P a r a l e l o s

3 Capítulo I – Flagrante


Notas iniciais
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13 anos depois.

A neve desprendia-se dos céus tempestivos com furor, acumulando-se pela viela escura, de cuja única fonte luminosa provinha do anúncio em led de um pub, projetando centelhas multicores sobre o asfalto e os tijolos abobadados. As nuvens assumiam um tom de cinza argiloso. A temperatura estava cerca de seis graus negativos, e as pequenas estruturazinhas que adejavam para a terra cristalizavam-se ao se depararem com alguma superfície, conservando-se intactas. Afinal, era janeiro, e toda Denton parecia envolta por gelo, que consumia os resquícios de vida que ali jaziam em épocas anteriores.

O recinto emanava à putrefação, umidade e urina. Tentáculos de névoa pareciam se esgueirar entre as construções geminadas. Com as mãos dormentes, forcei-me a segurar o cano da pistola semiautomática com mais força. As luvas já puídas que as cobriam precariamente não chegavam nem perto de ser o suficiente para aquecê-las. Ainda assim, meus poros transbordavam suor frio. Meu arfar profundo condensava-se na atmosfera densa.

Apertei entre os dedos o camafeu que pendia em meu pescoço. O pingente se abria e exibia uma foto de Josh. O garoto trajava um macacão e uma camiseta azul-marinho. Seu rosto moldava-se em um sorriso com covinhas, exatamente como eu me recordava. Sussurrei um pedido de desculpas e senti uma pontada atingir meu coração como gelo.

Ajustada ao modo furtivo, avancei pelo breu a passos cautelosos, a arma ainda empunhada, aguardando uma oportunidade. “Mova-se com cautela ou vai espantar a caça”, era o que sentenciava meu pai, nas tardes de domingo quando ainda morávamos em Kentucky, enquanto me ensinava a atirar. Era exatamente como me sentia, dia após dia: em uma eterna caçada. Em busca de novas vítimas, devedores, milionários corruptos ou qualquer um que cruzasse meu caminho e recusasse minhas investidas em busca de uma generosa quantia em dinheiro.

Uma porta se abriu com um soar necessitado de lubrificação. Atirei-me contra o chão, pega de surpresa, e engatinhei até algumas lixeiras que transbordavam detritos.

— Estamos quase acabando — argumentou uma voz empoeirada e repugnante.

Earl, aquele grande filho da mãe.

— Já descobrimos vários caminhos alternativos para chegarmos a ele e, quando eu pôr as mãos naquele verme imbecil — continuou Earl, as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo. Os olhos, de aspecto quase lupino, pareciam fervilhar, esquadrinhando infindavelmente as botas pesadas de couro, — bem, teremos muito o que comemorar!

Seu acompanhante, mais baixo e corpulento, cujos trajes espessos não ocultavam as tatuagens que se alastravam por seu pescoço e mãos, assentia avidamente. A cabeça, que apresentava os cabelos aparados rente ao couro cabeludo, exibia uma cicatriz disforme que se evidenciava conforme a incidência de luz. Os dentes, que se abriam em um sorriso pouco convidativo, pareciam emanar à podridão.

Merda! Confrontar Earl já seria o suficiente, e bastaria. Não estava disposta a ter de lidar com outro de sua espécie imunda.

— Quero que confeccione fogos de artifício, bebidas e muita erva — Earl solicitou, triunfante. Passou o braço ao redor dos ombros do companheiro, envolvendo-o em um abraço abrupto. — E ficarei agradecido se puder contatar algumas de suas amigas strippers.

— É claro, senhor — disse o outro. A fala parecia trovejar pela viela tácita.

— Não me chame de senhor. Já podemos nos considerar amigos íntimos. Me chame apenas de Earl.

O outro empertigou-se, satisfeito. Parecia ter subido uma escala na pirâmide de relacionamentos de Earl e, a julgar pelo modo como sorria e desferia tapas entre suas omoplatas, era como se tivesse conquistado uma proposta de emprego que lhe conferia dezenas de benefícios.

— Não se sinta tão lisonjeado, Hanks. Você já fracassou uma vez, e saiba que não costumo dar segundas chances. — Ele proferiu as palavras de modo suave, quase complacente. No entanto, em um movimento que pareceu durar um milésimo de segundo, desferiu um golpe no abdômen de Hanks, que se dobrou em agonia, caindo de joelhos sobre a neve. Após se recompor, aplicou-lhe um Kimura, efetuando pressão sobre o ombro do adversário.

Hanks urrou, lamuriando enquanto seus ossos emitiam uma série estalos ruidosos. Era impressionante como Earl conseguia exercer domínio sobre alguém tão robusto quanto o outro, e tudo sem sequer a face se vincar devido ao esforço. A face de Hanks, por outro lado, era um misto de agonia e dor enquanto seu ombro se esfacelava sob os braços de Earl, que gargalhava como se estivesse diante de um espetáculo. A postura de bom moço havia se esvaído.

— Está gostando disso, docinho? — inquiriu Earl, pressionando-o contra o solo. — Será bem pior caso não cumpra com o esperado. Não hesitarei em descartá-lo como se faz com um par de sapatos velhos. Explodirei seus miolos com uma única bala. — E, com isso, empunhou o revólver calibre 38 com a mão livre, destravando-o e depositando-o sobre a têmpora de Hanks.

— Não, senhor, por favor — suplicou ele, a voz entrecortada pelas lágrimas. — Me deixe ir! Prometo que não vou falhar desta vez.

Earl hesitou, a arma ainda sustentada com firmeza entre os dedos. Após ponderar por um segundo, desferiu uma coronhada, fazendo-o expelir um jorro de sangue pelos lábios. Em seguida, aproximou-se de Hanks, murmurando em seu ouvido:

— É melhor que não me decepcione.

E assim, levantou-se, esfregando o agasalho saturado de neve. Acendeu um cigarro, protegendo as chamas do isqueiro com a mal espalmada. Enquanto isso, Hanks bradava palavrões em aflição. A mão repousava sobre a contusão e a neve se derretia sob seu pranto. Não passava de um covarde subordinado, assim como todos os outros. Parecia-me que Earl talvez não selecionasse a dedo seus subalternos, como eu imaginava.

— Levante-se, filho da mãe — ordenou Earl, enquanto Hanks se contorcia em espasmos. — Se quiser permanecer vivo, é melhor começar o trabalho. — E, vendo que seu discurso não produzia efeitos, golpeou-o com a lateral do pé. — Vamos! — vociferou ele, conduzindo novamente as mãos ao revólver. — Me prove que não é que apenas um merdinha que choraminga e implora feito uma criança!

— Tudo bem, tudo bem — Hanks conseguiu sibilar.

Tentou, em vão, levantar-se. Contudo, assim que conseguiu ficar de joelhos, tornou a ir ao chão. Earl bufou. Com impulso adicional, Hanks forcou-se a engatinhar até uma parede de tijolos abobadados, cuja placa danificada indicava se tratar de um armazém há muito abandonado. Com o braço incólume, sustentou-se e pôs-se de pé.

Hanks se demorou ali, fitando Earl de soslaio enquanto recuperava o ar dos pulmões. Cuspiu um bocado de sangue, que tingiu o cobertor níveo sob seus pés em tons de vermelho vivo. Reunindo os resquícios de força que lhe restavam, mostrou o dedo médio e cambaleou pela viela, enquanto Earl ria com euforia.

Havia ao menos dois motivos para Hanks não exterminar Earl ali mesmo, em meio ao breu da pequena travessa: ou Earl era um elemento imensamente célebre entre as gangues criminosas, ou Hanks carecia de uma generosa quantia em dinheiro tanto quanto eu. O indivíduo parecia dispor de vigor o suficiente para esmagá-lo em um simples aperto de mãos.

Procurei prender a respiração e me camuflar entre os detritos quando o sujeito, praguejando, cruzou o local.

— Babaca — disparou Earl. Jogou o que restava do seu cigarro e pisoteou-o com a ponta do sapato.

Em seguida, adentrou a casa para, minutos depois, sair com seu Rottweiler preso à coleira. O cão avançava à frente, ao passo que Earl o refreava. A julgar pelo modo como nutria obediência ao dono, parecia ser altamente treinado. A musculatura forte e aparente contribuía para torná-lo bastante intimidador.

Earl se agachou e acariciou os pelos do animal. Tirou do bolso do agasalho o que parecia ser uma camiseta e a entregou para que o cão farejasse. O Rottweiler fungava, inalando meticulosamente a peça de roupa, sem deixar passar um centímetro sequer. Seja lá o que estivessem planejando, a noite seria longa para os dois. Havia muito trabalho a ser feito.

Os dois dispararam para fora da viela, dobrando à oeste das casas geminadas, na direção de uma Denton iluminada e silenciosa, onde as pessoas se refugiavam dentro de suas casas, aquecidas por cobertores e uma lareira crepitante na sala. Um privilégio do qual eu não dispunha há muito tempo.

Enfim, pude relaxar. Tudo parecia silencioso novamente. O espetáculo havia sido findado e o caminho estava livre para que eu agisse. Depositei um beijo na superfície gélida da pistola – um ritual que eu executava para dar sorte – e deixei meu esconderijo fétido para trás.

— Argh! — exclamei ao contemplar o belo rastro disforme do sangue, que se alastrava como tentáculos moribundos pelo gelo.

Agachei-me ao parar diante da porta de correr, a qual, observando mais de perto, continha um bocado de pichações com inscrições em letras estilizadas. Com a mão livre, forcei-a a se abrir, sem sucesso. Apliquei um pouco mais de força, de modo que as veias em meu pescoço e testa se tornaram ainda mais evidentes, formando padrões disformes em tons de azul. Coloquei-me de costas para a porta, empurrando-a para cima com a rigidez do tronco. Ainda assim, nada. A abertura não havia se movido um milímetro sequer.

Corri pelo perímetro. Não havia janelas exceto pelo segundo ou terceiro andar, cujas vidraças serviam de elo entre varais abarrotados de roupas. Amaldiçoei-as em pensamentos. Construções ladeavam a casa de Earl, o que dificultava ainda mais a entrada pelos flancos.

Suspirei, esquadrinhando a estrutura com os braços cruzados na frente do corpo. Teria de haver uma solução, e rápido. Temia que aquilo pudesse culminar no meu fracasso, levando tudo abaixo.

— Não hoje — murmurei ao avistar uma entrada de ar oculta sob uma camada espessa de neve.

Caminhei até o local com um sorriso travesso. Com um par de mãos dormentes e repletas de hematomas, apanhei a mochila de lona, trazendo-a para mais próximo. No compartimento principal, havia um conjunto de pinças, uma corda, uma faca karambit – que eu havia ganhado em uma aposta que quase me custara a vida – e uma granada, uma pequena dádiva que eu levava comigo para o caso de a situação ficar feia. Descartei a hipótese de utilizar a bomba assim como fiz com os disparos. Não estava disposta a correr o risco de acabar atraindo alguma viatura.

Após terminado o trabalho de retirar a neve, em um dos bolsos laterais, encontrei uma chave de fenda. Apanhei o cabo de plástico e, ao verificar que a extremidade se encaixava, sem folga, no parafuso, comecei a afrouxá-los. Fiz um leve contrapeso com o corpo, desagregando a grade de seu suporte com cuidado.

Bingo!

Recompus-me em um segundo, guardando a chave de fenda novamente na mochila. Esgueirei-me por entre a abertura, surpresa com o fato de uma espelunca como aquela apresentar alguma tubulação.

O odor almíscar de substâncias que não fui capaz de reconhecer foi a primeira coisa que me atingiu. A luz, concomitantemente amarelada e cinzenta, típica de momentos antes do amanhecer ou logo após o pôr do sol, quando o mundo submerge em uma aura sombria, banhava o ambiente. Moscas zumbiam em torno da lâmpada que pendia do teto, suspensa por uma fiação elétrica precária. Uma mesinha de centro transbordava garrafas de whisky, caixas de pizza – com fatias mordiscadas atraindo dezenas de insetos – e cinzeiros repletos de guimbas de cigarro. Não havia maconha ou comprimidos de ecstasy, como eu previa. Pelo jeito, Earl sabia como encobrir seus rastros.

Rastejei para fora da entrada de ar, realizando um trabalho extra ao trazer os quadris para fora do espaço limitado.

Deve haver um cofre por aqui. Ou um esconderijo sob o colchão, uma tábua solta na parede, um fundo falso. Mas onde diabos...?

Esquadrinhei o local. Era uma verdadeira espelunca. Não parecia haver nada de interessante além daquela desordem nauseabunda que me provocava enjoos, uma TV de tela plana apoiada sobre um suporte improvisado, um tapete surrado cor creme e a poltrona, que agora eu vasculhava com os dedos ágeis. Procurei nos orifícios e nas dobras do móvel, mas não havia nada além de sujeira e uma meia que certamente se perdera de seu par havia anos. Com a karambit, forjei um rasgo no estofado, que cuspiu espuma sobre o tapete puído. Porém, nada de drogas.

Atravessei a sala e subi os dois lances de uma escada de ferro. Adentrei um quarto sob a penumbra. As janelas estavam fechadas e uma claridade diáfana se filtrava pelas persianas, provavelmente provinda de algum poste de luz.

Apertei o interruptor. A lâmpada emitiu um estalo ruidoso e tudo continuou escuro. Capturei minha lanterna de mão, que quase se perdera em meio aos entulhos da mochila, e guiei a luz até uma pequena cômoda ao lado da cama. Vasculhei as gavetas. Contudo, não havia nada além de cuecas – que emanavam um odor acre de suor e urina –, camisetas velhas e pares de meias. Com sorte, consegui encontrar uma caixa de charutos cubanos sob uma pilha de peças imundas.

— Você não vai sentir falta disso.

Enfiei a caixa na mochila e levei um aos lábios. Aparei uma das extremidades do charuto com a faca – um corte com não mais que três milímetros para que a capa não se soltasse – e o acendi com o isqueiro que jazia sobre a cômoda. Não era exatamente o que eu esperava, mas fui tomada por uma onda de prazer ao degustá-lo vagarosamente, contudo sem tragar, sentindo o sabor do tabaco invadir a traqueia e os pulmões. Minhas mãos tremiam em puro êxtase.

Ainda com o charuto entre os lábios, agachei-me, vasculhando sob a cama.

Ergui-me de supetão, derrubando o charuto ao contemplar os olhos cintilantes de uma ratazana, que correu para longe antes que eu pudesse exibir maiores reações. Bufei. Ali era definitivamente um lugar que eu não voltaria minhas atenções.

Segui na direção do banheiro. O ambiente era deplorável, mas me forcei a adentrá-lo. Abri as portas do gabinete da pia. O móvel havia se deteriorado pela ação dos cupins. Os grânulos da madeira porosa se mesclavam aos frascos com comprimidos de anfetamina. Peguei-os. Nada daquilo seria desperdiçado.

Levantei os olhos a tempo de capturar minha imagem abominável no espelho: as olheiras profundas que contornavam as órbitas dos olhos; a cicatriz disforme e avermelhada que percorria o lado direito do rosto, da sobrancelha ao canto dos lábios; o cabelo emaranhado e preso em um coque disforme no topo da cabeça. Não pareciam haver quaisquer resquícios da garotinha radiante que, 13 anos atrás, vivia pacificamente com os pais e o irmão no Kentucky.

— QUE PORRA É ESSA?!

O bramido foi suficiente para que meu coração disparasse. Era a voz de Earl, alta, clara e cheia de irritação. E que certamente já havia se dado conta dos retalhos que eu havia deixado em sua poltrona.

— Mas que diabos...? — arfei em pânico.

Mal tive tempo de sair do banheiro antes que o Rottweiler avançasse sobre mim e me derrubasse sobre o piso frio com força descomunal. Pressionava meu tórax com as patas dianteiras, mantendo-se por cima. O cão latia enfurecido enquanto eu lutava contra suas investidas, segurando seu focinho entre as mãos. As gotículas de saliva respingavam em meu rosto.

Mesmo forçadamente, tive de desferir chutes na região xifoide do animal. Era isso ou acabaria com um pedaço da pele entre seus dentes pontiagudos. O cão ganiu e afrouxou o aperto em meu tórax. Aproveitei a oportunidade para desferir um soco em sua mandíbula. Amaldiçoei-me em pensamentos, mas não me restava escolha.

O Rottweiler recuou, grunhindo assustado. Levantei-me em um salto, afagando a roupa amassada.

— Ora, ora. — Earl riu-se quando adentrou o banheiro com a pistola empunhada em minha direção, ao passo que a mão livre acariciava os pelos do cão, na tentativa de confortá-lo. Projetei as mãos para cima, incrédula. — Parece que já conheceu Bummer. É um cachorro muito obediente, mas que odeia intrusos.

— Bummer? É esse o nome? Não soa nada amedrontador. — Quis parecer firme e sarcástica, contudo a voz entrecortada me denunciava.

— Pelo jeito, ainda não perdeu o hábito de fazer comentários insolentes, não é? Me pergunto por que uma megerazinha feito você não está atrás das grades.

— Pode ter certeza que questiono o mesmo a seu respeito.

— Eu sou o chefe! Ninguém ousa cruzar o meu caminho. Eu posso acabar com a vida de qualquer imbecil com um estalar de dedos.

— Ah, é mesmo? — Sustentei seu olhar, procurando me manter impassível. — E por que nunca pôs um fim à minha?

— Minha mãe me ensinou a não perder tempo com coisa inúteis. E pode apostar que eu me lembrei de fazer a lição de casa. — Um sorriso triunfante assumiu forma em seu rosto. Earl era absolutamente repugnante. — Mas hoje não é o seu dia de sorte. Estou disposto a infringir as regras.

— Vá à merda! — cuspi a plenos pulmões.

A pistola estava dentro da mochila, no chão, a uma distância perigosa do Rottweiler, de modo que eu não me atrevesse a apanhá-la. Contudo, senti o peso da karambit no bolso esquerdo da jaqueta. Comecei a conduzir cuidadosamente a mão esquerda ao bolso. Eu precisava ganhar tempo e distraí-lo com um papinho inútil. Era a única saída.

— Confesso que esse desvio repentino no seu trajeto me surpreendeu — comentei, sincera. — Imaginei que já estivesse bem longe daqui, aniquilando um dos seus devedores.

— Esse era o plano inicial. Bummer e eu já deveríamos estar dentro de um carro roubado, provavelmente uma picape de um velho caipira que não havia sido alertado dos perigos de parar na estrada no meio da madrugada. Estaríamos a caminho de Boston, à procura de um cara chamado Flynt, que a esta hora estaria refugiado em algum quarto barato de hotel, ciente de que em breve eu voltaria a dar as caras. Tudo isso aconteceria se eu não estivesse enervado a ponto de esquecer de recarregar o próprio revólver — relatava ele, pacientemente, enquanto escorregava os dedos pelo gatilho, em um vaivém constante. Earl sabia que aquilo me afetava, e ria-se disso.

— Então, quer dizer que o revólver estava sem munição por todo esse tempo? — intervi, disparando aquilo que me veio à mente, enquanto descia ainda mais a mão esquerda. — Não era a sua intenção matar Hanks?

— Oh, você chegou a tempo de assistir àquele showzinho?! Eu devia ter me policiado melhor sobre o tipo de audiência que eu atrairia — debochou, sustentando o peso do corpo na perna direita. — É claro que não. Eu só queria intimidá-lo, ou melhor, dar um pequeno incentivo. Hanks é um idiota, mas um idiota leal. Seria um erro desperdiça-lo. Mas, agora, a arma já está devidamente carregada, se é isso que a preocupa.

Engoli em seco. Earl pigarreou e prosseguiu, retomando o assunto anterior:

— Mas, no fim das contas, não foi uma causa totalmente perdida. Quando voltei, encontrei passos frescos na neve, na direção da casa. Pensei que fosse besteira, mas então vi que a grade da entrada de ar estava em uma posição estranha, como se tivesse sido deslocada, entende? Entrei na casa e me deparei com aquela desordem na sala. Você não é muito boa em encobrir os seus vestígios, como eu imaginava, Jess.

— Esse não era o propósito. Queria que soubesse que eu estive aqui, que eu não havia me esquecido da sua dívida. Você precisou dos meus serviços uma vez, Earl, e eu arrisquei a minha vida para furtar as armas daquele depósito em Baker’s Street. Mas você não cumpriu a sua parte do trato. Estou em um período de abstinência, então resolvi que essa seria a melhor hora para buscar a minha recompensa.

Earl inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada ácida. Franzi o cenho, desorientada.

— Você é pior ainda em tentar me enrolar. Está com cara de quem está planejando me matar agora. Sua mão está se aproximando cada vez mais do bolso da jaqueta. Sei que deve ter alguma coisa aí. Agora, tire a jaqueta. Devagar. E jogue-a pra cá.

Praguejei. Eu havia sido pega. Meu lábio inferior começava a tremer. Eu estava ficando sem alternativas.

Lentamente, pousei a mão sobre o zíper, mas antes que pudesse puxá-lo para baixo, em um instante de não mais que dois segundos, agarrei o cabo da karambit e a arremessei na direção de Earl, que efetuou um disparo antes que a faca acertasse em cheio o ombro e derrubasse o revólver. A bala atingiu meu antebraço de raspão. Earl contorceu-se e caiu de joelhos, esbravejando palavrões. Ofegante, depositei a mão sobre o ferimento que gotejava e avancei para fora do banheiro. Não tive tempo de apanhar os meus pertences. Bummer já estava em meu encalço.

Isso também me levou a tomar uma decisão de última hora. Descer as escadas rumo ao andar de baixo, para a porta que dava para a saída, apenas me atrasaria, e não havia a garantia de que a porta estivesse aberta. Então, em um ímpeto de audácia e desespero, projetei meu corpo contra a janela do segundo andar, no fim do corredor, com os braços ao redor da cabeça. Soltei um grito estridente e o tempo pareceu congelar enquanto eu despencava. Caí sobre a neve com um baque surdo. O ouvido zunia. Atordoada, rastejei por alguns metros, sendo imediatamente atingida por uma dor lancinante que fez meus lábios se fecharem em uma linha fina. A neve havia se responsabilizado por abrandar a queda, mas havia cacos de vidro enterrados em diversos pontos da minha pele.

— Merda! Merda, merda, merda! — Gemi, mordendo a manga da jaqueta ao remover um fragmento considerável da coxa direita.

A dor em meu braço atingido pelo disparo finalmente se abateu sobre mim. A sensação era quente e percorria todo o membro em pequenos espasmos. Rasguei a jaqueta nos pontos em que o tecido fora afligido e, com a mão em formato de cuia, depositei um punhado de neve sobre o local. Aquilo contribuiu para anestesiá-lo, mas estava longe de ser o suficiente. Mesmo assim, forcei-me a levantar, utilizando umas das paredes de tijolos como sustentação. Meus membros inferiores estavam lânguidos, eu mal podia senti-los. O impacto fazia com que minhas têmporas pulsassem.

Contudo, o combate não havia sido findado. Eu precisava continuar. Precisava reunir forças.

Cambaleei por alguns metros. Meu joelho estava aos frangalhos.

Ao longe, o som de uma porta se abrindo fez-se audível. Um rugido necessitado de lubrificação que retumbou pela viela. Earl vociferava a palavra vadia repetidas vezes e outras coisas grotescas que não pude distinguir. O rugido de um disparo. Uma dor pungente e penetrante investiu na região dorsal do abdômen. Minha visão, de repente, ficava enevoada. Meus joelhos colidiram contra o gelo. Em seguida, escuridão.