Ozando no Chb
55 Honrarias Injustas
Notas iniciais
O grupo superou rápido o baque das notícias catastróficas em que o mundo se encontrava. Seguiram viagem tranquilamente comendo amendoins, doces e chegaram até a ligar o rádio em uma estação de música pop em algum momento. Menos Sara. Ela preocupou-se com o estado em que o CHB estaria quando regredissem. E não gostava de amendoim. Alertou-os sobre suas desconfianças, porém ninguém lhe deu atenção.
Sara acreditava que a confusão dos deuses certamente iria afetar os semideuses e que a discórdia gerada com certeza havia acarretado muitas brigas no acampamento. “Ainda bem que a Isabela está longe da Clarisse”. Ela pensou e ficou feliz com essa constatação, uma das brigas pelo menos foi evitada, mas tinha certeza que Clarisse não tardou a achar outra pessoa para brigar.
Laura trocou apenas um olhar com a amiga e logo elas estavam pensando a mesma coisa. O acampamento estaria submerso em desordens e brigas. Quíron, nervoso ao tentar controlar toda a balburdia e talvez com muita sorte ele nem ligasse para a chegada delas. Afinal de contas elas haviam fugido para procurar os meninos, essa missão não era delas. Entretanto, devidos aos fatos e as preocupações imediatas Quíron não as castigaria. Vendo por esse lado, elas concluíram e até torceram para que o acampamento estivesse no mais perfeito caos.
Não demorou e o cheiro dos campos de morango perfumou o ar e a colina meio-sangue fez-se presente na paisagem. Uma inconfundível sensação de estar em casa os invadiu. Devido ao conforto de estar chegando ao CHB, Laura até arriscou um sorriso olhando para Connor. Isabela estava no quinto sono e acordou em um sobressalto.
— Chegamos! Finalmente! Nossa, minha bunda tá quadrada já. Não aguento mais ficar sentada.
Com o carro ainda em movimento Isabela abriu o porta-malas e pulou para fora. Cada semideus realizava sua respectiva tarefa na mais perfeita harmonia. Jogavam vôlei, aprendiam esgrima, grego antigo e limpavam o arsenal... Tudo estava em ordem. A discórdia parecia nunca ter existido e o acampamento estava à parte do resto do mundo.
Sara e Laura não demoraram a praguejar:
— Era pra esse acampamento estar pegando fogo! No mínimo!
— Cadê as ameaças de morte? Os gritos de desespero? Uma nova epidemia que dizime metade da humanidade?
Leo, Steve e Connor estavam alheios à conversa das duas e andavam normalmente pelo acampamento. Logo os semideuses foram aproximando-se e os coroaram com louros como se é de costume quando um grupo é bem sucedido em uma missão. Os meninos foram carregados pelos ombros e foi uma festa. Isabela juntou-se perplexa com as amigas e as três sustentavam a mesma expressão de incredulidade em seus rostos.
— Mas que porra...?
Quíron nem mesmo notou as garotas, nem para castiga-las. Holiday e Karen não foram dizer “olá”, pois estavam absortas com as honrarias dadas aos garotos.
— Uma tremenda filha da putagem isso aí. –informou Isabela extremamente ofendida.
— Essa palhaçada toda merece um piti, ou melhor, o piti! –berrou Sara com as mãos na cintura observando toda a algazarra ao seu redor.
— É... Eu acho melhor irmos para os nossos chalés. –sugeriu Laura ao lembrar que tecnicamente elas estavam erradas por ter invadido a missão alheia.
— Eu vou é porra! –gritou Isabela e começou a resmungar, tentando de algum modo chamar a atenção nem que fosse de algum espírito da natureza.
Sara encarou o nada parecendo lembrar-se do dia da fuga do acampamento.
— É. Eu concordo plenamente, Laura. Isto se não nos colocaram para fora e ainda tivermos um lugar nos nossos próprios chalés. Vai ver todos se esqueceram da nossa existência por completo mesmo. –dramatizou Sara.
— Devem mesmo. –concordou Laura tristemente.
— Vocês só podem estar brincando com a minha cara, né? Eu saí desse lugar de pijama e escova de dente! Quase morri não sei nem quantas vezes, porque não gosto de matemática. Isso não vai ficar assim não! Ah mais não vai mesmo.
Ao dizer essas lindas e motivadoras palavras, Isabela entrou no meio da multidão empurrando sem cerimônia qualquer um que tivesse a má sorte de estar a sua frente. Ela só parou quando chegou até os "digníssimos" meninos.
Isabela agarrou Steve pela gola da camiseta e segurou Connor com a outra mão. Por sorte, Leo estava a uma distância segura em relação aos outros dois garotos, pois caso estivesse próximo, muito provavelmente Isabela usaria os pés para imobilizá-lo. Mesmo assim o filho de Hefesto não ousou sair do lugar. Steve e Connor desvencilharam-se das mãos de Isabela e não entenderam o porquê da intromissão da mesma em suas honrarias pela louvável missão.
Ela voltou a agarrá-los e tirou de suas cabeças as gloriosas coroas de louros. E claro, colocou em sua própria. Soltou até o coque em que suas madeixas estavam presas e se fosse em outra situação Sara até comemoraria com um "Oh glória", porém a filha de Afrodite continuou parada apenas analisando a confusão em que Isabela iria colocar todos.
Um olhar desafiador e meio psicopata foi lançado a quem ousasse tirar as coroas da cabeça da filha de Ares, então certa distância foi mantida. Até Quíron, percebendo a estranha agitação em meio à comemoração, aumentou o tom de voz para ser ouvido do lugar em que estava. Nunca se sabe quando se trata da Isabela, Clarisse e até mesmo Steve.
— Silêncio! Agora! –ordenou o centauro.
— Eu vou fazer silêncio é porra nenhuma! Eu, Laura e Sara também merecemos as honras. Quem foi que enfrentou monstros com eles? Quem foi que achou os lugares que eles precisavam ir? Quem foi que ajudou em tudo? Quem foi que arriscou as vidas? –berrou Isabela corajosamente.
Quíron ficou chocado com o atrevimento da garota. Sua expressão facial ficou mais rígida e firme.
— Como ousas garota? –e a coragem de Isabela fez as malas e saiu correndo pra uma ilha deserta.
— Já para os seus chalés e depois conversamos. –concluiu Quíron e no mesmo instante a barulheira voltou. Leo, Connor e Steve não deram muita atenção, claro, agora tinham várias semideusas malucas comemorando e suspirando por eles.
As três obedeceram à ordem, cabisbaixas e alheias a tudo.
— Se eu soubesse desse desfecho, juro que jamais sairia daqui por esses idiotas. –comentou Sara ressentida.
— Jamais. –concordou Laura.
— Preciso nem comentar né? –disse Isabela.
E assim, nesse clima de injustiça e mágoa, as três foram para os seus devidos chalés.
Foi uma longa tarde. Claro que Sara e Isabela ao invés de seguirem para seus chalés foram para o de Laura. Entretanto, o clima de descontentamento e mágoa foi o mesmo.
A porta do chalé se abriu após uma leve batida. Uma cabeça loira surgiu da fresta, provavelmente uma cria de Apolo. A semideusa avisou que Quíron queria vê-las. Isabela logo fechou a cara e fez sua cara de ofendida extrema. Sara treinou sua cara de nojenta e a pose irônica. Laura apenas foi.
No caminho para a Casa Grande as meninas perceberam que o acampamento ainda mantinha uma áurea festiva, porém não viram os grandes heróis em canto algum. Sara já estava planejando que se Steve não intercedesse por ela, teria greve até onde ela aguentasse. E tentaria ser forte. Laura nem se lembrou de Connor, pois ainda estava zangada com a atitude do filho de Hermes. Isabela ia pisando forte na frente com os punhos cerrados. As amigas sabiam que aquilo não iria adiantar nada, afinal, na frente de Quíron Isabela costumava se comportar.
As três entraram na Casa Grande e encararam Quíron, esperando somente ele iniciar a bronca.
— Garotas, o que vocês fizeram é inadmissível. Não tinham preparação para aquela missão. Infelizmente, terei que puni-las por essa atitude. –começou ele.
— Ok, Quíron. Realmente... É inadmissível se preocupar com os nossos amigos. Inadmissível ajudá-los. E a nossa preparação foi tão pouca a ponto de conseguirmos chegar vivas e inteiras aqui. Além do mais, arrisco a dizer que o acampamento não virou um caos apenas porque a missão foi eficiente, com nossa ajuda, claro. –disse Sara.
Quíron abriu a boca para falar, mas Laura resolveu se pronunciar também.
— Não é justo o que você e todos ali fora estão fazendo com a gente. Estamos sendo tratadas como se não fossemos nada. Tudo bem, erramos. Mas me responda, a missão fracassou por termos ido? Pelo contrário.
E então como se o argumento de Laura fosse o estopim que estavam precisando, Sara e Isabela desataram-se a falar. Quíron, que não conseguiu pronunciar uma palavra sequer não teve alternativa a não ser tentar escutar as três falando ao mesmo tempo e esperar até que se cansassem. Não foi uma tarefa fácil, já que as semideusas tinham muito fôlego guardado.
Quando já haviam passado trinta minutos no mínimo, Quíron ofereceu água para as meninas e pediu que eles se sentassem. Estranhando a falta de palavras do mesmo, elas obedeceram e aguardaram. Ele suspirou pesadamente e disse:
— Retirarei as honrarias dos garotos e o castigo de vocês. Pelo que contaram, vejo que vocês foram tão fundamentais na missão quanto eles.
— Bom... Não seria mais fácil você nos dar as devidas honras? –insinuou Sara.
— Acho melhor assim. Desculpa, meninas. Mas jamais repitam o que fizeram. No momento certo vocês terão suas próprias missões. –concluiu Quíron e elas não tinham mais o que falar.
Saíram da Casa Grande com um certo alívio. A fogueira já crepitava entre os chalés. As meninas sentaram-se uma ao lado da outra e começaram a conversar alegremente. Como antigamente. Como se não tivessem acabado de voltar de uma missão. Como se os meninos nunca tivessem desaparecido. Como se tivessem ficado juntas o ano inteiro. Ou até mesmo antes de tudo. Como se o CHB não existisse em suas vidas e como se fossem apenas adolescentes normais.
Estavam contando histórias e lembrando fatos divertidos de suas infâncias. Lembrando como costumavam ser bobas achando que já eram adultas e maduras em plena quinta série. Laura lembrou que Sara a esnobou quando tinha sete anos por não ter uma maquiagem. Isabela, que não sabia do relato, riu tanto que suas bochechas chegaram a doer.
Uma áurea de nostalgia subiu e as meninas sentiram-se em casa mais do que nunca. Sara contou que ela e Laura faziam uma brincadeira de criar histórias brincando de casinha. Sorteavam os nomes dos garotos presentes na sala de aula para se tornarem seus respectivos maridos e criavam histórias como se fossem casadas e tivessem filhos.
— Lembra que você ficou com o mais feio? Mas tínhamos combinado que não mudaríamos e você ficou com raiva? –falou Sara morrendo de rir.
Laura, já sem fôlego só confirmou com a cabeça. Isabela não riu, estava com raiva porque na época ela não tinha um marido, mas sua chateação durou pouco tempo, já que mudaram de história. O humor das meninas estava ótimo e a conversa animada quando os meninos chegaram com uma nuvem negra de raiva sobre suas cabeças. As três reviraram os olhos imediatamente.
Steve, extremamente desaforado, tomou a frente e disse:
— Por que diabos vocês foram falar merda pro Quíron?
Sara levantou-se de súbito.
— Como é que é, Steve? –desafiou. –Então as honras, bajulações dessas semideusas ridículas e toda essa exaltação são o que mais importam? Bom saber. –e sentou-se novamente ignorando o desaforo.
— Não é isso... –Connor tentou explicar, com um tom de voz mais baixo.
— É isso sim. –disse Laura magoada.
— Olha aí ó! Acabou o clima. Palhaçada isso aí. Vocês esqueceram a gente e foram se gloriar lá, pá porra vocês. Quero saber de nada mais não. Falamos com o Quíron sim, e foi justo.
— É, foi justo mesmo. Nem vocês e nem a gente. –falou Laura e Sara concordou avidamente. E elas encararam os meninos com determinação.
— Então vocês acham que acabar com nossas honras... –Steve foi interrompido por um cutucão de Leo que sinalizava pra ele parar de falar.
–Não adianta. – sussurrou Leo.
As meninas fizeram suas caras de triunfo enquanto os garotos sentaram ao lado delas. O clima era pesado, mas pelo menos não tinham que se preocupar com monstros e nenhum semideus perdido.
Isabela saiu correndo pouco tempo depois afirmando que estava com fome e lembrou que tinha guardado biscoito de porra debaixo do travesseiro antes da missão. Queria conferir se o pacote ainda estava lá e se não estivesse acharia o culpado. Leo também não se demorou, pois viu Karly e estava morrendo de saudades.
O primeiro a se desculpar foi Connor:
— Olha garotas, sentimos muito. Não foi uma atitude muito legal nossa ter aceitado o triunfo da missão sozinhos.
Elas o olharam com o rabo do olho como se dissessem "continue". Steve virou-se para o amigo como se o que Connor estivesse falando fosse a maior besteira de todos os tempos. Mas no final, depois de um beliscão de Connor, Steve se rendeu:
— Certo, certo... Eu também sinto muito, não teríamos conseguido sem vocês... Felizes?
Claro que a frase de Steve soou mais como um grunhiu, mas as meninas entenderam e depois da surpresa os sorrisos chegaram. Aos poucos, os semideuses foram se dispersando. Steve arqueou uma sobrancelha para Sara e mesmo relutante, a menina o seguiu. Por fim, Connor e Laura ficaram sozinhos.
Bastante sem graça, sem sabe o que falar exatamente, Connor arriscou perguntar:
— Laura... Sei que na maioria do tempo eu tenho sido um babaca. Eu sou um babaca. Mas é que... Preciso saber se... Ainda está chateada comigo?
— Sim. –respondeu ela secamente sem se dar o trabalho de ao menos olhar para o rapaz.
— Vai passar ou jamais terei chances?
Ela revirou os olhos.
— Connor, é claro que vai passar. Você sabe exatamente o que eu sinto por você, acho que eu já falei tudo. E acho que é do seu entendimento também que eu já cansei dessa nossa relação. Não está me levando a nada. O que eu quero é algo sério e se você não é a pessoa propícia para isso, sinto muito. Ela há de chegar um dia. Só peço que até lá, você não me atrase. Boa noite. –e saiu deixando atrás dela um Connor bastante desconcertado. A filha de Poseidon não estava mais com raiva e sim decidida.
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