso. O cara do velório que você disse antes... é ele. Um homem chamado William Bludworth. Ele entende os planos da Morte... e se existe um jeito de mudar isso, ele vai saber.

Todos encararam a matriarca. A menção daquele nome parecia fazer o ar esfriar. Jamie olhou para Megan e apertou de leve o ombro dela.

— A gente vai achar esse cara. E dessa vez, a Morte vai se foder.


XX

A velha estrada 101 parecia se estender infinitamente diante dos faróis baixos da caminhonete de Kimberly Corman, serpenteando entre bosques cerrados e plantações de milho, onde Hope Hills estava sumindo logo atrás sob a luz forte da manhã.

O vento carregava cheiro de terra úmida e uma nova ameaça de chuva ao longe. A caminhonete rangeu a cada curva. No banco do passageiro, Ruby Raimi mantinha o olhar perdido na janela, vendo o próprio reflexo mesclar-se às árvores que passavam rápido. No banco de trás, Megan Lawton tentava manter as mãos ocupadas, tentando limpar a lente de sua câmera que levava em sua mochila escarlate.

Do lado de fora, Ramon pilotava sua moto, a viseira levantada, e Jamie agarrado à garupa. O vento cortava o rosto dos dois enquanto a estrada avançava sob as rodas.

Jamie gritou para ser ouvido sobre o vento.

— Quanto falta?

Ramon grunhiu.

— Quarenta minutos se a gente não morrer antes!

Jamie não achou graça.

A caminhonete liderava a caravana improvisada. Lá dentro, o silêncio era espesso até Ruby quebrá-lo, a voz rouca.

— Como você sobreviveu? Naquela história sua...

Kimberly manteve os olhos na estrada, mas uma sombra atravessou seu rosto.

— Foi ele. O Bludworth. O cara para quem a gente tá indo. Eu... eu devia ter morrido anos atrás, num acidente horrível na estrada. Só que... ele me contou. Que só uma Nova Vida poderia quebrar o ciclo.

Ruby franziu o cenho.

— Nova Vida? Tipo... ter um filho?

— Ou salvar uma vida. Uma troca justa, segundo ele. Mas agora... agora a Morte parece estar mudando as regras. Tornando tudo mais difícil. Mais cruel. — Kimberly deu uma leve risada seca. — Ela tá manipulando. Como se não quisesse mais perder.

Ruby encostou a testa no vidro. A imagem de Steven — o sorriso torto, o jeito debochado — invadiu sua mente sem aviso. A garganta apertou. Ela mordeu o lábio, tentando conter o choro, mas falhou.

— Sabe... eu conheci o Steven no píer, cinco anos atrás. Ele tava bêbado, quase caiu na água tentando pegar um peixe que nem existia. Idiota. E eu... eu me apaixonei pelo maldito idiota. A gente iria sair daqui, mas as despesas de ter uma vida nova fora dessa cidade me fizeram querer ficar mais tempo naquela merda de bar... sabe como é, dinheiro move o mundo.

A voz dela falhou.

— Só que agora isso não faz mais sentido. Ele não vai estar comigo quando sair daqui.

Megan desviou o olhar, sem saber o que dizer. Ruby respirou fundo e continuou, encarando Kimberly.

— Se isso tudo começou por causa do Jamie... se ele viu essas coisas e a gente acabou envolvido... então ele deveria ser o primeiro a resolver essa merda.

A acusação vinha velada, mas todos sentiram. Kimberly estendeu uma mão e pousou sobre a dela, com firmeza.

— Eu já vi muitas pessoas passando por isso, Ruby. E poucas estão vivas para contar. A Morte é paciente, e cruel. Mas... eu sinto que dessa vez, a gente tem uma chance. Que vamos conseguir deter isso.

Ruby soltou uma risada amarga.

— Sorte? A única coisa que parece grudar na gente é desgraça.

Kimberly fez uma pausa, os olhos fixos na estrada.

— Você sabia... tem uma mulher na Pensilvânia. Sobreviveu a um desastre num aquário alguns anos atrás. Tubos de vidro estouraram, gente esmagada por toneladas de água e aço. Ela escapou. E até hoje troca cartas comigo. Todo mês. Sobreviveu aos traumas. Casou. Teve um filho. Está bem.

Ruby desviou o olhar, lutando contra a inveja.

— Queria ser ela.

Kimberly sorriu de leve.

— Talvez você ainda possa.

XX

O Peace Stone Morgue erguia-se à frente deles como uma relíquia de tempos esquecidos. O prédio de pedras acinzentadas, manchado pela umidade e pelo tempo, parecia respirar uma névoa própria, que pairava rente ao chão e aos muros de pedra.

As árvores nuas ao redor estalavam com o vento cortante. Um letreiro negro de ferro estava colado contra o muro da entrada:

NECROTÉRIO PEACE STONE MORGUE — desde 1923

Kimberly engoliu em seco. Para ela, sua fachada lembrava mais um antigo mausoléu do que um serviço funerário. Envolto por uma névoa espessa — que mesmo sob a luz do meio-dia parecia não se dissipar — o lugar tinha o tipo de silêncio que sufocava, um peso invisível que pressionava o peito.

A caminhonete de Kimberly e a moto de Ramon estacionaram no pátio de cascalho. Os pneus estalaram sobre as pedras úmidas, e o som ecoou nos corredores entre os velhos pinheiros ao redor.

— Deus... que lugar de merda. — Ruby desceu do carro, olhando em volta, os braços cruzados e puxando a jaqueta amarelada como se pudesse afastar o frio da névoa.

— Bem-vindos ao fim da linha, pessoal. — resmungou Ramon, desligando a moto.

Jamie engoliu em seco. Ele sentia algo ali. O mesmo peso que o invadia antes das mortes. Como se os próprios tijolos daquela construção guardassem a essência do que acontecia. Ele saiu da garupa e viu Megan fechando a porta do veículo atrás de si.

— Ótimo. — sorriu ela — Vamos logo com isso.

A recepção tinha uma única entrada: uma porta giratória de vidro com armações de ferro antigo. Ela girava sozinha lentamente, passando suas folhas envidraçadas com uma precisão metódica.

Kimberly foi a primeira a atravessar a velha porta giratória de ferro, as dobradiças gritando como se protestassem contra sua passagem. Ruby veio logo atrás, os olhos fundos, a dor e a revolta ainda reverberando nela.

Megan seguiu em silêncio, atrás os irmãos.

Megan estava com seu toca-discos portátil pendurado no ombro, o vinil girando uma trilha instrumental antiga — M.r Kitty, talvez? — enquanto seus fones abafavam a tensão. Ela ajeitou a gola do casaco enquanto atravessava a porta.

"I see you, yoou see me

How pleasant, this feeling

The moment you hold me

I missed you, I'm sorry"

Foi aí que aconteceu.

O fio do fone de ouvido prendeu-se entre o vão da porta e o tubo envidraçado, o puxando para trás e arrancando do ouvido direito dela. Ao se virar para chamar Ramon, o toca-discos caiu, a tampa se abriu e uma das pilhas rolou diretamente para dentro do vão corroído do trilho da porta giratória.

A porta travou.

— Pessoal? — Megan falou, vendo que estava presa — Me tirem daqui!

— Merda! — Ramon avançou contra a porta, tentando empurrar — Fica calma!

Jamie viu o desespero de Megan crescendo aos poucos, ela empurrando suas mãos contra a vidraça com força. Ele correu, empurrando a porta, mas o mecanismo velho estava emperrado, a pilha travada no trilho como uma cunha.

Os dois irmãos forçaram mais a estrutura, rangendo seu trilho ao ponto de esmagar a pilha lentamente. No entanto, a pilha acabou entrando mais no vão do trilho, dando centímetros de liberdade. A porta se moveu para frente um pouco e Megan, sem pensar, colocou sua cabeça para sair.

Assim que a pilha retornou ao seu ponto de origem, os trilhos rangeram em um estalo agudo e metálico como um rosnado de uma fera. A porta voltou a se fechar, pressionando o pescoço da garota contra o batente do tubo que cercava a estrutura.

— MEU DEUS! SOCORRO! — Kimberly correu, tentando forçar a porta para frente, mas Ramon e Jamie estavam forçando para o lado o oposto — VOCÊS DOIS, PAREM!

O rangido continuou, Megan arregalou os olhos, sufocando. Os dedos finos se agarraram ao batente, tentando afastar a pressão.

Ramon chutava a folha de vidro, com força.

Uma peça acima da estrutura da porta giratória se afrouxou, forçando um de seus pinos de sustenção saltar para fora como uma bala. A luminária acima de Megan estava na rota de colisão e uma chuva de cacos e faíscas caíram sobre seu corpo.

E então, outro infortúnio. A fiação elétrica se sobreaqueceu e um cheiro de queimado foi sentido. Kimberly cerrou os dentes ao ver o primeiro vestígio de fogo estourando pela luminária quebrada.

— Ela não perde tempo. — falou ela.

Megan estava ficando vermelha. Sua boca estava aberta, tentando buscar ar. Ruby se juntou à Kimberly. Ambas puxaram a porta para frente, começando a estalar os trilhos e centímetros preciosos começaram a surgir na brecha.

O casaco de Megan, na altura da barra, prendeu-se em um parafuso solto na armação da porta giratória. Ela tentou se soltar, mas os dedos não conseguiam alcançar. Sua respiração falhava, a pele avermelhada e suada.

— Porra, o casaco dela tá preso! — Jamie gritou.

Ramon chutou de novo, trincando parte do vidro, mas não o suficiente. As chamas já consumiam a luminária, e o plástico começava a ceder.

Num impulso, Kimberly agarrou Megan pelos ombros e puxou com força. O casaco resistiu. Megan arfou, as lágrimas escorrendo dos olhos. Mais um puxão. O tecido rasgou com um estalo.

Assim que ela caiu para fora da porta, tossindo e puxando o ar como se fosse a última vez, a luminária derretida despencou, explodindo em chamas e estilhaços onde ela estivera segundos antes.

A pilha saiu para fora e a porta, livre, girou outra vez como se nada tivesse acontecido. Jamie entrou, sem pensar, desviando do pequeno incêndio e chegando até a garota caída no chão, tossindo.

Jamie puxou Megan para longe, o cheiro de cabelo chamuscado no ar.

— Você quase... — ele ofegou, olhando para ela, o pavor estampado no rosto.

Megan estava pálida, as marcas avermelhadas no pescoço, as mãos trêmulas.

— Ela quase morreu... — sussurrou Ruby, chegando por trás, encarando o incêndio recém-apagado pelos borrifadores de emergência.

Foi então que Jamie percebeu o padrão. Cada acidente. Cada detalhe.

O fogo. A sufocação.

Era tudo reflexo da visão que tivera no celeiro. Apenas disfarçado em outros cenários, outros objetos.

— Eles tão morrendo... da mesma causa da minha premonição... — disse, como se as palavras pesassem no ar.

Kimberly apertou seu braço, a expressão sombria.

— É o senso de humor idiota da Morte. Vamos... O pior já passou.

Jamie olhou para Megan, ajoelhada no chão, tentando controlar a respiração.

— Você está bem?

Megan só assentiu, os olhos marejados.

— Te respondo quando tudo isso acabar.



Notas finais
Fala gente! Esse capítulo foi muito gostoso de se fazer. Sério. O acidente da ponte já tava nos primeiros rascunhos desse roteiro e era o acidente que mais me preparei bem para o que iria acontecer. O resultado foi muito bom e curti demais. E sim, eu usei o acidente da porta giratória descartado no sexto filme da franquia para brincar um pouco em como isso aconteceria. As únicas coisas que copiei da cena foram o pescoço preso e só. Abri margem para a suspensão da descrença sobre trilhos e pinos, afinal tudo é possível de se acontecer quando se trata de acidentes em Premonição. Iria matar Megan aqui, mas ela apareceu tão pouco e teve pouco destaque que decidi dar mais aprofundamento nela. Ela está salva...por enquanto. Acho que estamos chegando na metade do livro ou até mesmo na sua reta final. Conforme vai progredindo, mais coisas fatais vão ocorrendo e menos pessoas vão chegando até o último capítulo. Ainda irei trazer uma surpresa que coloquei lá no primeiro capítulo e irá dar as caras no proximo. Músicas que tocam nesse capítulo. HIGHWAY TO HELL- AC/DC FALLING - Connie Francis AFTER DARK - Mr. Kitty