PARADISE - Crônicas de um mundo perfeito
9 Capítulos 9 - Somos Todos Mortos Vivos?
— Ele quebrou as regras sagradas de Deus!!!
— Este anjo...
— Azazel... Simplesmente ignorou tudo isto!
— Mais nenhum desrespeito à Deus será tolerado!!!
— Azazel será exilado!! No Éden!!
— Será condenado a viver a eternidade como um mísero humano!!!
***
Finalmente acordou.
Enquanto uma pequena e refrescante brisa balançava as penas do pequeno pedaço do que havia sobrado de suas asas mal cortadas por Samael, os olhos de Azazel se abriram. A forte luminosidade causada pela luz do sol, que parecia estar a uma distância descomunal, o cegou por um instante, antes de ver, mas não perceber, que estava no Éden.
Depois da gigantesca queda que Samael havia lhe proporcionado, permaneceu desacordado num grande campo aberto e coberto por grama. Grama esta, meio destruída pela cratera criada com o impacto de sua chegada.
Levantou devagar, ainda bastante tonto, e cambaleou com dificuldade para fora da cratera que fizera. Era grande porém não muito funda.
Pouco à pouco as lembranças do que acontecera antes de sua queda começaram a voltar, e toda a loucura sem sentido que sua memoria havia se tornado, começou a se organizar.
"Samael..."
A medida que caminhava sem rumo por aquele gigantesco gramado de folhas altas, que balançavam com o vento do local, recuperava sua memória.
Dezenas de perguntas começavam a surgir em sua cabeça, após ter voltado, não completamente, a si.
"Por que Penemue não estava no Paraíso...?"
"Onde esta Kokabiel então...?"
"Aquela sala... SAMAEL ESTAVA SE ALIMENTANDO DE ANJOS?!"
Em meio à esse emaranhado de perguntas que sua mente perturbada se tornava, continuou à andar, e sem perceber acabou por entrar em uma enorme e densa floresta coberta por árvores gigantescas, onde o vento que abalava a grama em que pisava mal conseguia entrar.
— N...N-não... — Ainda permanecia meio grogue e falando com dificuldade, enquanto continuava à pensar em mil coisas. — Não pode ser...
"Todo esse tempo... Todo esse tempo... Samael estava devorando anjos?!"
"Estávamos sendo enganados todo esse tempo...?"
"Como Samael pode fazer algo tão cruel!?"
De repente, uma estranha movimentação chamou sua atenção.
O que poderia ser isso? Olhou na direção do ser, que se movia lentamente, mas que sumia com facilidade diante das gigantescas arvores que cobriam o local.
A criatura parecia estar sem rumo. Mas mesmo com sua movimentação estranha e aleatória, as arvores ainda o escondiam, deixando apenas a sua sombra, criada pela luz do sol, a mostra.
Tentando entender oque era aquilo, Azazel parou para observar atônito a movimentação lenta e sem sentido que a sombra do estranho ser fazia.
O silêncio do local era quebrado apenas pelo som dos passos do estranho ser.
O sol batia com força nos olhos hipnotizados do pequeno anjo.
As folhas podres das arvores caiam como chuva em seu rosto.
E lá, em meio aquele Paraíso que remetia ao próprio inferno, o anjo sem asas, aquele que voou perto demais do sol, presenciou com olhos esbugalhados a agonia daquela bizarra criatura.
Um humano.
O estranho ser de forma antropomórfica, que parecia carente de inteligência e não trajava nenhuma vestimenta sequer, surgiu caminhando lentamente entre as gigantescas árvores.
E com sua face coberta por retardo, dor e agonia, avistou Azazel, e lhe lançou um profundo olhar de desespero.
— A-a... A-az... Aza-za...
Tentou com dificuldade pronunciar algo. Qualquer coisa capaz de chamar a atenção do anjo à sua frente.
— Aza--... zel... Azaz--zel...! Aza--aaazel...!!! — Clamava por ajuda.
— AZAZELRGH...!!!
O seu nome, agora repetido aleatoriamente por aquele humano descerebrado, fora provavelmente outrora ouvido por um anjo coletor que jazia ao Éden.
E isso... Esse mísero momento causado por esta infeliz conhicedencia, foi capaz de abalar Azazel de forma que ele jamais imaginaria.
Todas as suas convicções...
Todas as suas ideologias...
Todo o mundo que imaginara conhecer...
Tudo foi bruscamente esmagado por aquele momento.
Percebeu que por toda a sua vida vinha se alimentando de seres como este. Seres que por mais que não possuíssem inteligência, ainda possuíam vida. E mesmo que sempre soubesse deste fato, ver aquela criatura agonizando enquanto gritava desesperadamente seu nome, fez com que ele finalmente compreendesse o quão cruel ele também havia sido. O quão igual a Samael ele era.
HIPOCRISIA.
Por mais que nunca tivesse conhecido a palavra capaz de expressar aquele sentimento, logo entendeu a angustia e culpa que sentira.
Sentiu profundo ódio da crueldade de Samael depois de ver que este devorava anjos. Mas por que toda essa agitação? Por que, se ele e todos os outros de sua raça faziam o mesmo com os humanos desde o início dos tempos?
Toda essa reflexão, toda essa dor que presenciou a criatura sofrer... Fez com que o seu pequeno rosto se enchesse de água.
Pela primeira vez... Um anjo chorou.
— Me--...!!! — Coberto por lagrimas, o pequeno anjo foi ao chão, frente a trágica criatura clamando por ajuda. — Me-- perdoe...! Me... Me Perdoe...!!!!
O que poderia fazer para salvar aquele ser? O que poderia fazer para alertar todos os anjos sobre a sua conclusão?
Nada.
Agora era tão insignificante quanto o humano agonizando em sua frente.
— Me perdoe...!!!!
Não havia mais esperança. Tudo o que poderia fazer agora era aceitar o seu cruel destino e viver o resto de sua vida vagando sem rumo pelas terras do Éden.
Mas não.
Não seria apenas isso.
Diante de sua conclusão... Diante de seu fim iminente... o anjo sem asas tomou uma decisão.
Indo contra todo os seus antigos e cruéis costumes... A partir de agora, não iria comer carne humana. Não iria comer mais nenhuma forma de vida. Nem que acabasse morrendo por isso.
Como poderia fazer isso?
Como poderia depois do que descobrira?
Mesmo que isso não fosse apagar toda a crueldade que ele havia cometido, mesmo que sua trágica decisão não fosse mudar aquela sociedade, ele se sacrificaria em prol da própria redenção.
Era o mínimo que poderia fazer... Era tudo o que poderia fazer...
***
Trajando o seu mais sincero arrependimento, Azazel começou a vagar sem rumo pelo Éden, aceitando enfim o seu cruel destino e buscando de alguma forma, redenção.
Caminhou, diante de arvores de diversos tipos e tamanhos localizadas nas densas florestas que ocupavam grande parte do Éden.
Caminhou, entre grandes e belos gramados que balançavam com facilidade diante da brisa refrescante.
Caminhou, frente a um líquido e invisível do qual nunca antes havia ouvido falar. Água.
Caminhou, perto de enormes cachoeiras e lagos que compunham o resto do local
Caminhou, ao lado de humanos, que mais pareciam mortos vivos andando sem rumo por aquelas terras, comendo mato, e esperando algum anjo coletor acabar com seu sofrimento.
Caminhou por aquela paisagem, que soava vívida, colorida. Diferente de todo o esbranquiçado do céu.
Caminhou, por toda essa paisagem, que de certa forma, maravilhava seus olhos.
Caminhou, caminhou, caminhou.
Caminhou em busca de redenção pela crueldade que à tempos vinha praticando.
Caminhou por aquelas terras, até que seus pés ficassem dormentes... Até que fosse ao chão por não conseguir mais dar um passo sequer...
E lá permaneceu. Caido ao chão, olhando o céu escurecer e o sol sumir e dar lugar a lua. O céu em que vivera parecia não existir mais. O Éden parecia se localizar em outra dimensão. Até o tempo parecia passar mais devagar. Parecia estar caminhando à ciclos.
Onde fora parar a cidade flutuante dos anjos?Certamente esta lá em cima. Mesmo que não pudesse ve-la. Mesmo que não pudesse alcança-la.
Permaneceu no chão. No silêncio da noite. Seu corpo pesava devido ao cansaço. Mal conseguia se mover.
O sono tomava conta de seu ser, seus olhos começavam a pesar e pouco a pouco parecia ceder ao cansaço. Mas estando prestes a dormir, avistou ao longe um humano agindo de forma estranha.
Este, além de um jeito afeminado, possuía um corpo que lembrava levemente o da criatura que encontrara na sala de reprodução. Exceto por sua destacável barriga grande e redonda, que nem parecia pertencer ao mesmo ser.
Mas, diferente de todos os outros humanos que havia visto antes, este permanecia no mesmo lugar à tempos, e enquanto sentia uma enorme dor, aparentava tentar expelir algo de dentro de seu corpo.
Embora sua face ainda continuasse vazia e sem expressão, a criatura fazia uma enorme força para expelir o ser.
De repente, de lá, de dentro daquele ser humano, outra criatura surgiu. Outro humano. Um bebê.
Aquela estranha criatura, em meio à bizarros gritos de dor, deu a luz a uma criança. Um bebê humano.
O anjo sem asas, acabava de ver, pela primeira vez, o nascimento de uma vida. O tipo de vida que costumava saborear quando estava no céu.
Segurou o forte sono que o forçava a dormir devido ao cansaço apenas para poder olhar mais tempo para aquela criatura que acabara de nascer.
Esse simples nascimento, o emocionou, pois sabia que, logo, aquela vida, que acabara de ser criada, carregaria um triste e cruel destino.
E enquanto a mãe da criança continuava a vagar sem rumo deixando o frágil bebê para trás, sua visão começou a ficar cada vez mais turva.
Finalmente apagou.
***
— Ei...!
O descanso do pequeno anjo era interrompido pelo som de uma pequena gritaria.
— Aquele ali não é Azazel...?! O anjo que traiu a confiança de Deus?!
Eram outros anjos. Provavelmente desceram ao Éden à trabalho.
— Ei! ei! Não chegue muito perto! Não ouviu as ordens de Samael? Talvez ele até te contamine com sua trapaça.
Azazel abria os olhos com dificuldade. A luz do sol novamente estava lá, o cegando momentaneamente. E acima de si, viu dois anjos voando enquanto levavam bebês humanos em suas mãos.
— Olha! Ele esta acordando...!
— Vamos logo... veja se não há mais nenhum alí!
— Veja você! Não vou chegar perto dele! Ele esta acordando...!
"...O que esses anjos fazem aqui...?" pensou um segundo antes de lembrar que alguns anjos vinham até o Éden à fim de coletar humanos.
— Olha, ainda tem mais um ali!
— Então pega logo...!
— Eu já disse! Não vou chegar mais perto! Pega você!
Ainda permanecia deitado ao chão em meio à grande grama da floresta, antes de virar para o lado e perceber algo um tanto quanto estranho.
O bebê que ele havia visto nascer à noite, desapareceu.
— Hmpf... Eu tenho que fazer tudo!
"...Espera... Aqueles anjos..."
"ESTÃO COLETANDO BEBÊS!" Concluiu, antes de se levantar bruscamente e assustar o anjo que se aproximou para pegar um bebê a alguns metros de Azazel.
— Ele levantou!!! Sai daí!
— Já peguei o último!!! Vamos!!!
"Por que estão coletando bebês?!" Começou a correr desesperadamente para fora da floresta. E a medida que corria, ía encontrando cada vez mais anjos em busca de bebês recém nascidos.
"Por que estão coletando bebês nesta época?!".
"Isso não faz sentido!".
"Estão planejando come-los fora da época!?".
Continou a correr loucamente buscando algum bebê que ainda não fora coletado.
"Não posso deixar isso acontecer!".
"Não posso ficar parado vendo esse tipo de coisa!".
Procurou incessantemente. Procurou por cada canto daquela floresta. Mas de nada adiantou.
Não conseguiu achar ninguém.
E foi novamente ao chão.
A angustia de não conseguir fazer nada diante daquela situação cobria todo seu pequeno corpo.
Patético?
Talvez não.
Diante daquela situação de extrema agonia, olhou para o lado, e viu...
Presenciou... lá... entre as folhas caídas das arvores e a grama suja de fezes de humanos, uma fagulha de sua esperança.
Encontrou lá, um bebê.
Um humano, que diferente de todos os outros que conhecera anteriormente, ainda possuía vida em sua face. Vida em seu pequeno rosto ainda coberto por sangue.
Ouviu o bater das asas de um anjo. Um à procura de uma vida como aquela. Sem pensar duas vezes, se jogou em cima do bebê. O protegeu do cruel destino que os humanos normalmente tinham.
— Eu... Eu vou...! Eu vou...!!!
O anjo finalmente ia indo embora, e Azazel permanecia no chão. Agarrando com toda as suas forças o bebê ainda em prantos, como um pai segurando seu filho.
Aquele bebê... A partir de agora... Seria oque lhe daria forças para continuar a sua dura jornada por redenção.
Aquele bebê... A partir de agora...
Representaria sua esperança.
"EU VOU SALVA-LO...!!!"
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