Pömbo
1 Capítulo 1
– São Paulo, 03:15 –
O barulho dos carros, que nunca param, dá ao ar gélido um aspecto mecânico e poluente. Silenciosamente os prédios frios e cinzas, como qualquer outra coisa nessa cidade, contrastam com quem passasse por lá; a qualquer momento do dia, ou noite, pois nunca gostaram de humanos. Em meio a essa singela guerra, entre o urbano e o social, uma sobra existe. Em cima do maior prédio daquele setor, vestida com um casaco sobretudo verde escuro, sem cada mão um taco de basebol e, acima de tudo, uma máscara.
Esta sombra não é apenas um jogo de luz, apesar de ser muito boa em apostas. Ela tem vontade própria, mais do que deveria e hoje sua vontade é caçar. Humanos não precisam se preocupar, muito menos outros animais. Sua sede é por sobrenaturalidades, hoje em especial uma horda de irritantes; eles são criaturas ordinárias, seu tamanho é compatível com de uma criança, pele escamosa e olhos grandes. Em dias comuns esses seres vivem em esgotos, assim como nas noites, porém a sombra sabe que hoje é um dia especial.
Cinco crianças ruivas foram sequestradas esse mês, todas no horário de dormir. Já é fato conhecido o ódio que os irritantes têm por irlandeses e Irlanda é um país de onde provinha grande parte do rutilismo. Por coincidência essas criaturas saem do sistema do esgoto pare se alimentar, apenas uma vez por mês. Um jantar especial, demoradamente planejado, afinal cada prato principal precisava ser roubado e isso levou quatorze dias. Agora a misteriosa sombra, já sabendo o local do banquete, planeja invadir sem o convite oficial.
– Dose, quinze... Talvez uns vinte – contou a sombra para si mesmo. – Sim, vinte minutos.
Sem dizer mais uma palavra, pulou. Desrespeitando totalmente as leis da física, em vez de cair para morte, começa a correr pelas paredes e descer como se simplesmente andasse pelo chão. E, para realmente esnobar Isaac Newton e seus amigos, a sombra salta, caindo suavemente no beco escuro. Do outro lado está o galpão, pode-se perceber que os irritáveis não são muito inteligentes. A luz do poste revela a verdade, não era uma sombra vestida e sim um homem, bom é com o que ele se parece fisicamente.
O homem, e não mais a sombra, anda até o galpão. Por trás daquela mascará há uma expressão séria. Ele tem certeza que esse era o local e que ele seria demolido em alguns dias. Uma das maravilhas da atualidade é a capacidade de destruição, se destrói em segundos e constroem para poder destruir futuramente. A inteligência dos irritantes é novamente questionada, o portão do grande galpão encontra-se aberto.
Sem querer ser facilmente notado ele abre uma pequena fresta da porta e passa por ela. Ao entrar o homem também adentra em seu primeiro dilema, a escuridão naquele local é total e isso o impede de enxergar. Se não vê, não bate.
Ele então põe um dos tacos entre o braço, com as mãos livres vai até o bolso do casaco e retira uma esfera de vidro com hastes metálicas; gira cada metade para um lado e joga a esfera no chão. A luz que o objeto passa a emanar é suficiente para iluminar todo o galpão como se fosse um hospital.
No centro do local, nojentos casulos pulsantes guardavam os jovens e, ao seu redor, inúmeros irritantes mortos.
– Você gostou? – perguntou uma voz feminina. Sem pensar duas vezes o homem tenta golpea-la com o taco, a mulher gira em seu próprio eixo, em um movimento prende o taco entre sua perna e sua coxa; ao mesmo tempo em aproxima um cutelo no pescoço do homem. – Oh, garoto. Assim você me deixa sem jeito.
Ela abaixa a arma lentamente e volta a ficar sobre o dois pés. O homem a analisa, cabelos loiros, pele negra, mascara, um belo corpo sendo exposto por um vestido cybergoth de couro.
– Foi você que fez isso? – perguntou ele.
– Sim, estou queimando em uma fogueira de tédio – responde ela, fitando o homem. – Qual seu nome?
– Não tenho nome. – desconversou ele.
– Todos tem um nome – insistiu ela e em seguida faz uma vantajosa reverencia. – O meu é Jandira.
– Pömbo, me chame de... – antes de terminar a frase a mulher o interrompe com gargalhadas. – Tanto faz.
– Ei, para onde você vai? – questionou ela vendo que Pombo estava indo em direção à porta. – Por que tão cedo?
– Você matou os irritantes, não tenho mais o que fazer.
– E as crianças? – pergunta Jandira com uma voz infantil. – Não vai salvá-las? Grande herói.
– Eu não sou um herói.
Neste exato momento dezenas de irritantes pulam das vigas expostas no teto. Pömbo prepara-se para se defender, porém nota que as criaturas iam em direção apenas de Jandira e ela parecia se divertir enquanto esquartejava os irritantes com o seu cutelo. Porém ela poderia durar muito tempo? Ele se questionava. Não pelo fato de se preocupar com Jandira, pois definitivamente ele não se importa, mas sim por deixar toda a matança só para ela. Há quanto tempo ele planejava atacar um grupo de irritantes?
Evitando o autoquestionamento ele parte para a batalha. Girando seu corpo acerta duas criaturas com os tacos, a terceira é atingida com um golpe certeiro e sua mandíbula jorra sangue nos demais. Jandira sem duvidas é mais organizada que Pömbo, enquanto que ele esmagava crânios e manchava todo o local com sangue, ela fazia cortes precisos e quebrava pescoços com planejados chutes.
Às vezes Jandira por descuido, ou não, usava seu cutelo no homem e ele tinha que se defender utilizando os bastões. Em questão de minutos os sujos seres foram dizimados. Cabeças esmagadas, ossos quebrados, membros decepados e todo o resto espalhado no chão em meio a poças de sangue.
Acredita-se que os irritantes são descendentes dos antigos gnomos. Em uma guerra de clãs eles foram expulsos da Irlanda e com isso seu antipatriotismo nasceu, entretanto os gnomos irlandeses alegam que isso nunca aconteceu e que na verdade eles são fruto de gnomos expostos na poluição humana. Não se sabe ao certo o que ocorreu primeiro, porém há uma certeza, os gnomos daquele galpão estão mortos e jamais voltarão.
– Meu herói. – disse Jandira com uma entonação quente.
– Eu não sou seu herói, garota – respondeu ele monótono. – Eu não salvo pessoas.
– Mas você usa uma mascará – argumentou ela, se aproximando dele cada vez mais. – Elas servem para esconder os monstros dos heróis, ou os anjos dos vilões.
– Você usa uma máscara.
– Então você quer ver o que eu escondo por trás desse disfarce? – perguntou ela, com uma voz novamente quente. – Só se você também me mostrar.
Do lado de fora do galpão um baque é emitido, Jandira rapidamente se recompões e bate uma reverencia.
– Adeus, meu herói.
– Eu já disse que não sou seu...
Os grandes portões abrem e uma forte luz passa a iluminar todo o galpão, como se fosse dia. Homens e mulheres vestidos de moradores de ruas entram.
– Edgar? – perguntou um deles. – O que você está fazendo aqui?
– Não me chame por esse nome – responde Pömbo. – Ceifadores não lidam com irritantes, o que perdeu aqui Rafael?
– Chefe, tem crianças aqui nos casulos – avisou uma mulher, apontando uma espécie de graveto para o casulos. – O que fazemos com elas?
– Nada – respondeu Rafael. – Ceifadores não julgam ou salvam vidas. Porém devemos tira-las daí, nada, além disso.
– Novidade. – resmungou Pömbo.
– Podemos conversar? – questionou Rafael. – Do lado de fora.
O homem não respondeu, simplesmente saiu andando para fora, atravessou a porta e parou. Rafael o acompanhou, avisando os demais ceifadores; Ceifadores são seres de aparência humana, são responsáveis pela captura de almas dos humanos e alguns outros seres incapazes de se desprendesse na hora da morte. Quando contratados pela morte eles ganham habilidades especial, como conjuração do fogo, invisibilidade, para quem eles desejam, e viagem, um dom que mescla voo com teleporte.
– Faz dois anos – afirmou Rafael se aproximando.
– Um ano, nove meses e vinte seis dias. – corrigiu Pömbo.
– Por que você estava em um galpão com corpos de irritantes e crianças?
– Matando alguns irritantes – respondeu o homem mascarado. – Algo que vocês deveriam estar fazendo.
– Você conhece muito bem as nossas regas, ou se esqueceu de que já foi um de nós? Bom, não importa agora – disse Rafael. – Viu algo estranho?
– Defina estranho – questionou Pömbo. – Nada. Apenas monstros e vitimas como sempre. Em que horário você entrou por aquela porta?
– Três e quarenta e cinco – respondeu Rafael inoscentemente, até olhar bem para mascara de Pömba. – Tire a sua mascara.
– Não.
– Por favor.
O homem, fazendo a vontade do velho conhecido, retira a mascara e mostra seu verdadeiro rosto. Um rosto bonito, de cabelos platinos e apenas uma sobrancelha na cor preta; seu olhar azul tem pupilas dilatadas e a expressão séria toma conta de toda face.
– Meu deus Edgar – exclamou Rafael ao perceber do que se tratava. – A quanto tempo você bebê Elska?
– Eu não bebo, se beber o efeito demora. Injeto na veia, é bem mais rápido e também parte se desfaz na circulação – corrigiu Pömbo, recolocando a mascara. – Um ano, seis meses e dois dias.
– Diariamente – resmungou Rafael. – Isso acabou com você.
– Eu já estou acabado – respondeu o homem. – Agora, se não quer me informar o que de fato veio fazer aqui. Eu preciso ir.
– A filha de Stranael fugiu e pelo que parece lavando com sigo um item muito valioso.
– E por que não acionaram os anjos – perguntou Pömba intrigado. – Eles são os policiais disso tudo.
– Acionaram, mas eles disseram que não havia motivo para agirem – respondeu Rafael. – A morte é amiga de Stranael, então permitiu que os ceifadores fossem procura-la.
– Boa sorte em sua primeira missão – respondeu o homem, começando a andar pelo beco, percebendo que Jandira era a filha de Stranael. – Eu estou de saída.
– Foi bom te rever Edgar – despediu-se Rafael.
– Meu novo nome é Pömbo – corrigiu ele, parando. – Mas, também foi bom te ver, meu velho amigo.
Então Pömbo sumiu em meio a escuridão, assim como um sombra. Pode-se questionar se algum dia ele reapareceria e a resposta é sim. Sombras reaparecem onde há luz. Talvez não nesse momento, ou nos próximo, mas cedo ou tarde Pömbo estará de volta, pelas as ruas de São Paulo, atacando algum ser das trevas, com sua mascará e acima de tudo. Não sendo um herói.
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