Pólvora Sagrada
4 Capítulo 1 - Opus
Notas iniciais
"ecce dedi vobis potestatem calcandi supra serpentes et scorpiones et supra omnem virtutem inimici et nihil vobis nocebit"
– Evangelium secundum Lucam X, IX

Restinga, periferia de Maceió. 18 de abril de 2019.
✠
Era tarde da noite. A chuva caía na cidade como um véu de bruma e eu caminhava pela periferia. Meu casaco estava encharcado, pesado sobre meus ombros, mas pouco me importava.
O celular vibrou no bolso. Apenas uma mensagem: "R. João Faria Lobo". Eu sabia onde ir.
Um dia antes eu havia recebido a comunhão, e logo em seguida, esta missão. Anos atrás eu estaria ansioso, temendo o que poderia acontecer; aquele frio na barriga de quem ainda teme o que pode encontrar na escuridão. Mas não agora. A experiência me endureceu. Depois de um tempo, matar os demônios é quase corriqueiro, só mais uma terça-feira chata de trabalho. Quase.
O alvo era incerto. Algo com predileção por mulheres estava causando problemas no sul da cidade. Duas foram encontradas na Restinga, bairro perigoso, gargantas abertas como se fossem sacrifícios.
Talvez um assassino. Talvez uma fera descontrolada. Talvez um demônio. Seja o que fosse, terminaria naquela noite.
Desde o entardecer eu rondava o bairro, procurando alguma manifestação, vestígios do mal, qualquer resíduo espiritual que me levasse a criatura, homem, besta ou demônio.
Horas a fio elevando a concentração, tentando captar qualquer indício do que estava se escondendo ali.
Sem sucesso.
Cogitei que a criatura já havia se movido, não havia mais o que fazer e eu pretendia voltar para o hotel.
Eu já estava caminhando de volta quando recebi essa mensagem: "R João Faria Lobo". Era do Vigilante do Posto de Vigíliaª desta cidade, um Abençoado de grau menor que o meu.
Corri. Meu coração pressentia que algo urgente estava em curso ali.
Não estava errado. Assim que dobrei a esquina senti a presença. Maliciosa, à espreita, carregada de maldade pura. Era algo como um cheiro que apenas os Abençoados conseguem sentir — uma pressão no ar, pesada, carregada de intenção.
Junto dela, outra presença. Mais fraca. Humana. Uma mulher assustada.
Saquei rapidamente meus revólveres, Magnus e Parvus, o grande e o pequeno. Juízo dos dois planos; um para o espírito e outro para a matéria.
Forcei minha concentração ao máximo, expandindo os sentidos para localizar com precisão a criatura. Sua vontade assassina vibrava no ar como uma corda esticada.
Então a mulher apareceu. Correu para mim tropeçando na calçada molhada. A boca aberta num grito que não saía. Aquela era uma reação comum dos civis diante das forças do inferno: o pavor absoluto paralisa a voz.
Ela tinha cerca de trinta anos. Pele pálida. Cabelos negros colados ao rosto pela chuva . Nos olhos, aquela expressão de horror que eu já vi uma centena de vezes.
Atrás dela vinha o vulto. Uma sombra espessa, se esgueirando como fumaça viva, contorcendo-se contra a luz fraca dos postes.
Quando me notou, a criatura parou bruscamente.
A mulher chegou até mim quase caindo.
— por fav... Por favor... Ele quer me matar, por favor...
— Vá embora — respondi seco, sem tirar os olhos da criatura. — Agora.
Ela hesitou apenas um instante. Depois correu.
— Corre, moço! Corre, por favor!.
Agora estávamos somente eu e o mal. Nos encarando. A criatura estava lá estática onde parou.
Percebi a mudança de sua intenção. Não era o espanto geral de quando esses demônios percebem quem eu sou. Não. Havia algo diferente. Satisfação. Como se estivesse à minha espera.
Ainda não tinha ângulo para disparar com precisão. Precisei avançar alguns passos na chuva.
— Pistoleiro¹....
A palavra foi um ronronado das trevas até mim.
— Ele te saúda, Abençoado.
— Peste!² Aproxime-se — respondi.
Assim que tivesse linha de tiro, dispararia. Sem hesitar. Seria um fim imediato.
— Há uma mensagem.
A voz veio como um sussurro distante. Arrastado. Quase inaudível para a maioria das pessoas.
— Temos a alma do seu pai — e nesse momento a criatura emite um grunhido horrendo, como uma corrente batida no concreto. Algum tipo de risada sádica. Divertia-se com o que dizia
— Demônio — respondi friamente — Não se manifeste contra um Abençoado.
— Ha... Ha... Ha...
Agora sua voz se tornou mais clara. Mais humana.
— Ele está conosco, pistoleiro. Padecendo agonia. Catulo³ é o que ele é. Venha para nós. Pistoleiro...
A criatura avançou.
A sombra deixou de ser apenas escuridão. Tornou-se densa, palpável, quase sólida — uma massa de trevas viva carregando a ira dos infernos.
Veio em minha direção como um vendaval negro. Avançando em velocidade brutal.
Eu já estava pronto.
Magnus cuspiu fogo.
O clarão rasgou a noite. O estampido do disparo ecoou pela rua vazia como um trovão. Eu não erro. Nunca.
A bala santificada atravessou a massa de trevas como um raio de luz atravessa a neblina. Em um instante, a criatura partiu-se em pedaços. Um grito impossível ecoou — metade fera, metade metal sendo lixado
A sombra se desfez.
Primeiro em fissuras de escuridão. Depois em fragmentos que se dissiparam no ar, como fumaça levada pelo vento.
Em menos de um segundo, o demônio deixou de existir. Sua passagem foi apagada do Livro pelo projétil santificado.
O cano de Magnus ainda fumegava o aroma ácido da pólvora sagrada que se misturava à chuva. O trabalho estava feito. Opus consummatum est.º
✠
O sol estava prestes a raiar quando retornei ao hotel. Minha mente não se enfada mas meu corpo clamava por descanso.
Sentei-me na cama e pensei na próxima viagem; de volta a Catedral? Ou partir para outra missão ?
"Casa", pensei. Como se eu tivesse uma...
As palavras do demônio sobre meu pai não me inquietaram muito. Criaturas do inferno mentem como respiram. Mesmo assim... Algo naquela voz não parecia mentira; ela estava me esperando ali, sacrificando mulheres para chamar minha atenção. Mas afastei o pensamento.
Na época destes eventos, tudo me pareceu muito simples. Um demônio de classe II ou III tentando emboscar um Abençoado; evento comum. Ele não esperava encontrar um Aniquilador e tentou usar seus golpes de enganação. Eu estava errado. Devia ter sido mais atento, foi um vacilo do meu ego. Fraquejei em minha percepção, subestimei o inimigo e infliei minha autoestima.
A única coisa que realmente me preocupou naquela noite foi o espírito da mulher perseguida. Não tive tempo de reparar se foi tocada pelo demônio. Se isso aconteceu, sua saúde espiritual pode ter sido prejudicada. De qualquer forma, no dia seguinte eu a procuraria para ter certeza. No caso de não encontrá-la, ela devia procurar um padre que fizesse o devido exorcismo de limpeza, foi que eu pensei.
Por ora eu precisava descansar. Rezei. E dormi.
✠
Ouvi uma voz.
Chiava meus tímpanos. Distante. Abafado. Misturado a ruídos cavernosos que eu sabia muito bem de onde vinham.
Um pedido de socorro do abismo.
Mas havia algo estranho naquilo. Apesar do horror, havia também algo reconfortante, nostálgico — como ouvir a melodia de um música conhecida. Como ouvir Beira-mar. O tom era familiar.
Era meu pai.
— Antônio... Antônio...
✠
Acordei de um salto. Suado. A respiração pesada. Que pesadelo horripilante.
Meu velho fora uma lenda entre nós. Um Abençoado de carreira curta, porém impecável. Homem puro, fervoroso. Tornou-se um dos Aniquiladores mais jovens da Ordem. Ceifou demônios e salvou muitas almas.
Pelo que sei, foi minha mãe quem pediu ao Cura da Catedral — seu próprio irmão — que concedesse dispensa a ele. A vida de um Aniquilador é dura, e ela não queria dividir o marido com a morte.
O Cura atendeu ao pedido. Minha mãe conta que ficou radiante quando soube da decisão.
Meu pai não recebeu a notícia com o mesmo entusiasmo. Ainda assim, aceitou, claro. Mas nunca escondeu que preferia continuar lutando. A caça aos demônios era parte dele, como o sangue das veias.
Sendo um homem razoável, compreendeu a ordem e a cumpriu como um bom soldado.
Dizem que, nos seus dias de atividade, nenhum demônio escapava quando ele sacava o revólver. Aniquilou demônios poderosos, lutou contra dezenas de potestades satânicas e mesmo assim manteve sua mente saudável. Ele era implacável, nenhuma criatura poderia amedrontá-lo física ou espiritualmente.
Mesmo afastado, continuou servindo à Ordem. Ensinava pontaria na Catedral Metropolitana de São José, em Fortaleza. Até o câncer chegar. Rápido. Agressivo. O consumiu em poucos meses. Morreu em estado de graça.
Sonhar com ele preso no abismo, gritando por ajuda… era inconcebível. Aquilo era quase obsceno.
Talvez o último demônio tivesse tentado lançar alguma maldição em mim, antes de receber meu balaço.
Resolvi agir como sempre fazia.
Apaguei todas as luzes do quarto. Tracei o sinal da cruz sobre mim, depois sobre minhas armas, e por fim sobre a porta.
Em seguida fiz minha oração:
“Senhor, guarda minha mente enquanto descanso.
Se a voz que ouvi for mentira, cala-a.
Se for armadilha, revela-a.
E se for verdade… dá-me coragem para enfrentá-la.”
Chamamos isso de Ofício do Silêncio.⁴ Depois da oração, permaneci de joelhos por alguns minutos, em absoluto silêncio. Sem me mover. A Ordem ensina que, nesse momento, o espírito se aquieta, e aquilo que se esconde nas sombras perde força.
Quando finalmente voltei a me deitar, mantive a mão próxima de Magnus. Caso o inferno resolvesse responder naquela noite.
✠
Dormi muito mal. Quase nada.
Na manhã seguinte perambulei pelo bairro onde encontrara a aparição. Queria verificar a saúde espiritual da mulher.
A Royal Enfield Himalayan rugia entre minhas pernas como uma gata selvagem. Pilotar motocicletas sempre foi uma experiência quase sensual — o tipo de atividade que poderia facilmente se tornar um vício, pensei… ou ao menos levar a um.
Já era meio-dia. Seria difícil localizar a mulher durante o dia, quando o toque do demônio fica menos perceptível — supondo, é claro, que ela realmente tivesse sido marcada. Nesse caso, ela poderia procurar um padre para limpar sua alma. Era hora de ir embora.
A sensação de comandar um motor potente trouxe uma estranha empolgação. Eu queria sair dali imediatamente e colocá-la na estrada. Ir a qualquer lugar, só pra pilotar.
Mas eu tinha um certo lugar pra ir...

E no próximo capítulo: Benedictus. ✠
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