Notas iniciais
Eae, povo! Mais um capítulo saindo hehe. Esse trará uma interação entre personagens e a aparição de um já conhecido nos filmes. Espero que gostem. Boa leitura.

Ramon Corman estava do lado de fora da capela funerária de Hope Hills, encostado na parede de tijolos avermelhados, tentando aparentar uma firmeza que já não estava sentindo.

Estava vestindo jeans escuro, coturno e uma camisa social preta com as mangas dobradas até o cotovelo. Seu celular estava pipocando de mensagens de pêsames a cada minuto, fazendo ele ter que desligar o aparelho por um tempo.

O céu de fim de tarde carregava nuvens densas, e o vento frio que atravessava as ruas quase desertas da cidade pequena estavam trazendo consigo o cheiro de chuva.

Natalie Lewis surgiu ao lado dele sem fazer barulho. A tecladista tinha o rosto cansado, a maquiagem discreta borrada nos cantos dos olhos. Segurava o casaco sobre um dos antebraços e olhava para a entrada da capela como quem se preparava para enfrentar outro pesadelo.

— Hey… — ela disse, suavemente, tocando de leve o braço de Ramon.

Ele olhou de canto e forçou um sorriso que não conseguiu manter.

— Dois acidentes, Nat. Dois. Em menos de dois dias. Isso não é só azar. — A voz dele falhou um pouco. — É como se… nada disso fosse coincidência.

Natalie apertou o ombro dele com mais firmeza.

— Eu sei que parece estranho, mas… não começa a se torturar. Você não pode carregar o mundo nas costas. Mike não queria que você fizesse isso. Nem James.

Ramon soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto.

— James… cara, ele sumiu de lá do quarto da faculdade. Não está atendendo ninguém, não aparece… só fica no meu apê, isolado. Acho que ele tá pior do que tá mostrando. — Ele abaixou a cabeça. — E eu não sou bom com esse lance de consolar.

Foi então que um velho furgão azulado estacionou mais adiante. Ele reconheceu o veículo e seus ocupantes mesmo sem terem aberto as portas.

Steven e Ruby saíram do estacionamento. Steven, com um blazer escuro que constratava com sua pele cor de chocolate, e Ruby, de saia tule preta e uma blusa de mesma cor para exibir uma gargantilha no pescoço.

Ruby ajeitou o coque frouxo enquanto caminhava, os olhos ligeiramente vermelhos. Steven abraçou Ramon de leve.

— Cara… força aí. — disse, a voz rouca.

— Todos sentimos. — Ruby completou, mas o tom dela era um pouco mais duro, quase defensivo. — E olha… não deixe que isso afete vocês assim como afetou ela. Isso não faz bem para ninguém.

Ramon sabia que ela estava falando da mãe dele. Ele gostaria de insultar ela, falar para não dizer coisas que não sabia, mas deu de ombros.

— Talvez. — respondeu ele com um dos braços em volta de Natalie — Mas… é foda, sabe? É foda pra caralho.

— Sinto muito pela perda. — Ruby falou — Ele era um guitarrista fenomenal.

Steven olhou ao redor, como se procurasse alguém.

— E o James? Ele vai vir? Desde ontem ele sumiu lá do quarto. Não fala comigo, não responde mensagem. Tá direto na sua casa, né?

Ramon não respondeu. Apenas lançou um olhar vazio para o asfalto.

Como se evocassem o nome, Jamie apareceu vindo pela calçada. Ele estava usando um moletom escuro, capuz abaixado, mãos nos bolsos e o rosto cansado.

Os olhos fundos, como de quem mal dormiu a noite passada. E Ramon sabia que não tinha.

— Caramba, cara. — Steven se aproximou, dando um abraço — O que aconteceu? Tentei te ligar...

— Eu precisava ficar sozinho, Stevie. Foi mal.

Ramon imediatamente deu dois passos à frente e o abraçou, sem esperar. Um abraço firme, de quem tentava passar um pouco da força que nem sabia se ainda tinha.

— Que bom que veio, irmão. — murmurou Ramon. — A mãe ligou. Queria falar com a gente. Disse que… que tá preocupada.

Jamie suspirou e desviou o olhar.

— Não quero falar com ela, Ramon. Não agora. — A voz saiu rouca. — Não depois disso tudo. Não dá.

Ramon assentiu, mas não largou o ombro do irmão.

— Eu só… não queria que você sumisse de novo, cara. Não depois do que a gente viu naquele celeiro. Eu… não quero perder você também.

Jamie o encarou, e por um breve segundo, a expressão endurecida se desmanchou.

— Eu tô tentando, Ramon. Mas tá acontecendo de novo. Os sinais, as coisas… é como se… fosse igual com a mãe.

Ramon ficou em silêncio.

As palavras de Jamie cortavam mais do que ele queria admitir. Ele se lembrou de noites antigas, dos gritos da mãe deles dizendo que a Morte vinha, das janelas trancadas, das superstições.

E da última vez que ela tinha dito isso e depois se isolado do mundo. Ela agora vive vendendo livros sobre a sua história, contando relatos parecidos e tudo que para ela tinha ligação com a Morte.

Isso já faz dez anos e Ramon se lembrava bem dela pegando seu carro para sumir dentro da Casa do Lago deles.

— Não quero acabar como ela. — Jamie murmurou.

Ramon respirou fundo, lutando contra a memória.

— Você não vai. Eu não vou deixar.

Natalie observava os dois em silêncio, sentindo a tensão pesar no ar.

Foi quando ela se aproximou, tímida, os braços cruzados sobre o próprio corpo como quem tentava se manter em pé no meio de um furacão. Seus cachos ondulados, alguns pintados de azuis próximo a face, estavam descendo com uma fria cascata sobre os ombros.

O corte na testa estava coberto por um curativo improvisado, e os olhos vermelhos denunciavam as lágrimas recentes.

— James?

A voz dela era fraca, mas determinada.

Jamie ergueu os olhos.

— Eu… — ela hesitou, respirando fundo. — Eu só queria agradecer. Por ter… sabe, me tirado de lá. Se não fosse por você… eu…

A frase ficou no ar, incompleta, porque ambos sabiam o que teria acontecido. Ninguém precisava dizer. Jamie tentou sorrir, mas foi mais um esboço cansado.

— Eu só fiz o que achei que devia.

Natalie assentiu, e por um instante o clima ficou menos sufocante. Ela tocou de leve o ombro dele, um gesto breve, e voltou a entrelaçar sua mão com a de Ramon.

— Estão juntos?

Natalie pareceu corar um pouco.

— Estamos nos conhecendo melhor. — respondeu o irmão — Ela está sendo meu norte ultimamente.

— Acho melhor a gente entrar. — disse Steven, suavemente, apontando com a cabeça para dentro da capela.

O ambiente lá dentro estava abafado e o cheiro de flores misturado a madeira encerada era quase sufocante.

A luz amarelada das velas tremulava sobre o caixão fechado, e algumas fotos antigas da banda estavam expostas em um mural. Amigos da oficina, conhecidos da cidade e velhos fãs da banda estavam espalhados pelos bancos.

Quando os irmãos se aproximaram, uma rajada de vento cortou pelo corredor central da capela. As velas tremeram… e se apagaram todas ao mesmo tempo.

O silêncio que se seguiu pareceu prender a respiração de todos ali.

Jamie gelou. Um frio percorreu sua espinha.

— Que estranho... — Steven sussurrou, sendo censurado por uma cotovelada de Ruby.

— Alguém deixou a janela aberta. — falou ela — Não surta.

Ramon viu o terror no rosto do irmão e soube que, dessa vez, não conseguiria mais chamar aquilo de coincidência.

E então o clima de velório pareceu ficar ainda mais pesado.

XX

O ambiente dentro da capela funerária estava carregado, como se o próprio ar pesasse sobre os ombros dos presentes. As velas apagadas mais cedo haviam sido reacendidas, mas as chamas tremeluzentes não dissipavam o frio estranho que parecia emanar das paredes.

Jamie permaneceu de pé próximo ao caixão de Mike, o olhar fixo sobre o verniz brilhante, os dedos tensos dentro do bolso do moletom. Ele mal sentia os passos das pessoas passando atrás de si, as conversas abafadas parecendo um zumbido distante.

Ele observou a foto de Mike Maverick apoiada em um cavalete simples. Uma imagem antiga dele empunhando sua guitarra em um show, seus cabelos longos esvoaçando para trás, o sorriso aberto que agora parecia pertencer a outra vida.

— Ei, Jay!

A voz de Steven cortou o silêncio particular em que ele se refugiava. Jamie virou-se devagar e viu o amigo se aproximando, acompanhado de Ruby, que vinha com um olhar atento para o caixão.

— A gente precisa conversar, cara. — Steven começou, forçando um meio sorriso. — Você sumiu depois daquilo. A gente… ficou preocupado.

Jamie respirou fundo, tentando formular uma resposta que fizesse sentido. Os olhos de Steven carregavam mais medo do que preocupação.

— Eu precisava de um tempo. — Jamie murmurou. — Não é fácil… depois de tudo aquilo.

Ruby pareceu incomodada.

— A vida é assim. — Ela deu um passo à frente. — Tivemos um golpe de sorte por ter tido você para nos salvar. Sei que tudo isso ainda é recente e darei esse espaço para se lamentar, mas... não fique remoendo isso dentro de você, ok?

Jamie sustentou o olhar dela, sentindo um incômodo latejar em suas têmporas.

— Ruby… não foi sorte. Mike morreu ontem de manhã. Um dia depois do celeiro ir pelos ares. Por acaso também é coincidência?

Ela suspirou, franzindo sua testa.

— Pessoas morrem, James. Acidentes acontecem.

— Mas em um tempo tão curto assim?

— Quer que a gente viva em pânico porque você teve um maldito pesadelo e, olha só, houve um incêndio?

Steven interveio, colocando a mão no ombro dela.

— Ruby… deixa. Vai pegar uma água. Eu falo com ele.

— Não, Steven. — Ruby se desvencilhou. — Tô cansada desse clima de paranoia eterna. Qualquer coisa, me chama.

Ela saiu pela lateral da capela, o salto batendo firme no piso de madeira.

Steven ficou, encarando Jamie.

— Cara, só me diz. — A voz dele baixou. — A gente tá em perigo mesmo? Porque se tiver… preciso saber. Pra mim. Pra Ruby.

Jamie hesitou. O peso da responsabilidade parecia dobrar sobre seus ombros.

— Eu não sei. — Ele confessou, a voz rouca — Mas desde aquela noite… eu sinto. As coisas ao redor. Sinais. E agora com o Mike… não parece coincidência.

Steven ficou quieto por alguns segundos, mordendo o canto do lábio.

— Se descobrir algo… me avisa. De verdade.

Jamie assentiu.

— Eu prometo.

O amigo deu um tapinha em seu ombro e foi atrás de Ruby. Jamie permaneceu ali, bufando de cansaço, mas a proximidade do caixão começou a sufocá-lo.

O cheiro de flores misturado ao da madeira encerada e à cera das velas parecia mais forte. A leve visão de sua imaginação de como estaria a cabeça de Mike o fez engolir em seco. E então, sentiu algo errado, assim como naquela noite.

— Preciso de ar.

Ramon apareceu ao seu lado, percebendo o mal-estar.

— Vem. Tem uma copa lá no fundo. Vamos pegar uma água.

Ele conduziu o irmão para longe do salão. Caminharam pelo corredor estreito, onde o som das conversas era abafado, até uma porta simples e bege aparecer. A copa da funerária era pequena, com uma velha cafeteira e seu cheiro forte impregnando tudo, duas poltronas e uma televisão de tubo ligada sem som, transmitindo um telejornal.

E foi lá, parado junto à janela, que eles notaram um homem. Um sujeito negro, alto e magro, sua pele negra sendo o destaque contra a claridade da luz.

Estava vestindo um terno antigo e um sobretudo cinza surrado. Na mão, girava um chaveiro com um pequeno crânio de metal.

Ele se virou devagar, como se já esperasse por eles.

— A Morte… — começou o homem, a voz rouca como se cada palavra rasgasse a garganta. — Ela é como uma poda, garotos. E os frutos plantados por Kimberly estão marcados para apodrecer. Chegou a hora de limpá-los.

Ramon franziu o cenho.

— Quem diabos é você, cara? Como sabe da gente?

O homem sorriu, mas sem humor.

— Sou o cara que limpa a bagunça quando tudo está um caos.

Aquela voz. Aquela presença. Jamie tinha lido sobre ele.

— Você é... William Bludworth.

O nome ecoou em sua memória, dos velhos cadernos e anotações de sua mãe, quando ela falava de um homem que sempre surgiu próximo a acidentes incomuns, que sabia demais sobre a Morte e sobre o que ela levava.

Jamie deu um passo à frente, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, William começou a assobiar, pondo seu chaveiro com crânio de plástico no bolso do casaco.

Ele apenas sorriu de canto.

— Sua mãe sabia mais do que devia… e menos do que precisava. E o preço por isso, ela pagou.

Aquela frase bateu fundo em Jamie, reabrindo feridas que ele preferiu manter enterradas. Sua mãe, Kimberly, havia se matado em um lago perto de Nova York, mas por um milagre acabou ressuscitando graças a D.ra Kalarjian.

Desde aquele dia, ela nunca mais foi a mesma.

— Então o que a gente faz? — ele insistiu, a voz embargada — Fica esperando?

William sorriu de canto, parecendo achar graça naquilo.

— Quando você quebra um ciclo perfeito, ele desmorona. Foi isso que vocês fizeram naquela noite. A Morte também quebrou o dela e agora está usando essa liberdade de ir contra sua própria natureza para caçar aqueles que a enganaram.

— Do que você está falando?

— Vocês não são os únicos que podem burlar o esquema da Morte. Ela também pode.

Jamie sentiu um calafrio. Antes que pudesse falar mais alguma coisa, ele deu as costas, assobiando de forma lenta e gutural.

— Quem… foi esse cara? — Ramon perguntou, a voz baixa.

Jamie se aproximou da porta que levava ao corredor, encarando o homem andando para fora da capela. Um carro funerário estava estacionado do outro lado da calçada.

"Peace Stone Morgue" estava escrito na lataria escura.

— Um aviso. — Murmurou.

XX

A chuva era uma constante.

Estava caindo com o mesmo ritmo monótono e persistente desde o início do meio-dia, quando o caixão de Mike foi baixado à terra sob olhares vazios e guarda-chuvas pretos. Agora, no início daquela tarde, ela parecia mais pesada, mais fria, como se a cidade inteira estivesse de luto junto a eles.

Jamie Corman caminhava pelo estacionamento encharcado do velório, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de moletom e o capuz ocultando os escuros cabelos molhados.

A água formava poças profundas onde a leve claridade do céu nublado se refletiam de maneira disforme, criando a impressão de pequenos portais para algum lugar mais escuro do que aquele.

— Espera por mim.

Atrás dele, Ramon vinha em silêncio.

A velha Shadow preta estava estacionada ao lado de outras motocicletas, e suas carenagens molhadas brilhavam feito vidro. Ramon se aproximou devagar, ajeitando o capacete debaixo do braço, o rosto sombrio e distante.

Ele parou ao lado da moto e, depois de um longo instante encarando a chuva, disse:

— Então… isso é real.

A voz dele soou baixa, rouca, como se estivesse engolindo cacos de vidro junto com as palavras. Jamie parou a poucos passos, sem se virar. As palavras de Ramon não foram uma pergunta, mas uma constatação amarga. Ele suspirou e respondeu, igualmente baixo:

— É. É real.

O som da chuva preencheu o espaço entre eles. Ramon passou a mão pelo rosto molhado, a expressão pesada, como quem tentava acordar de um pesadelo ruim demais pra ser verdadeiro.

— A Kimberly … ela sempre falava disso, se lembra? — murmurou Ramon. — Sobre presságios, sinais… coisas que vêm atrás das pessoas. Eu ria, cara. Ria na cara dela.

Jamie se virou lentamente para encará-lo, um meio sorriso cansado no rosto.

— E você… sempre bancando o durão. Me dizendo pra não ligar, pra seguir em frente. Por quê?

Ramon desviou o olhar, encolhendo os ombros.

— Porque eu era um mentiroso, Jay. Porque eu achava que isso nunca ia ser verdade. Que a Morte… não vinha atrás de gente feito a gente.

O trovão cortou o céu, iluminando por um instante o estacionamento deserto. E foi então que Jamie viu.

Do outro lado da rua, meio escondido por galhos de uma árvore encharcada, um velho outdoor de hóquei se erguendo contra o céu cinzento. A imagem quase apagada de um jogador com máscara e o número 07 estampado no peito piscava de forma intermitente sob as luzes defeituosas.

O motor de um Cadillac negro e antigo saindo do estacionamento chamou atenção dele. O rádio tocava baixo a canção "Head On" conforme se afastava deles.

" I could die and I wouldn't mind

And there's something going on inside

Makes you wanna feel

Makes you wanna try

Makes you wanna blow the stars from the sky"

Jamie sentiu as palavras cravarem fundo. Era como antes. Os sinais.

— Jay… — começou ele, num tom mais baixo que o normal. — A gente precisa encontrar ela. Falar com a Kimberly. Se alguém sabe como parar essa merda, infelizmente é nossa mãe.

Jamie permaneceu calado por um instante, seus olhos presos em algo que mais ninguém via.

— Eu… eu não sei se ela vai querer ver a gente. — murmurou Jamie, voltando para a realidade.

Ramon destravou a Shadow preta com um gesto automático e jogou a perna sobre a moto, batendo de leve na garupa para o irmão subir.

— Ela vai querer. Vai ter que querer. A gente precisa dela agora. Podemos chegar no chalé antes do anoitecer se sairmos logo.

Jamie hesitou, olhando mais uma vez ao redor. E outra vez, a estranha sensação de que o tempo estava prestes a se partir em dois.

— Mas tem outra coisa…

Ramon virou o rosto para ele, franzindo a testa.

— O quê?

Jamie olhou para a estrada escura adiante, como se procurasse o vulto da Morte no meio da fina garoa.

— O próximo. Na minha visão. Era o Jacob Ulrick.

Ramon bufou, passando a mão pelo rosto.

— Merda… logo aquele babaca? Ele não vai acreditar nem fodendo. Vai achar que é trote e também não vou com a cara dele.

— Mesmo assim, a gente precisa tentar. Eu tô vendo os sinais. — disse. — Hóquei... choque... é o Jacob.

Ramon franziu a testa.

— Como assim, choque?

— Ele vai morrer, Ramon. De choque elétrico. Eu não sei onde, não sei como… mas vai acontecer. E a gente precisa impedir.

Ramon bufou, balançando a cabeça, como quem tenta expulsar a ideia.

— Tá… vamos atrás dele. — Ramon disse, respirando fundo. — Depois vamos pro chalé da Kimberly. A gente precisa juntar as peças disso. Eu não vou deixar isso matar mais ninguém que eu conheço.

Ramon calçou o capacete, ligou a Shadow, e o ronco grave do motor rompeu o silêncio da noite. Jamie subiu na garupa, e a moto partiu, derrapando levemente na água acumulada.

Mas o mundo parecia conspirar contra eles.

Foi quando, ao saírem pelo portão, um caminhão de lixo cortou a rua à frente deles, surgindo do nada. Os faróis cegaram os irmãos por um segundo, e Ramon puxou o freio com força, a moto deslizando alguns centímetros no asfalto úmido.

— Caralho! — Ramon xingou alto, o coração na garganta.

O caminhão passou cuspindo fumaça e deixando um cheiro azedo de lixo queimado no ar. Jamie virou o rosto para o irmão, pálido.

— Isso não vai parar…

Ramon assentiu, mais sério do que nunca.

— Então a gente também não vai.

E com isso, a moto acelerou, cortando a tarde de Hope Hills enquanto, lá atrás, a luz que estava pousada sobre o jogador de hóquei se apagou como um prenúncio silencioso.

XX

O vestiário estava abafado, impregnado de suor e cheiro de desinfetante barato.

As luzes fluorescentes zumbiam como insetos presos, lançando sombras oscilantes sobre as fileiras de armários metálicos. Os jogadores se espalhavam pelo espaço apertado, rindo alto, batendo as lâminas dos patins no chão de borracha e ajeitando as fitas nos tacos.

Jacob Ulrick estava lá no fundo, sentado no mesmo banco de sempre, encostado no armário número 07. Enquanto os outros falavam sobre a partida e as brigas inevitáveis, ele permaneceu em silêncio, os cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o uniforme azul e branco que descansava no colo.

A pressão estava sempre ali.

Desde garoto, Jacob carregava nas costas o peso de ser um Ulrick. Filho de Robert e Eleanor Ulrick, donos de metade dos negócios de Hope Hills por serem a madeireira mais influente da região. Naquele lugar, o sobrenome dele vinha antes do nome.

Ele era o herdeiro perfeito, o garoto de ouro, o capitão do time, o aluno de notas medianas que não podia fracassar em nada, porque fracasso não existia no vocabulário da família Ulrick.

Por anos, ele tentou se encaixar naquilo.

Tentou gostar das festas sufocantes no clube da cidade, dos jantares arrumados com famílias endinheiradas, das garotas escolhidas a dedo pelas mães para um namoro conveniente. Mas nada disso fazia sentido. Nada preenchia o vazio constante.

Até Sasha Wong.

Jacob fechou os olhos por um instante e deixou a lembrança vir.

Ela apareceu como quem não queria nada. Cabelos longos, olhos escuros e um jeito de andar como se não devesse explicações a ninguém.

Sempre com roupas floridas ou manchada de tinta até os cotovelos, as mãos calejadas de quem passava mais tempo pintando em telas improvisadas no quarto apertado do que frequentando os lugares certos.

Enquanto os outros exibiam carros, roupas e sobrenomes, Sasha mostrava rabiscos, quadros inacabados e poemas estranhos que guardava em folhas dobradas. Ela era diferente, e isso, para Jacob, foi como respirar depois de anos se afogando.

Mas os pais dele odiavam aquilo.

Sasha era pobre. Filha de imigrantes japoneses que moravam nos fundos de uma floricultura antiga da cidade. Eles a desprezavam antes mesmo de conhecê-la, e as poucas vezes em que ela apareceu na mansão Ulrick, os olhares eram frios, as palavras medidas.

— Ela não é para você. — Eleanor dissera certa vez, os olhos duros como pedra.

Jacob nunca se importou.

Ele a buscava escondido em seu Porsche prateado. Fugiam das festas chatas e iam ver o lago à noite. Assistiam filmes antigos na garagem improvisada dela e pintavam paredes abandonadas no bairro antigo.

Sasha tinha medo de mostrar suas pinturas, achava que eram ridículas, pequenas demais para um mundo feito para nomes importantes.

Ele a amava por isso.

A lembrança o atingiu forte. A risada dela, a expressão envergonhada sempre que alguém elogiava seus quadros. O medo de se sentir menor, de não ser o bastante para alguém como ele. E o modo como Jacob jurava a si mesmo, toda vez, que nada disso importava.

O rádio velho na parede do vestiário chiou de repente, puxando Jacob de volta. Uma música antiga começou a tocar, "Sympathy For The Devil", a voz rouca cantando sobre um homem misterioso que provavelmente era o diabo.

Ele franziu a testa, incomodado.

— The Rolling Stones?

Talvez fosse só o jogo. Ou talvez fosse o presságio sombrio que ele não sabia nomear.

Mas naquele instante, enquanto os outros jogadores riam e batiam os tacos no chão, Jacob Ulrick soube, lá no fundo, que algo naquela noite estava muito, muito errado.

E, mais do que tudo, ele queria ver Sasha de novo.

Jacob saiu do vestiário ajeitando o uniforme semiaberto, o cabelo loiro grudado na testa e aquele sorriso debochado que carregava como armadura. Os colegas o seguiram, uns zombando, outros animados pela partida que se aproximava.

Ele fingiu ouvir, lançava respostas rápidas e provocativas, mas a cabeça estava em outro lugar. Foi quando viu Sasha do outro lado do corredor.

Ela estava encostada na parede de azulejos manchados, as mãos mexendo nervosamente na bolsa de tricô surrada. Os cabelos longos e escuros caiam sobre os ombros, e as pontas da blusa de moletom azul-claro estavam manchadas de tinta seca.

Era Sasha sendo Sasha — meio deslocada, meio invisível no meio daquele ambiente hostil. Quando Jacob se aproximou, ela tossiu de leve. Uma tosse seca, curta, que a fez apertar o peito e procurar algo na bolsa às pressas.

Ele apressou o passo.

— Ei, baixinha… — chamou, o tom brincalhão de sempre, disfarçando a preocupação.

Sasha puxou a bombinha de ar, levou aos lábios e inalou duas vezes, os olhos fechados até o peito voltar a funcionar direito. Quando abriu os olhos, viu Jacob parado ali, com aquele sorriso meio torto.

— Tá tentando me matar de susto antes do jogo, é isso? — ele provocou, se inclinando e dando um beijo rápido nos lábios dela.

Sasha sorriu, ainda ofegante.

— Tô ótima. — Ajeitou o cabelo atrás da orelha. — Só o ar aqui que é uma merda.

Jacob fez uma careta exagerada e olhou em volta.

— Ambiente frio, cheio de marmanjos suados e música ruim. Como é que eu vou manter minha reputação de bad boy com você por perto?

Ela deu uma risadinha, suave, e balançou a cabeça.

— Talvez parando de falar como um idiota.

Ele riu e a puxou mais pra perto, abraçando pela cintura. Por um segundo, ali no meio da tensão e dos sons caóticos do ginásio, aquilo era o bastante.

Mas Sasha não conseguia ignorar.

— Jake… — chamou, a voz mais baixa. — Você tem certeza que isso aqui é uma boa ideia?

Ele fez uma careta, sabendo aonde ela queria chegar.

— Não começa, Sasha.

— Depois do que aconteceu no celeiro… e depois da morte daquele cara da banda.... você sabe que aquilo não foi normal.

A lembrança bateu como um soco. O acidente no celeiro havia quase levado Sasha junto toda aquela multidão. Ele se arrependeu por ter deixado ela para trás naquela briga, mas por sorte ela tinha escapado pelos fundos daquele inferno na Terra.

— Aquilo não foi nada. — Ele tentou soar convincente, mas a voz traiu um leve tom tenso. — Preciso treinar. Senão esses babacas aí vão achar que tô com medo.

Sasha mordeu o lábio, hesitante.

— Eu só… não quero que você esteja no lugar errado, na hora errada.

Ele se inclinou e encostou a testa na dela.

— Ei. — O tom ficou mais suave. — A única coisa errada seria não te ver depois do jogo.

Ela fechou os olhos e sorriu, vencida.

— Vai no meu carro?

— Claro. — Ele piscou. — Vou até usar o banco da caminhonete dessa vez, pra não te fazer sentar em lata de tinta.

Ela riu e o abraçou apertado, como se precisasse daquilo pra afastar a angústia que teimava em espreitar. Jacob a beijou mais uma vez e se afastou, apontando o dedo pra ela com um sorriso.

— Te vejo mais tarde, Wong.

Ela observou enquanto ele se juntava aos outros, o uniforme azul destacando-se entre os demais. O número 13 estampado nas costas como se fosse um grande alvo a ser atingido.

No fundo, Sasha Wong já sabia que o aperto que estava sentindo no peito não era da asma, mas de preocupação.



Notas finais
Fala pessoal, como vão? Esse capítulo foi bem legal de se escrever por colocar o icônico William Bludworth para aparecer. Sei que a aparição dele foi curta mas ele vai aparecer mais vezes ao longo da trama. Gostei de fazer uma interação maior com os personagens, em especial entre Sasha e Jacob. Queria dar mais atenção para eles e amei fazer os futuros problemas que a asma de Sasha trará hehe. Não sei se perceberam mas os nomes de todos os capítulos estão sendo nomes traduzidos de canções que tocam no livro. É uma coisinha que queria fazer para ser mais uma referencia e sinal do que vai acontecer a cada capítulo. Espero que tenham gostado. As músicas tocadas nesse capítulo: HEAD ON - Pixies SYMPATHY FOR THE DEVIL - The Rolling Stones