PIES's As almas vermelhas
1 Prologo - O Bosque e a Garota
Notas iniciais
A imaginação é a vida presa na liberdade, um universo alternativo no qual tudo é de deus e deus é você, é a sua sabedoria, portanto é a sua vontade. Onde a criação é um pequeno fragmento dos sonhos de uma criança pura, que nas mãos traz toda a razão e o conhecimento de todo o fantástico multiverso das entranhas cerebrais. É curioso imaginar o quão puro o puro poder ser e quão incrível o infinito é na sua grandiosidade, se a dor é apenas um sentimento ou uma sensação corporal que sentimos quando somos magoados. Imaginar é ter olhos capazes de ver, sentir, cheirar e tocar o que as vezes é surreal para a consciência humana, é transformar o tempo em matéria e o espaço em um fluido abstrato.
O que aconteceria se por acaso ficássemos presos em nossa própria imaginação? Os incríveis mundos escuros que conheceríamos, as grandes batalhas que travaríamos com a agonia do nosso próprio medo, eternizados em uma simples pausada de tempo!
Há longos tempos, quando o tempo passou a existir, havia um bosque chamado de A Terra Escura. A terra escura era um lugar de difícil acesso para os seres humanos, pois a principio não se encontrava no meio do espaço, um lugar sem um começo e sem um fim.
O bosque era um lugar frio e solitário, pois odiava receber visitas. Havia nele arvores escuras e molhadas e os seus galhos gélidos e doentes se desvaneciam por sobre o chão molhado das longas chuvas do inverno. Não se ouvia respiração nenhuma no lugar, bem menos palpitações de sangue, por isso era tão solitário, não se encontrara no bosque nada além de tristes e velhas arvores que sonhavam com a morte.
Anos se passavam e o bosque ficava cada vez mais fraco e doente, até que começou a morrer lentamente. Então o pobre e solitário bosque lugar escuro pensou que não haveria diferença se o mesmo morresse, pois não conhecia ninguém e obviamente ninguém sentiria sua falta. Encheu-se de remorso. O tempo parecia torturar o pobre bosque, haveria algo que mudaria o seu destino? E tirasse sua alma das mãos da terrível morte da inexistência?
Certo dia o bosque ouvira um choro vindo de sua parte mais escura e medonha, e de lá uma estranha surpresa: uma garotinha de olhos incrivelmente azuis e assustados, uma pele tão clara que brilhava naquele imenso breu, os cabelos estavam molhados e por sua cor escura se condensava ao tronco de uma pequena arvore no canto do bosque. O bosque odiava receber visitas, contudo ao ver aquela garotinha frágil e assustada, perguntou:
_ Quem tu és ?
Com medo a garotinha permaneceu calada. O bosque impaciente, retrucou:
_ Vamos! Diga-me, quem tu és ?
_ Clar! Respondeu tremendo os lábios.
Havia nas mãos da garotinha um livro grande e pesado, as folhas eram antigas e amarelada, e na capa marrom do livro um símbolo pintado de tinta vermelha. O bosque novamente perguntou:
_ Que tens nas mãos?
_ Meu mundo! Clar respondeu ainda com um pouco de medo.
_Como um mundo pode estar dentro de um livro antigo e feio ?
_Como saio daqui ? Clar perguntou.
_ Não há saída. Uma vez em mim, sempre em mim!
Após um longo dialogo com a garota, o bosque viu que havia encontrado alguém para conversar e partilhar das experiências de vida que lhe restavam. O mesmo com sua magia concedeu a garotinha tudo que ela precisava, deu a ela comida, bebida, e uma imensa casa para viver no meio do bosque, deu espaço à luz e criou flores de perfumes variados e agradáveis, mas acima de tudo deu a menina o dom de enganar a morte e tocar a vida, a imortalidade.
Os seres esquecidos que haviam em volta do bosque na imensa escuridão encheram-se de inveja e planejaram uma emboscada para a pequena Clar. Estes seres vieram do inferno, mas se perderam no esquecimento e tornaram-se os demônios da noite, a quem nem mesmo a morte acolhe.
Era a hora completa, quando o bosque despercebido, cai em um sono, deixando 5 das criaturas esquecidas entrarem na terra. Pegaram a garotinha, e levaram-na para fora do bosque. Quando novamente o sol da alvorada brilhou sobre as arvores, o bosque notou a grande falta da pequena Clar, procurou por todo canto de suas estreitas, nas arvores ocas e nos arbustos espinhosos dos pequenos morrinhos que haviam nele, mas não a encontrou. O bosque encheu suas raízes, e gritou tristemente o nome da menina.
Não se sabe o que aconteceu com a menininha, nem o lugar certo para onde ela foi, mas na noite em que o gigante gritou, o mesmo expulsando o sol de seu solo, encontrou o livro que a garotinha havia deixado “O misterioso mundo de Clar”, seus galhos já muito velhos, pegaram e abraçaram o livro, depois o abriu. Mistério o rodeava! Havia paginas e paginas descrevendo paisagens, objetos até seres fantásticos e exuberantes, que viviam em variados tempos e variados lugares de um imenso e inóspito mundo.
O bosque sentira profundas saudades da garota, e quis fazer de seu mundo abstrato em algo altamente solido. Mas ele estava doente e quase sem poder algum, para dar vida à criação, o mesmo teria que ceder a vida para ela. E começou a fazer.
Naquele dia foi evocado sobre o bosque uma grande ventania, suas arvores foram agitadas e quase arrancadas do solo, a nevoa que pairava ali desapareceu, as vozes vazias que sobrevoavam se calaram. Começou a criar. Estendeu suas raízes por entre as trevas em volta e pediu que a luz do sol as iluminasse, das esquerdas de suas raízes ergueram-se grande arvores frutíferas, elevou pastos, montes, montanhas, florestas, pântanos e relevos exuberantes, das arvores alegremente se viam feixes de luz que pairavam sobre as florestas. O bosque viu tamanha beleza, mas faltava vida naquele imenso lugar, ele então voltou a ler, e das suas centradas e velhas arvores tirou raspas e jogou sobre cada canto daquele gigante paraíso, a partir daí seres fantásticos e surreais começaram a aparece. Criaturas eternas e criaturas mortais, que viviam nas matas, águas, mares e até mesmo no tempo, seres que rastejavam, peixes e sereianos das profundas águas, as aves dos céus, as feras da terra e os homens guerreiros.
O Bosque doou toda sua essência para que um sonho que antes parecia fútil se tornasse a mais perfeita e tão delicada realidade.
Pouco tempo tinha para que o velho bosque partisse para a inexistência, tudo estava consumando. Sendo assim, ele soprou sobre a terra, seu espirito deixou, e sua magia abençoou o paraíso de forma grandiosa e louvável.
Viveu por mais alguns três dias. Quando morreu o paraíso foi tomado por uma escuridão devastadora, toda magia que pairava sobre o lugar transformou-se em bruxaria caótica e profana, houve inúmeras mortes e os vastos campos encheram-se de carnificina, os príncipes das trevas povoaram o paraíso negro e conquistaram a essência de todos os seres, os da terra, os dos céus, e das águas, tudo ficou manchado do mal. Seres do mundo inteiro rezam para que um dia haja esperança, mas aquele que vai para o bosque certamente morre, pois lá vive o terror e a maldade de tudo, não existe amor nem esperança apenas dor e sofrimento no tão solitário e humilde bosque sombrio.
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