Pétalas de uma semideusa
3 Cap. 2: A profecia
Notas iniciais
Quando em um minuto tudo estava em um assombrado silêncio, assim que Quíron apresentou-me aos semideuses como a "filha dos Três Grandes'', uma salva de palmas, assobios e batuques tomou o local. Era provável que a maioria ali nem tinha processado muito o fato de eu aparentemente ser filha de três deuses diferentes, mas eu tinha. Anatomia, aulas de biologia, macumba... Não importava, para mim era impossível, assim como um centauro branco aproximando-se de mim com um sorriso de orelha à orelha, trotando, animado por estar certo sobre mim.
Eu me sentia, no mínimo, coagida. Era bem real: no meio de uma tribo selvagem cor de abóbora, a qual saudava um novo membro ou preparava-o para uma cerimônia antropofágica... A fogueira tomava uma tonalidade meio vermelho-amarelada, condizendo com o humor dos campistas doidos, talvez iludidos pela batalha próxima e animados por qualquer menção de uma figura importante.
Ao postar-se bem perto de mim, o centauro inclinou o torso em minha direção e, a partir daí, não mais era a Fogueira o centro de toda a atenção, e sim, eu. Os olhares continuavam a me perfurar lentamente e Rachel mantinha uma expressão quase lunática, sorrindo e fazendo uma careta ao mesmo tempo, com olhos meio saltados e o cabelo teimando em cobrir parte de seu rosto.
— Meus parabéns, querida. — Quíron estendeu a mão. — Acaba de ser reclamada por seus pais.
Antes de mais nada, considerei o quão tosco era ser reclamado, com direito a coisas estranhas flutuando em cima de você e um sentimento de quase humilhação por tentar fugir das figuras e elas seguirem você sem parar. Não foi algo muito bom, porém, certamente memorável. Não é todo dia que um raio, um tridente e um elmo instalam-se por sobre sua cabeça, carregando significados inimagináveis.
Eu estava prestes a falar, provavelmente uma grande besteira, dita quando a vida está tentando virá-lo de cabeça para baixo, mas a ruiva impediu-me. De repente, ela segurou meu braço esquerdo, prendendo seus dedos e cravando algumas de suas unhas em minha pele e, ao levantar o rosto para fitá-la com um ponto de interrogação tatuado em minha testa, fiquei um pouco horrorizada.
Rachel não estava mais lá, o Oráculo de Delfos havia tomado seu corpo. A garota estava envolvida por uma névoa verde e uma luz, também verde, irradiava de seus olhos, como orbes estelares. Ela estava estática, olhando apenas para mim, de maneira que eu sentia um calafrio subindo da base da coluna e espalhando-se gradativamente.
Tentei libertar meu braço, já sentindo a circulação sanguínea afetada e a mão ficando dormente, porém, ela apertava-me com uma força sobrenatural e, de súbito, o corpo da jovem sofreu um espasmo de agonia, talvez, e começou a entoar:
— Perdida a criança em nuvens de cólera e tormento... — Sua voz estava triplicada, todas em uníssono. — ... Nas águas maculadas de Roma, a Morte temida à espreita. Decisões perigosas aos sete, um passado turbulento. Culpada pela Sabedoria, às Portas, afinal, desfeita.
Após um tempo de silêncio mortal, com os semideuses encarando-me de modo sombrio, Rachel pareceu voltar a quem realmente era e acabou por soltar-me. Ela piscou algumas vezes, meio tonta, e fitou-me, preocupada pela minha cara de quem vira um fantasma comendo rosquinhas.
— O que... — Murmurou, prestes a desmaiar. — O que eu disse? Lorelai?
Ela caiu para frente, esbarrando em um meio-sangue, o qual a segurou como se fosse algo comum, de rotina. Isso, sem tirar os olhos de mim, pois acabara de ouvir uma profecia da amiga, que havia a direcionado explicitamente a minha pessoa. Diante à terrível pressão, levantei, alarmada, e saí correndo, rumo a qualquer lugar longe o suficiente da multidão. Ninguém me seguiu.
Era tão confuso e errado. Pela manhã, eu era somente Lorelai Tate, filha adotada de Amalia e Julian Tate e com o peso de comprar o próprio almoço, aí, entram os tacos. Já naquele momento, eu era Lorelai Tate, filha adotada de Amalia e Julian Tate e aparentemente de três deuses também, e com o peso de comprar o próprio almoço e de carregar uma profecia que não tinha a melhor das sugestões.
Continuei correndo, até que cheguei à beira do início da mata meio fechada, a qual limitava o Acampamento. Virei, hesitante, e vi, ao longe, a leve iluminação da fogueira projetando algumas sombras e comparei com a escuridão da floresta. Divergiam totalmente. Uma era calorosa, cheia de vida e luz, enquanto a outra era fria, cheia de solidão e sonhos destruídos e carência de qualquer sistema de iluminação. Ok, talvez a parte de sonhos destruídos fosse exagero, só que não transmitia uma imagem muito boa mesmo.
Ao dar um passo para adentrar a mata, ouvi um galho quebrando atrás de mim e tornei imediatamente. Nico e sua palidez surgiram, com vestes pretas, jaqueta de couro e coturnos, além do anel de caveira que se destacava em seu dedo. Ele ficava girando aquele anel como se, com o objeto, viesse um pesado fardo, difícil de ser esquecido.
— Eu não faria isso se fosse você. — Avisou com a voz rouca. — Alguns meio-sangues nunca retornam da floresta. Ainda mais à noite...
Ele não parecia estar preocupado, somente alertou como um amigo faria ou alguém que não queria entrar em possíveis encrencas, pois um corpo fora achado retalhado no meio do nada. Na mesma posição, eu faria igual, considerando as variáveis.
— Eu só quero ficar sozinha... — Bufei. — Lá não era o lugar mais quieto de todos, se é que me entende.
— Eu compreendo. — Assentiu, polido. — Percebe, no entanto, que sempre que alguma nova responsabilidade cai sobre seus ombros, você foge? De alguma maneira: berrando, desmaiando ou correndo... Sempre escapando.
Engoli em seco, ficando mais séria que o normal. Não era minha culpa se tantas coisas estranhas haviam acontecido em um espaço tão curto de tempo. Sentia-me despreparada para arcar com a conversa de criança perdida, uma iminente guerra, se eu tivesse entendido certo, e o meu papel dentro dela. Desde quando eu era uma guerreira? Bom, isso era uma das únicas perguntas, para qual eu tinha uma resposta de prontidão. Simples, eu não era. Nunca houvera sido treinada para uma batalha... Caramba, eu morava em Nova Iorque, tenha dó!
— A profecia... — Iniciei. — Aquela é a profecia da qual Quíron falava, certo?
— Você foi reclamada e, logo depois, Rachel soltou uma profecia. É coincidência demais, não acha? — Ele franziu a testa. — Sim, é a sua profecia. A profecia da criança perdida...
— di Angelo, desde o início, você pareceu muito certo de quem eu era e o papel que eu representaria nessa guerra, sobre a qual todos comentam... — Arqueei a sobrancelha. — A questão é: por quê?
— Recebi uma missão à parte de meu pai: encontrar a criança perdida.
Lembrei, então, do esqueleto invocado no beco, dando pistas sobre o parentesco de Nico e, por consequência, a relação familiar entre nós dois.
— Hm, e seu pai seria...
— Hades, o deus do Mundo Inferior. — Completou sem que eu concluísse meus pensamentos. — E você também tem descendência dele.
Eu não sabia descrever o semblante de Nico. Ele não parecia triste ou irritado, porém, também não estava alegre, tampouco. O garoto estava vazio, sem uma expressão ao certo, e isso deixou-me ligeiramente incomodada.
Um de meus sonhos de infância era ter um irmão. Ali, aparentemente, era o momento em que eu estava ganhando esse irmão que nunca tive e eu esperava mais que um adolescente com cara de sofrimento. Talvez as pessoas tivessem razão: irmãos nunca são uma boa ideia, apenas dificultam sua vida quando você tenta fazê-los mais felizes e ajudá-los. Com pesar, acabei por contestar que o menino não estava tão ansioso quanto eu em relação ao quesito ''aumento da família''. Será que algo havia acontecido em seu passado? Eu estava bem curiosa, mas de acordo com meu histórico indelicado, ao fazer perguntas totalmente inadequadas ao momento, decidi deixar de lado por um tempo.
— Bem... — Tentei mudar de assunto. — ... qual é o plano sobre essa guerra?
O jovem, assim, pareceu despertar de um transe e endireitou-se.
— Melhor Quíron explicar.
Respirei fundo. Não que eu desgostasse do centauro, afinal, ele era um... Centauro! Só que eu não confiava muito naquela combinação de rosto barbado e traseiro equino. Não ainda, porém, se era o único meio de entender mais sobre minha vida dali para frente, eu não tinha muitas escolhas. Acompanhei, enfim, o meio-sangue.
Estava mais calma e fiz um juramento silencioso de que não fugiria mais. Lidaria com as estranhas novidades de um jeito mais adulto e sério, sem tentar me esconder das minhas obrigações para/com a sociedade mitológica grega. Eu tinha responsabilidades, um dever a ser cumprido. Nossa, eu deveria escrever discursos para os soldados americanos ou para grupos de apoio...
Ao chegarmos ao espaço da Fogueira, a maioria dos campistas já havia se dissipado, indo a seus respectivos chalés. Tudo estava silencioso, com o singelo som das últimas brasas esgotando-se no chão e alguns murmúrios de semideuses, os quais encaminhavam-se aos dormitórios após um dia cansativo de trabalho. Em um canto, vi Quíron, o qual era acompanhado pela ruiva, que parecia estar melhor.
Quando nos aproximamos mais, Rachel fitou-me em uma ansiedade extrema e saltou até nós, bom, até mim. Ela levantou meu braço delicadamente para conseguir enxergar com a iluminação de algumas tochas espalhadas pelo centro do Pavilhão e expressou dor ou arrependimento.
Fazendo o mesmo que ela, encarei meu fino braço e entendi o porquê de sua cara desapontada consigo mesma. Na altura próxima ao meu pulso, surgiram hematomas, linhas meio arroxeadas e paralelas circundando toda a região, devido ao seu incidente do Oráculo. Eu nem sentia dor, somente um mínimo desconforto, só isso.
— Pelo Estige! — Rachel fez um biquinho, magoada. — Disseram que eu havia segurado você com muita força e... Ah, me desculpe! Não fiz por mal. O Oráculo que vive em mim simplesmente não sabe tratar bem as pessoas.
— Ei, não é nada. — Acalmei-a, sorrindo amavelmente. — Eu só levei um susto quando você ficou... Sabe, verde.
Consegui fazer sua expressão tristonha ser substituída por um leve sorriso.
— Bom, agora que se entenderam, preciso falar com vocês. — Quíron ficou sério. — Com a profecia, a situação ficou mais conturbada ainda. Vamos até a Casa Grande. — Olhou ao redor, murmurando. — Teremos mais privacidade lá.
— Chamo Travis, Connor e Clarisse?
— Melhor não. — O centauro negou para a menina. — Depois podemos falar com eles. Todos tiveram um longo dia...
Juntos, caminhamos até a Casa Grande e sua fachada moderna e antiga ao mesmo tempo. De longe, até poderia parecer uma casa simples e normal, no entanto, de perto, a decoração clássica e as colunas gregas faziam-se presentes. Isso ainda me surpreendia.
Antes de entrarmos, a ruiva buscou uma manta e uma cadeira de rodas diferente, pois possuía um par de pernas coladas à base, e colocou esta na frente do diretor de atividades. Ela sorriu e sussurrou para mim:
— Você vai querer ver isso.
— Obrigado, querida. — O mais velho agradeceu. — Já prosseguiremos, Srta. Tate. Só um instante...
De alguma maneira, Quíron enfiou as patas e o traseiro equino dentro da cadeira de rodas, escondendo-as em uma espécie de caixa mágica. Dessa forma, assim que se cobriu da cintura para baixo com a manta, parecia apenas um senhor que não conseguia andar.
— Ai, bruxaria. — Fiz uma careta, massageando as têmporas. — Isso não pode ser certo.
A garota continuou a sorrir, já ciente de minha suposta reação.
— É uma forma dele andar na cidade... — Passou a empurrar, educada, a cadeira. — ... para não assustar pessoas como eu, que veem através da Névoa, ou semideuses que ainda não sabem sobre a verdade de quem são realmente, e até mesmo por ser mais fácil para circular nas ruas.
— Névoa?
— Ah, sim... — Ela acenou. — É como uma máscara. Faz os mortais não enxergarem o que nós enxergamos.
Decidi não fazer mais perguntas e só os segui. Era provável que meus pais tivessem que pagar um psicólogo para mim em breve.
Lá dentro, ao invés de irmos para a enfermaria, viramos na porta à direita, dando em uma sala confortável. Era tentador: um sofá vermelho com um pano por cima, criando um meio losango no encosto; as poltronas com almofadas bordadas; a lareira na extremidade oposta, na parede coberta por um papel de parede amarelado; a mesa de centro, com uma estatueta de um simpático centauro arqueiro; o tapete fino em tons esverdeados e a escrivaninha, próxima à janela, a qual era coberta por leves cortinas.
— Sentem-se, por favor.
Obedecendo, Rachel e eu desabamos no sofá, enquanto Nico permaneceu em pé, apoiando-se no batente da porta de madeira.
— Bom, Lorelai... — Quíron sorriu, tentando passar confiança. — Como está?
Eu quase comecei a rir. Era uma indagação estúpida ou uma piada mesmo, não era possível... Depois de tudo que havia visto, eu estava envolvida por um misto turbulento de emoções e eu não duvidaria que passasse a chorar e a gargalhar ali, encarando o diretor, porém, percebi que a expressão dos três ali presentes era de preocupação e seriedade, como se, a qualquer momento, eu pudesse pegar o simpático centauro de metal e enfiá-lo na garganta e, ficar a par de minhas intenções, impediria uma tentativa de suicídio.
Ao invés de falar algo ferino, optei por dar de ombros.
— Normal até que se prove o contrário. — Respondi. — Apesar de tudo, poderia ser pior... Eu poderia ter sido devorada por criaturas feitas de terra. Não sei por vocês, mas para mim, isso é bem pior que descobrir que sou filha de três deuses. Tenho até medo de pensar em como isso é possível... — Murmurei rapidamente a última frase. — E depois ouvir uma profecia que basicamente disse que sou responsável por terríveis decisões e por uma culpa amargurada.
— O significado da profecia é sempre confuso. — Rachel franziu a testa. — Quem dera eu pudesse ter um tradutor embutido para explicar esses versos doidos... Olha, entretanto, acredite em mim: as profecias nunca erram. Somos nós quem as interpretamos errado.
Se aquilo era para me fazer sentir melhor, não ajudou muito. Basicamente, tudo ia de mal a pior, e saber que o futuro sem uma profecia era tão incerto quanto um com, não era a melhor das sensações.
— Estamos prestes a entrar em guerra, Lorelai. — O diretor confessou. — Gaia está prestes a acordar...
— Gaia? Que nome feio e... — Pausei pelas olhadas sem-graça, praticamente dizendo ''Sério?''. — Foi mal... Continue, por favor.
Quíron pigarreou, mexendo na barba e prestes a retomar o assunto.
— Ela é a Mãe Terra, mãe de titãs e gigantes, e quer ressurgir e controlar o mundo, trazendo nada mais, nada menos que o caos...
Lindo e maravilhoso. E quem estava envolvida nessa baderna toda? Exato, eu. De alguma forma, maldição do destino ou karma, de tacos fui parar em uma guerra contra uma senhora que gosta de dormir e que tem um nome bem questionável.
— E aonde eu entro nessa história?
— Lembra-se que eu disse que os Três Grandes escolheram você, pois representa uma importante peça nessa batalha?
Assenti.
— Eu também mencionei a profecia, a qual Rachel mostrou na Fogueira, certo?
Assenti novamente, cada vez mais incerta sobre o que o centauro concluiria sobre toda aquela discussão.
— Bom, precisa saber que existe a chamada Profecia dos Sete... Ela se relaciona aos sete semideuses, os quais têm papeis fundamentais na garantia da vitória nessa guerra, e eles estão se reunindo neste momento para cumprir com suas determinadas tarefas. — Quíron adquiriu um semblante bem sério, quase irreconhecível. — Já a sua profecia, é uma profecia convergente. Esta, uma hora ou outra, representará uma relação importante quanto à Profecia dos Sete.
— Faz até que sentido... — Fiz uma careta. — A minha profecia cita o número sete.
Ainda era estranho considerá-la minha. Minha profecia. Eu sentia que aquelas palavras cortantes retumbavam dentro da minha cabeça, repetindo e repetindo... Diferente da Lorelai Tate do passado, aquela Lorerai Tate faria de tudo para tornar os versos algo mais positivo do que a mensagem, a qual eles pareciam transmitir.
— Os sete estão se reunindo em outro acampamento, o Acampamento Júpiter, de romanos. Nico a levará até lá.
Virei para trás e fitei o garoto a tempo de vê-lo concordar com o decidido. Ele estava com a mesma expressão de sempre, uma combinação de ''quero me isolar de todos'' e ''conversar com alguém não seria tão ruim''. Acho que nunca conseguiria entendê-lo.
— Espera, o senhor disse que os sete já estão indo deter essa tal Gaia, certo? — Hesitei, vendo o diretor acenar positivamente. — Sete semideuses treinados, não é? Sete semideuses bem preparados para lutar contra a Mãe Terra? Eu não sou treinada! Não consigo nem matar uma mosca! Vocês têm noção disso? — Fiquei boquiaberta. — Eu tenho a incrível capacidade de perder de uma mísera mosca!
O centauro suspirou e a ruiva cerrou os dentes, imaginando como era possível perder de um inseto de um centímetro.
— Eu não aprovo muito menos a ideia de colocá-la no meio disso tudo sem o devido treinamento. — O mais velho confessou. — No entanto, encontrá-la foi bem difícil e tomou muito tempo... Tempo este que praticamente já se esgotou.
— Ah, interessante. — Balbuciei, absorvendo as novas informações. — Então, estou largada à própria sorte?
Nessa hora, a ruiva pegou minha mão e apertou-a em sinal de conforto.
— Semideuses manifestam os poderes de seus pais, deuses... — Ela revelou. — Você, como eles, também irá, mesmo não sendo exatamente uma meio-sangue comum. Terá isso como uma tripla vantagem e, além disso, os sete escolhidos são os melhores. Percy e Annabeth, por exemplo, vão treiná-la com certeza.
— Quem são eles?
Rachel deu um sorriso sincero.
— Os semideuses gregos que salvaram o mundo diversas vezes. — Respondeu, singela. — Apenas isso.
— Eu treinarei durante a batalha, certo? — Respirei fundo, na tentativa de me acalmar. — Ok...
— Lembra-se do beco e de como saímos de lá? — Nico desencostou-se do batente e ficou na minha frente. — Você viajou pelas Sombras. Filhos de Hades são capazes de fazer isso facilmente, mas não em excesso... E, bom, para uma principiante, você aguentou muito bem. Não há porquê de se preocupar tanto, entendeu? Você consegue.
Por alguma razão, isso fez as palavras da profecia pararem de se chocar contra meu crânio por um tempo. Eu quase conseguiria falar ''Beleza, vamos quebrar alguns seres de terra'', pois di Angelo havia representado o papel de um irmão mais velho dos sonhos. Foi algo bem legal da parte dele e o diretor de atividades pareceu ficar satisfeito, orgulhoso do adolescente tão solitário.
Sorri, agradecendo mentalmente e engoli em seco, deixando minhas dúvidas para trás e pronta para cumprir meu juramento de responsabilidades e deveres.
— E quando iremos a esse outro acampamento?
— Pela manhã, bem cedo. — O centauro falou. — Você precisará de uma arma também...
Imediatamente, lembrei de minha mãe, Amalia, e de como ela era avessa a qualquer tipo de arma ou possíveis armas. Era até impressionante ela cozinhar, rodeada de facas e panelas com água fervente, pois quando eu tinha uns nove anos, ela quase processou minha escola por pedir compasso dentro do material escolar obrigatório. O negócio foi feio e, no final, tive de mudar de colégio. Assim, ante a possibilidade de possuir uma lança ou uma espada, talvez, que vi alguns campistas portarem mais cedo, fiquei um pouco mais ansiosa do que deveria, considerando que estávamos falando de objetos perigosos de verdade.
— Hm... — Arqueei a sobrancelha. — E onde encontrarei essa arma mesmo?
— No Arsenal. Levarei você até lá agora, pois não temos tempo para fazer sua escolha amanhã. — Pausou. — Se eu não acompanhar a senhorita, as Harpias acabarão jantando você.
Dei uma leve risada, feliz pelo diretor descontrair um pouco, até que notei a seriedade diante do comentário e parei.
— Não foi uma brincadeira, foi?
— Não, nós temos uma séria política de policiamento dos meio-sangues... As Harpias são responsáveis pela ''faxina'' do Acampamento e, principalmente no último dia no acampamento, vários semideuses somem. Às vezes, elas se descontrolam e, mesmo durante a estadia de todos aqui, as Harpias fazem a festa. É quase inevitável.
Eu fiquei indignada com tal política.
— Isso é horrível!
Quíron suspirou, concordando silenciosamente.
— Vamos, querida. — Ele colocou a mão na base de minha coluna, guiando-me para fora. — Vamos agora...
— Ahn, tudo bem.
Saímos noite adentro, iluminados pela luz de tochas e o diretor aproveitou para esticar as pernas. Lê-se: saiu daquela cadeira de rodas mágica, mostrando seu traseiro equino novamente.
O trajeto até o chamado Arsenal foi feito quase inteiramente quieto. O centauro deu-me privacidade para refletir sobre os recentes acontecimentos e eu apreciei isso. Pude, portanto, além de repassar o fato de que lutaria em uma batalha sem ter qualquer treinamento, me imaginar sendo engolida por uma Harpia algumas centenas de vezes seguidas. Eu nem sabia como uma criatura daquelas era, porém, eu só pensava em uma bocarra cheia de dentes afiados e enfileirados arrancando minha cabeça do meu tronco.
— Chegamos, querida.
À nossa frente, uma espécie de barraca funda de madeira de uns quatro metros de comprimento surgira. Tinha um toldo avermelhado recolhido e, mais atrás, uma portinha dava em outra divisão do Arsenal. Fomos para lá.
Quíron acendeu uma tocha pequena e entregou a mim, acenando para que eu seguisse e entrasse na saleta. Desajeitada, aceitei o objeto flamejante, tomando o devido cuidado para não acabar careca.
O recinto tinha um leve cheiro de mofo e pinheiro, e havia uma mesa comprida onde inúmeras armas seguiam, desarrumadas. Alguns escudos estavam largados pelos cantos, enquanto outros estavam pendurados nas paredes ou guardados em prateleiras empoeiradas.
Caminhei lentamente, meio aturdida. Eu deveria escolher uma arma, dentre conjuntos de facas, adagas, lanças, espadas e flechas e não fazia a mínima ideia de qual delas era a mais adequada para uma pessoa ''tapada'' como eu.
— Eu escolho qualquer uma?
Não houve respostas. O diretor não estava me esperando na porta, pois provavelmente queria que eu optasse sozinha, algo vindo do coração.
Andei, desviando dos armamentos pelo chão. Vire e mexe, eu me inclinava para analisar alguma arma mais vistosa. Eu tinha certeza que não seria capaz de empunhar uma lança ou uma espada, portanto, ambas estavam descartadas. Um arco seria bem legal, entretanto, levaria um bom tempo para eu conseguir acertar uma flecha no alvo certo. Assim, sobraram o conjunto de facas ou uma adaga.
Passei a olhar apenas para as facas primeiramente. Algumas já estavam meio foscas, sujas e sem brilho, porém, outras cativaram minha atenção. No meio da enorme mesa, encontrei umas lâminas cravadas com algumas pedras preciosas. Eram lindas, mesmo eu não sendo a pessoa mais vaidosa do mundo, afinal, eu estava usando um blusão largo e jeans. Decidi deixá-las de lado e segui, observando tudo atentamente.
Finalmente, ao tentar retirar umas facas de uma pilha de armamentos, deixei-a cair e espalhar pelo chão fazendo um terrível barulho em meio ao silêncio anterior. Já até premeditava uma Harpia comendo-me viva, tanto é que prendi a respiração por alguns segundos e permaneci com os olhos bem cerrados.
Como nada aconteceu, voltei a fitar a bagunça que eu fizera e algo pareceu brilhar nas sombras das prateleiras contra o chão, como se me chamasse. Aproximei e peguei uma adaga linda, com um brilho próprio, simples, mas com um toque luxuoso e feminino pelo desenho esculpido por sobre seu cabo, confessando um ardiloso trabalho para alcançar aquele belo resultado. Era leve e aparentemente mortal, o que era bem-vindo em um cenário de guerra... Eu sentia que era aquela.
Saí da sala de armamentos, segurando firmemente minha nova aquisição, quase em uma espécie de transe. Quíron surgiu, enfim, vindo da esquina do Arsenal e sorriu assim que viu a arma por mim escolhida.
— Bronze celestial... — Suspirou. — Uma boa escolha.
Fale com o autor