Pétalas sem Vida
1 Pétalas Sem Vida
E aquela noite se repetia. Numa terra tão escura, de sete luas vermelhas. Com um céu de milhões de estrelas, mas sem nenhuma luz para os mortais. Nenhum brilho para aqueles que ainda estavam vivos.
Sorrisos eles tinham. Sorrisos gloriosos em seus corpos marcados de cortes profundos com o sangue que era exposto de suas veias. A dor não era importante quando se fazia tudo para não morrer. Eles eram grandes guerreiros para uma dama já morta querer lutar.
Eu obedeceria às ordens de meu mestre. Deveria obedecer. Meu corpo solenemente não se movia mesmo quando o frio do choque do vento batia contra meu corpo ferido. De meu vestido rasgado, tinha sobrado apenas o resto, quando percebi por mim.
Seus corpos já não eram mais fortes quanto antes. Deixo minha cabeça cair para trás quando eu inalava todo aquele ar com odor de sangue. Meu corpo se arrepiava quando sentia meu próprio sangue agitado querendo continuar o que tinha começado.
Dançar com a morte sobre os corpos que caiam um por um. Sorrir com cada adeus e abraçar o aroma do desespero e sentir que tudo aquilo me alimentava para melhor, mas uma coisa faltava. Ah, sim. Os gritos.
Os gritos que não chegavam aos meus ouvidos. Isso era triste. Seus corpos sofriam quando eram estraçalhados por um mais forte e ninguém se permitia gritar se isso feriria sua honra. Seu orgulho diante de nosso mestre era maior que qualquer gemido que quisesse sair de suas gargantas.
Eu me sentia a própria morte quando aos poucos me aproximava de cada um. Meus dedos tocando suas peles frias atraindo cada arrepio. Sorria quando alguém descobria que eu estava ali. Sozinha e sem luz. Não poderia me permitir ser enxergada entre inimigos tão amigos. Só que eles poderiam me sentir. Sentir meus toques os envenenando. Matando-os, por mais que fosse em silêncio.
Saborear aquele momento era a única coisa que me importava. Sabia que em meu interior queria vê-los gritar pela a dor que cada vez mais aumentava. Desejava intimamente que eu fosse à causadora. Eles pediriam clemência e um sorriso em meu rosto era a única coisa que sairia como uma resposta. Nenhuma palavra sairia de minha boca, apenas o prazer que gritava em minha pele.
Lembro-me que aquela terra cheia de corpos antes possuía flores vermelhas de caules negros. Em cada caule tinha vários espinhos, estranhos espinhos que não faziam parte daquele cenário.
O que seria daqueles pobres seres quando um mísero espinho perfurasse cada um, corrompendo suas peles para matá-los e usar suas carnes como alimento de novas flores? As flores morriam logo, então.
A cor vermelho-sangue não mais existiria depois que o fruto fosse espalhado. Suas pétalas atingiam um tom negro e secavam como se há muito tempo não vivessem. Como se há muito tempo a morte tivesse tirado a vida de tudo em dois segundos. Um para matar os homens que tocavam em seus espinhos e mais um quando morressem ao nascer de um fruto.
Naquele instante me sentia como se fosse uma rosa daquele jardim já destruído. Meu corpo eram meus espinhos e o sangue derramado era o veneno sendo exposto. A juventude dos corpos envelhecidos me tornava bela, mas mesmo assim parecia que a morte me chamava para abraçá-la.
Eu não teria frutos como as flores. Não teria descendentes de minha espécie. Desaparecia com o caminhar de um vento em uma névoa escura e sem vida. Sozinha e sem luz. Seria como eu acreditasse em destino.
Teriam dois túmulos erguidos diante de meus olhos vermelhos. Um túmulo branco e inocente, com um caixão na cor marrom de detalhes dourados simples que se eu tocasse, meu corpo seria jogado para dentro e vendo apenas a tampa forrada a espelhos que sempre refletiriam meu próprio rosto. Meus olhos se tornariam cegos, meu sangue se tornaria meu pior veneno, minha força se esvaziaria e em uma mulher humana, velha e frágil eu me tornaria.
O outro túmulo negro e medonho era o mais obscuro. Tinha um caixão negro de detalhes prata em suas bordas, forrado em vermelho sangue no mais lindo cetim. Aos poucos me deitaria lentamente com um sorriso vendo a tampa se fechar. Meus olhos ficariam pesados e eu sentiria minha alma sendo devorada de volta para meu mestre e no final de tudo aquele túmulo guardaria apenas o meu corpo falecido até virar cinzas.
Não queria nenhum dos dois. Venceria a morte como tinha vencido a vida. No mais intimo de minha alma vazia, desejava o que meu mestre também queria. Poder. Poder sobre tudo e todos. Eu era sua arma para aquele propósito.
Seria a rainha de seu jogo de xadrez até a vitória. Depois, sorrindo, ele se viraria de frente para mim. Seu sorriso era tão cruel quanto seu olhar e diante de meus olhos viria seu bastão de diamantes se tornando em uma reluzente espada que deceparia a minha cabeça dando um xeque mate. Eu seria traída.
Sorri. Obedeceria ao meu mestre. Daria meu corpo como devoção e minha alma dançaria com a morte de meu criador. A alma de uma dama se tornaria a alma de uma rainha. Gargalhei despertando a atenção dos vivos.
Tinha restado apenas dez do imenso exército. Meus braços se moviam estranhamente em suas cabeças deixando-os confusos a cada instante e eu gargalhava cada vez mais quando o poder das sete luas vermelhas possuía meu corpo.
Era hora do show. Minhas costas caiam para frente ainda me mantendo de pé, meu cabelo longo na cor negra caia sobre minha pele pálida e eu permitia. Eu permitia os dez enxergarem a mim.
Os gritos. Finalmente os gritos. Meu criador teria que me desculpar, mas eu era a única flor que tinha restado daquele jardim sobrenatural e tinha que me alimentar. O horror que eu causava nos olhos dos seres me excitava demais para simplesmente esquecê-los ali vivos. Mataria.
Tudo a seguir foi muito rápido. Aos poucos me esqueci dos gritos aos meus ouvidos, da resistência que alguns ainda teimavam em ter, para apenas com minhas presas devorar a carne e as vísceras banhadas em sangue fresco.
Aquele alimento era fascinante. Devorei um por um e a cada um que caia desfigurado com seus ossos a mostra, um gemido saia involuntariamente de minha boca. Era tão divertido.
Então, me levantei de costas para o resto. Seus olhos ainda abertos ainda olhavam para mim. Em poucos passos os fechei com minhas mãos para que pelo menos aquela visão não assombrasse muito ao jardim que logo iria voltar à vida.
O fogo logo chegaria e novas rosas iriam nascer. Logo me pus a caminhar para longe escutando as chamas invadirem o lugar. Sorri. No fim de tudo eu tinha realmente desobedecido meu mestre. O meu criador.
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