P.O.R.T.A.L.L.E.R. - Reworked
17 Portais do Reencontro
A pausa para os comerciais é um dos poucos momentos durante a transmissão em que Hector Solomon pode acender seu cigarro. Dentro da sua sala logo abaixo do palanque no prédio-pódio do Night Fight, Hector podia deixar de ser o animador e narrador Hecs por alguns minutos e por um breve mas magnífico momento, ser apenas o ator Hector Solomon. Ele sempre achou esse nome muito pesado pra ser usado como artístico, quem se lembraria de alguém com o sobrenome Solomon? Hecs soa muito mais conciso e confortável de pronunciar. Entre um trago e outro, ele se sentia livre. Livre da pressão entre contratos e das intrigas dos bastidores. Livre de ter que ser sempre o cara que faz os outros sorrir, mas ninguém nunca lhe estenderia uma mão. Livre de ouvir a voz do seu chefe no ponto eletrônico e...
Uma vibração no pulso de Hecs interrompe seus pensamentos. Era o Shiberus em seu braço, aparentemente era uma chamada de voz do seu chefe. Nem quando ele tem seus 3 minutos de alivio ele pode deixar o ponto eletrônico ligado? Num hesitante passar de dedos, o narrador clica na interface digital do Shiberus e atende a ligação.
— Sim, chefe?
Hecs apenas escuta. Entre um toque e outro na ponta do cigarro em cima de um cinzeiro, ele presta muita atenção nas palavras de seu superior. Após alguns segundos, franze o cenho.
— Como assim, chefe? Agora? Mas ainda temos toda uma rodada e... — Hector para de falar, claramente interrompido pela pessoa no outro lado da linha. Sua testa escorria um pouco de suor e o gel em seu cabelo loiro parecia que a qualquer momento escorreria pela sua face, mas ele sabia que isso nunca aconteceria. Continua a escutar mais alguns segundos, ainda aparentemente confuso. — Certo. Certo, chefe. Qual o nome da equipe, mesmo? Certo. Ok, vou desligar. Espero que esteja certo disso, senhor Miwaku.
Hector desliga, seguido de um fundo suspiro. Que decisão de última hora foi essa? O senhor Miwaku com certeza perdeu a cabeça de vez. Bom, mudanças imprevistas. Agora ele teria que lidar com mais isso. Ele olha pra porta, pensando nas palavras que usaria. Era hora de voltar ao palco.
Hector Solomon espreme o cigarro contra o cinzeiro e anda em direção a porta.
Hecs a abre, subindo as escadas em direção ao palanque principal do Night Fight.
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— Quem vocês acham que será o próximo? — Questiona Lana, num tom ameaçador e forçado, dando a entender que qualquer um deles poderia ser aquele que estaria batalhando dentro de poucos minutos.
Todos estavam esperando o fim dos comerciais para dar inicio à mais uma luta. Raiko havia acabado de chegar na arquibancada da Chronicle quando Lana faz a pergunta. O Tamashiro parecia visivelmente abalado, mas parecia obvio na cabeça de todos que qualquer ficaria abalado depois do que aconteceu na arena alguns dias atrás. Maggie vê o amigo fazendo menção de sentar e fica muito feliz, sabendo que ele estava bem. Ela levanta e o abraça com força.
— Raiko! Ainda bem que você melhorou, meu Deus, eu achei que... eu achei que... — Margareth claramente estava muito emocionada. — Eu sei que você não gosta de abraços, mas-
Maggie é interrompida por um gesto que a pegou completamente de surpresa. Raiko pôe as mãos ao redor de sua cintura, retribuindo o abraço e se afagando no ombro da amiga. Ela se cala e entende que não era hora disso. Os dois estavam bem. E era isso o que importava. Ela fecha os olhos.
— Ainda bem que você está bem. — Sussurra Raiko, mas ainda assim alto o suficiente pra todos os presentes ouvirem. Era um momento lindo e nada poderia tirar daqueles dois o alívio de ver um ao outro bem depois do que houve. Até que ambos são interrompidos por dois braços musculosos se juntando ao abraço.
— RAIKO, FINALMENTE VOCÊ ACORDOU! — Ox chorava de felicidade enquanto apertava a ruiva e o branco com uma força que tirava o ar dos abraçados. — EU ACHEI QUE VOCÊ NUNCA FOSSE ACORDAR, TIA DONNA DISSE QUE SEU CASO ERA MUITO GRAVE E QUE CE DEMORARIA MUITO PRA ACORDAR. QUE ALIVIO!
Lana salta da cadeira e se junta ao abraço, enquanto gritava "ABRAÇO GRUPAL". Enquanto cercado por seus amigos, Raiko se permitiu esquecer dos problemas. O calor e energia daquele abraço era o suficiente pra o fazer querer continuar. Sim, eles eram seus amigos. Ele tinha que lutar pra protege-los. E ele faria de tudo pra isso.
— Portal Gate, OPEN! — Raiko fala de forma altiva e sonora, liberando energia de seu portal e lançando os amigos todos pra longe, fazendo eles cambalearem pra trás e o Ox quase fazer a Lana cair no chão. Todo mundo se mostra confuso e desnorteado enquanto observa Raiko dar tapinhas na sua jaqueta, como se tirando poeira da mesma. Ele olha pra eles com um ar de reprovação enquanto se senta na cadeira mais próxima a si. — Acabou o momento caloroso, acharam legal? Ótimo, agora voltemos pra nossas vidas.
Maggie olha pra ele e sorri, notando também que todos os outros fizeram o mesmo. Era bom ter o Raiko de volta.
Do outro lado da arquibancada, se dirigindo aos seus amigos, Julie estava feliz. Ela olha pro seu braço e, mesmo que não sentisse nada, focaliza o veneno que circulava pelo seu corpo. "Vai dar tudo certo", pensa ela, "Desde que eu esteja com eles, eu posso fazer qualquer coisa.". Ela cerra o punho e começa a correr pra se aproximar dos companheiros. Mas é interrompida pela voz de Hecs, chamando a atenção de todos na arena improvisada.
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— Depois dessa rápida pausa pros patrocinadores, vamos dar continuidade ao torneio do Night Fight! — Hecs gesticula e se mexe bastante, sendo claramente visto por todos graças a vários telões distribuidos nas arquibancadas. Com o microfone na mão, terno de um chamativo dourado cheio de glitter e o óculos laranja na face, Hecs era definitivamente o centro das atenções. — Depois dessa incrível luta entre a Menina Gélida e o Perseu Celeste, vamos esquentar um pouco as coisas! De acordo com a direção do evento, teremos uma mudança drástica na nossa programação!
Maggie, ao escutar essas palavras, franze as sobrancelhas. "Mudança drástica? Isso é realmente inusitado", pensa a Bittencourt.
— Todos os participantes, por favor se reúnam no centro da arena enquanto detalho os eventos que acontecerão ainda no dia de hoje! — Ao falar isso, todos se entreolham. Pelo visto, algo muito estranho estaria pra acontecer. E o fato de ninguém saber do que se tratava, era no mínimo apavorante. — Pra quem não acompanha o Night Fight, é importante lembrar que depois da segunda rodada, sempre é introduzida a nova equipe que se juntará aos competidores restantes, sendo esta normalmente a campeã de algum ano passado.
Enquanto Hecs explicava pro público e, consequentemente, pros competidores, todos os membros ainda ativos da Chronicle e da Dark Kuroki caminham em direção ao centro da arena. Maggie, Raiko e Julie representando a Chronicle de um lado e, opostos a eles, Dread, solitário e com uma feição irritada, como se estranhando aquilo tudo. Hecs, andando de um lado pro outro no palanque e nunca parando gesticular, prossegue:
— Este ano, teremos uma quebra no protocolo. A nova equipe entrará nesse instante no torneio e vamos ter uma grande reviravolta! A Dark Kuroki e a Chronicle vão formar um bloco separado, ainda tendo que lutar individualmente pelo seu time, mas agora estarão na mesma chave durante o sorteio. Por favor, Dread, se dirija até o lado dos integrantes da Chronicle.
Para Hecs, o esperado seria que o The War fizesse o que havia sido pedido e se juntasse aos integrantes da Chronicle, mas não foi isso o que aconteceu. Todos ficaram estáticos, como se não tivessem escutado ou algo estivesse errado. Se Hecs pudesse prestar atenção, notaria os semblantes fechados e sérios estampados nas faces de todos os competidores.
— Algum problema, Dread? — Questiona Hecs, ainda na sua animosidade típica e sem deixar transparecer sua leve apreensão.
Ao ser indagado pelo narrador, Dread começa a caminhar lentamente em direção ao time dos "Milagres". Ele olha fixamente nos olhos de Julie, enquanto todos os membros também o fitavam. Julie cerra os punhos e seus olhos vão se voltando a um verde mais escuro a medida que o jovem sem sobrenome se aproxima. Quando chega próximo aos seus novos companheiros de chave, se põe ao lado da Walker, como se apenas pra provocar a mesma. Ela o olha por uns segundos, mas desiste quando Hecs retoma a fala:
— Muito bem. Continuando, a Dark Kuroki, como equipe em desvantagem e com apenas um integrante restante, tem o direito de selecionar um integrante de sua equipe e retorna-lo à equipe. Qual sua escolha, Dread?
Todas as câmeras nesse momentos e voltam ao líder da Dark Kuroki. Ainda com uma expressão de irritação na face, Dread demora um pouco, mas responde, olhando pra Hecs ao invés de encarar qualquer uma das filmadoras.
— Eu escolho o Jackson. — Diz num tom decidido e firme. A torcida da Dark Kuroki vibra, fazendo a arena toda tremer ao som do ritmo tribal característico da equipe.
"Tá, tum. Tum, tum, tum. Tá, tum. Tum, tum, tum."
As batidas demoníacas e de melodia inconfundível toma conta do local. Mesmo com a torcida mais difusa devido ás arquibancadas improvisadas e a natural amplitude que tinha a praça central do bairro de Atarashi, o ritmo tétrico ainda fazia o coração de qualquer ser com boa índole pular alguns batimentos.
— E agora, aproveitando o engajamento da torcida dos "Catástrofes", eu introduzo a vocês, espectadores, o time que irá rivalizar os "Milagres" e a Dark Kuroki! Sejam bem vindos à oitava edição do Night Fight, Elemental Prisma!
Ainda com a melodia espectral da Dark Kuroki retumbando nas almas de todos, um grupo de cinco pessoas atravessa a entrada secundária da arena, caminhando até onde estava os competidores originais do torneio. Suas sombras vão ganhando cada vez mais forma a medida que se aproximam de seu destino. E conforme as formas vão ganhando cores, as cores vão se esvaindo pra Margareth Bittencourt. A primeira pessoa à frente do grupo era um homem de longos cabelos alvos e bagunçados, descendo até a cintura, com uma bandana branca na testa. Seu rosto era calejado e visivelmente cansado de batalhas anteriores, mas ainda assim o corpo daquele homem mostrava alguém no ápice de sua forma física. Musculoso e com uma camisa regata negra cobrindo seu torso e uma calça leve também branca, o homem é seguido de quatro outros jovens. Um deles de cabelos loiros e torso coberto apenas por um colete pequeno de cor escura, podendo ver com muita clareza seu corpo definido, resultado de um árduo treinamento. Atrás desse, uma garota também loira, com uma camisa de mangas compridas de um verde forte e chamativo, com um short jeans e um laço pequeno ao redor do pescoço. Seguida de um jovem de cabelo castanho curto e espetado, dificil de identificar daquela distância, assim como outro garoto ainda envolto pelas sombras.
Mas daquele grupo, era fácil reconhecer a maioria deles. Maggie cai de joelhos no chão, se pondo a chorar copiosamente, sem acreditar no que estava diante de seus olhos. Ox, na arquibancada, salta em direção a seus amigos. Raiko, completamente sério e com seus penetrantes olhos vermelhos fitando seus novos oponentes, dirige a palavra aos rivais assim que eles se aproxima o suficiente.
— Não achei que iria te ver tão cedo, mestre.
Kaito Leviathan sorri.
— Você cresceu tanto, Raiko. — Fala o homem de quase dois metros de altura, com um sorriso genuíno de felicidade no rosto.
Era um momento único que estava sendo visto ali na segunda etapa do Oitavo Night Fight. Uma reunião de família. Adornada pelo frio vento da madrugada, um som tribal vindo diretamente dos círculos mais profundos do inferno e o choro desesperado de uma garota.
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