Pólvora Sagrada

5 Capítulo 2 - BENEDICTUS


Notas iniciais
Tradução da epígrafe em latim. ✠ LIVRO DAS BÊNÇÃOS ✠ “Quando o inferno se levanta contra os filhos de Deus, o Senhor levanta santos entre os homens; e aqueles que guardam a fé não temerão as trevas, pois o Altíssimo levanta servos que podem suportar o abismo.” — Regra da Ordem

✠


✠ LIBER BENEDICTIONIS ✠


“Cum infernus surgit contra filios Dei, Dominus inter homines sanctos suscitat; et qui fidem custodiunt tenebras non timebunt, quia Altissimus servos erigit qui abyssi resistant.”

— Regula Ordinis


BR-101, tarde de 19 de abril de 2019

Algumas horas depois eu já estava na estrada que levava à Catedral de São José, em Fortaleza¹. O centro de nossa Ordem, comando de todas as catedrais, priorados e postos de vigília.


O pensamento persistia, sorrateiro e pesado. A voz de meu pai implorando ajuda.


Quando um Abençoado começa a ouvir vozes do inferno… é melhor buscar seu confessor antes que elas voltem. Eu sabia que não podia negligenciar isso.


O motor da Himalayan era como um rugido de leão. O vento batia contra o visor do capacete. A chuva da noite anterior ainda deixava o asfalto úmido. O cheiro de terra molhada subia entre as árvores altas.


Comi asfalto por algumas horas até que a Catedral surgiu à frente.


Silenciosa. O cheiro de incenso misturava-se ao frio da pedra. Cada passo ecoava no pátio vazio. As velas tremiam nas mãos dos confessores. Estátuas de santos decoravam as paredes. E por fora, suas torres altas pareciam riscar o céu.


De um lado, havia um cemitério com lápides antigas. Do outro, um bosque de árvores baixas com banquinhos de mármore.


Por fora, ela parecia apenas uma igreja comum. Mas debaixo havia diversas passagens secretas, corredores, salões, museus, relicários, bibliotecas.

E um sem fim de quadros dos Abençoados Lendários.


Entrei e perguntei pelo Cura. ²


— Na capela — respondeu um deles.


A caminho de lá encontrei um velho amigo. Bom homem. Foi escolhido Aniquilador antes de mim, mesmo sendo mais novo.


Da última vez que ouvi falar dele, estava no Amazonas, perto do Peru, em uma missão perigosa. Um novo culto havia se estabelecido na região. Era uma surpresa vê-lo na Catedral Primaz.


— Antônio! Que boas novas tens, meu amigo? — Ele segurava uma garrafa de vinho e já parecia um pouco bêbado.

Seu nome era Hélcio Baptista; mineiro, beberrão e fervoroso.


Nos conhecemos no Exercitatio Corporis³. O treinamento de aptidão física.


Hélcio sempre foi excepcional ali — mais inclinado ao combate e à pontaria do que ao jejum e à oração. Recebemos a Libera Caerimonia⁴ no mesmo dia e por coincidência também fizemos juntos a primeira tarefa como Abençoados.


— Olá, velho amigo.


✠ Dominus fortitudo nostra.⁵


Fecho a mão direita sobre o peito, na altura do coração.


— ✠ Finis daemonibus.⁶


— Mais do mesmo. Demônios menores saciando a fome e conspirando contra os homens, tramando contra Abençoados. E quanto a tua última missão?


Hélcio mostrava uma expressão cansada. Também aparecia um toque de preocupação no seu semblante.


— O lugar estava um verdadeiro circo. Um dos grandes estava se alimentando lá, mas eu limpei a região. Acho que os caras se mudaram. Suspeito que...


Antes que ele terminasse, uma voz ecoou pelo corredor.


— Venham logo até aqui, vocês dois, rápido! — era o Cura.


✠


A capela lateral da Catedral era pequena e pouco iluminada. Apenas algumas velas ardiam no altar de pedra. Tinha um cheiro de incenso mais forte ali.


O Cura nos esperava diante de uma mesa cheia de documentos e mapas. Homem alto, de cabelos já brancos. Hábito fechado, mãos cruzadas, olhos apressados indicando inquietação.


Fez uma saudação e começou.


— Hélcio já trouxe notícias do que aconteceu no Amazonas — disse ele — Mas o filho do Deus Altíssimo revela-nos agora novos sinais que exigem atenção.


Ele apontou um mapa rabiscado em muitas partes com tinta vermelha. As marcas formavam um padrão estranho. Inclinei-me sobre a mesa, e então percebi. Seis cidades. Seis marcas. Não estavam espalhadas; havia um alinhamento.


Tracei o caminho com os olhos.


Um ponto no Amazonas.

Outro em Juazeiro do Norte.

Mais um em Salvador.

Outro em Aparecida, SP.

Um no interior de Goiás.

E o último em Curitiba.


Era um símbolo. O Sigillum Abissi.º


— O culto não foi extinto — continuou o Cura — ele se deslocou.


Hélcio deu de ombros.


— Eu suspeitava disso.


— Oh, Santa Maria! Chegaram relatos de símbolos iguais em seis locais nas últimas semanas.

O Cura apontou os pontos no mapa.


— E todos ligados ao mesmo nome profano.


Senti uma pontada no estômago. Todo o recinto pareceu encolher perante o temor.


— Qual nome?


O Cura hesitou por um momento. Seus olhos fitaram os meus... E os de Hélcio.


— Baal-Kroni.


O silêncio caiu sobre a sala como um peso. Até as velas pareceram vacilar.


Hélcio soltou um assobio.


— Pensei que esse culto tivesse sido destruído há décadas. Pelo visto, esse é mais resistente que colete à prova de balas.


— Nós também.


O Cura abriu um velho dossiê de couro. As páginas estavam amareladas. No topo havia o título:


✠ NOITE DE SANTA LUZIA — 1927 ✠ª


— Padre Miguel Barreto⁷ morreu lutando lá — disse o Cura com voz baixa, em tom de respeito — Ele não recuou do perigo naquela noite.


— Se estivermos certos — prosseguiu o Cura — Alguém está tentando terminar o que começou naquela noite.


Minha espinha congelou. Todos fizemos sinal de cruz e rezamos um Ave Maria.


A voz que eu ouvira na noite anterior voltou à mente. Baixa. Distante. Sussurrando do abismo.


Eu tinha vindo à Catedral por outro motivo: o sonho. Mas agora, diante do nome de um Classe V⁸, algo dentro de mim mandava ficar em silêncio.



— Para onde eles foram? — perguntei.


O Cura virou o mapa para mim e apontou o dedo em uma marca.


— Para lá.

Ouro Preto, Minas Gerais.


Hélcio deu um longo trago na garrafa de vinho.


— Que o Altíssimo proteja os Abençoados — disse ele.


✠


Discutimos os pormenores da empreitada. Hélcio aproveitou pra me contar detalhadamente o que aconteceu no Amazonas. Agora o Cura tinha a palavra. Ele começou a contar a história da Noite de Santa Luzia.


— Os padres daquela cidade suspeitaram de possessão coletiva. — começou o Cura.


A chama de uma vela estalou no altar. O cheiro de incenso parecia mais forte agora.


— Relatos de desaparecimentos, animais mutilados e loucura espiritual. Dois Aniquiladores já estavam lá tentando localizar a origem do culto. A situação era grave.


Sua voz era cristalina e didática.


— Ele viu esse símbolo. Não em livros. Não em relatos. Viu em carne viva. Cravado na pele do Portador.


Ele hesitou diante das próprias palavras. Fez um sinal de cruz lentamente.


— Et lux in tenebris lucet. E a luz brilha nas trevas!


Et tenebræ eam non comprehenderunt, eu pensei, respondendo a exclamação. O velho sacerdote ergueu os olhos.


— Foi o que ele disse antes de descer à mina.


Fez um silêncio profundo.


Até que um Noviço adentrou a capela, fazendo reverências atrapalhadas e pedindo perdão repetidamente.


— Venha cá, Carlinhos. Sente-se e veja se aprende alguma coisa.


O rapaz acatou. Sentou-se exatamente entre mim e Hélcio. Estava corado. Os olhos nervosos. A típica expressão de desconforto dos jovens na presença dos adultos. O cumprimentei e voltamos a atenção ao anfitrião da sala.


O Cura continuou:

— O bom guerreiro do Senhor percebeu a força do inimigo e se preparou pro embate. Padre Barreto sabia que estava entrando no seu túmulo.


Hélcio apoiou-se na parede de pedra, cruzando os braços.


— O demônio era protegido por centenas de sequazes. Ele entrou. Deixando um rastro de sangue dos lacaios daquela Maldição. Cada projétil da Verbum Dei era precedido dum verso da Escritura.


Ele contava esse trecho de maneira ritmada, quase em compasso militar.


— A mina foi inundada de clarões da Pólvora Sagrada. As balas dessa arma silenciam os demônios mentirosos; Barreto estava calando as criaturas do inferno.


A capela caiu num suspense pesado. Havia tanto silêncio que nós três podíamos ouvir os batimentos uns dos outros.


— Os cultistas achavam que estavam protegidos. Centenas deles. Mas nenhum homem que carrega a Palavra e o Juízo teme multidões.


A garrafa de Hélcio secou, ele estava inquieto. Eu ouvia a descrição do Cura sem titubear.


— E no mais profundo reduto daqueles escombros estava ele. O mal absoluto. O inimigo dos santos. Baal-Kroni. O demônio grunhiu para o Padre e sua boca gigante abriu-se ferozmente, com fome de medo e pecado — o Cura tinha olhos distantes, quase assustados. Parecia estar presente na cena que narrava.


O rapaz recém chegado pigarreou.


— Shhh. Quieto — eu repreendi o rapaz. Estava ávido pela exegese do Cura.


— Ele acertou os oito disparos da Verbum Dei com precisão milimétrica — retomou sua narração — Mas o demônio resistia. Um dia e uma noite ele o enfrentou.


Hélcio ergueu a sobrancelha. O Cura fez uma pausa breve, certificou de que tinha nossa atenção, e prosseguiu.


— O segundo maior batalhão da nossa história foi mobilizado para aquela luta. Centenas de Novicii. Cinquenta e nove Scutarii. Dezessete Benedictus. Três Bellator Sacrorum. Dois Exorcistus.⁹ Um contingente poderoso.


— O que houve com o Portador dele? — era Hélcio erguendo a voz — De Baal. O que houve com o Portador de Baal?


Uma dúvida que também tive, mas preferi não externá-la para não interromper.


Para o Opus estar completo, isso é, a Aniquilação do mal, um ritual de limpeza deve ser realizado na alma daquele ou daquela que portou o espírito demoníaco. Banindo o inimigo para sempre.


— Já chegaremos lá. Preste atenção, Hélcio.

Ele fez uma pausa demorada, preparando-nos para o que estava por vir.


— Aquela boca nojenta urrou palavras para ele em grego antigo. O que pode ser traduzido assim:


✠ "O sigilo do abismo será aberto para devorá-los

e pelo sangue de um de vós entraremos nesse mundo.

Nossas potências estão em riste para trazer a vós o nosso domínio.

Ai da tua estirpe que desafia o meu patrono, pois sôis nosso alvo" ✠


O Cura terminou a frase e fechou o dossiê.

Ninguém falou nada.

O noviço parecia pálido.



E no próximo capítulo: MEMENTO MORI.

Notas finais
Notas do Livro do Vigilante: 1. Catedral de São José, Fortaleza Sede primaz da Ordem da Benção no Brasil. Dela partem as ordens para catedrais, priorados e postos de vigília. 2. Cura Título concedido ao sacerdote responsável por uma Catedral da Ordem. Além das funções espirituais, cabe ao Cura supervisionar missões, guardar os arquivos sagrados e julgar casos de influência demoníaca entre os Abençoados. 3. Exercitatio Corporis Treinamento físico inicial dos Abençoados. Inclui resistência, combate, tiro e sobrevivência. 4. Libera Caerimonia Missa de consagração que transforma oficialmente um membro da Ordem em Abençoado. 5. Dominus fortitudo nostra “O Senhor é nossa força.” — saudação tradicional entre Abençoados. 6. Finis daemonibus “Fim aos demônios.” — resposta ritual usada por caçadores veteranos e Aniquiladores. 7. Padre Miguel Barreto Sacerdote da Ordem da Benção morto durante o incidente conhecido como Noite de Santa Luzia (1927). É lembrado como um mártir entre os Abençoados por ter enfrentado sozinho uma manifestação demoníaca de alto grau para impedir a expansão do culto de Baal-Kroni. 8. Classe V Classificação reservada às manifestações demoníacas de maior ameaça registradas pela Ordem. Entidades dessa categoria possuem capacidade de corromper comunidades inteiras, formar cultos e manipular eventos ao longo de décadas. O enfrentamento de um Classe V exige autorização do alto conselho da Ordem. Algumas notas serão acrescentadas no próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.