Pó Azul
1 Capítulo 1 - Blue
O ano? 1978. As mini saias axadrezadas acompanhadas por tops curtíssimos eram a prioritária escolha de vestuário entre as raparigas na altura. Enquanto passeavam pelas ruas repletas de gente, durante as longas e quentes tardes de verão, murmuravam entre si as matérias da faculdade ou as paixonetas de escola. Os skates tinham acabado de ser lançados nas lojas de desporto pela cidade, e por isso eram ás dezenas os rapazes que se encontravam espalhados pelas ruas, experimentando entre si a última novidade. Ou pelo menos aqueles que tinham possibilidade financeira para tal.
Os Beatles e os Rolling Stones eram as principais fontes de música ouvida. E por isso eram bastantes as raparigas que espalhavam dezenas de stikers dos cd’s das bandas pelos cacifos desorganizados nas escolas. Os rapazes por outro lado tentavam focar-se nos lados mais disco, jazz, funk ou rock do assunto, evitando a qualquer custo as típicas “boy bands”.
Em pleno ano repleto de hippies, sexualidade extrema e uso excessivo de drogas a preço mínimo, eram assim bastante notáveis as consequências da falta de senso nos anos 70. Os famosos Quaaludes eram a droga de escolha entre os jovens acompanhados claro, pelo Molly...que na sua altura de pico chegou a ser vendida por apenas 5 dólares a grama. A epidemia da Cocaína na América também era notável, com cada vez mais adolescentes sob o seu uso excessivo durante o seu quotidiano…e em Dallas, Texas as consequências eram mais que visíveis.
Sendo uma das mais pobres cidades da América (na altura), eram às dezenas as famílias espalhadas por becos e jardins nas ruas, sem lugar onde habitarem. Quase toda a gente era conhecida por ser consumista e dependente, por isso o negócio da droga era um dos mais rentáveis.
— Anda la Blue, esta mais do que na hora de acordares... — Murmurou a Sr. Tessa ao neto pela manhã de 12 de Junho.
O sol entrava por entre os estilhaços de vidro partido no quarto do jovem. Indo-lhe refletir diretamente na cara enjoada pousada na almofada.
— Já vou avó...só mais cinco minutos...
— Nem mais cinco minutos nem menos cinco minutos! — Exclamou enquanto se dirigia vagarosamente com a sua bengala velha até á janela, abrindo por completo as cortinas poeirentas na frente do vidro — O leite acabou, preciso que vás até á mercearia.
— Leite? Desde quando é que gosta de leite?
— Não é para mim idiota, é para o teu avô.
Como que se aquilo fosse o bastante para o convencer totalmente, Blue sentou-se vagarosamente na cama bocejando e esticando no ar os braços pálidos e ossudos.
— Esta bem... — Respondeu enquanto olhava o relógio de madeira pousado numa mesinha ao lado da cama. " 10:47 " — Vou já...
— Obrigada meu amor.
A velha Sra. Tessa dirigiu-se ao neto espetando-lhe um leve beijinho da bochecha direita antes de abandonar o quarto do neto. Blue levantou-se finalmente da cama e parando em frente ao espelho rachado que tinha a um canto do quarto, viu perante si uma série de picadas de mosquitos espalhados pela testa.
— Maldito verão!
Tirando isso, o reflexo não era de todo desagradável. Blue era um jovem alto, bastante magro e pálido. Com um enorme cabelão repleto de caracóis que e uns olhos azuis mar que lhe haveriam feito ganhar a sua alcunha. Não que muita gente a usasse, visto não ter muitos amigos para o fazerem...
Apressou-se a vasculhar por entre as gavetas da cómoda um par de bermudas castanhas e uma camisa velha e demasiado utilizada que tinha á bastantes anos. Para ir até á mercearia local era o suficiente.
— Bom dia — Falou assim que entrou na sala ageitando o cabelo pelo meio da caminhada vagarosa — Inclinou-se perante a cadeira de rodas do avô pousando lhe um leve beijo na testa enrugada — Como está?
— Melhor se os filhos da Sra. Martha deixassem de vir jogar á bola para o jardim da frente logo pela manhã. Voltaram a acordar-me cedíssimo...Mas tirando isso, estou bem meu querido.
Passou lhe as mãos por entre os caracóis castanhos, despenteando-o ainda mais enquanto lhe lançava um sorriso amável. Blue tirou uma maçã já velha da fruteira da cozinha antes de se despedir dos avós á saída.
— Traz umas bananas se sobrar dinheiro meu amor, queria fazer-nos um batido para logo a tarde.
As ruas estavam repletas de gente aproveitando ao máximo os raios de sol pelo inicio da tarde. As crianças jogavam á apanhada entre si enquanto os pais se sentavam pelas relvas dos jardins locais com os seus óculos de sol estatelados nas caras. Os mais jovens aproveitavam o domingo solarengo para se divertirem fumando um charro e conversando entre si a ouvir rádio. Blue vivia naquele sitio á já quase dois anos mas até á altura nunca fizera muitos amigos, e por isso tentava passar despercebido por entre as multidões de pessoas cada vez que saia á rua.
A mercearia local do Sr. Arnols ficava já ao virar da esquina da segunda travessa, e por isso não foi muito demorada a caminhada até lá. O interior tinha algumas pessoas vasculhando a secção de jornais diários e velhotas á procura de pão ou legumes frescos.
— Com licença... — Murmurou tentando se espremer entre duas senhoras tagarelas que reconheceu como sendo as vizinhas da frente da sua rua. Muitas das frutas e legumes já se encontravam bastante tocados, mas procurou um cacho que lhe pareceu melhor, bem no fundo da caixa de papelão. Pegou em dois jarros grandes de leite e esperou na fila da caixa olhando de esgueira a porta da entrada e rezando que não aparece-se ali ninguém da sua antiga escola para o perturbar.
Tinha á apenas um ou dois meses antes terminado o termo no Liceu local da cidade e detestava rever antigos colegas nas férias, sendo que não tinha uma reputação muito famosa e por isso nunca era abordado de forma cordial...Viu um dos mais novos filhos da Sra. Martha entrar e sair sem pagar um gelado e esperou a velha Sra. Gibbens terminar a compra de hortaliças na sua frente da fila.
— Boa tarde. Seis noventa — Murmurou baixo o homem gordo da caixa enquanto passava a Blue um saco de papel para as compras — Obrigado, próximo!
Blue acabara de colocar o troco dentro do bolso direito das calças, quando se deparou com três rapazes robustos na sua frente, mesmo á saída da mercearia.
— Ora ora, se não é o famoso rapa lixos! — Exclamou um deles enquanto os restantes lhe acompanhavam o riso freneticamente. Blue limitou-se a baixar a cabeça e desviando-se levemente tentou seguir o passo apressadamente de volta á sua rua. Conseguia ouvir os passos apressados dos rapazes mesmo atrás dele, mas fechou os olhos e rezou pelo melhor — Mais devagar. Até parece que nos estas a tentar fugir.
O rapaz loiro do grupo, e o que parecia ser mais novo, finalmente conseguiu acompanhar o passo de Blue e bloqueou-lhe a passagem esperando que os amigos se fossem juntar a eles segundos mais tarde. Blue ainda se encontrava de olhos fechados e cabeça baixa mas já tinha desistido de rezar por uma saída positiva daquela situação...
— Andas fugido é? Nunca mais ninguém te tinha posto a vista em cima desde que a escola acabou...
— Ah...esto...estou doente, só isso...
— Doente? Deixa-me adivinhar...apanhas-te sida?
Os três jovens riram-se em alto e bom som enquanto dois senhores que passavam pelo passeio do lado voltavam as cabeças intrigados com o assunto. Murmuraram entre si mas decidiram continuar o seu caminho.
— Deixa-me passar por favor, o meu avô esta á minha espera, ele precisa das compras...
Assim que terminou as suas palavras, o tal rapaz loiro levantou a mão esquerda e com um leve embate tirou o saco de compras da mão de Blue e mando-o para o chão. O leite derramou-se pelo chão da rua e os estilhaços de vidro voaram até metros de distância. Os outros dois rapazes empurraram simultaneamente Blue e este acabou caindo no chão por cima do cacho das bananas, esmagando-as.
— Por favor deixem-me ir para casa!
— Não tão cedo...ainda temos um bom dia pela frente não vês?
Blue já estava mais que habituado àquele tipo de tratamento, mas nem por isso se tornava menos doloroso cada vez que o recebia. Os três rapazes em questão eram apenas três entre dezenas que tornavam a vida de Blue um perfeito inferno, especialmente durante o liceu.
— Por favor Jackson! Deixem-me ir! — Exclamava com genuínas lágrimas nos olhos.
Algumas pessoas sentadas nos bancos que ladeavam o jardim da frente da mercearia ainda olharam intrigados a situação, mas ninguém tomara a iniciativa de se intrometer.
— Então? É assim tão emocionante? Sei que já não nos víamos á uns tempos, mas não é razão para chorares.
Os jovens ignoraram por completo os súplicos de Blue enquanto conjuntamente o pontapeavam por entre risos. Blue cobriu o melhor que pode a cabeça e a cara com as mãos e encaracolou-se no chão indefeso. Sentiu as lágrimas a escolherem-lhe pela cara e o cheiro eminente a banana debaixo do corpo fraco durante vastos minutos, até não sentir absolutamente mais nada.
***
— Blue! Blue!
Quando Blue voltou a ganhar consciência já o sol se tinha baixado ligeiramente. A maior parte das pessoas já se tinham dirigido para as suas casas e era agora sentida uma leve brisa pelos ares da cidade de Dallas. O jovem sentiu uma forte dor de cabeça latejante enquanto era ajudado a se sentar no pavimento da rua.
— Sabes á quanto tempo estas aqui? Cheguei mesmo agora mas tens sangue seco na testa.
Blue levou a mão esquerda á testa dorida enquanto sentia uma substância meio melosa, meio seca por entre os dedos frios.
— Auch! Não faço ideia...O Jackson apanhou-me ao inicio da tarde. Que horas são?
— Ao inicio da tarde? Blue são cinco horas! Não acredito que ninguém te veio ajudar este tempo todo! – A rapariga ruiva na frente de Blue apressou-se a ajoelhar no chão perto da amigo e com um lenço sacado do bolso da saia, tentou tirar bocados de banana esmagada do cabelo do jovem. A rapariga em questão era uma das únicas amigas de Blue, do liceu. Partilhavam a aula de escrita e era uma das melhores amigas da sua irmã, ariana.
— Se calhar era melhor dar-mos um saltinho ao centro de saúde não? Estas com péssimo aspeto.
— Obrigada mas não. Provavelmente foi do calor juntamente com umas panadas na cabeça, isto passa...
Blue e Danielle levantaram-se finalmente do chão com o auxilio um do outro.
— Devias pelo menos tratar disso... – Disse passando-lhe os dedos pela testa ensanguentada.
— Não te preocupes, a minha avó trata do assunto. Obrigada qualquer das maneiras.
— Não tens que agradecer Blue, anda. Eu acompanho-te a casa. Tenho que falar com os meus primos quando vierem cá passar as férias de verão. Alguém tem que dar uma lição ao Jackson e aos amiguinhos.
Seguiram os dois caminho até á rua de Blue enquanto o sol se ia pondo. Blue analisava o corpo dorido enquanto encontrava novas férias a cada segundo. Pensava no batido de banana que não iria comer e em como é que iria explicar a situação aos avós.
Não demoraram muito a chegar á porta de casa de Blue. Danielle olhou em volta como que se a assegurar-se que estavam a salvo, finalmente.
— Ouve Blue...sei que nos afastamos depois da escola mas...
— Não tens que explicar Danielle...sei que a minha companhia na frente dos outros não é propriamente benéfica...qualquer das maneiras isto já serviu como um bom pedido de desculpas.
— Sinto que te devo uma explicação na mesma...odeio saber que estas sozinho...
— Não estou sozinho ok? Tenho o meu avô e...a minha avó...
Os dois entreolharam-se enquanto se desmanchavam a rir. Blue sentiu um leve dor nas costelas e perguntou-se se realmente não deveria ter aceite a proposta da amiga e dar uma visita rápida ao centro de saúde.
— Mudando de assunto...O que é que vais fazer no próximo sábado? Podia-mos combinar alguma coisa, tenho saudades de sair contigo!
— Eu? Provavelmente ficar em casa, ler uns livros...
— Chato! Nem pensar! – Exclamou Danielle enquanto despenteava os caracóis do amigo com as mãos entre risos – Vens sair comigo! Aliás, connosco!
— Sair? Sair onde? E convosco quem?
— O pessoal...A Dalila, o Ronny...vala Blue! Temos ido a esta discoteca mesmo á saída de Dallas! É super divertida e só entram maiores de 18 por isso não corremos o risco de vermos ninguém da escola...
— Não sei...Espera lá, como e que vocês conseguem entrar?
— Bem... – Danielle levou a mão ao bolso de onde sacou o que Blue reconheceu como sendo um bilhete de identidade falso, sabia bem que a amiga não tinha 22 anos – A Paula arranjou-me um a mim e á Dalila...
— Interessante...
— Não mudes de conversa...por favor...vem...
— Vou pensar no assunto ok? Nem sei se vou estar bem fisicamente até sábado…
— Não quero ouvir mais desculpas! Às dez da noite, sábado passo por aqui, esta mais que combinado! – Gritava Danielle sorridente enquanto passava o passeio para a rua da esquerda depois se despedir do amigo.
Blue respirou fundo e com um sorriso na cara meteu a chave á porta. Blue sempre gostara de Danielle, mesmo desde o início quando começaram a partilhar aulas do 5º ano. Visto que ela era a única rapariga com quem ele era visto, costumava ser muito falado no Liceu que eles namoravam. Obviamente que esse rumor desapareceu quando foi descoberto uns anos mais tarde que Blue era de facto, homossexual.
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