{PAUSADA} Almas Ao Vento
2 Capítulo 1: Encontro de Almas
Notas iniciais
Dimensão Humana
Hayato saiu de casa às pressas. O garoto quase nunca perdia uma aula, e agora o que estava para acontecer era exatamente aquilo.
O garoto albino de dezesseis anos estava exasperado devido ao almoço não ter sido preparado com antecedência, o que era estranho já que a mãe do jovem sempre saia cedo e sempre chegava antes das onze e meia da manhã, e hoje o atraso foi mais longo do que nunca; Ela havia chegado doze e vinte e cinco! O que com certeza havia resultado num almoço apressado para ir à escola.
—Filho, tenha calma! –gritou a mulher, preocupada com o filho saindo numa correria exagerada de casa. –Você ainda chega antes das aulas, vai com cuidado!
Xingando uma maré de deuses pela falta de sorte, Hayato corria como um raio pra tentar chegar à escola na hora, ele corria de uma maneira que nem ele mesmo acreditava que conseguia, e quando viu um carro quase o atropelou. Ele levantou as mãos antes que o veículo passasse por cima de si mesmo, ou o derrubasse metros longe no pincho.
—Desculpa, desculpa! Foi mal! –Hayato se desculpou e continuou a correr pelas ruas, pulou calçadas, passou por uma praça, postes telefônicos, esbarrou em alguns transeuntes, e finalmente, chegou à escola.
—AEEE! –O garoto jogou os braços pra cima e sorriu largo, vendo os colegas na porta da escola e outros alunos que haviam chegado.
—Que isso Hayato, tá doido? –Indagou um dos colegas do jovem, sorrindo.
—Parece que tava fugindo de um traficante! –o outro exclamou, parecendo mais alto que o outro que questionava a insanidade do albino.
—Ah, calem a boca! –Hayato disse ainda feliz. –Só estou feliz que cheguei na hora, não posso não?
Algumas garotas e garotos murmuravam coisas entre si sobre ele em tom de escárnio, mas Hayato não se importava, afinal, pra ele era aquele o jeito que ele era com os amigos e era aquele o jeito que os amigos eram com ele, e dane-se o que os outros achavam.
—Tá bem, deixa pra lá. Vocês fizeram o dever que o professor de matemática mandou? –o mais alto perguntou.
—Eu fiz metade, Jorge! –Hayato respondeu, em tom animado.
—E você, Leo?
—Eu? Bem, eu fiz tudo, mas a última tava muito difícil! –declarou. –É sério, como diabos se faz um cálculo daqueles?
—Talvez com um cérebro melhor do que o seu, cabeça de vento! –zombou Hayato.
—Ah é? E você, que só fez metade? –Leo tentou mudar o provocado.
—Eu acordei tarde, almocei tarde e cheguei atrasado à escola, foi isso. –o garoto disse normalmente.
—Isso não é do seu costume, te conheço você sempre acorda cedo todos os dias! –exclamou Jorge.
—Ele tá certo, cara. –reforçou Leo.
—Eu também não sei o que aconteceu! Tipo, eu acordei onze horas! ONZE HORAS! E ainda tô tentando entender porque isso aconteceu!
—Falta de sono? –sugeriu Leo.
—Não, eu sempre durmo às oito!
—Cara, melhor discutirmos na saída, vamos entrar logo na escola. –disse Jorge, chamando os dois amigos pra entrar na escola. Ambos foram para a sala, e as aulas logo começaram.
Hayato estava bastante preocupado com aquilo, afinal, ele sempre costumava dormir e acordar cedo, então como era possível acordar tão tarde mesmo com sono suficiente? Deixou aquele assunto pra mais tarde e se concentrou nas aulas. Não poderia ser tão importante assim, certo?
As aulas acabaram mais tarde do que o esperado. Hayato estava cansado, tanto que quando o sinal tocou o garoto nem sequer se levantou para ir pra casa. O cansaço era muito forte, e provavelmente só criaria coragem para levantar depois que alguém chamasse a atenção dele. Os olhos queriam fechar, mas Hayato não permitia. Enquanto o silêncio acalmava o garoto, Leo chamou sua atenção:
—Hayato! –Leo exclamou, num volume perfeito para que ele o escutasse.
—Ai... Que foi? –Hayato reclamou.
—As aulas acabaram cara. Se não levantar os zeladores vão cismar com você.
—Tá bem, espera só mais um pouco...
Já exacerbado, Leo prendeu as mãos na cadeira e a virou, quando Hayato arregalou os olhos e emitiu um grito, que por sorte ninguém –além de Leo- pôde ouvir.
—TÁ BEM TÁ BEM DESCULPA! Eu vou sair só espera um pouquinho tá vira essa cadeira antes que eu enfarte! –o garoto levantou e balançou as mãos incessantemente para os lados, rendido. Leo assentiu e colocou a cadeira em seu devido lugar, quando Hayato levantou o corpo cansado dali e decidiu ir pra casa. Os dois foram até a porta da escola, e se depararam com um Jorge estressado, batendo o pé no chão em frenesi. Eles tinham demorado!
—Eh... Oi...
—Não vem com esse papinho furado! Vocês demoraram quinze minutos! –Jorge reclamou irritado.
—Foi mal, mas a culpa é do Hayato! –Leo apontou o dedo na direção do amigo.
—Ei, eu estou cansado! Estou admirado por vocês não estarem!
—Isso é estranho. –o irritado estranhou o fato, esquecendo completamente da discussão. –Sério hoje a aula foi de artes, todos gostaram e ninguém pareceu cansado, só você ficou.
—Hein? –o albino se queixou. –Como assim só eu fiquei?
Leo se aproximou dele e observou a região abaixo do cilho inferior. Ela estava muito escura, como se Hayato nem tivesse dormido. Era similar a um caso de privação de sono.
—Cara, você tá com olheiras! –exclamou Leo, espantado. –E elas estão super fundas, você parece que nem dormiu!
—Hã...? –a visão de Hayato começou a escurecer lentamente. Os olhos estavam tentando se fechar, mas ele tentou resistiu à tentação do sono pelo menos até chegar em casa. –Pessoal... O que está acontecendo... Comigo?
—Hayato você tem que ir pra casa dormir, desse jeito você vai acabar caindo de tanto sono. –insistiu Jorge.
—Vamos então... –respondeu, tentando acompanhar os dois amigos com passos lentos. O corpo mal conseguia se mexer, parecia que Hayato não tinha dormido nem um pouco. Era como se ele tivesse ficado de pé a noite inteira, sem fechar os olhos nem por um segundo sequer.
(...)
O caminho pareceu mais longo do que o normal. No meio da trajetória, Hayato disse aos dois amigos pra irem para casa descansar e aproveitar o fim de semana, já que era sexta-feira e ele não queria que eles perdessem seu tempo ajudando-o a chegar a sua casa. Ele mesmo sabia fazer aquilo, e em sua opinião seria inútil à ajuda dos amigos para aquela tarefa obrigatória. Não que ele não gostasse que eles o ajudassem, mas certamente seria inútil, e eles tinham mais o que fazer certo?
Hayato finalmente chegou à porta de casa. Para seu azar, ela estava trancada com um cadeado por fora. O sol estava se pondo e logo logo não haveria mais sinal de luz solar pela cidade e esperar pela sua mãe ia realmente demorar, ele tinha que entrar. A opção mais viável foi pular o muro, já que Hayato tinha um e sessenta e cinco de altura ele conseguiria escalar a muralha facilmente. O garoto saltou e agarrou os tijolos do topo do muro, apoiando os pés nos tijolos mais soltos do muro e finalmente jogando as pernas para cima, e quando já estava deitado no topo, Hayato girou o corpo para a direita e se jogou lá embaixo de pé. Limpou um pouco da poeira da farda e foi em direção a sua casa. Pela pouca sorte que ainda tinha, lembrou que sua mãe achava desnecessário trancar a porta da frente já que era uma cidade pequena e assaltos eram a última coisa que poderia acontecer, e apenas trancar o portão era o bastante. Logo depois de pular o muro, correu até a porta da casa e girou a maçaneta, abrindo a porta e entrando em seguida. Sem pensar duas vezes, foi em direção ao seu quarto e jogou a mochila num canto, caindo na cama com todo o cansaço que tinha no corpo. O garoto observou o teto por um momento, ele esperou até que os olhos quisessem fechar novamente, porém isso não aconteceu. Afinal o sono viria quando os globos oculares pedissem para ser fechados, mas talvez aquilo não acontecesse pelo simples fato de ter ignorado o pedido duas vezes. Minutos se passaram, até que a luz do sol já tivesse sido desligada.
—Por que diabos eu estou assim...? –questionou, vagamente. Sua voz estava cansada, e de repente os olhos pediram para fechar, e ele aceitou sem hesitar.
(...)
Quando menos percebeu, Hayato já estava dentro de um sonho. O cenário era completamente cercado por escuridão, nada podia ser visto ali dentro. Era como um pesadelo, em que tudo era mórbido e sempre algo de ruim acontecia. Porém nada aconteceu, só havia escuridão para todos os lados e nenhum sinal de algo ou alguém.
—Alguém ai...? –ele se queixou, procurando qualquer coisa ou pessoa que aquele sonho fosse propor a ele.
Nenhuma resposta.
Hayato começou a caminhar pela escuridão em linha reta, assim se chegasse a algum lugar que não quisesse ir, ele poderia voltar ao centro e procurar outra coisa. Os cabelos brancos descidos iluminavam o caminho, enquanto ele apenas ia, sem se preocupar com o que pudesse acontecer consigo mesmo.
Minutos se foram em vão, enquanto Hayato caminhava como um idiota de um lado para o outro sem motivo. Ele chutou o ar na escuridão, quando uma voz adentrou os ouvidos com velocidade:
—Hayato Limoeiro, estou certo? –a voz questionou, fazendo Hayato se virar para os lados, buscando o locutor.
—Quem está ai? Cadê você?! –questionou o albino, olhando para todas as direções.
—Fique calmo, Hayato... Eu e você somos iguais, sei que está assustado, mas não precisa disso tudo. –o locutor afirmou.
—Então pelo menos me diga onde você está.
—Bem atrás de você. –Imediatamente Hayato girou o corpo para trás e avistou alguém exatamente igual a ele. Porém os cabelos desse ser eram quase púrpura, mas bem brancos.
—Quem é você? –perguntou, provavelmente pela última vez.
—Desculpe... Eu não me apresentei? –o garoto de mesma aparência olhou para cima, e então retornou o olhar na direção de Hayato.
—Meu nome é Azin, Azin Mujin. Eu sou um guerreiro que anda pelo mundo para lutar com monstros e ajudar a humanidade, e ao mesmo tempo enfrentando até os bons que se meterem no meu caminho. –as palavras entraram com exorbitância na mente de Hayato, que começou a se queixar mais do que já estava antes.
—Monstros?
—Exatamente. Você, meu caro Hayato, vive numa dimensão diferente, em que magias, dragões, demônios, guerreiros, anjos e monstros não existem de forma alguma. Uma dimensão monótona, que segue sempre o mesmo ciclo. Nascer, crescer, se reproduzir, morrer.
Azin pausou, fitando os olhos vermelhos nos azuis e o observando de lado.
—Já na minha dimensão, nós vivemos numa era em que diversidades de raças habitam o mesmo mundo. Guerras são travadas, pessoas morrem, pessoas renascem. Pessoas perdem lutas, pessoas vencem lutas. Pessoas nascem, crescem e se reproduzem, e lutam para proteger todos que amam, e antes de morrer, eles vivem uma vida de aventura para enfim terminarem sua jornada como heróis. Outros escolhem seguir seus caminhos sozinhos, sem amigos ou colegas, como eu escolhi.
Hayato parou, tentando absorver tudo aquilo dito.
—Mas... Se você é mesmo de outra dimensão... Porque está aqui, como está aqui e porque está me contando tudo isso?
Azin sorriu, fechando os olhos e suspirando.
—Haha... Você foi direto ao ponto que eu queria. Eu fui morto pelo meu irmão e sua amiga na dimensão onde eu habito, não era um irmão de sangue, mas eu o considerava como meu irmão. E bem, meu corpo está sendo levado neste minuto para os magos curadores da Grand Chase, e agora minha alma não está mais lá. E de alguma forma, meu corpo não quer morrer. Os batimentos cardíacos, o funcionamento dos órgãos, nada para. É como um sono profundo do qual eu não consigo acordar.
—Eu ainda não consigo entender... –Hayato questionou novamente. –Porque você me diz isso?
—Porque você é a única alma que pode habitar o meu corpo.
Aquela frase fez o coração de Hayato parar por um segundo.
—Surpreso? –Azin perguntou, mesmo sabendo que ele estava. –Bem Hayato, você já deve ter percebido que seu corpo estava completamente fadado, certo? Pois bem, você não pode mais acordar.
—Não posso? –desafiou Hayato. –Veja só.
De repente Hayato começou a tentar sair do sonho de alguma maneira, fechou os olhos por alguns minutos e forçou a mente, quase para explodir. Hayato tentou esquecer que estava ali, mas não deu certo.
Nada estava dando certo.
—Eu disse, não disse?
—O que diabos você fez comigo?! –Hayato correu até ele para tentar estrangulá-lo, mas Azin já estava atrás de si.
—Eu não fiz nada, cara. –Azin disse, com uma voz de confiança.
—Então quem fez isso?! Me diz de uma vez, droga!
—Fica calmo, por favor. –o outro albino pediu. –Olha só, você morreu!
Hayato arregalou os olhos, tentando absorver o trecho “você morreu” em sua mente. Mas era difícil. Muito difícil.
—Eu... Morri? –Hayato perguntou. –Como diabos eu morri?
—Quando eu cheguei aqui, depois da minha morte, você já estava caminhando por aqui. De acordo com o que sei, nossas almas estão ligadas, se eu morro você também morre. E como eu morri, é lógico que você deve estar aqui. Lá fora, seu coração ainda bate, tudo ainda funciona, mas você não acorda.
—Não... –Disse Hayato, incrédulo. –Não pode ser...
—Hayato fique calmo! –Azin gritou, segurando o outro pelos ombros. –Eu tenho uma ideia de como podemos sair desse lugar e voltarmos a viver, confie em mim.
—Tá bem... Tá... –Hayato estava ofegante.
—Ouça bem. –Azin puxou uma esfera incandescente do bolso. –Essa esfera pode renascer um de nós dois, eu tenho apenas uma, mas é lógico que se você continuar morto, eu voltarei imediatamente para cá. Então só podemos fazer uma coisa. A sua alma é mais forte e resistente do que a minha, nós dois podemos se tornar um só, eu vou estar na sua consciência para te ajudar, e você vai ter a minha aparência, entendeu?
—Mas como faremos isso? E no que isso nos ajuda a voltar à vida?
—Bem, se duas almas usarem o coração de Arachne ao mesmo tempo, nós poderemos se tornar uma só alma e ele nos trará de volta a vida ao mesmo tempo. Porém, nós iremos pro meu mundo, e você terá que encontrar Thanatos, ele tem o poder de separar duas almas e com isso poderemos renascer. Pode ser que demore mais de um ano, mas é o preço que pagaremos pra voltar à vida. E ai, você prefere ficar aqui pela eternidade ou me ajudar?
—Tudo bem, eu vou te ajudar. –Respondeu Hayato. –Mas só porque quero minha vida de volta.
—Certo você sabe o que fazer. –Azin segurou o coração de Arachne e ordenou que Hayato colocasse a mão na sua, assim o coração se dividiria e juntaria os dois em um só. Uma áurea azul iniciou uma trajetória do começo da mão de cada um até os dois corpos. Quando os dois estavam completamente azuis, os corpos se juntaram e luz dominou tudo.
Talvez aquilo significasse mais do que um resgate de duas almas.
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