Era uma manhã de sábado tranquila no Brooklyn, e o sol iluminava muito bem a sala de estar, o que Bucky particularmente gostava. Duas semanas haviam se passado desde sua mudança para o novo apartamento, que Sam o ajudou a escolher e mobiliar corretamente. A decoração de Natal já estava pronta, e apesar de não ligar nenhum pouco para isso, Stella amava, e é por isso que seu apartamento estava decorado.

Tinha que ser eternamente grato por Steve ter voltado um velhinho depois de devolver as joias do infinito para suas devidas épocas. Stella Brown foi contratada para cuidar do capitão como enfermeira particular, e a garota literalmente esbarrou em Barnes quando o mesmo foi visitar o amigo, desde então, os dois se tornaram próximos. As coisas iam evoluindo numa velocidade aconchegante, nenhum dos dois tinha pressa, um encontro aqui outro ali, passeios no fim de semana, e ficou cada vez mais frequente Bucky ir busca-la no fim de seu turno. Um pedido oficial aconteceu quando os dois voltavam do cinema, estavam de mãos dadas na rua, perto da casa de Stella, pararam um pouco e Bucky a pediu, e oito meses se passaram desde então. Oito meses que ele sorria sem parar.

Mentiria se dissesse que já havia sentido essa felicidade alguma vez na vida, claro que ele era feliz em sua juventude quando era apenas um garoto do Brooklyn nos anos 1940, antes de se alistar no exército, antes da HYDRA. Mas, para Bucky, com Stella era diferente. Estar com ela era leve, confortável e confiável, ela era a razão para ele ter voltado a sorrir. E ele tinha medo, muito medo de tudo isso acabar, porque ele sabe — ou acha que sabe — que voltarão para captura-lo, e James jamais se perdoaria se algo acontecesse com sua amada. Sequer gostava de imaginar isso, mas estava preparado para uma luta, com armas escondidas em pontos estratégicos de seu apartamento. Ele não ia vacilar num momento de emergência.

Porque tudo termina em luta.

Batidas leves na porta foram ouvida por ele, o que o tirou de seus pensamentos obscuros, e um sorriso involuntário se formou em seus lábios. Só pode ser Stella, afinal, ele estava esperando por ela.

Se levantou logo do sofá para abrir a porta, mas assim que girou a maçaneta, foi como se todos os seus pesadelos se tornassem um só monstro real.

— Nem pense em fazer algo, soldado. — o homem falou. — Ou terei que matar essa gracinha. — disse o barão Zemo, com uma arma apontada para a cabeça de Stella.

Homens com vestes escuras entraram no apartamento para render James, mas ele não agiria enquanto Stella estivesse sob a mira de uma arma. De repente, todas as suas estratégias de luta foram por água abaixo, ele não agiria, não com a vida de Brown em risco daquela forma.

Ele vacilou.

James não sabia como foi encontrado, ou a quanto tempo Zemo o observava, mas tinha certeza que ele estava planejando isso há algum tempo. Apenas esperando o momento certo de agir.

— Como você saiu da... — Bucky iniciou a pergunta mas foi cortado.

— Prisão? Muitas coisas aconteceram depois do estalo, soldado. Recuperei minha liberdade e tive tempo suficiente para organizar meus planos. — Explicou cínico.

— E o que você quer?

— A lenda viva. O maior assassino de todos os tempos. — Declarou.

O coração de Bucky errou uma batida.

— Não, isso não! — Stella suplicou. Ela sabia de todo o passado de James, mas ela sabia que tudo o que aconteceu nada teve a ver com o seu James, e sim com a maldade da HYDRA.

— Ora, ora, você resolveu brincar de casinha, soldado? Uma pena que isso não durará por mais tempo. — Zemo disse tranquilamente encarando Stella.

— Se machucá-la eu vou matar você! — Bucky disse entre dentes. Tentava se soltar mas os capangas de Zemo o prenderam com um tipo de algema bastante resistente.

E com um golpe certeiro, o barão acertou a nuca de Stella com o punho da arma, fazendo a garota desmaiar.

— Não! Deixe-a! Eu vou com você, mas deixa-a em paz. — O sargento implorou

Segurando o corpo desacordado da garota, o barão pareceu pensar por alguns segundos.

— Virá comigo sem relutar se eu deixá-la em segurança? — Indagou.

— Sim, sim, eu vou! Sem resistir, sem relutar! — Os olhos dele indicavam desespero e preocupação.

O vilão o encarou ponderando a proposta, mas sua decisão já estava tomada há tempos.

— Melhor não! Não teria graça. — Declarou Zemo.

— Filho da p... — Antes de terminar a frase, James foi acertado na cabeça, e caiu desacordado.

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Os olhos de Bucky iam abrindo vagarosamente, mesmo que o local onde estava fosse mal iluminado. Percebeu que estava preso numa espécie de cela de vidro, como a que usavam para congela-lo, e uma dor agonizante em sua cabeça, mas aquilo se reduziu a pó, quando percebeu que Stella estava amarrada em uma cadeira a sua frente. Nada era pior do que o desespero e sensação de fracasso que sentia naquele instante.

— Finalmente você acordou. — Zemo disse ao se aproximar. — Sabe, eu não poderia deixá-la. Precisava de algo para garantir a sua cooperação. — Passou a mão levemente pelo rosto de Stella.

Bucky socou o vidro quatro vezes seguidas, mas nada aconteceu.

A garota chorava baixo por conta da fita presa em sua boca que a impedia de emitir sons. Haviam arranhões por seus braços e rosto, o que indicava que ela tentara se defender enquanto o sargento ainda estava desacordado. Bucky a encarou desolado, o pedido de desculpas estampado em seu olhar.

Averiguou o local rapidamente com o olhar, e vira no canto uma cadeira muito parecida com a que a HYDRA usava para limpar sua memória. O desespero se fez ainda mais presente.

— Eu tenho muitos planos para você soldado. Mas, andei pensando que, depois de limpar sua memória ela não será necessária. — Zemo falou calmamente, empurrando levemente o cano da arma na tempora de Stella.

— Por favor, não... — Pediu Bucky sem saber o que fazer.

— Ah, não, não. Eu não farei nada com ela... — Não deu tempo de Bucky respirar quando a fala foi concluída. — Você acabará com ela!

— O que? — James o olhou incrédulo, Stella não era capaz de esconder o seu pavor, mas não de Bucky e sim da maldade do barão.

Do bolso do casaco, Zemo tirou o caderno vermelho que continha as palavras de ativação do soldado invernal.

— Lembra disto, Sargento Barnes? — Indagou encarando James.

— Não ouse! — Bucky retrucou pondo as mãos no rosto em desespero.

Longing. Rusted. Seventeen... — Zemo iniciou.

— Não, por favor. Para com isso! — Disse Bucky em desespero.

— ... Daybreak. Furnace. Nine...

O grito estridente de Bucky ecoou pelo local, ao mesmo tempo que ele socava aquela sela com o punho de metal, o vidro começando a trincar.

— ...benign. Homecoming. One. Freight car. — Mas os esforços de fugir dali não adiantaram. Bucky cessou seus movimentos, o olhar ficou fazio em algum ponto a sua frente.

Stella observou a expressão séria que indicava que ali não era mais o seu Bucky.

— Soldado? — Zemo chamou.

— Pronto para obedecer. — Respondeu seco.

Um sorriso diabólico surgiu nos lábios do Barão, mas um choro desesperado e abafado vindo de Stella era ouvido. O soldado sequer se incomodava com o barulho que a garota emitia.

— Sua missão é essa garota! Mate-a. — Zemo ordenou.

Um dos homens de Zemo carregava uma maleta cheia de armas e facas, o soldado olhou de relance para todos os objetos, mas os ignorou. Sem emitir nenhum som, o soldado invernal se aproximou de Stella, ergueu-a pelos ombros e a prensou na parede mais próxima.

Stella não desviou o olhar nem um segundo, procurando por qualquer vestígios de seu James naquelas orbes azuis. Mas não havia nada, James Barnes estava preso em algum lugar daquele corpo, mas estava longe demais para ser salvo.

O soldado pôs a mão esquerda no pescoço da mulher, apertando gradativamente, observando com atenção o ar ficando escasso nos pulmões dela. As pernas suspensas de Stella se debatiam com o desespero para respirar, seu medo só se tornava maior a cada segundo com os olhos do soldados vidrados nos seus. Estava cada vez mais difícil, ela sentia a dor em seu pescoço ficando mais forte, e sua visão vacilava ainda mais, não conseguia mais enxergar James com clareza.

Com mais força, o soldado notou o corpo da mulher ficando fraco, os olhos se fechando, até que ela não respirava mais. Quando os olhos de Stella se fecharam por completo e seu corpo todo parou de se debater, ele simplesmente a soltou, vendo o corpo dela chocar-se com o chão gelado.

Stella estava morta.

— Bom trabalho, soldado. — Disse o Barão Zemo.

Em um sobressalto, James acordou. O corpo suado, a respiração extremamente profunda e irregular, olhou em volta e procurou a única pessoa que realmente importava naquele momento. Ao tatear o espaço da cama ao seu lado e não encontra-la, levantou-se imediatamente de onde estava, e correu para fora do quarto.

Cada vez que se aproximava da cozinha a música ficava mais nítida. Tocava Heaven de Bryan Adams, a favorita dela. Passou as mão pelos fios curtos, e a respiração finalmente voltava ao normal.

Alívio.

Lá estava ela! Balançando os quadris no ritmo da música, preparando o café da manhã, coisa que era Bucky quem geralmente fazia.

— Oi, bom dia! — Ela disse animada e sorridente ao vê-lo ali parado. O encarou bem, e percebeu o corpo de seu amado brilhando se suor e o olhar assustado. Ela sabia o que era, e fazia um bom tempo que eles não aconteciam.

Pesadelos.

Eu... eu não vi você lá... no nosso quarto. — Disse pausadamente, a respiração um pouco ofegante.

Stella largou o que estava fazendo e caminhou rapidamente até ele. As pequenas mãos macias tocando o rosto de seu sargento, os polegares fazendo um leve carinho nas bochechas, fazendo ele fechar os olhos e aproveitar o contato.

— Eu estava lá? — Indagou baixo depois de um tempo. Ele apenas balançou a cabeça sabendo que ela se referia ao pesadelo. — Já acabou, amor. Nada vai acontecer!

— Eles me... fizeram te machucar. — as lágrimas caíam incessantemente. — Eu machuquei você... — A voz falhou.

Stella o abraçou forte e ele retribuiu.

— Eu sei que você jamais faria isso! — Declarou. — Você está livre, James, você tem o controle das suas ações. Você não é um monstro, é um herói, meu herói!

— Como você tem tanta certeza de que sou bom, se nem eu mesmo sei? — Os olhos vermelho pelas lágrimas indicavam um medo absurdo.

Stella queria poder tirar toda aquela angústia de seu James, ela queria poder acabar de uma vez por todas com todo aquele sofrimento que ele sentia, toda aquela culpa que ele carregava e poucas vezes falava.

Mas certas coisas levam tempo, tudo na vida é um processo, e a redenção que James procura tinha que vir de si próprio. Mas, até que ele se perdoe, ela estaria ali com ele em cada passo, em cada progresso e regresso também. Ela o levantaria, o carregaria se precisasse.

— Eu enxergo o verdadeiro Bucky Barnes, o garoto charmoso do Brooklyn, o Sargento que não desistiu de lutar por seu país e cumpriu seu propósito na guerra até o último minuto... — James abaixou a cabeça, mas Stella segurou firme o rosto do homem para que ele a encarasse. — ... eu vejo o homem que foi vítima da maldade por décadas, o homem que foi controlado mentalmente e obrigado a fazer coisas ruins, eu vejo o homem que resistiu, sobreviveu e lutou mais uma vez para salvar a humanidade, e consequentemente se foi por isso, mas quando voltou, mereceu o perdão que recebeu. Eu vejo o homem que todos os dias tenta se reerguer da própria culpa, eu vejo coragem e força, eu vejo gentileza e justiça, eu vejo um herói. Eu vejo você, meu Bucky! É assim que eu sei que você é bom.

Stella já havia dito coisas bonitas para ele, mas daquela forma era a primeira.

Pela primeira vez em muito tempo, James Barnes se sentiu em paz. Como se as palavras de Stella tivessem iluminado sua mente, e lhe dado a certeza de que ele ficaria bem.

Ele sentia alívio não somente por saber que ela estava em segurança e tudo o que viu não passou de um pesadelo, mas alívio por se sentir perdoado.

— Eu não mereço você! — Ele disse entre um sorriso, passando as costas dos indicadores nos olhos. — Talvez Sam tenha razão, você é demais para o meu caminhão.

— Sam é o maior bobão. Ele tem ciúme por você passar mais tempo comigo do que com ele. — Ela respondeu brincando. — Você está bem?

Ele riu.

— Agora estou! — A abraçou com força. — Eu amo você, boneca, amo demais!

— Eu te amo mais que tudo! — Ela o beijou, depois o observou com atenção. — Seu cabelo está enorme, devia deixar crescer até o ombro de novo, como quando nos conhecemos.

— Sam disse que pareço um lobisomem com cabelo longo. — Respondeu a sentar-se a mesa.

— Que nada! Sam adora encher seus ouvidos de baboseiras, você fica muito gostoso de cabelo longo. — Ela admitiu, recebendo um olhar espantado dele. — Que?

— Porque eu deveria deixar crescer?

— Para eu puxar! — Stella falou com a voz manhosa e devolveu um olhar sugestivo.

Boneca, você não existe! — James gargalhou.

Pesadelos não são reais, mas ele sabia que poderiam acontecer de novo. Mas, desde que tivesse Stela ali para o tranquilizar, tudo ficaria bem.

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