Os raios de sol iluminavam as árvores graciosamente, ao contrario dos prédios, elas não tinha algum sentimento ruim pelos homens, mas também não tinham os bons. Preferem os pássaros, os insetos, as borboletas e os pequenos animais que a fazem de moradia. Realmente não havia motivo para as árvores do parque Ibirapuera odiarem os animais bípedes, diferente das do Amazonas, essas sim tinham muito o que ressentir.

Entre estas inúmeras árvores, há um banco de frente para o lago e neste mesmo banco um homem está sentado. Cabelos brancos, menos uma das sobrancelhas, olhos azuis e um rosto meramente cansado. Este homem era Pömbo.

Pömbo não tinha um jornal em mãos e nenhuma outra coisa que pudesse o entreter. Afinal sua mente não descansa assim, há muito tempo não dorme e ele vive a base de sanduiches e Elska; uma substancia liquida, criada por antigos alquimistas, ela da habilidade de força, velocidade e é uma verdadeira entrada para o mundo sobrenatural. Ele espera um dos seus fornecedores, na intenção de comprar água benta. Não essas que se encontra em igrejas e falsos exorcistas. E sim uma substancia real, tão pura que até mesmo Pömbo teria reação com sua pele caso entrasse em contato.

A batalha no galpão, há dois dias, não saciou sua vontade e isso se deve ao imprevisto que teve. Sem ter outra opção, sua mente já planeja um próximo ataque. Enquanto lia o jornal ontem de manhã, ele encontra uma manchete de uma série dos assaltos a lojas. A gangue é conhecida como Trujahs, o nome a policia não sabe o significado, eles apenas pichavam isto nas pareces das lojas roubadas. Pömbo sabe o que significa. Seu antigo trabalho o dava acesso a vários arquivos, livros e tudo o que se pode imaginar. Quando mais jovem era fascinando por conhecimento e acabou lendo mais do que deveria.

Trujahs é um clã de vampiros, geralmente jovens e indisciplinados. O homem não faz ideia de como chegaram aqui, pois se encontram no Novo México. Talvez é apenas um braço do movimento, um braço que deve ser arrancado na visão de Pömbo e é isso que ele fará.

– Bom dia meu herói – sussurrou Jandira, sentando no banco e oferecendo um copo de café. – Já tomou café da manhã?

– Por que você está aqui? – questionou Pömbo, olhando para o belo rosto da jovem. – Como conseguiu dinheiro para esses dois cafés e esse uniforme de garçonete? Sei que você não tem.

– Você está preocupado comigo?

– Você conseguiu uma vaga, não faço a menor ideia de como e então roubou os dois cafés – cogitou o homem em voz alta e para sua surpresa ela afirmou com a cabeça. – Você conseguiu um emprego só para roubar café?

– Tem ficado difícil a cada dia, três vezes ao dia e sem falar nos hotéis que invado – resmungou Jandira. – Às vezes algumas pessoas o alugam e eu preciso sair.

– Fascinante – respondeu Pömba, demonstrando nenhum interesse. – Estou esperando uma visita, poderia voltar mais tarde? Quando o banco estiver vazio, de preferência.

– E para onde eu vou?

– Para casa – disse o homem. – Seu pai está preocupado.

– Sim, desde o dia que roubei sua preciosa arma – contou ela, fazendo com que Pömba pegasse o café, por livre vontade, e começasse a tomar. – Mas se eu voltar ele vai me matar.

– Por que roubou a arma do seu pai? – questionou ele, já sabendo quem era e o que era. – Roubar um demônio de quinta classe não é algo muito inteligente.

– Um amigo meu pediu, disse que eu saberia melhor o que fazer – respondeu a mulher, feliz por finalmente o homem ter mostrado interesse pela conversa. – Então eu fugi. Minha intenção era passar a noite no galpão, estava sendo seguida por uns homens vestidos de forma engraçada e precisava despista-los.

– Ceifadores – ele pensou alto. – Vamos fazer um acordo. Eu deixo você se esconder na minha casa e em troca você me mostra que arma é essa.

Eles andaram por muito tempo, Pömbo nem sequer esperou o fornecedor; pois fornecedores também são informantes e não queria que ninguém soubesse com quem estava Jandira. Caminharam por ruas intermináveis, becos quase sem saída e por fim chegaram a um prédio de aparência deplorável. Por alguns segundos Jandira pensou que seria mais confortável dormir no galpão.

Subindo pelas escadas eles encontram algumas baratas e ratos. Não aconteceria isso se fossem pelo elevador, caso ele funcionasse. Aparentemente aquele local era moradia para alguns usuários sem senso de higiene, contrabandistas de carvão gaulês e acima de tudo: Alguém que não gosta de visitas. Curiosamente esses perfis, de certo modo, batem com o de Pömbo e com isso ele torna-se o inquilino perfeito.

No terceiro andar, seguindo um corredor vermelho encardido, eles chegam até a porta numero quinze, com o cinco de cabeça para baixo. Pömbo então tira do seu bolso um chaveiro da pequena sereia e, com uma das chaves, abre a porta.

O apartamento em uma decoração rústica, por incrível que pareça limpa e bem iluminada. Jandira é levada até o quarto de hospedes, que tinha uma confortável cama e um guarda-roupa.

– Espere aqui, vou arranjar algumas roupas com os inquilinos. – avisou Pömbo, deixando ela no quarto e saindo do seu apartamento.

Na primeira porta a qual ele bateu, pois sabia que lá morava uma senhora, era a de uma idosa chamada Narcísea. Ela cobrou quinze reais por um vestido florido. A segunda e a terceira não cobraram nada, achavam o vizinho bonito e doeram de boa vontade algumas peças de roupa.

Com sua missão concluída, ele volta para o apartamento e tem uma surpresa. Jandira está nua na cozinha, fazendo alguma coisa que ele não conseguiu percebe, pois logo assoviou e jogou o vestido pra ela; em seguida vai até o novo quarto da jovem e coloca as roupas no velho baú. Quando voltou, esperando que a mulher já tivesse vestida e ela estava; além de ter em suas mãos uma bandeja com sanduiches de ovo e pernil. Pömbo não questionou, gostava de sanduiches.

– Espere aqui, vou buscar o suco. – ela avisa, colocando a bandeja no sofá.

– Não comprei nenhuma fruta – respondeu ele, entendo que ela ainda faria.

– Tomate é fruto.

Não demorou muito para que Jandira trouxesse dois copos de suco de tomate, o homem já comia um sanduiche, pois gosta de sanduiches. A mulher senta-se no sofá, entrega um dos copos e com a mão livre pegue um sanduiche.

– Você teria musica? – questionou ela.

– Ali – apontou ele para uma vitrola. – Já tem um disco, Nico Vega... Foi muito difícil encontrar, então evite arranhar.

– Tudo bem – respondeu ela, devolvendo o sanduiche para a bandeja e indo em direção da vitrola. Quando colocou o aparelho para tocar, percebe que a musica era interessante. – Bom gosto.

– Me fale sobre a arma – ordenou Pömbo, arrancando um pedaço do sanduiche a mastigando. – Deliciosos.

– Herói, se eu não te conhecesse você, diria que seu interesse por essa arma é suspeita.

– Você não me conhece.

– Tudo bem, vou te contar – respondeu ela, voltando ao sofá. – Meu pai está desenvolvendo algumas coisas. Ele disse que seria muito útil daqui a mil anos, algo haver com animais. Não sei muito bem, às vezes ele fala coisas sem sentido...

“Um amigo do meu pai, não posso contar o nome dele, roubou essa arma e pediu para que eu fugisse com ela. Tenho algumas instruções do que deve ser feito e pretendo segui-las até o fim.”

– Onde está a arma? – questionou Pömbo.

– Nesse momento dentro de você.

– O que? – perguntou o homem, achando que não havia entendido corretamente.

– Essa arma é liquida, coloquei no seu suco.

Ele furiosamente jogou seu copo na parede, quebrando o recipiente e manchando a parede com o resto do suco contaminado. Pömbo não sabia o que fazer, pois não tem a menor noção do que poderia ser a tal arma. Sem muitos pensamentos, ele parte para cima de Jandira e com uma de suas mãos agarra o pescoço da jovem.

Sua vontade e ação são de enforca-la. O ódio formiga em seu corpo como nunca aconteceu antes, cedeu a ela um lugar para se esconder e comprou roupas usadas. Logo ele estava caído no chão, totalmente sem controle do corpo, o formigamento não era ódio e sim a arma agindo em seu corpo. A ultima visão que tem, totalmente embaçada, é de Jandira pegando um sanduiche e o comendo.

– Não podemos fazer nada, não devemos interferir – repetia Rafael para Edgar. – Ele não poderá voltar com a nossa ajuda.

– Tom está em coma, porque tentou salvar a minha vida – gritou Edgar, batendo forte na mesa. – Se nada for feito ele morrerá.

– Lamento Edgar, SMIC é bem clara sobre as regras, as quais você concordou quando aceitou trabalhar – disse Rafael, dando a entender que a conversa acabaria ali. – Os ceifadores não farão nada.

– Sendo assim – pensa alto o homem. – Eu, Edgar Dantes, desisto de meu chamado. Entrego aqui meu contrato e o desfaço meu assinado, devolvendo o que me foi dado. – ele entrega um objeto de madeira, que lembrava um galho seco e sai da escura sala de metal.

Pömbo acorda, do seu sonho de um ano, nove meses e trinta dias; por âmbito de curiosidade ele dormiu por dois dias. Ele está em seu quarto, deitado em sua cama, sem suas roupas, nem mesmo as de dormir. Não há dor, fome, sede, apenas o cansaço de dormir e uma necessidade de se por em pé. E assim ficou.

Andando pela casa, apoiando-se nas paredes, ele tenta lembrar o que havia acontecido. Enquanto autoquestionava o acontecimento, coisa que possivelmente fará por um longo tempo, um barulho do bule surge e ele corre em direção da cozinha; lá encontra Jandira e assim a sua memória volta.

– Por quanto tempo eu dormi? – perguntou ele, assustando a mulher.

– Dois dias – respondeu ela, pegando mais uma xícara no armário. – Recebi suas encomendas.

– Minhas encomendas? – questionou ele, reparando nas caixas de vários tamanhos em cima da mesa, todas empacotadas com papel pardo. – Quem trouxe?

– Ele não quis dizer – respondeu ela, também pegando mais um sache de chá. – Disse que não dizia seu nome e eu não precisava dizer o meu.

– Caio – resmungou Pömbo, adivinhando que era o mesmo fornecedor que ele deixou de se encontrar no parque. – Disse ao menos o que era? Não me lembro de ter pedido tudo isso.

– Ele disse apenas que algumas precisavam ficar longe dele – respondeu ela, enquanto o homem abria um dos pacotes, o com água benta. – Não conheço muito sobre esse tipo de comercio, mas de acordo com a sua vizinha, esse cara estava fugindo de alguém.

– Quem? – perguntou ele espontaneamente. – Você conversou com a vizinha?

– Sim, quando ela veio pedir dinheiro emprestado – respondeu Jandira, terminando de fazer o chá. – Disse que não tinha, mas acabei achando um pouco dentro do vaso do raque.

– Você pegou o meu dinheiro e... Ei, espera – gritou Pömbo, se lembrando do ocorrido. – Você tentou me matar?

– Não – respondeu ela. – Eu não tentei.

– Botou a sua maldita arma no meu suco – disse ele. – Me fazendo dormir por dois dias.

– Mas você não morreu – argumentou ela insultada. – Tudo bem que era um risco, mas não morreu.

– Essa era a sua maldita instrução? – ele indagou novamente. – Dar pra algum estranho beber.

Antes que a mulher pudesse responder, alguém bate a porta três vezes. Pömbo tenta ver pelo olho mágico e se depara com a face de Rafael distorcida pelo vidro.

– Esconda-se no seu quarto – sussurrou ele para Jandira. – Não saia de lá, até eu ordenar.

Jandira fez o que Pömbo pediu, porém antes jogou um dos chás na pia. O homem só abriu a porta quando teve certeza de que a mulher já estivesse trancada. Virou a chave e abriu.

– É... Edgar, você – gaguejou Rafael espantado. – Pode vestir uma roupa?

– Ah sim, claro, claro – respondeu Pömbo, percebendo que estava nu. – Mas pode entrar, só não toque em nada. Nada mesmo, se puder nem sente no sofá.

O homem veste calças beges e uma regata cinza. Enquanto abria a porta de seu quarto, pergunta-se mentalmente sobre o que aquela arma faria em seu corpo. Porém a resposta não veio e a porta já esta totalmente aberta. Rafael mexia nos pacotes sob a mesa.

– Eu disse para não mexer em nada. – alertou Pömbo.

– Água benta, agulhas com veneno da vespa de fogo – disse o ceifador, lendo os papeis dos pacotes. – Fogo de dragão encapsulado... Céus, aqui tem mercadorias contrabandeadas e proibidas!

– Por isso eu disse para não mexer – respondeu Pömbo, desconfiado que Rafael saiba que Jandira esteja na casa. Afinal Caio poderia ter contado, mesmo não sabendo o nome, o rosto da filha de Stranael deve ser famoso. – O que você veio fazer aqui? Como descobriu onde eu morava?

– No dia do galpão eu te segui – respondeu Rafael, fazendo Pömbo franzi as sobrancelhas. – Você é uma testemunha ocular, não quebrei nenhuma regra.

– Ok, mas o que está fazendo aqui? – insistiu ele.

– Vim te dizer que não é o único que lamenta pela morte do Tom, ele era um ótimo ceifador e meu amigo também – afirmou Rafael. – Mas você não pode ficar se lamentando pelo resto da vida, precisa seguir em frente.

– Não é minha culpa que sua perspectiva de progresso seja divergente a minha – contou o homem. – Até as cabras tem sotaque.

– Confesso que realmente, São Paulo está cada vez mais infestado de criaturas e os anjos não estão mais ligando para isso como antigamente – admitiu Rafael. – Mas você tem que me assegurar que não vou me interferir totalmente com isto?

– O que? – Pömbo ficou um pouco surpreso. – Hum, tudo bem. Não ia querer você estragando tudo mesmo.

– Sendo assim – sussurrou o ceifador. – Existe uma gangue de vampiros, que está saqueando algumas lojas e talvez eu saiba onde eles possam estar.

– Como?

– Olhe isso – respondeu Rafael, tirando do bolso um pacote verde de macarrão instantâneo. – Gosta de miojo? E xilogravura? É... Vamos precisar de tinta.

Rafael conhecia, por conta de alguns amigos a quais ele não gosta tanto assim, a forma mais recente que os vampiros se comunicam, quando se trata de gangues. Tudo que a mensagem precisa para ser espalhada a todos, quando são planos importantemente planejados e as paredes têm ouvidos; é de um macarrão instantâneo de maçar desconhecida, cada gangue tem a sua, tinta e papel, além de seus próprios códigos.

Assim que fizeram todos os procedimentos, que demoraram menos de dez minutos, eles tinha que resolver aqueles códigos linguísticos e por fim leram mensagem.

– Ai esta, você assume agora – avisou Rafael, dirigindo-se a porta antes que sua consciência pudesse pesar. – Boa sorte.

– Não se preocupe – respondeu Pömbo. Ao ter certeza que seu antigo amigo já estivesse longe o suficiente, ele chama Jandira e diz. – Por acaso você já caçou vampiros alguma vez da sua vida?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.