Owari
8 Capítulo 8 (final)
Notas iniciais
OWARI
Capítulo 8
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— Boa noite, Sasuke Uchiha.
Sobressaltou-se ao ouvir aquela voz, uma voz que ele não se recordava ter sido direcionada à ele há muito tempo, mas que ouvira mais do que gostaria em sua infância. Definitivamente não era a pessoa que esperava visitá-lo no seu último dia de internação e, sendo bem sincero, ele não pretendia cruzar com essa pessoa tão cedo.
— Hinata. — ele saudou, não sabendo ao certo como cumprimentá-la no quesito sobrenome. Nunca se perguntou se Hinata adotara o nome de Naruto após o casamento, apesar de duvidar que o pai da garota permitisse que ela retirasse o sobrenome tão prestigiado de seu clã dos documentos.
Quando eram crianças, Sasuke e Hinata participaram juntos de alguns eventos de suas famílias. Eram eventos frios e puramente políticos, onde Fugaku Uchiha tentava fechar acordos com a família Hyuuga sobre a necessidade de manutenção das kekkei genkais dos clãs em Konoha; mais precisamente, manter as informações fechadas de qualquer outro clã de Konoha (ou algo igualmente estúpido, mas que Sasuke era novo demais para se recordar com detalhes).
Itachi, ainda criança e inocente o bastante para se comportar (parcialmente) como uma, mencionou certa vez à Sasuke que ouvira Fugaku e Hiashi discutirem o futuro do clã e proporem uma união decorrente de um casamento entre a herdeira mais velha do clã Hyuuga, a qual não exibia talentos maiores e só serviria para dar prosperidade ao clã aos olhos de Hiashi, e um dos filhos de Fugaku Uchiha.
No momento que aquele comentário foi proferido, Sasuke se desesperou intensamente: tudo que lhe passava pela sua cabeça era que Itachi iria se casar com Hinata Hyuuga e que nunca mais teria tempo para treinar com ele (leia-se “brincar”, pois Sasuke ainda era muito pequeno, mas não gostava de usar uma palavra tão infantil para definir o que eles faziam). Um pouco desesperado com essa perspectiva, e mesmo depois de várias palavras de Itachi do tipo “esqueça o que eu falei, não é nada certo, ainda somos muito novos”, Sasuke foi falar com sua mãe a respeito.
Mikoto, à época, achou a coisa mais adorável do mundo o ciúmes de Sasuke com relação a Itachi e um possível futuro casamento com alguém. Sasuke falou com ela como adulto, praticamente lecionando-a sobre o quão grave era obrigarem Itachi a se casar com alguém, e Mikoto não se conteve, agarrando a criança em um abraço e fazendo coceguinhas em sua barriga. Depois que o garoto mais novo parou de demonstrar indignação (uma crise de riso, por mais que forçada, sempre pode ajudar a melhora de ânimos), Mikoto explicou de uma maneira que Sasuke fosse entender o que Itachi ouvira acerca da reunião de Fugaku e Hiashi.
Ela confessou ser realidade o interesse que os líderes dos dois clãs tinham em unir as famílias em um casamento, gerando assim descendentes que tivessem o poder das duas kekkei genkais e, consequentemente, um domínio maior sobre Konoha. Todavia, garantiu que Fugaku não aceitou, em momento algum, um casamento forçado para qualquer um de seus filhos: o combinado que fizeram foi criar a oportunidade para que as crianças formassem algum vínculo, se conhecessem melhor e, se fosse do desejo deles no futuro, a união acontecesse quando tivessem a idade apropriada. Hiashi Hyuuga provavelmente não queria ser tão suave em sua abordagem, mas como Fugaku se recusava a forçar um de seus filhos a casar com quem não amavam. Foi por isso que Hinata, Itachi e Sasuke se viram em eventos recorrentes durante diversas vezes em suas infâncias.
Ao saber desta perspectiva, Sasuke passou a ignorar totalmente a presença de Hinata: nunca havia de fato interagido com ela, mas passou a sequer dar oportunidade para isso acontecer. Quando estes eventos aconteciam, Sasuke grudava às pernas de Itachi e o arrastava de um lado para o outro, evitando a garota a todo custo, culpando-a por ser uma ameaça a aproximação que tinha com o irmão, temendo que este saísse de casa em alguns anos para morar com ela.
Sasuke se mordia de ciúmes e perdia tanto tempo se preocupando com a perspectiva de Itachi e Hinata eventualmente namorarem, que nunca se deu conta de que seus pais davam mais oportunidades para que ele se aproximasse de Hinata do que para Itachi. Hoje, diversos anos depois, ele tinha um senso crítico maior e percebia melhor esses detalhes. Algumas vezes, Itachi não estivera presente nesses eventos, enquanto o mais novo era forçado a ir; mas nem mesmo assim Sasuke direcionava seu olhar para Hinata nessas ocasiões. Era irracional e infantil, mas ele morria de ciúmes, já que aquela garota, mesmo sem querer, poderia tirar seu irmão de seu convivo dentro de alguns anos.
Quando a dizimação do clã Uchiha ocorreu, obviamente Hiashi perdeu total interesse de fazer sua filha se casar com Sasuke ou o renegado Itachi. Sasuke não deu muita atenção à época, preso demais em sua raiva e decepção para se preocupar com situações tão triviais, mas agora percebida que não seria mais interesse do clã Hyuuga a união com um órfão, sem hierarquia familiar e com uma história trágica que obviamente traria mal agouro, mesmo que Sasuke ainda possuísse o gene do sharingan forte em seu sangue. O clã Hyuuga não foi sequer no enterro de sua família, e Sasuke só não os odiou intensamente à época porque seu ódio era, em sua totalidade, direcionado a uma única pessoa.
Era irônico como a situação se inverteu no decorrer dos anos: Hinata, a qual também nunca possuiu interesse em um Uchiha, conseguiu fazer sua família aceitar um “órfão sem hierarquia familiar” como marido, casando-se com alguém que Sasuke não desejava longe de si. Não foi Itachi, mas foi Naruto, o que de certa forma era muito pior.
Sasuke sabia que era irracional e que Hinata nada sabia acerca do passado que quase foi imposto aos dois, tampouco do grande ciúmes que ele possuía (e ainda possui), mas ele não podia evitar o sentimento ácido de rivalidade em seu âmago ao vê-la entrar em seu quarto de hospital sem ser convidada.
Hinata fechou delicadamente a porta assim que adentrou, caminhando com passos suaves até a borda da cama do Uchiha, o qual se movimentou para se sentar e encará-la com certa dignidade: não apenas por Hinata ser a ex-esposa de Naruto; sua rivalidade fazia com que ele se recusasse a ser visto como inferior por ela, mesmo sabendo que a desculpa de estar se convalescendo ainda era totalmente aceitável.
Não que ele fosse admitir sua necessidade de autoafirmação perante qualquer pessoa, é claro. Nem quando competia com Naruto ele lhe dava o gostinho de saber que havia de fato uma competição; revelar algo assim para Hinata estava fora de questão. Ela morreria sem saber os planos de união dos clãs e seu ciúmes por Itachi. Ponto final.
— Não se esforce, eu sei que você ainda está se recuperando. — ela falou com um tom de voz suave, apesar de se notável nuances de amargura em sua voz — Não se levante.
Sasuke, sendo o cabeça-dura de costume, a ignorou completamente e se colocou de pé ao lado dela, olhando-a de cima e sentindo-se extremamente feliz pera sensação de superioridade que a diferença de altura lhe proporcionava. Agradecia mentalmente Sakura por ter lhe permitido trazer roupas soltas e casuais para vestir ao invés de indigna camisola hospitalar, e torcia para seus cabelos não estarem tão bagunçados.
Sasuke sentia até raiva de si próprio: apesar de toda infantilidade de seu sentimento de comparação e rivalidade, ele tinha ciência de que não havia motivos para se sentir assim. Naruto o escolheu, afinal de contas, e isso teria que bastar; mesmo que ele estivesse totalmente farto das fofocas dos corredores e expressões do tipo “Não acredito que o Hokage deixou da herdeira Hyuuga por um desertor!”.
— O que veio fazer aqui? — ele questionou, se controlando o máximo que conseguia para sua voz não sair tão acusatória.
— Eu vim ver como você está. — ela respondeu, um pouco tímida, abaixando o olhar e fitando a aliança dourada na mão direita de Sasuke, bela e um pouco folgada em seus dedos pálidos e finos pelo tempo em coma — E vim te contar algumas coisas.
Sasuke cruzou os braços, sentindo-se desconfortável com a forma como ela olhava para seu anel. Hinata se deu conta do que fazia e voltou a encarar o rosto do Uchiha, e ele percebeu que ela exibia vestígios de olheiras mal cobertos pela maquiagem.
Ainda sim, ele não conseguia sentir pena dela. E, sendo bem sincero, ele tinha certeza que “pena” é o tipo de sentimento que nenhum Shinobi quer que outro sinta por si.
— Ele sempre te amou. — Hinata falou, depois de um longo e desconfortável silêncio — Completamente, e a todo momento. Sempre mesmo. Nem por um instante desse casamento eu tive algum tipo de certeza que ele sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele, mas eu quero que você saiba, Sasuke, que eu nunca quis fazer algo pelas suas costas.
— Você não está falando sério, está? — Sasuke a questionou, estupefato — Ele se divorciou de você pra ficar comigo, e você está vindo aqui me dar satisfação?
Era até absurdo pensar em algo assim. Perante o olhar de todos, ela era a injustiçada, ela fora abandonada, havia até quem dissesse que ela fora traída (apesar de Naruto ter se preocupado muito para não trair Hinata). A fofoca espalhara entre todas as vilas, o augúrio caiu sobre o clã Hyuuga, Sasuke nem tinha como imaginar como Hiashi Hyuuga estava reagindo a tudo isso e o quanto a pressionava pelo desfecho trágico do casamento.
E ela, apesar de tudo isso, vinha dar satisfação à Sasuke? Isso não podia ser verdade. Essa mulher era piedosa e benevolente demais, Sasuke nem sequer sabia como reagir perante tudo isso.
— Em primeiro lugar, eu quero que você tenha ciência que Naruto e eu nos divorciamos independentemente de você. Era uma questão de tempo, o casamento não ia bem. — ela afirmou, um pouco ofendida com as palavras de Sasuke, mas compreendendo sua linha de raciocínio — Mesmo se você morresse, Naruto e eu teríamos nos separado. Se ele não pedisse o divórcio, eu pediria; eu me decidi que precisaríamos terminar no mesmo dia que vocês iniciaram a viagem para a reunião da Aliança Shinobi.
Sasuke não queria admitir sua curiosidade e perguntar “e o que foi sua gota d’água?”. Mesmo mantendo o silêncio, Hinata percebeu sua curiosidade e resolveu responder a pergunta silenciosa.
— Naquele dia, Sakura me chamou para tomar um chá e me explicou um pouco mais sobre o relacionamento de vocês dois. Situações que eu, como não sou membro do Time Sete, nunca cheguei a presenciar. Acontecimentos que durante muito tempo ela encarou como simples demonstrações de amizade, mas que hoje ela via como algo além. — Hinata suspirou, deixando seus olhar determinado vacilarem um pouco e demonstrar o cansaço emocional que ela tentava esconder — Sakura não disse com todas as letras que vocês se amavam romanticamente, mas me deu elementos para que eu parasse de me enganar.
Sasuke abriu a boca para questioná-la, mas Hinata ergueu uma mão a sua frente, fazendo um sinal para que ele não falasse e ouvisse atentamente sua explicação.
— Eu sei o que você está pensando, e por favor pare. — Hinata pediu, sentindo-se mal por receber o olhar incrédulo do Uchiha, que o fitava como se ela fosse alguma espécie de santa — Os boatos percorreram os países e eu mal consigo dar um passeio com meus filhos sem ser abordada sobre perguntas relativas a separação; obviamente eu não estou feliz com essa atenção negativa. Mas eu estou pagando pelo que eu escolhi pra mim, porque eu sempre soube...
Ela sentou-se à borda da cama de Sasuke, mesmo sem receber uma oferta para que o fizesse, e cobriu o rosto com as mãos, suspirando fundo algumas vezes antes de levantar a cabeça e tornar a falar.
— Eu sempre o observei, desde criança. — ela explicou, referindo-se a Naruto com um tom de voz neutro — Realmente, no começo eu não entendia o que Naruto sentia ao olhar pra você com tanto tom de desafio e, ao mesmo tempo, com os olhos brilhando em felicidade. Eu pensei que vocês fossem amigos-rivais e nada mais, assim como Lee e Neji-nii-san. Mas ai você se foi, e logo depois Naruto foi treinar com Jiraiya-sama por algum tempo. Quando ele voltou, eu percebi que a distância de nada adiantou para Naruto diminuir o sentimento que tinha por você; parecia até que ficou mais forte com os anos, mesmo que vocês não se vissem há tanto tempo.
Sasuke não ousava proferir uma única palavra, gostando de ouvir o que Hinata tinha a dizer sobre os sentimentos de Naruto de momentos que ele não estava presente; apesar de saber que o Uzumaki nunca deixou de pensar nele, era reconfortante saber que até quem estava de fora dessa relação percebia, em alguma intensidade, a força do sentimento que eles possuíam.
— Kiba vivia tirando sarro da forma como Naruto agia e insinuava um monte de coisa, era apenas provocação de adolescente; só que mal ele sabia que suas palavras eram reais. — ela concluiu, dando um sorriso triste que não atingiu seus olhos — E então você apareceu no meio da guerra e, ao ver vocês lado a lado, sorrindo no campo de batalha e combinando suas técnica de combate de uma forma que eu nunca vi dois ninjas fazerem, eu tive certeza que vocês tinham uma conexão mais intensa do que eu poderia tentar entender. Não sabia se havia paixão, mas sabia que ia mais além que mera amizade.
Sasuke calou-se por um longo período de tempo, avaliando-a com novos olhos. Ele nunca conheceu de fato Hinata Hyuuga e sempre teve diversos preconceitos com relação à ela, acreditando nas palavras de Hiashi e vendo-a como uma herdeira sem talento, nada mais do que isso. Mas agora ela se provava ser alguém muito mais complexa do que ele imaginara inicialmente.
— Então por que, mesmo assim, aceitou se casar com ele? — ele se viu obrigado a perguntar, verdadeiramente curioso com a resposta que receberia.
Ela manteve o sorriso melancólico a postos enquanto respondia.
— Ai está o motivo de eu não querer que você me olhe com tanta admiração: porque eu tinha a esperança de que Naruto nunca compreendesse a intensidade do que ele sentia por você. Ele gritava aos ventos que vocês eram amigos, e eu me prendia a essa declaração, achando que Naruto se manteria nessa negação e que poderia me ver de outra forma. No dia que vocês foram para a reunião Sakura, sutilmente, me fez aceitar o que eu me recusava a acreditar, e não teve mais para onde correr. Acredito que Naruto até chegou a me ver “de outra forma”, mas não foi o suficiente pra esse casamento sobreviver; tanto o tempo quanto o seu retorno foram grandes ameaças a essa união.
— Eu não-... — ele tentou se defender, mas ela o interrompeu, continuando seu discurso.
— Não se preocupe em me dar desculpas. Eu não posso te culpar por nada que deu errado no casamento. E mesmo que Naruto não te visse há anos, eu sabia que nem por um instante ele deixou de pensar em você. — a Hyuuga parecia um pouco aérea enquanto falava, olhado para cima e se perdendo em lembranças — Às vezes, ele olhava para mim e eu tinha certeza de que ele estava desprendendo sua atenção pra mim, mas as vezes eu tinha dúvidas. Era uma intuição, uma intuição muito forte, que eu preferi ignorar do que dar ouvidos. E por isso digo: eu apenas estou vivenciando o que escolhi pra mim, porque eu escolhi a dúvida e sabia que um dia eu poderia me decepcionar com a verdade.
Um novo silêncio desconfortável se fez presente, e Sasuke se viu forçado a falar algo. Pigarreou, avaliando o que diria com certo receio, mas achando injusto com Hinata se ele falasse algo falso ou superficial como um simples “sinto muito”.
— No meu tempo de peregrinação, eu não imaginei que Naruto fosse se casar ou se envolver com qualquer outra pessoa, muito menos com você. — Sasuke tentava manter um tom de voz neutro, apesar de suas palavras parecerem rígidas e um pouco julgadoras — Nós não chegamos a assumir qualquer tipo de compromisso, mas eu achei que tinha deixado claro que voltaria para que nós dois nos acertássemos; de certa forma estava claro, mas ele é um Dobe que pensa demais e faz besteiras toda hora, era de se esperar que ele fizesse uma besteira das grandes.
Hinata pareceu extremamente ofendida naquele momento, até mesmo em choque com o que acabara de ouvir. Quando ela alterou sua expressão facial e abriu a boca para se defender, Sasuke fez o mesmo gesto que ela fizera anteriormente, pedindo para que continuasse a ouvir o que ele tinha a dizer.
— Não estou dizendo que o seu casamento com ele foi uma “besteira”; mas Naruto fez sim uma besteira em te envolver nessa história e fazê-la sofrer atoa. Não havia necessidade disso acontecer, você não precisava passar por isso.
— Está querendo dizer que talvez tivesse sido melhor se Naruto não tivesse casado comigo?
— Talvez. Pouparia vocês dois de sofrimento, não pouparia?
Hinata relaxou visivelmente, compreendendo o que Sasuke queria dizer, apesar de sua total falta de tato em abordar o assunto. Sasuke nunca foi a pessoa mais polida pessoa em suas abordagens, e ela teria que levar isso em consideração para não se irritar.
— Discordo. — ela respondeu, balançando a cabeça em negação — Eu não me arrependo e sei que ele também não se arrepende. Naruto diz que me ama e que quer me ver feliz, e que eu dei a ele os presentes que ele jamais conseguirá com outra pessoa: os nossos filhos. Que eu sempre estarei presente na vida dele e que terei sua eterna gratidão e amor por tê-lo aguentado mesmo com todos os seus defeitos, mesmo com toda a incompletude do casamento que acabamos por ter.
Sasuke sentiu um ímpeto de ciúmes, e isso o fez lembrar da conversa que tivera com Kurama, quando ele foi chamado de “possessivo”. Ouvir Hinata dizer que Naruto ainda a amava, mesmo que ele soubesse que se tratassem de amores diferentes, não fazia nada bem para seu ego.
Ainda sim, ele iria se esforçar para não botar tudo a perder por causa dessa sua natureza que ainda deixava alguns vestígios em seu comportamento. Reconhecer o defeito é o primeiro passo a ser tomado, não é mesmo?
— Até agora você não foi clara no que veio fazer aqui, Hinata. — Sasuke respondeu, não exibindo as melhores das feições para a mulher, um pouco enfadado com sua companhia.
— Eu vim até aqui, Sasuke, para que você soubesse que eu estou deixando Naruto ir sem uma briga porque eu nunca o tive de fato, e se o tivesse não teria sido tão fácil pra você. — falou, com sinceridade — Estou aqui para que você não me coloque como a santa de um altar, e que saiba meu desejo egoísta de ter ignorado todos os sinais tentando ser feliz com quem me apaixonei. Estou aqui para dizer que jamais vou aceitar qualquer forma de desrespeito com meus filhos, e que, se você fizer algo contra eles, eu não serei nem um pouco benevolente.
Sasuke lembrou-se com um pouco de culpa da maneira como utilizara o Susano’o para atormentar Bolt, e soube pela dureza no olhar da Hyuuga que ela também não havia se esquecido desse acontecimento.
No entanto, surpreendendo-o pela mudança de ares, ela sorriu minimamente.
— E, por fim, estou aqui para te pedir que faça Naruto feliz. Faça-o feliz como eu nunca consegui fazer, porque tudo que eu mais quero é vê-lo sorrir diariamente da forma como ele sorriu quando você o chamou de “usuratonkachi” antes de vocês viajarem; acho que desde o nascimento de Himawari eu não o via sorrir dessa forma.
Foi neste momento que Sasuke finalmente percebeu o que Naruto viu em Hinata para casar-se com ela. Apesar de todo o ciúmes, ele sentia-se grato pela sua pessoa mais especial ter passado anos ao lado de alguém como ela. Definitivamente não era uma santa, como ela mesmo afirmou, mas era bondosa ao ponto de sentir-se feliz ao ver quem ama sendo feliz.
E como Gaara o havia dito há alguns anos em um dos encontros que tiveram: só quem ama de verdade consegue sentir-se assim. [1]
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(***)
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Sarada estava sentada à beira do píer, observando a superfície límpida do lago do Distrito Uchiha e ouvindo os sons suaves de passarinhos que estranhamente cantavam ao pôr-do-sol. Não era muito comum que ela estivesse fora de casa nesse horário, mas não tinha afazeres acumulados e definitivamente não queria ouvir as insistências de sua mãe. Sair foi uma boa pedida, inicialmente ela até sentia que teria um pouco de paz naquela tarde, mesmo que estivesse esfriando aos poucos.
Todavia, muitas as vezes estar sozinha e em silêncio traz muito mais o sentimento de melancolia do que o de paz... Foi inevitável, em poucos minutos ela já estava perdida em sua insatisfação, pensando em sua família.
Ultimamente Sakura a perseguia a todo momento quando estava em casa, tentando convencê-la a conversar com seu pai, o que Sarada se recusava veementemente a fazer. Não foi sequer visitá-lo no hospital quando descobriu toda a verdade, mesmo que tivesse se sentido extremamente preocupada ao descobrir que ele se encontrava em Konoha internado há meses, ao invés de em missão externa, como tentaram-na convencer durante todo aquele tempo.
Sasuke a procurou algumas (muitas) vezes depois de ter alta, mas Sarada sempre mantinha-se trancada no quarto em suas tentativas de comunicação. Ela sabia que se seu pai quisesse forçá-la a conversar, a porta trancada seria apenas um mero inconveniente. Ainda sim, ele respeitou sua vontade até então e não a forçou depois de cada “suma daqui!” que ela gritava de dentro do cômodo trancado.
— Por que eu não posso ter uma família normal? — ela perguntou ao vento, balançando as pernas na beirada do píer e deixando uma pedra cair de encontro a superfície do lago, desestabilizando seu reflexo outrora bastante nítido.
Ficou alguns minutos naquela posição, se lamentando, sofrendo intensamente pela decepção que passou ao saber que seu pai assumira um compromisso amoroso justamente com Nanadaime. Sarada nem sequer conseguiu encarar qualquer membro da família Uzumaki depois do acontecido, por diversos motivos, sendo o maior deles a injustiça que ela sentia.
— Sarada. — ouviu a voz de Bolt chamá-la bem de perto, transbordando preocupação em seu tom de voz — Vai continuar me evitando pra sempre, é?
Sarada suspirou, fechando os olhos com impaciência e ativando o sharingan antes de fitar Bolt com irritação; sentia-se uma babaca por mais uma vez não conseguir notar a presença dele, mas iria mandá-lo embora, expulsá-lo do Distrito Uchiha, pois não estava nem um pouco disposta a ouvir qualquer ladainha que ele fosse falar. Ela realmente o evitava há semanas, e ele não tinha direito algum de impor sua presença em seu território desta forma; já bastava ter que fugir dele sem parar da Academia!
Mas, ao encará-lo, Sarada deixou sua kekkei genkai desativar enquanto seu olhar adotou ares de preocupação, logo controlando suas feições e deixando-as severas novamente antes que Bolt percebesse suas reais emoções ao vê-lo.
— Idiota. — ela sussurrou; apesar de ser o apelido que sempre usava para Bolt, ela realmente parecia xingá-lo naquele momento — Você vai me dizer que esteve todo esse tempo esperando eu sair de casa pra falar comigo?
Bolt, o qual exibia pesadas olheiras abaixo de seus olhos azuis, coçou o olho direito com o punho fechado e controlou um bocejo. Parecia não dormir bem há dias, e Sarada sentiu um pouco de pena e preocupação por vê-lo assim. Não era normal Bolt estar cansado, pois sempre exibia energia em demasia e até mesmo a irritava com toda aquela vitalidade — uma fachada que o próprio garoto adotava com tanta frequência que chegava a se tornar quase natural.
Apesar de claras semelhanças existirem entre as crianças e seus respectivos pais, eles não eram cópias escarradas de seus familiares. Enquanto Sarada detinha a seriedade de um Uchiha, ela costumava ser muito mais afável com àqueles importantes para ela; Sasuke também tinha um ponto fraco por certas pessoas e uma maneira única de expressar seus sentimentos, mas Sarada não era tão rígida como o pai. Bolt, por outro lado, também era enérgico e sorridente como Naruto, mas não confiava tão facilmente nas pessoas ou se mantinha feliz em qualquer adversidade que aparecesse. Não era tão otimista, e aquelas olheiras só provavam ainda mais que Bolt era Bolt, e não um mini-Naruto.
— Só nos seus sonhos, chata. — ele respondeu, sem parecer se esforçar para enganá-la — É uma coincidência eu estar aqui.
Ah claro. — ela pensou — Como se o Bolt fizesse esse caminho todos os dias para passear.
Sarada preferiu não discutir, mas também não sentiu vontade o suficiente de brigar com Bolt ou tentar evitá-lo mais uma vez. Estava claro que ele se esforçou muito para encontrá-la fora da Academia, e ela não seria tão sem-coração ao ponto de fugir depois de todo esse esforço. Por mais que ela não admitisse com muita frequência, ele era seu amigo e ela não gostou de vê-lo assim.
Sarada esqueceu de considerar que não era somente para ela que a situação estava sendo difícil de engolir: Bolt parecia preocupado com ela, ele jamais confessaria isso, mas ele também passou por mudanças gigantescas em sua família e era normal estar desestabilizado naquele momento; e ela sentia-se extremamente culpada por não ter considerado que ele poderia estar sofrendo como ela.
Por isso, ela bateu levemente a mão no píer, convidando-o silenciosamente a sentar-se do seu lado. Bolt não perdeu tempo, encostando seu ombro ao dela enquanto também balançava as pernas que quase tocavam o lago.
Sarada suspirou, sentindo-se inquieta com a proximidade física do momento.
Antes mesmo de toda confusão acontecer, ela não se sentia mais tão à vontade próximo do rapaz. Não sabia direito o que acontecia, mas suspeitava que esse sentimento decorria da grande semelhança física que Bolt tinha com Nanadaime: essa semelhança a fazia sentir uma dor emocional forte toda vez que ela o fitava; doía mais do que ela podia admitir, e esse era o principal motivo dela fugir de Bolt como o diabo foge da cruz nas últimas semanas.
Tudo que aconteceu desde a volta de seu pai não foi o único motivo para Sarada ficar com tanta raiva. Claro, ela realmente queria que seu pai se casasse com sua mãe e eles se tornassem uma família normal, e ficou muito desapontada quando descobriu que ele tinha envolvimento amoroso com outra pessoa, mas o problema principal foi com qual pessoa ele se envolveu: Sarada não se importava o fato de seu pai aparentemente ser homossexual, apesar do choque inicial, mas... Justamente com uma das pessoas que ela mais admirava, até mesmo idolatrava em certa medida?
Podia ser qualquer um, qualquer um mesmo. Mas só por ser Naruto Uzumaki, doía três vezes mais.
— Você tem que parar com isso, Sarada. — Bolt interrompeu seus pensamentos, olhando para o horizonte e preferindo não fitar a garota enquanto falava — Estamos todos preocupados com você.
— Seu pai te mandou falar comigo, foi? — Sarada respondeu amargamente — Ou será que meu pai já tá frequentando sua casa e te pedindo favorzinhos?
— Ninguém me pediu nada, e eu quase não vejo seu pai. — o loiro argumentou, sentindo-se irritado com a hostilidade de sua amiga — Pra falar a verdade, as vezes eu acho que vai aparecer alguém e dizer pra mim que tudo nunca passou de uma pegadinha, porque eles não parecem um casal.
— Mas eles são. — ela murmurou, abaixando o olhar — Podem não ficar demonstrando por ai, mas são.
Bolt ficou quieto por alguns minutos, se concentrando em balançar as pernas para frente e para trás, tentando pensar no que deveria responder à Sarada.
No caso de Bolt, a separação obviamente o impactou. Depois do primeiro mês de muitas brigas, sua mãe tentou conversar com ele a respeito e o fez compreender que ele não deveria ter remorsos, que esse tipo de coisa, apesar de não ser muito comum em Konoha, acontecia. Casamentos acabavam e, de certa forma, Naruto e Sasuke sempre se gostavam desde adolescentes, os dois que foram cabeça-dura demais para vivenciarem o que sentiam.
Ver sua mãe confessar algo assim o deixou inicialmente mais furioso ainda, pois considerou que Hinata tinha sido enganada durante todo o casamento, mas mais conversas surgiram, mais explicações, mais estresse, até que um dia Himawari simplificou tudo:
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— Mas aniki... — Himawari chamou sua atenção com uma voz suave e tímida, assistindo Bolt realizar o treino de arremesso ao alvo com mais intensidade do que o costume — Papai e tio Sasuke estão felizes, não estão?
Ao ouvir seu questionamento, Bolt atirou sem precisão e errou a mira, acertando metros de distância do alvo. Deixou um ruído de frustração escapar de sua garganta e girou os calcanhares, encarando os olhos curiosos de sua irmã.
Bolt costumava ter uma personalidade condizente com a sua idade, mas quando estava na presença de sua irmã, ele instintivamente adotava uma postura mais protetiva e paciente. No entanto, no momento ele estava especialmente furioso, porque sua mãe novamente lhe pediu para ser mais compreensivo com o pai, os dois acabaram de discutir e ele decidiu sair para treinar. Himawari se juntou a ele e assistia seu treino, enquanto ele tentava manter a calma para não demonstrar sua irritação para a menor; se ela questionou aquilo, era porque já havia notado sua indignação e queria ajudá-lo.
— Não é tão simples, Hima-chan. — Bolt respondeu, um pouco impaciente com a situação como um todo.
Himawari não havia reagido à separação como ele. Bolt não sabia até que ponto a garota compreendia a magnitude do que acabara de acontecer, pois não estava presente no momento que seus pais deram a notícia para ela; mesmo assim, Bolt não conseguia compreender como ela podia estar tão calma com tudo aquilo.
— É sim. — ela disse, abrindo um sorriso radiante — Mamãe também está mais feliz. Estão todos felizes, nii-chan.
Naquele momento, Bolt ouviu de longe a risada suave de sua mãe, a qual recebia a visita de tia Hanabi e seu primo. Inicialmente, Bolt só pode concluir que Himawari estava equivocada, como sua mãe ficaria feliz com o que aconteceu?
Mas, parando para pensar bem, fazia sentido. Ela sorria mais, parecia mais serena. Não aparentava mais perder a vida aguardando seu marido voltar de missões, não estava estressada com o casamento que já parecia não funcionar bem há algum tempo. Estava divorciada, era verdade, e no início foi difícil se readaptar e aceitar esse novo status; ainda era difícil, Bolt sabia que sua mãe ainda sofria pela pressão do clã e julgamento social. Ainda sim, ela parecia mais feliz: voltara a trabalhar e retornava sempre com presentes para as crianças e grandes histórias das missões que fazia com Shino e Kiba. Hinata se tornara alguém que Bolt nunca chegou a conhecer, mas que provavelmente retomava a garota antes de casar-se com Naruto.
E, de certa forma, Bolt tinha que admitir que via mais felicidade no olhar de sua mãe agora do que antigamente.
— Você realmente acha que ela está feliz? — questionou à sua irmã, finalmente compreendendo a situação com outros olhos.
— Sim! — ela respondeu, radiante — Mamãe está sorrindo mais. Eu sinto falta de ter mamãe em casa mais vezes, mas ao menos agora nós vemos mais o papai. Então eu estou feliz também, porque tá todo mundo feliz e isso me deixa feliz.
Naruto e Hinata dividiam a guarda dos filhos de maneira informal: como Naruto estava sempre em Konoha, principalmente agora com todas as implementações do novo sistema de ensino e da Aliança Shinobi, as crianças ficavam em suas instalações sempre que Hinata saia em missão. Ela saiu um pouco mais nas primeiras semanas de pós término, mas agora costumava ficar fora no máximo três dias na semana fora de Konoha. E como ela voltava para casa feliz em se sentir útil como kunoichi novamente, Bolt e Himawari jamais reclamavam da ausência da mãe.
Aliás, por mais que Bolt ainda tivesse certo ressentimento com seu pai, era inegável que agora possuía muito mais tempo com ele. Naruto o chamava para treinar, para brincar ou qualquer atividade recreativa de pai e filho; seus poderes com jutsus melhoraram mais nos últimos meses do que em toda sua vida acadêmica e, por mais que Bolt fizesse birra ao lado de Naruto, não dando um braço a torcer por conta da separação, ele sempre acabava deixando uma risada ou um sorriso escapar quando passava um tempo ao seu lado.
Apesar de todos os pesares, o relacionamento de Bolt com Naruto melhorou muito desde a separação, e ver sua mãe satisfeita era uma realidade que ele ainda não havia assimilado.
— Acho que você tá certa, imoto...
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Depois daquela conversa inocente, mas extremamente esclarecedora, Bolt refletiu durante algum tempo, e se convenceu totalmente de que Himawari estava certa: todos estavam mais felizes com a mudança, inclusive ele e sua irmã. Mesmo que as pessoas de fora do casamento julgassem sua família e as escolhas feitas, o que importava era a felicidade deles, não é mesmo? E, ao chegar à essa conclusão, Bolt tentou de todo modo ficar a sós com Sarada e convencê-la do mesmo. Ele praticamente mal dormia desde então, tentando confrontá-la, o que se mostrou uma tarefa bastante difícil.
Essa era a sua oportunidade, ele não podia desperdiçar.
— Como você se sente? — ele perguntou depois do longo silêncio se tornar insustentável.
Sarada deixou uma risada sarcástica e abafada escapar.
— Como você acha?! — perguntou, ironicamente, cruzando os braços.
— Eu vou te dizer como eu sinto. — Bolt rebateu, ignorando o tom de voz da amiga, virando-se para ela e olhando-a com determinação — Eu sinto indignação por ser tudo diferente agora, por meus pais não estarem mais juntos. Eu sinto os outros olhando pra mim e as fofocas que rolam quando eu passo, principalmente entre os mais velhos, que acham que eu não seria capaz de perceber os cochichos.
Sarada o observava com igual intensidade, amaciando as feições e desprendendo uma preocupante atenção ao que Bolt lhe dizia. O garoto fingia não perceber a leve maciez no olhar da amiga, justamente porque se comentasse algo, ela iria negar até a morte.
— Mas quando eu chego em casa, eu me sinto... bem. Eu sinto que aos poucos nossa família está se encaixando, se adaptando. Minha mãe parece mais feliz, minha irmã está super contente, e meu pai está ao meu lado. Eu... eu estou mais feliz, Sarada.
A garota se surpreendeu, arregalando o olhar em descrença, até mesmo um pouco de indignação.
— Não diga bobagens! Como você pode estar feliz com isso? Seus pais separaram! Sua família perfeita acabou!
— Desde quando eu tinha a família perfeita, hein? — ele retrucou, colocando-se de pé em um pulo — Você acha que era tudo perfeito pra mim? Que a família perfeita era o que eu tinha? Minha mãe e meu pai discutiam tanto sem chegar a lugar nenhum que simplesmente pararam de conversar! Mal ficavam um com o outro! Meu pai sumia, desaparecia por semanas, porque não se sentia mais feliz naquela casa, e minha mãe sofria por isso. Você acha que isso é perfeito?
— Você tinha pai e mãe casados, isso é muito mais do que eu tive! — ela argumentou, mas sua voz soou incerta, e ela disfarçou o deslize colocando-se de pé.
Nunca havia passado pela cabeça de Sarada que o casamento dos pais de Bolt tinha imperfeições; ele nunca havia confessado algo assim.
— E daí? — Bolt respondeu, abrindo os braços, indignado — Quem tá de fora nem sempre percebe como funciona a família dos outros. Antes todos pensavam que eu tinha a família perfeita e eu não tinha, agora todos pensam que estamos vivendo um inferno, enquanto na verdade não estamos.
Sarada ainda manteve seu olhar firme por alguns segundos, mas inevitavelmente cedeu, abaixando o rosto e fitando seus pés. O vento começou a se tornar gélido e ela já não sabia mais se o frio que sentia era relacionado ao clima, ou a toda essa confusão sentimental que ela tinha que enfrentar.
E então tudo mudou: ela sentiu-se quente. Não porque o vento parou, mas porque Bolt deu um passo à frente e a abraçou, de maneira inocente mas reconfortante, transmitindo-a um tipo de afeição extremamente raro entre eles.
— O que eu quero dizer é que você também tem o direito de ser feliz. — ele falou de forma suave, soltando-a do abraço e abrindo um largo sorriso para ela — Eu sei que é confuso e que muita gente vai achar que é um absurdo estarmos felizes nessa situação, mas pense bem: seu pai está de volta, está vivo! Ele quer se aproximar de você, e sua mãe aceita isso numa boa. Não é muito mais do que era há um ano atrás? Então... fica feliz, sua chata!
Sarada ouviu o conselho de Bolt, mas estava com dificuldade de assimilar o que lhe fora dito, por problemas físicos: o coração de Sarada acelerou tanto que ela achou que seu corpo estava tendo um colapso, e ela tinha alguma leve impressão de que o sorriso e o abraço eram os causadores desse mal cardíaco.
Odeio ficar perto do Bolt por causa disso! Odeio quando meu coração faz isso!
— Eu te odeio, idiota. — ela respondeu, sem pensar no que dizia, mas sua voz saiu tão suave que Bolt não pode levar essa declaração a sério.
— Nananinanão, na verdade você odeia quando eu estou certo! — ele respondeu, ainda com um sorriso enorme nos lábios.
— Cale a boca!
Sarada não sabia mais o que deveria dizer, nem como deveria agir. Sabia que tinha muito que pensar, e que o que Bolt acabara de dizer fazia muito sentido.
Mas, naquele momento, retribuir o abraço do amigo e se perder em seu conforto se mostrou algo muito mais coerente e imediato do que qualquer outra coisa. E foi isso que ela fez: o abraçou, e ele correspondeu. E, pelos próximos cinco minutos, nenhum dos dois sentiu frio, ou se preocupou com o certo e errado de casamentos, da sociedade, e qualquer coisa assim.
Apenas foram felizes, como crianças devem ser.
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(***)
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— Você deveria tentar falar com ela, sabe. Hoje é um dia de comemoração, ela está feliz, quem sabe ela não-...
— Sakura, — ele a interrompeu, fazendo-a se calar — Você disse tudo: hoje é um dia de comemoração. Eu não quero estragar o dia dela.
Sakura desviou o olhar orgulhoso que direcionava à filha, a qual agora era abraçada com toda força por Bolt e quase caia no chão, e focou sua atenção ao amigo: Sasuke também parecia emocionado, não se descontrolara ao ponto de chorar como ela fazia neste instante, mas estava emotivo ao ponto de forçar a sua face estoica à postos, aquela que ele constantemente usava quando queria esconder seus reais sentimentos.
Assistir a formatura da filha na academia trazia intensas sensações à Sasuke. Em sua própria formatura, Sasuke sentiu-se extremamente só e desamparado. Itachi já havia massacrado o clã à época e, apesar de ele fingir que não considerava aquele momento nada mais do que uma etapa a ser cumprida em direção a sua eventual vingança, Sasuke sentiu-se uma pessoa extremamente miserável. Quase a totalidade de seus colegas foram recebidos pelos seus pais, com ares de comemoração e sorrisos radiantes, enquanto ele e Naruto apenas trocaram um breve olhar de reconhecimento da solidão (o qual fingiam que não havia acontecido) e partiram cada qual para sua própria casa. Para o pré-adolescente Sasuke, aquele foi o segundo pior dia da sua vida, perdendo apenas para o dia do massacre em si. Não era uma lembrança boa, era melancólica e solitária.
Ter a oportunidade de criar uma nova lembrança com relação à cerimônia de formatura Genin, ao se encontrar presente à formatura de Sarada, era a realização inimaginável. Quer dizer, ele nem imaginou que um dia teria filhos, quem dirá ter a honra de estar presente na formatura de sua filha. E ter retornado à Konoha (e despertado do coma) a tempo, vê-la tão radiante e feliz ao lado do seu melhor amigo, era um acontecimento capaz de deixá-lo extremamente emocionado.
Não importava se eles não estivessem em bons termos, ou se para ela pouco importasse ele estar ali ou não. Não importava que ela sequer tinha trocado um olhar com ele durante todo o discurso que ela mesma proferiu como oradora de turma. Nada disso importava. Ela estava feliz, ela se lembraria daquele momento como um dos momentos mais felizes de sua vida, ao contrário dele, que lembrava de sua formatura com tanta amargura.
Isso era maravilhoso; era maravilhoso que sua filha tivesse uma vida melhor do que a dele, era reconfortante vê-la tão satisfeita em sua vitória, mesmo que ela não compreendesse a magnitude do que acontecia. A despeito de qualquer problema que os dois estivessem enfrentando, ele estava orgulhoso. Muito orgulhoso. E não queria deixar sua filha com um humor amargo ao tentar forçá-la, mas uma vez, a falar com ele.
— Você tem certeza disso, Sasuke? — Sakura questionou, ao mesmo momento que as crianças começavam a se aproximar da multidão e procuravam seus familiares; os dois observaram Bolt correr para Naruto, que o aguardava no palanque do Hokage, de braços abertos e um sorriso cheio de dentes, ao lado de Hinata e Himawari [2] — Não quer aguardar ela chegar aqui e ver como ela vai reagir?
— Não quero estragar a felicidade que ela merece ter neste dia. — Sasuke murmurou, acompanhando o caminhar de Sarada em direção à sua mãe com olhos atentos: sua filha fazia questão de não trocar olhares com ele, ignorando mais uma vez a sua presença.
Sasuke despediu-se de Sakura com um aceno breve de cabeça, afastando-se gradativamente da multidão. Quando se encontrava à alguns quarteirões de distância da Academia, Sasuke parou de caminhar, perguntando-se o que deveria fazer naquele momento: Naruto com certeza planejara alguma comemoração com suas crianças. Ele provavelmente não teria tempo para vê-lo naquele dia, e, pela primeira vez desde o dia que despertara do coma, Sasuke estava com a agenda livre.
Optou por seguir ao campo de treinamento: como não tinha nenhuma programação, treinar era uma boa escolha. Treinar o fazia bem e impedia pensamentos ruins de brotarem à sua mente. Sim, era o melhor que ele poderia fazer, e o tempo certamente correria bem mais rápido do que ficar em casa olhando para o teto.
Demorou um pouco para chegar ao campo de treinamento, parando duas vezes na frente de vitrines de lojas especializadas em armas brancas. Em virtude do clima de formatura, as vitrines exibiam presentes ninjas, os quais comumente eram dados pelos pais aos seus filhos em momento de graduação ou mudança de ranking, como lembranças. Como esta turma seria a última turma de crianças tão jovens a se formar (pois Naruto já pretendia colocar em prática as alterações referentes aos estudos ninjas no ano que vem, fazendo com que apenas adultos pudessem se habilitar ao treinamento), as lojas se encontravam em promoção, desesperadas para vender todo o estoque.
Sasuke entrou em uma delas. Olhar não faria mal, não é mesmo?
Meia hora depois, saiu do estabelecimento com um arsenal de dar inveja: algumas armas ele comprara para si, outras para Naruto, mas uma em especial ele comprara para Sarada. Talvez fosse melhor pedir para Sakura dar o presente e dizer que era dela, assim quem sabe sua filha aceitasse o que ele acabara de comprar. Por outro lado, ele poderia tentar encontrá-la novamente amanhã; talvez o presente pudesse ajudá-los a se entender.
Sasuke deixou um barulho de descrença soar em sua garganta com aquele pensamento: Sarada era uma Uchiha, não seria “comprada” com um presente. E, de qualquer forma, essa não era a intenção dele. Ele só queria que ela tivesse um objeto de recordação para aquele dia, e não se importaria se Sakura falasse que era um presente dela. Talvez fosse melhor assim.
Ele estava tão distraído pensando sobre a entrega do presente que só se deu conta de que tinha companhia alguns passos antes de entrar no campo de treinamento, e parou solenemente de andar, surpreso.
— Eu não vou te morder, eu prometo. — ouviu a voz de Sarada soar alguns metros à frente, convidando-o a se aproximar.
Sasuke logo a avistou no final da clareira, atirando kunais em alvos estrategicamente posicionados. Ela estava com a bandana de Konoha na testa e parecia não ter perdido um segundo sequer após sua formatura, decidindo treinar e se tornar uma ninja melhor.
(Sakura com certeza estava culpando o sangue Uchiha por esse comportamento obsessivo de Sarada, e deveria se encontrar em casa, emburrada, comendo sozinha o bolo de comemoração que fez para a filha.)
Incerto do que deveria de fato fazer, Sasuke acatou o pedido da filha e se aproximou, sem dizer uma única palavra. A assistiu atirar as kunais com uma precisão invejável para alguém da idade dela, mostrando que o talento de sua família corria forte em seu sangue. Seus movimentos eram precisos e graciosos, lembrando Sasuke mais uma vez de seu irmão, apesar da garota ainda não ter a mesma desenvoltura que o grande gênio Uchiha tinha àquela idade.
Sarada respirou de forma ofegante, apreciando seu trabalho com olhares críticos, fazendo uma careta ao perceber que não acertara precisamente bem o último alvo. Todavia, Sasuke não fitava mais os alvos, e sim os sharingans à posto no olhar da filha.
— Impressionante. — ele quebrou o silêncio, elogiando-a e tomando a atenção da menina — Realmente impressionante.
Ela estalou a língua nos dentes, desviando o olhar e desativando o sharingan.
— Não tente me animar, eu sei que você fazia muito melhor quando tinha minha idade.
— Você está enganada.
Sarada o fitou novamente, surpresa por ouvir aquelas palavras. Sasuke permaneceu quieto por algum tempo, tentando encontrar a maneira correta de explicar o significado de sua afirmativa.
— Eu realmente era capaz de atingir todos os alvos que você imaginasse, mas você possui uma desenvoltura diferente da que eu possuía com sua idade. — Sasuke explicou, olhando-a de forma penetrante — Eu era movido pela raiva, pelo ódio e desejo de vingança. Você possui técnica e talento na mesma medida; em uma batalha, fará escolhas que eu, movido muitas vezes apenas pelo instinto, não era capaz de fazer. Eu tive muitas falhas em minha trajetória ninja, demorei muito para aprender a não deixar as emoções me consumirem no meio de uma batalha. Vejo que você não terá o mesmo problema que eu.
Sasuke lembrou-se firmemente do momento em que Naruto o chamou de “gatinho medroso”, por ele estar literalmente paralisado em meio a uma das primeiras batalhas que eles enfrentaram, finalmente se deparando com um combate real que poderia resultar na morte de todos eles. Podia ser demais considerar que Sarada não passaria por algo assim em sua vida, mas Sasuke já presenciara aquela serenidade outrora: Itachi certamente mantinha a cabeça no lugar enquanto lutava, nunca deixando suas emoções tomarem conta de sua técnica.
Nem mesmo quando batalhou contra mim...
Sarada ficou sem palavras, não sabendo ao certo o que responder para o pai. Depois de um silencio constrangedor, Sasuke pigarreou e desviou o olhar, um pouco sem jeito.
— Meus parabéns pela formatura. — ele disse, abaixando os olhos para o arsenal que carregava em uma grande sacola, perguntando se deveria dar para ela o embrulho de cetim.
Afinal, Sarada estava trocando palavras com ele, e ele não queria colocar tudo a perder agora. Tinha que ter certeza se deveria ou não dar o presente.
— Eu te vi na formatura. — ela murmurou, balançando seu corpo levemente para frente e para trás — Obrigada por comparecer.
Sasuke ainda a observou por alguns instantes, se dando conta do tão sem jeito que ela se encontrava. Com um suspiro, colocou suas compras no chão, próximo de seus pés, e abaixou à altura de Sarada, segurando as duas mãos dela e recebendo um olhar arregalado em retorno.
— Mesmo que as coisas não estejam do jeito que você queria que estivesse, eu quero que você saiba que estou muito orgulhoso de você. — sua voz soava sincera e firme, e ele não deixou de notar a forma como o lábio inferior de Sarada estremecia; ela segurava o choro — Eu estou realmente grato por ter despertado a tempo de presenciar seu grande dia. Eu não tentei falar com você para não estragar esse dia, mas estou ainda mais contente por ouvir sua voz agora.
Percebendo que o orgulho impedia a garota de tomar a atitude que ela muito provavelmente desejava tomar, Sasuke a envolveu em um abraço apertado. Sarada deixou um ruído de surpresa escapar de sua garganta, mas logo amoleceu em seus braços, retribuindo o abraço e deitando sua cabeça no ombro do pai.
— Me desculpe. — ela falou baixinho, ainda incerta do que deveria ser dito — Eu-...!
— Não precisa se desculpar. — ele disse, sentindo um nó em sua garganta por receber um retorno sentimental da filha depois de tantas semanas — Eu sou um Uchiha. Nosso clã enfrenta os sentimentos humanos de uma maneira muito mais intensa do que o normal. Eu compreendo o que você estava sentindo: eu compreendo sua raiva, sua indignação, sua decepção.
Ele se afastou da garota, fitando-a de forma penetrante.
— Eu entendo seu lado e não tiro sua razão. — ele disse, por fim — Mas espero que algum dia você seja capaz de entender o meu lado.
Decidindo que deveria aproveitar o momento e presentear sua filha, Sasuke tirou de dentro da sacola o embrulho de cetim, colocando-o nas mãos de Sarada. A garota analisou o objeto com olhos curioso, já se dando conta do que se tratava antes mesmo de retirar o envolto, escondendo uma animação levemente infantil que Sasuke admirava: ver que Sarada não se tornou amarga como ele se tornou à idade dela era algo gratificante; ele só podia esperar que os tempos de paz permanecessem, e ela nunca sofresse as perdas que ele sofreu.
Sarada definitivamente não merecia um mangekyou sharingan.
— É... linda! — ela afirmou, tirando a espada da bainha e admirando-a com cuidado, percebendo a leveza e mortalidade do objeto em suas mãos.
Tratava-se de uma ninja-tō de grande qualidade, de material semelhante à que Sasuke utilizava, escolhida com precisão para a eventualidade de Sarada aprender a dominar o elemento trovão e utilizá-lo em sua lâmina. Sasuke escolheu sem pensar no preço, ou até mesmo em utilização imediata: ele sabia que Sarada ainda não tinha altura o suficiente para apresentar a melhor desenvoltura com uma ninja-tō, mas no futuro iria aperfeiçoar esse treinamento.
— Como Genin, você terá uma equipe e um Sensei que será seu instrutor e guia. — Sasuke explicou, deixando uma expressão de alivio aparecer em sua face ao ver como ela gostou do presente — Nesse momento vocês vão deixar um pouco de lado os treinamentos de ataque direto, e vão se concentrar mais em intonjutsu, hensojutsu, boryaku e shinobi iri.
— Chatoooo...
Sasuke sorriu abertamente, deixando até uma risada breve escapar. Realmente, era uma etapa entediante do desenvolvimento ninja: as crianças muito constantemente saem da Academia querendo se aventurar em combates, mas na verdade todo o treinamento de um Genin é focado muito mais em estratégia, escapismo, camuflagem e técnicas de espionagem. Sasuke e Sakura sabiam que, por mais infantis que os treinamentos propostos por Kakashi fossem, eles detinham esses objetivos (enquanto Naruto certamente não entendia e achava que Kakashi só estava enrolando todos eles). Era essencial, ainda mais em tempos de paz, que os ninjas se especializassem nessas disciplinas: principalmente para colocá-las em prática na eventual descoberta de traição de outra Vila.
— Mas é importante. — Sasuke respondeu, ainda com ares divertidos em sua voz — Quando você estiver boa nisso, eu vou te ensinar a usar a ninja-tō. Isso é, se você quiser.
Sarada guardou a espada novamente no embrulho e, um pouco relutante, encarou novamente o seu pai.
— Eu quero, mas não sei ainda se devo. — ela disse, com sinceridade — Bolt disse que nós temos que ser felizes e que vocês estão felizes, e não importa o que os outros pensam, mas...
— Eu não estou dizendo pra tudo ficar a mil maravilhas de uma hora pra outra entre nós, Sara. — Sasuke respondeu, tentando tratar a menina como um adulto nesta conversa — Nada se constrói sem tempo, eu sei que ainda há rancor e que muito deve acontecer pra esse sentimento mudar. Para o Bolt, apesar de talvez ter sido mais impactante na família dele o que aconteceu, é mais fácil de superar do que para você. Você é uma Uchiha, você sente tudo com maior intensidade.
— Mas por que? — Sarada indagou, sem compreender — Por que pra mim é tão difícil?! O que um Uchiha tem de tão diferente dos outros clãs!?
Sasuke passou uma das mãos pelos cabelos, se perguntando se seria o correto ter uma conversa sobre a natureza do clã e o motivo da dizimação, a maldição do ódio, a dinâmica dos sharingans e, principalmente, seu passado com Itachi. Teria Sarada idade suficiente para compreender? Claro, ela parecia ter amadurecido muito desde a última vez que conversaram, antes da sua viagem com Naruto (e Sasuke sabia o quanto o impacto da ativação do sharingan o forçava a amadurecer) mas, ainda sim...
Foi então que Sasuke se recordou de tudo que passou com Itachi ao momento da luta contra Kabuto, e de suas confissões. Itachi deixou claro que se arrependeu de não ter contado a verdade ao irmão, porque na época pensava que ele era criança demais para entender a realidade. Apesar de Itachi ter levantado a hipótese de tudo ter ocorrido de uma forma diferente se ele tivesse aberto o jogo para Sasuke, ele optou pela criação do ódio no coração de Sasuke, considerando que isto seria o melhor. Itachi certamente considerava esta escolha como um de seus maiores erros, ele deixou mais do que claro sua opinião a respeito naquele encontro.
Se havia algo que o fez perdoar seus próprios erros com o tempo, foi o fato de saber que até o perfeito Itachi Uchiha errou. Mas Sasuke estava disposto a errar o mínimo possível nessa sua nova etapa de vida e, para tanto, não deixaria o ensinamento de seu irmão ser em vão. Se Itachi errou, Sasuke aprenderia com seu erro e faria diferente: ele contaria a Sarada, e confiaria que ela tinha idade o suficiente para compreender.
— Vamos para o Distrito. — Sasuke comentou, esticando a mão para que Sarada a segurasse — Eu vou te contar várias coisas agora, tudo que você quiser saber: mas este local tem muitos ouvidos, e tem coisas que apenas um Uchiha pode saber.
Surpresa por finalmente estar prestes a saber a verdade, Sarada segurou a mão do pai e praticamente o arrastou para fora do campo de treinamento. Era hoje que ela descobriria a verdade... Certamente aquele dia se tornaria um dos dias mais importantes de sua vida, e não apenas pela formatura.
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(um mês depois)
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Sasuke olhava para o seu próprio reflexo no espelho, observando alguns detalhes em seu corpo que não prestava atenção há bastante tempo. Retirou sua camisa e ficou algum tempo só de calças, com os pés plantados na superfície fria do piso de madeira, observando evidências do retorno de seu porte físico ocorrer de maneira relativamente rápida, sentindo-se grato por isso. Após atentar um pouco para as finas cicatrizes de batalha que mal apareciam em sua tez pálida, focou sua atenção no braço enfaixado, recebendo uma onda de sentimentos divergentes perante a visão.
Resolveu retirar a faixa: não era algo que fazia constantemente, apenas para tomar banho ou na necessidade de trocar por uma nova, mas sentiu uma intensa necessidade de observar melhor o implante naquele momento.
Ao contrário de Naruto, o qual possuía uma evidente mudança na coloração de sua pele natural para a pele do implante, a diferença de pigmentação do braço para o restante de seu corpo era extremamente singela. Caso cobrisse o ponto de separação com roupas, seria difícil de alguém perceber a diferença de cor. Ainda sim, Tsunade orientava a cobrir as os implantes e mantê-los escondidos do sol, para uma proteção extra na pele com pouca melanina. Por esse motivo, principalmente durante o dia, Sasuke e Naruto costumavam usar os braços enfaixados: não por vergonha ou qualquer outro sentimento, simplesmente por recomendações médicas.
Perder um membro não é algo incomum, nem uma grande comoção entre o mundo ninja. Fazia parte do trabalho, basicamente, e para um Shinobi perder alguma parte de seu corpo em batalha era tão rotineiro que sequer era visto como uma prova ou marco heróico. Sasuke recordava-se bem como o Quarto Raikage não dera qualquer importância quando perdeu parte de seu braço esquerdo para se livrar do Amaterasu que ele lançara, e esse acontecimento só serviu para solidificar o que o Uchiha já sabia: ter um desprendimento com o quesito corpo é algo extremamente comum entre os ninjas de alto escalão.
Todavia, os tempos eram outros: por mais superficial que um Shinobi tratasse a perda de um membro, essa perda claramente afetava seu desempenho em ninjutsu: como a maioria dos selos precisava de duas mãos para sua realização, era uma desvantagem dificilmente superada viver sem um braço. A prova disso é que aqueles ninjas que perdiam um membro, conseguiam superar (e muito) a dificuldade superveniente focando mais em taijutsu, mas o ninjutsu estaria com dificuldades para a vida toda.
Após o fim da guerra, Tsunade levou adiante as pesquisas com as células de Hashirama ao realizar próteses perfeitas e, mesmo adaptados a nova condição, muitos ninjas procuraram implantes; Naruto foi apenas um deles.
Antes de voltar para Konoha, Sasuke pensou em aceitar a oferta de Tsunade e verificar se ainda havia a possibilidade de consertar seu braço com as células de Hashirama; diante de sua demonstração de interesse, Tsunade pediu um prazo para fazê-las, mas Sasuke acabou optando por seguir em sua viagem antes que elas ficassem prontas. Não era algo que ele cogitava com grande ansiedade, mas seria algo a se pensar depois que tivesse acertado sua situação com Naruto; não por uma questão estética ou qualquer insegurança do tipo, mas porque, obviamente, ele sentia falta do braço na prática de jutsus e o Susano’o só poderia substituí-lo até certo ponto. Mesmo após conseguir a prótese de metal em Amegakure, percebeu que ela só poderia lhe oferecer independência funcional, mas que o fluxo de chakra nunca mais seria o mesmo.
É claro que após chegar em Konoha, descobrir a existência de Sarada e o casamento de Naruto, a necessidade de implantar um novo braço foi deixada de lado e praticamente esquecida. Ao despertar do coma descobrir que Naruto ordenara o implante, mesmo sem o Uchiha ter dito com todas as letras que possuía esse desejo, não foi algo que ele questionou muito num primeiro momento. Afinal de contas, ele ainda tinha esse desejo quase esquecido; Naruto simplesmente facilitara o processo.
Todavia, conforme as semanas foram se passando e ele foi voltando a ter dominação de chakra em seu braço e se acostumando com a nova mudança, Sasuke se questionou diversas vezes o porquê. Por qual motivo Naruto ordenara o implante, mesmo sem saber sua opinião? É claro, Sasuke e Naruto compartilhavam os sentimentos em virtude da ligação que possuíam, e essa ligação apenas ficava cada vez mais intensa com o tempo. Certamente Naruto sabia que ele tinha algum interesse em ter novamente o braço, e não o faria se tivesse sentido alguma coisa diferente nas motivações de Sasuke; ainda sim, faltava uma permissão verbal para que o transplante fosse feito.
Com o tempo, algo que o Uchiha deixou passar despercebido começou a incomodá-lo: Naruto não lhe pediu permissão, e isso não era muito legal da parte dele. Ainda sim, era um pormenor tão pequeno, tão singelo, que ele deixava de se sentir incomodado assim que olhava o sorriso de Naruto e compartilhava algum momento amoroso com ele. Até mesmo participar das reuniões sobre as alterações em Konoha e na Aliança Shinobi, bem como na implementação dos projetos da Aliança Educacional Itachi Uchiha, faziam com que ele focasse muito mais na sua satisfação pessoal do que em qualquer sentimento contraditório que tivesse com relação ao braço. Apenas quando realmente prestava atenção naquele novo acréscimo no seu corpo que ele se questionava acerca do que deveria sentir: indignação por Naruto não lhe ter pedido permissão, ou satisfação por tê-lo acelerado um processo que eventualmente aconteceria?
O Uchiha deixou suas indagações de lado ao sentir sua aliança subitamente esquentar em sua mão direita, anunciando que Naruto utilizava o selo de teleporte e pedia sua permissão para “aceitar” sua vinda.
— Dobe preguiçoso... — Sasuke murmurou para ninguém em particular, aguardando a chegada de Naruto, o qual se tornava cada vez mais mal acostumado desde que começaram a utilizar sua mais nova criação, ao invés de bater na porta como qualquer pessoa normal.
O funcionamento do selo que Naruto inventou era bastante simples: quando um deles desejava chegar até onde o outro estava com teleporte, bastava estar com a marca da aliança em contato com o fluxo de chakra, fazer uma série de selos e aguardar. A outra pessoa sentiria a marca em sua aliança esquentar e, por estar em contato com a pele e o fluxo de chakra, poderia, ou não, aceitar a vinda do parceiro. Se Sasuke decidisse recusar a vinda de Naruto, deveria realizar uma série de selos reversos, impedindo o teleporte; se Sasuke nada fizesse, o selo interpretava a inercia como um “sim”, e Naruto apareceria em sua frente em fração de segundos.
E foi o que aconteceu: Naruto logo apareceu atrás dele, encarando-o pelo espelho com um sorriso radiante a postos e duas sacolas plásticas nas mãos:
— Eu trouxe ramen, Teme! — ele anunciou, erguendo as sacolas para o campo de visão de Sasuke, o qual o encarava pelo espelho.
Ao perceber o olhar indecifrável que Sasuke lhe direcionava, Naruto desmanchou seu sorriso. Rapidamente colocou as sacolas no balcão mais próximo, e voltou à sua posição atrás de seu noivo, circundando-o pela cintura em um abraço e descansando seu queixo em seu ombro enquanto o encarava pelo espelho mais uma vez.
— Qual o problema, Sasuke? — ele perguntou docemente, dando-lhe um beijo suave na lateral do pescoço, sem interromper a troca de olhares (por mais que desejasse aproveitar o momento para checar o corpo de seu amado, coisa que não tinha muita oportunidade de fazer).
Sasuke girou os olhos, um pouco irritado com Naruto naquele momento para ter que lidar com aquela besteira de “sem beijos até o altar”. O Uzumaki beijava várias partes de seu corpo, mas nunca iniciava um beijo em seus lábios, tudo por conta da sua promessa idiota que já deveria ter sido esquecida depois de tanto tempo.
— Por que você decidiu vir hoje? — Sasuke perguntou, tentando se esquivar do toque do outro, mas sentindo Naruto abraçá-lo ainda mais fortemente (em verdade, Sasuke não estava tentando muito interromper o abraço, mas ele teria que fazer um charminho, não é mesmo?).
— Não seja arisco, bastardo!
— Eu não sou um gato pra ser arisco, seu idiota!
— Há controvérsias nessa informação, viu? — Sasuke sentiu seu rosto corar um pouco ao interpretar o elogio implícito, desviando o olhar; Naruto riu com gosto — Cadê meu beijo de “oi”?
— Cadê o meu beijo de “oi”, hein? — Sasuke reclamou, conseguindo se desprender do abraço de Naruto e buscando sua camisa que estava jogada na cama. Naruto fez um barulho de decepção e protesto, sendo prontamente ignorado — Você não me respondeu: por que você decidiu vir hoje? Achei que teria uma reunião com o conselho essa madrugada.
— Bom, a reunião está acontecendo...
Sasuke virou-se para encarar Naruto, observando a forma como ele desviava o olhar, como se fosse uma criança que acabasse de fazer arte.
— Dobe, você não vai me dizer que mandou um clone pra reunião com os conselheiros, não é?
— Bem...
— Você realmente é um usuratonkachi. — Sasuke o acusou, balançando a cabeça em descrença e cruzando os braços — Se eles descobrirem que você mandou um clone pra falar com eles, vão dificultar ainda mais as coisas.
— Shii. — Naruto pediu, aproximando-se de Sasuke novamente e circundando seu pescoço com os braços, encarando-o com ansiedade — Não seja um velho ranzinza. Eles não vão descobrir nada, e também nem vão falar algo tão importante assim. Os conselheiros só servem pra dificultar tudo que eu faço, eu já estou acostumado a lidar com eles. Além do mais, nenhuma das reclamações deles é tão importante que precise me tirar de perto de você.
Sasuke teve a sensação de borboletas no estomago voltarem mais uma vez, sentindo-se como um adolescente apaixonado apenas por ouvir aquelas palavras de Naruto.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era verdade que o conselho em nada acrescentava às mudanças que estavam sendo feitas em Konoha e na Aliança Shinobi, mas não era de agora que a opinião dos conselheiros se mostrava descartável. Talvez por isso Sasuke ainda aceitasse a presença dos conselheiros: eles não passavam de um apetrecho para agradar os mais conservadores. Qualquer vontade de eliminação que o Sasuke do passado sentia, em virtude de tudo que o conselho articulou contra o Clã Uchiha, era mínima perto da realidade que Sasuke hoje usufruía. Eles estavam lá apenas por estar, não ganharam status e ainda tinham que conviver com a ideia de que nada mais eram do que descartáveis para Konoha, enquanto um membro do clã que eles tentaram destruir hoje em dia detinha muito mais poder de convencimento perante o Hokage.
Naruto sabia muito bem o sentimento de injustiça que Sasuke sentia pelos conselheiros que fizeram a cabeça do Terceiro ainda estarem vivos e atuando nas mesmas funções, mas Naruto o assegurou várias vezes que atualmente o conselho era um órgão que não detinha poder algum. Kakashi, quando Hokage, já os havia colocado em seu devido lugar, e eles nem eram doidos de tentar impor alguma coisa com Naruto. Os verdadeiros conselheiros de Naruto eram Shikamaru, Sasuke e Kakashi, mesmo que não estivessem de fato como membros do Conselho. Após a morte por idade daquelas pessoas, Naruto se cerificaria de excluir aquele órgão. Só não o fazia no momento para não gerar problemas com o Daimio.
O mundo dá voltas... Muitas voltas... Ainda sim, Sasuke ficaria muito feliz em seus velórios, não havia como negar isso.
— Por mim a gente já tinha matado esses-... — Sasuke falou, sem muita seriedade, mas Naruto logo o censurou com o olhar, fazendo-o se calar.
— Não fale isso, Sasuke. — Naruto o interrompeu, seriamente — Você está começando a ganhar a confiança do pessoal, se alguém suspeitar que...
— Shii, eu estava brincando, idiota. — o outro respondeu, girando os olhos — E olha, os cidadãos de Konoha tem que deixar o passado ficar no passado. Se até Orochimaru recebeu glórias depois que foi revelado que ele seguiu meu pedido, encontrou Suigetsu e conseguiu deter um segundo grupo de rebeldes enquanto nós enfrentávamos outro, acho que eu também mereço um pouquinho de crédito com a população.
Naruto concordava com as palavras de Sasuke, e achava que era apenas uma questão de tempo: cedo ou tarde, Konoha iria parar de ter tanta desconfiança, e aceitaria o Uchiha sem tantas desconfianças.
— Dê tempo ao tempo, Teme.
Sasuke suspirou, girando os olhos.
— Vamos mudar de assunto. Onde você estava até agora?
Naruto deixou um sorriso torto emoldurar seus lábios, demonstrando intensa satisfação com aquela pergunta.
— Está com ciúmes? — indagou, segurando o riso. Kurama riu alto em sua mente, enquanto Sasuke simplesmente lhe lançou um olhar que poderia ser interpretado como “só em seus sonhos, usuratonkachi” — Primeiro eu fui visitar a Temari no hospital, ela está se recuperando bem, acho que ela e o bebê terão alta em breve; Shikamaru está ansioso. — o sorriso de Naruto tornou-se ainda maior — Depois, eu fiquei com meus filhos. Bolt só cedeu e foi dormir agora, por isso eu vim.
Sasuke amaciou suas feições, compreendendo o ânimo mais alegre do companheiro: não era dia de visita de Naruto, o que indicava que as crianças decidiram passar o fim da tarde e noite com ele por conta própria.
O Uchiha detestava o apartamento minúsculo que o loiro voltara a habitar depois da separação: Naruto negociou novo aluguel com o antigo proprietário de seu apartamento de solteiro, onde ele morara toda sua infância e vivenciara os momentos mais solitários de sua vida. Por mais que Naruto alegasse que o retorno aquele apartamento resultou do simples costume, afinal, ele alegava se sentir confortável a voltar a morar num lugar que conhecido, Sasuke sabia que Naruto fazia isso como uma tentativa, mesmo que inconsciente, de autopunição.
Mesmo assim, as crianças gostavam do apartamento. Acostumados com uma casa grande e luxuosa, um apartamento compacto era diferente e, portanto, atraia a atenção dos filhos de Naruto. Bolt também ficava realizado demais em passar tempo no apartamento, pois a quantidade pequena de cômodos fazia, indubitavelmente, que Naruto e as crianças interagissem bem mais; por mais que o garoto eventualmente reclamasse só pelo prazer de reclamar, tanto Naruto quanto Sasuke sabiam que desde que Bolt finalmente entendera a separação de seus pais, ele contava os dias para visitá-lo.
E Naruto, da mesma forma, ficava realizado com cada segundo que tinha ao lado dos filhos.
— E como estão? — Sasuke indagou, realmente curioso para saber mais sobre as crianças.
Apesar de todos saberem que Naruto e Sasuke eram um casal, Sasuke preferiu ter bastante cautela com os filhos de Naruto. Inicialmente o loiro quis de todo jeito fazer com que o Uchiha se aproximasse dos filhos, mas depois de uma longa conversa, eles chegaram a conclusão de que seria melhor essa aproximação acontecer aos poucos. Mesmo que o compromisso deles fosse sério e definitivo, poderia ser ruim para as crianças impor uma nova pessoa em suas vidas, ainda mais no momento em que eles ainda estavam tentando se adaptar com as grandes mudanças.
Desses três meses que se passaram desde o despertar de Sasuke, ele só havia se encontrando com as crianças por acaso e em locais públicos. Bolt não foi muito receptivo com sua presença, isso era verdade, mas Himawari se mostrou muito mais interessada em conhecê-lo. Como somente há pouco tempo Bolt deu uma maior abertura para Naruto, durante várias vezes Sasuke encontrou seu noivo apenas na presença da filha.
Himawari lembrava tanto à Hinata que num primeiro contato Sasuke tinha que confessar que morreu de ciúmes. Depois de deixar esse sentimento besta de lado e usufruir melhor da presença da garota, ele descobriu nela uma docilidade e uma figura feminina que certamente seria essencial na vida de Naruto. Ele gostava muito da garota, principalmente por ela falar muito de Sarada e tratá-la como uma espécie de mentora.
Era muito bonitinho, Sasuke tinha que confessar.
— Estão umas pestes! — Naruto respondeu, com um sorriso gigantesco nos lábios — Não que isso seja uma reclamação. É bom ver os dois se divertindo na minha companhia, estou feliz por conseguir reestabelecer nossos laços aos poucos.
Sasuke colocou a mão ao lado do rosto de Naruto em um gesto de ternura, fitando-o com carinho e recebendo um olhar arregalado em resposta. Sasuke pensou em beijá-lo, mas logo se lembrou de sua irritação pela promessa idiota de Naruto, e desistiu no meio do caminho.
— Estou feliz por você. — Sasuke respondeu simplesmente, afastando-se antes que Naruto pudesse fazer qualquer coisa e agarrando as sacolas com o ramen, caminhando em direção à cozinha — E pare de aparecer com comida, você vai acabar sujando meu quarto que nem fez da última vez.
— Mas Sasuke, eu achei muito sensual você coberto de ramen!
Sasuke escondeu seu rosto para Naruto não ver que ele prendera o riso com o comentário.
Maldito Naruto, não dava nem para ficar irritado com ele em paz!
Já o loiro se espreguiçou um pouco antes de tirar os sapatos, sentando-se na cama de Sasuke e deixando o corpo descansar. Deitou-se, agarrando um dos travesseiros e sentindo o cheiro de seu amado impregnado na fronha. Frustrado, deixou um grunhido de irritação abafado escapar de sua garganta.
Não sei se vou aguentar mais um mês.
‘Você é um idiota em querer manter essa promessa sem sentido.’ Kurama o censurou, a voz em sua mente soando tediosa e cansada daquele assunto ‘Você quer beijar o Uchiha desde sempre e não para de ter sonhos eróticos com ele. Não sei porque fica se prendendo a besteira que falou no calor do momento.’
É uma promessa, eu tenho que cumprir a promessa! — Naruto argumentou mentalmente, se enfiando ainda mais nas cobertas de Sasuke, enquanto o perfume dele nada ajudava em suas frustrações — Eu achei que seria rápido, mas o Sasuke está me deixando louco já!
‘Me dói dizer isso, mas ele está certo: de nada adianta casar contigo enquanto a filha dele não aceitar a relação de vocês. Não ajudaria em nada para que os dois se entendessem, não acha?’
Racionalmente eu sei disso, agora explica pro meu corpo essa lógica, porque ele não tá entendendo!
‘Pirralho, se nem sua mente entende as coisas na maioria das vezes, imagina seu corpo.’
— Naruto, venha logo! — o Uzumaki ouviu a voz de Sasuke chamá-lo da cozinha, apressando-o a se juntar para uma refeição da madrugada.
Suspirando, Naruto levantou-se da cama de Sasuke, olhando-a com um pouco de inveja. Estava muito tarde e, apesar de seguir a filosofia de que “hora de ramen é qualquer hora”, daria tudo para poder dormir ou fazer outras atividades com o Uchiha naquele momento. Seria tão bom se a vida fosse tão simples assim...
Como tudo na vida dos dois parece beirar a uma competição, e como Sasuke consegue ser tão ou até mesmo mais teimoso que Naruto, houve a imposição por parte do Uchiha de que não o aceitaria em sua cama, seja para sexo ou simplesmente para dormir em sua companhia, enquanto ele não deixasse de lado essa promessa estúpida de “beijos no altar”. Naruto, sendo a pessoa insistente que era, estava irredutível, mas particularmente desesperado por sentir o outro mais intimamente. Sasuke, o qual deveria ter ‘teimosia’ como nome do meio, se recusava a ceder esse acordo de unilateralidade de beijo (que na verdade não funcionava muito bem depois do primeiro selinho trocado, mas o orgulho sempre falava mais alto), e se recusava a casar enquanto não conseguisse se acertar com Sarada.
Shikamaru, apesar de não saber com todos os detalhes o motivo da frustração sexual de Sasuke e Naruto, era inteligente demais pra não conseguir ligar os acontecimentos e perceber superficialmente o que ocorria. Naruto sentia o questionamento de Shikamaru a cada olhar que recebia, e tinha a certeza que ele se perguntava como duas pessoas que se comportavam como crianças birrentas conseguiram entrar na lista dos ninjas mais fortes do mundo.
‘Eu me pergunto isso diariamente...’
Ninguém te perguntou!
Quando Naruto entrou na cozinha, encontrou Sasuke colocando as tigelas recheadas até a borda de miso ramen, acabando de se sentar na cadeira da ponta, mas não parecendo muito empolgado para comer. O moreno o encarou de canto de olho e ele, entendendo o que deixava seu namorado tão frustrado, se aproximou dele, curvou-se para frente e praticamente encostou seus narizes.
— Vamos lá, Sasuke... — ele pediu, usando seu melhor olhar de súplica — Retribuir não é beijar, né?
— Você é muito difícil. — Sasuke respondeu, suspirando e rendendo as vontades de Naruto, colocando sua mão esquerda na lateral de seu rosto, dando-lhe um beijo breve, mas suave, de cumprimento, tal qual Naruto havia pedido.
Antes que o Uzumaki pudesse retribuir mais ardilosamente a carícia, Sasuke finalizou o beijo com um estalo e levou os hashis cheio de ramen à boca de Naruto, forçando-o a mastigar.
— Vai esfriar. — Sasuke sussurrou, voltando-se para o seu próprio alimento e levando um pouco à boca, ignorando propositalmente a necessidade estonteante que Naruto exibia de querer beijá-lo.
Sasuke sabia que se Naruto estava com tanta vontade de beijar, mesmo com ramen quente à disposição, ele deveria se sentir honrado por isso. Mas estava particularmente incomodado naquela noite, e não iria ceder à tentação (que resultaria em mais uma noite de frustração sexual).
Emburrado, Naruto engoliu o macarrão e puxou a cadeira ao lado, ocupando-se com sua refeição em silêncio. Dentro de alguns minutos seu humor estava melhor e sua concentração em devorar o ramen superava qualquer outra coisa, de modo que o Uzumaki sequer percebeu que Sasuke havia desistido de comer, apenas observando-o com curiosidade enquanto apoiava sua cabeça na palma da mão, descansando o cotovelo à mesa.
— Por que você ordenou que fizessem o implante em meu braço? — Sasuke perguntou, inesperadamente.
Naruto derrubou hashis e se engasgou com a comida; Sasuke não moveu um músculo para ajudá-lo. Após alguns instantes, o loiro pigarreava e ganhava tempo tomando água, um pouco confuso por essa pergunta ter sido feita depois de tanto tempo.
‘Acho que isso explica porque ele está estranho essa noite.’
É. Eu percebi. — Naruto respondeu ao demônio, sentindo-se intimidado pelo olhar de Sasuke — Típico do Sasuke, ficar guardando as coisas e me pegar desprevenido meses depois.
— Bem... — o loiro começou sua explicação, colocando o copo acima da mesa e tentando parecer o mais calmo possível — Eu... uh... quando eu estava criando o selo que hoje utilizamos nos anéis, eu percebi que a única maneira deles funcionarem era mantendo contato com o fluxo de chakra. Claro que eu poderia simplesmente usar uma corrente no pescoço e manter o selo em um pingente, que entraria em contato com a pele do pescoço; mas eu queria ser mais convencional com você, queria utilizar os anéis e tudo mais, então...
— Dobe, o que isso tem a ver com minha pergunta?
Naruto suspirou, pegando a mão do Uchiha que no momento encontrava-se sem a faixa e acariciando seu anelar enquanto o olhava nos olhos.
— Você vai usar o anel aqui quando nós nos casarmos, Sasuke. — Naruto disse, um pouco sem jeito.
Sasuke estremeceu, desacostumado a sentir o tato de forma tão proeminente naquele braço que agora estava sem as faixas, mas também porque entendeu o que Naruto queria dizer: o idiota queria que ele usasse a aliança de casamento naquela mão, e isso era uma justificativa tão melosa que o deixou sem reação por um instante.
O Uzumaki, no entanto, continuou a falar:
— Você nunca recusou verbalmente o implante quando éramos adolescentes, deixou a Tsunade fazer e saiu antes de ficar pronto. Eu pensei que se você tivesse alguma revolta por esse tipo de coisa, teria recusado com todas as letras. Não vi nenhum tipo de julgamento negativo da sua parte ao me observar com o implante, também pensei que o fato de você usar aquela prótese de metal fosse um indicio do que você queria. — Naruto explicava rapidamente, tentando fazer sua justificativa fazer sentido e ficando cada vez mais nervoso com a situação — E, bem, eu sei como é doloroso se adaptar a prótese e tudo mais, então como você estava em coma iria pular toda essa fase de adaptação inicial. Caso você odiasse o que eu fiz, o que eu achava pouco provável pois eu sei como essa prótese se adapta bem ao nosso corpo, você poderia tirar. É mais fácil remover do que por, por incrível que pareça, então eu quis te poupar da dor e se você quiser-...
Sasuke agarrou Naruto pela gola, forçando-o à aproximar seu rosto ao dele, roubando-lhe um beijo extremamente saboroso (para Naruto, a combinação do gosto natural de Sasuke e de ramen com certeza podia ser considerado um afrodisíaco). O loiro, mesmo não sabendo o motivo daquela reação, gemeu baixinho e envolveu seus braços ao redor do pescoço do Uchiha, puxando para perto de si e não se incomodando com a posição estranha que se encontravam naquela mesa de jantar.
— Você é tão... idiota. — Sasuke sussurrou contra seus lábios, antes de beijá-lo mais uma vez até a posição ficar extremamente desconfortável de se manter; ele interrompeu o beijo suave com uma mordida leve no lábio inferior de Naruto, segurando seu rosto com as duas mãos e encarando-os até que ele abrisse os olhos azuis e fora de foco — Tenho algo pra te contar.
— O quê? — Naruto questionou, sua voz soando rouca e necessitada. Apesar de Sasuke usar um xingamento, a forma como ele falara o transformara em um elogio, e ele estava particularmente afetado pelo beijo de Sasuke.
‘Definitivamente vocês não vão durar muito tempo. Ou um vai ceder, ou os dois vão explodir de tesão acumulado até o final dessa semana. E tenho dito.’
Você está proibido de falar a palavra “tesão” pra mim!!
Tecnicamente eu não estou falando, eu estou-...
Calado!
Alheio à discussão mental de Naruto, o moreno levantou de sua cadeira, puxando-o para que ele se colocasse de pé ao seu lado. Surpreso, o Uzumaki se deixou manipular, aguardando a novidade que seria anunciada, tentando respirar com mais dignidade e diminuir sua libido. O Uchiha suspirou fundo, segurando as duas mãos de Naruto com as suas e abriu um sorriso largo, surpreendendo Naruto.
Sasuke sorria mais atualmente, claro. Mas nunca um sorriso daquele tamanho!
— Sarada aceitou; nos aceitou. — ele anunciou, entrelaçando sua mão à de Naruto e permitindo que as duas alianças encostassem com o toque — Nós podemos nos casar.
Naruto deixou o queixo cair, sentindo um arrepio de extrema ansiedade percorrer seu corpo. Seu coração acelerou de uma forma tão intensa que ele mal conseguiu controlar sua respiração ofegante em meio ao riso surpreso que deixava escapar a cada arfada de ar.
— Ela... Ela aceitou!? — questionou, apenas para se certificar de que não estava ouvindo coisas; até Kurama devia estar surpreso, a julgar pelo seu silêncio momentâneo — Isso é verdade, Teme? Você está falando sério?
— Sim, estou. — Sasuke respondeu, ainda mantendo o sorriso radiante de antes — Eu não ia te falar hoje, até porque faz pouco mais de um mês que ela vêm permitindo minha reaproximação, mas desde que eu contei a verdade sobre os Uchihas para ela, ela vem se tornando cada vez mais pensativa. Hoje nos encontramos pra treinar e então ela disse que compreende meu lado, e perguntou quando nós vamos nos casar. Eu não ia te contar hoje, eu não queria me precipitar, mas... Eu acho que já esperamos demais, Dobe.
Naruto encostou sua testa à de Sasuke, esfregando a ponta de seu nariz de forma afetuosa ao nariz dele. O moreno, apesar de toda birra de antes, curvou-se para frente e roubou um beijo longo e provocante de Naruto, o qual o segurou durante muito tempo e fez com que a carícia durasse até o momento que ambos perderam o fôlego; Sasuke sentiu até a estabilidade do chão se perder, tamanha foi a intensidade desta carícia.
Todavia, quando finalmente se afastou e abriu os olhos, Sasuke se deu conta de que não estava mais em sua cozinha, e que muito provavelmente a perda de estabilidade fora consequência de um teleporte: encontravam-se em um lugar escuro, mas conseguia sentir a presença de Naruto ao seu lado e isso lhe deu grande conforto; mesmo assim, resolveu ativar seu sharingan, tanto para visualizar o local, quanto para sua autodefesa.
Naruto riu diante de sua reação, soltando um pouco o corpo do Uchiha e fazendo-o colocar os pés em uma superfície gelada. Para o espanto do Uchiha, foi só naquele instante que ele percebeu que Naruto o havia levantado um pouco do chão em meio ao beijo e, ao que tudo aparentava, utilizara o jutsu-shiki na sua companhia, o teleportando para algum lugar na natureza. Ele logo analisou o ambiente: encontrava-se no centro de um lago, rodeado por mata fechada após uma pequena margem de terra e pedregulhos; a noite estava um pouco nublada, mas as nuvens acabavam de se moverem o suficiente para revelar a lua cheia e iluminar mais claramente o ambiente.
Apesar de ser noite, Naruto não podia negar o quão belo Sasuke ficava perante a luz do luar. Parecia ainda mais pálido, e isso lhe dava uma beleza clássica que ele não cansava de apreciar. Apesar do horário inconveniente, não pode se arrepender de tê-lo trazido ali naquele momento: noite mais bonita que aquela era impossível de acontecer.
‘Meus níveis de diabetes estão altos. Para de melação.’
— Onde estamos? — Sasuke questionou assim que Naruto o soltou um pouco, ainda mantendo seus braços ao redor do seu corpo. Automaticamente Sasuke transferiu seu chakra para os pés, mantendo-se de pé sobre a superfície do lago.
— Você confia em mim? — Naruto rebateu sua pergunta com outra, fazendo com que Sasuke parasse de analisar o ambiente e fitasse a expressão séria que ele exibia — Confia, Sasuke?
O Uchiha costumava se sentir extremamente irritado quando era respondido com uma pergunta, mas a seriedade na expressão de seu noivo fizeram com que qualquer sentimento do tipo se esvaísse. Ele estava ansioso pelo que viria, até mesmo um pouco preocupado, mas não havia outra resposta para aquela pergunta:
— Confio. — o Uchiha respondeu, relaxando seus braços ao redor do corpo de Naruto, desativando seus sharingans, e parando de tentar entender o que acontecia. Naruto tinha sua total confiança e, seja lá o que pretendesse fazer, ele aguardaria pra ver.
— Você realmente aceita se casar comigo, não é?
— Eu te disse que sim, seu estupido. O anel tá no meu dedo, não est-...
Desta vez, foi Naruto que o silenciou. E foi com um beijo.
Sasuke inicialmente arregalou o olhar em surpresa, pois durante todo esse tempo Naruto jamais iniciara um beijo. Claro, ele retribuía, alongava algum beijo que Sasuke tivesse iniciado, o mantinha próximo de si se ele quisesse interromper e continuava à beijá-lo, mas sempre o pontapé inicial partia do Uchiha.
Bom, quem diria! Ele finalmente cedeu!
Naruto o apertava, puxando-o para perto de seu corpo e praticamente levantando-o da superfície da água mais uma vez. Sasuke, em meio a toda tontura que a nova carícia lhe causava, sentia-se até grato por Naruto segurá-lo daquela forma: sabia que se dependesse de seus pés, já tinha caído dentro do lago. Estava difícil manter qualquer outra concentração que não fosse a de retribuir o beijo de Naruto e mapear seu corpo com as mãos, a euforia de ser beijado (e de ter vencido o desafio) o deixava ainda mais animado perante aquele acontecimento.
— Você parou com essa promessa besta? — Sasuke questionou entre uma arfada de ar particularmente forte, enquanto Naruto deixava um rastro de mordidas pelo seu pescoço, abaixando a gola de sua camiseta para deixar marcas suaves em toda parte de sua pele que conseguia alcançar sem tirar suas roupas.
— Nunca descumpro uma promessa. — Naruto respondeu com a voz rouca, antes de dar uma mordida particularmente forte no canto do pescoço de Sasuke, arrancando-lhe um gemido contido.
Sasuke empurrou Naruto para trás com as duas mãos, interrompendo os beijos desenfreados que recebia. Na verdade não desejava que esse contato chegasse ao fim, mas novamente o orgulho falou alto: o Dobe tinha que confessar que foi ele quem cedeu, seu orgulho Uchiha cravava por isso!
— Como assim não descumpriu promessa? — Sasuke falou, ainda ofegante; Naruto teve uma grande dificuldade em deixar de fitar os lábios agora inchados do Uchiha e prestar atenção no que ele falava — Você acabou de me beijar!
— Qual foi a promessa, Teme? — Naruto sussurrou, olhando-o nos olhos expressivamente.
— Você jurou que só ia me beijar quando estivéssemos no altar.
— Aí está: promessa cumprida.
Sasuke ficou em silêncio por alguns instantes, sem entender o que Naruto queria dizer. O Uzumaki, no entanto, continuava a fitá-lo com a expressão séria, como se aguardasse uma resposta em relação a isso. Sasuke piscou duas vezes, abriu e fechou a boca, e Naruto o encorajou a falar com um sorriso encabulado.
— Você não está querendo dizer...?
— Eu sou o Hokage, não sou? — Naruto constatou, retirando do bolso um pergaminho pequeno e colocando-o nas mãos de Sasuke — E você sabe como a lei funciona...
Pelas leis do País do Fogo, os ninjas podiam ser casados apenas com o consentimento do Hokage, tendo em vista sua função militar e necessidade de aval para realizar certas modificações em suas vidas. Em virtude dessa lei, o casamento entre os shinobis decorria de um contrato assinado pelos noivos e pelo Hokage, o qual agia como um juiz de paz, de uma maneira bem rápida e pouco burocrática. No passado, era comum que ninjas a beira da morte resolvessem se casar com as pessoas que amavam, tanto para lhe assegurar seus bens, quanto pela honra do clã ou para realização de um último desejo. Por conta disso, não havia necessidade de testemunhas, ou de qualquer formalidade maior do que o aval do Hokage, para a validade da cerimônia.
Com as mãos tremulas, Sasuke abriu o pergaminho, observando-o rapidamente com o sharingan e lendo-o por completo em pouco mais de dois segundos, demorando um pouco mais no campo já assinado por Naruto, certificando-se de que suas especulações estavam corretas. Fitou Naruto em seguida, sem saber ao certo o que dizer e como reagir.
— Eu pensei em muitas alternativas, sabe. — Naruto comentou, segurando o rosto de Sasuke docemente com as mãos — Pela lei, qualquer Hokage poderia nos casar, então podíamos fazer uma cerimônia grande, um evento gigantesco e todo mundo apareceria, e pedir para Tsunade ou Kakashi nos casarem. Mas você não ia querer algo assim. Então, eu conclui: se, pela lei, qualquer Hokage pode nos casar, então eu posso nos casar. E... bem...
— Você está querendo que eu assine esse contrato e formalize nosso casamento sem qualquer tipo de festa ou comemoração?
— Bom, na verdade não faço questão. — Naruto murmurou, um pouco incerto de sua decisão — Até porque o clima ainda não está muito propício para comemorações públicas: Konoha ainda não me perdoou totalmente pelo divórcio, então pra ter uma festa a gente teria que esperar mais uns meses. Mas...
‘Mas seu corpo não aguenta mais esperar, né pirralho?’
— M-mas se você acha que eu estou me precipitando, ou se você quiser uma festa, e-eu...
Sasuke, admirando a forma como Naruto parecia mais meigo enquanto gaguejava, juntou sua testa a de Naruto, colocando suas mãos suavemente na mandíbula do outro, acalmando-o com o gesto afetivo.
— Se você inventasse de fazer festa, eu juro que diria “não” e te deixaria plantado no altar. — ele concluiu, recebendo um suspiro de alívio do outro — Eu achei que você ia querer uma cerimônia, mesmo que fosse pequena. Você tem certeza que não quer?
Naruto balançou a cabeça afirmativamente, enquanto Kurama ainda enchia sua cabeça de absurdos, os quais o Uzumaki dava graças a Deus por Sasuke não conseguir ouvir.
Apesar de ser verdade que Naruto queria oficializar o relacionamento o quanto antes para que pudesse ter suas núpcias, esse não era o único nem o maior motivo para sua afobação: foram anos de espera, vidas de espera, e Naruto não aguentava mais esperar.
Obviamente, o Uzumaki era uma pessoa extremamente sociável e adoraria celebrar rodeado de seus amigos um momento marcante de sua vida como um casamento. Mas o que Naruto sentia por Sasuke era diferente: a cumplicidade dos dois era tão única, tão difícil de explicar, que ele chegou à conclusão que festa alguma expressaria o quão importante um é para o outro. De nada adiantaria demonstrar publicamente: eles se entendiam à maneira deles, e festa alguma faria jus ao sentimento que compartilhavam, nem mesmo seus amigos mais próximos compreenderiam a grandiosidade desse momento para o casa. Não havia motivos para convidar àqueles que jamais compreenderiam totalmente o que eles sentiam para comemorar ao lado deles.
Inicialmente, Naruto se sentiu um pouco egoísta por isso: seus amigos estiveram durante tanto tempo ao seu lado, por que não chamá-los para comemorar? Mas depois ele se deu conta de que essa conquista não era uma conquista de Naruto Uzumaki e Sasuke Uchiha, era a quebra de um ciclo que transcendia esta vida. Era muito mais pessoal do que o casamento que ele teve com Hinata: envolvia suas almas, suas vidas anteriores, e a reconciliação da paz interior que eles tanto buscavam.
Era extremamente íntimo e particular. Era um momento único e exclusivamente dos dois, e ele não queria testemunhas.
‘Eu ainda estou aqui, tá? Só pra você lembrar’.
Você pode, Kurama. — Naruto respondeu mentalmente, sentindo-se um pouco encabulado com o que estava prestes a admitir — Você... Você é o que está mais próximo de entender o que nós dois sentimos. Você sabe de coisas que nenhuma outra pessoa sabe.
‘Hmm... Acho que eu certamente não estaria na lista de convidados do Uchiha.’ Kurama respondeu, um pouco encabulado, e extremamente grato pelas palavras de Naruto.
Eu faria o Teme aceitar, já que ele está te devendo um favor e tudo mais. — o loiro respondeu, com sinceridade, sentindo-se grato por ter a companhia de Kurama e poder dividir com alguém todas as suas frustrações; por mais enfadonha que a raposa pudesse ser de tempos em tempos.
Mas não era momento para se concentrar em Kurama, e sim em Sasuke: ele o olhava como se esperasse uma resposta verbal, e então Naruto decidiu deixar bem claro o que sentia:
— Eu quero passar esse momento só com você. — Naruto declarou à Sasuke, retomando o foco em seu olhar e adorando a maneira como a expressão dele parecia cada vez mais satisfeita com a situação.
Após assimilar a declaração, Sasuke guardou o pergaminho no bolso de sua calça e segurou as mãos de Naruto com as suas, retirando a aliança de sua mão direita, lentamente, e recolocando-a no anelar da mão esquerda. Naruto sentia seu coração bater cada vez mais forte e sua visão ficar turva, realizando o mesmo movimento em Sasuke, com a diferença de que suas mãos estavam extremamente trêmulas.
— E-eu... — Naruto tentou falar, se declarar, improvisar algum tipo de voto de casamento. Sabia que não tinha necessidade disso, Sasuke praticamente explorava seu coração e sabia todas as intenções que ele possuía nesta união, mas o medo de mais uma vez fugir do tradicional e ser mal interpretado ainda persistia.
— Shii... — Sasuke o silenciou com um dedo em seus lábios, sorrindo um sorriso de canto de boca que fez o coração de Naruto pular uma batida — Só me passe a caneta, senhor Uchiha.
Primeiramente, o Uzumaki arregalou o olhar, se perguntando se Sasuke falava sério. Não demorou muito para perceber o grau de brincadeira de seu tom de voz, e então começou a rir.
— Auto lá! “Senhor Uchiha” uma ova! — Naruto respondeu entre uma crise de riso, retirando de seu bolso uma caneta e estendendo para o outro — Eu vou manter o meu sobrenome! É muito mais bonito que o seu.
— Tem certeza? — o Uchiha indagou, com falsa seriedade, tomando o objeto em mãos — Eu acho que Naruto Uchiha combinaria muito.
— Cale a boca, bastardo! — o loiro ainda ria, se divertindo com o clima leve que Sasuke propusera com aquela brincadeira, não sabendo ao certo se sorria tão abertamente pela leveza do momento, ou pelo fato da assinatura de Sasuke ter um contraste tão maravilhoso contra aquele pergaminho.
Assim que Sasuke terminou de assinar, Naruto arrancou o documento de suas mãos, realizou um jutsu de teleporte que fez com que o pergaminho sumisse de suas mãos e surgisse no setor mais seguro do arquivo da Torre Hokage. Com as formalidades terminadas, Naruto não perdeu mais um único segundo: puxou o corpo de Sasuke pela cintura para perto de si, roubando-lhe o primeiro beijo de casal oficialmente constituído.
Sasuke, por sua vez, ficou desnorteado com o gesto, ainda desacostumado pela iniciativa do beijo ter partido de Naruto. Claro que imaginava que assim que oficializassem a união, Naruto o beijaria com maior frequência, como havia prometido — ainda sim, estava costumado com a inversão de papeis. E o beijo... este beijo em especial...
Era um beijo que beirava à insanidade, fazendo suas pernas bambearem e o forçar a se segurar em Naruto pelos braços. A cada nova mordida nos lábios, ou gemidos de intensa animação (os quais ele não sabia se partiam de Naruto ou de si próprio) faziam com que sua capacidade de concentração de chakra falhasse; não mais de uma vez, os dois quase perderam o controle e caíram no lago, sendo amparados um pelo braço do outro, intercalando o pouco de controle que ainda possuíam.
A carícia em si era íntima e muito mais demorada do que se esperaria de um beijo de casamento, e os dois não poderiam se sentir mais gratos pela privacidade. Naruto estava tão animado que deixava seu chakra descontrolar aos poucos, e Sasuke sentia seu corpo ser envolto pelo chakra dourado e quente do seu esposo: o Uchiha não sabia se o calor que sentia era pelo chakra ou pela excitação que os beijos, as mordidas e as demais carícias o proporcionavam naquele instante.
Era como se estivessem compartilhando o sentimento de excitação, porque Sasuke não considerava capaz de sentir tanto prazer por conta própria. Só podia estar sentindo o que Naruto também sentia. Esse compartilhamento de sensações era tão assustador no passado, ele se sentia desnorteado toda vez que isso acontecia; mas parece que foi só aceitar o inevitável e vivenciar essa particularidade que tudo se tornou ainda mais intenso.
Enquanto isso, Naruto apenas aproveitava a onda de sentimentos e chegava a conclusão que se um beijo mais intenso lhe causava toda essa loucura, ele muito provavelmente morreria de ataque do coração quando finalmente fizesse amor com Sasuke.
Mas vai ser a morte mais feliz que um shinobi pode ter!
‘Se isso acontecer, eu vou rir muito antes de chorar pela sua morte, ok?’
Quando interromperam o beijo, Sasuke ainda demorou um pouco para controlar sua respiração ofegante, ouvindo o barulho da respiração igualmente descompassada de seu parceiro. Abriu os olhos e sentiu-se grato ao constatar que a luz lua cheia, o indício de nascer do sol e o chakra dourado conseguiam iluminar bastante o rosto de Naruto, fazendo-o enxergar a maneira como as maçãs de seu rosto tornavam-se rubras pelo beijo estonteante que acabaram de trocar. Sorriu brevemente, unindo sua testa à do outro e deixando suas respirações entrecortadas mesclarem.
Naruto, mesmerizado com a ideia de finalmente ter se casado com seu amor, acariciava a lateral de seu rosto com os polegares de maneira terna; todavia, logo suas mãos pareceram adquirir vontade própria (e uma vontade bem menos meiga, diga-se de passagem) e começaram a apapar Sasuke por cima das vestes negras e simples que ele usava, deixando uma de suas mãos escapar para dentro de sua camiseta e acariciar seu abdômen.
Neste minuto, o Uchiha perdeu de vez a firmeza que tinha na concentração de chakra de seus pés; mas Naruto foi rápido o suficiente de afirmar sua pegada na cintura do Uchiha e o impedir, mais uma vez, de cair contra as águas.
— Você é muito sensível ao toque. — Naruto murmurou ao ouvido do Uchiha, inalando o cheiro suave do xampu que desprendia de seus cabelos — Eu gosto muito disso.
— Vamos pra casa. — Sasuke sussurrou, sentindo seus calcanhares molhados e gelados; apesar de não ter caído de vez no lago, não queria continuar esse perigo.
E, sendo bem sincero, ele gostaria de fazer algumas coisas que não poderiam ser feitas ao céu aberto.
— Não, Teme... Não ainda. — Naruto murmurou contra seu pescoço, mordendo-o de leve em seguida — Tem algo aqui que eu quero te mostrar. Eu te trouxe aqui por um motivo.
Isso dito, Naruto se afastou um pouco de Sasuke e o soltou assim que teve certeza de que ele estava sob seu próprio controle de chakra e não iria cair de uma vez nas aguas. Tomou-lhe a mão esquerda docemente e o puxou para caminhar ao seu lado, aproximando-se da margem oposta.
Quando os dois chegaram bem próximos à borda do lago, o qual findava bem próximo de um precipício, Sasuke finalmente identificou onde eles estavam: Tratava-se do vale do fim, ou o que restou dele.
Todos de Konoha sabiam a história da criação do Vale do Fim: durante a briga épica de Madara e Hashirama, a qual resultou na derrota de Madara (e em sua falsa-morte), os dois realizaram um dano estrondoso no terreno onde batalharam, criando uma clareira que posteriormente se tornaria o famigerado Vale do Fim. Uma pequena corrente de água escorria do topo do paredão e acabou, com o tempo, se tornando uma cachoeira, agitando as águas de um lago que outrora era extremamente pacífico e cristalino, transformando-o num rio revoltoso, que assim permaneceu durante muitos anos.
Em homenagem a batalha que dividiu a história do mundo Shinobi, as estatuas de Madara e Hashirama foram esculpidas, cada qual ao lado de uma margem da cachoeira, ambas realizaram o símbolo de confronto e, de certa forma, simbolizavam todo o dilema que estas duas almas vivenciaram em suas vidas. Madara, o renegado, estava na margem que pertencia ao país do Som, enquanto apenas Hashirama tinha a honra de permanecer na margem do país do Fogo.
Os confrontos que Sasuke e Naruto tiveram naquela região destruíram aos poucos os monumentos do Vale do Fim: em crescente grau de destruição, o último confronto dos dois, logo após a derrota de Kaguya, resultou em uma obliteração completa das estátuas de Madara e Hashirama, bem como do fim da corrente d’água que dava origem à cachoeira. O lago se tornou novamente uma água suave e cristalina, e isso explicava como Sasuke não havia reconhecido o local até então.
— Eu gosto de pensar que aquele momento marcou o fim de um ciclo. — Naruto declarou, observando a vegetação que agora nascia de forma exuberante no local onde antes era o desague da cachoeira. Do topo do lago próximo ao paredão, Naruto não podia se sentir menos grato por não ver aquelas estatuas em posição de batalha — As estátuas simbolizavam uma batalha eterna, era como se cultuassem esse momento trágico da vida de Konoha. Eu não pensava muito nisso quando éramos menores, nem mesmo quando destruímos de vez esse lugar, mas hoje eu não vejo isto como a destruição de um patrimônio.
— Foi uma libertação. — Sasuke complementou, compreendendo perfeitamente as palavras de Naruto — Foi... Foi intenso, mas necessário, e aos poucos o local está se tornando como era antes da briga dos dois.
Era difícil referir-se a Madara e Hashirama como “eles”, mas Sasuke tinha certeza que Naruto entenderia.
O loiro fez um aceno positivo com a cabeça e entrelaçou seus dedos à mão de Sasuke, fitando a vista com ternura e paz. Permaneceram daquela forma, encarando a vista maravilhosa com um misto de paz e satisfação.
— Eu sei que foi nesse lugar que eu te disse que você era meu amigo. — Naruto murmurou, envolvendo um braço ao redor da cintura do outro — Eu não estava errado no que disse: você foi meu amigo, você foi meu irmão, mas nessa vida... Nessa vida você é muito além do que qualquer rótulo.
— Em pensar que cada vez que você me chamava de “amigo” eu me sentia tão quente e tão frio por dentro. — Sasuke murmurou ao vento, um pouco nostálgico, encontrando os vestígios das mãos de Hashirama e Madara entrelaçadas de maneira amistosa entre toda a vegetação que agora crescia ao redor — Era um desespero ter você tão devoto a mim ao ponto de me chamar de “amigo” mesmo depois de tudo que aconteceu, mas ao mesmo tempo eu acho que desabaria se você falasse que não éramos mais amigos, por mais que eu fingisse que não ligava.
— Eu sentia o seu sofrimento. — o loiro afirmou, dando uma risadinha em seguida — Mas confessa, era porque você achava que eu nunca ia te ver romanticamente, né?
— Vai sonhando, Usuratonkachi. — ele escondeu um sorriso, virando o rosto para não ser flagrado — Eu sabia antes de você saber, se é que me entende.
Naruto sorriu mais largamente, correndo ao redor de Sasuke e colocando-se em sua frente, segurando suas duas mãos com as dele de forma extremamente afetuosa, deixando as alianças se encostarem levemente.
— Eu queria me casar aqui para finalizar esse ciclo grandiosamente, sabe. — explicou, observando a forma como o sol começava a nascer por trás de toda aquela vegetação, dando uma iluminação cor alaranjada, quente e maravilhosa, intensificando o momento com ainda mais magia — Sabia que você não ia querer uma cerimônia nem plateia ou qualquer coisa do gênero, confesso que foi meio impulsivo de trazer pra cá logo essa noite e eu nem estou vestido de maneira apropriada e tudo mais, mas-...
— Eu te amo. — Sasuke finalmente disse, fazendo com que Naruto fechasse a boca subitamente, apenas se concentrando nos detalhes do outro: na forma como a brisa suave fazia com que seus cabelos balançassem e reflexo do sol em sua pele pálida e bela, por si só, fazia com que o coração de Naruto acelerasse ainda mais, unidos às três palavrinhas magicas não havia mais nada que pudesse tornar aquele momento mais especial do que já era — Eu te amei todas as vezes. E eu amei você ter me trazido aqui. Não podia ter sido melhor.
Não era sempre que Sasuke dizia essas palavras e, ouvi-las naquele momento, naquele local que marcou tanto a vida dos dois, foi demais para Naruto. Ele deixou as primeiras lágrimas de emoção escaparem de seus olhos e, envergonhado, os cobriu com seu braço livre.
— Eu estou tão feliz! — ele exclamou, sua voz soando emotiva e entrecortada, enquanto apertava ainda mais a mão de Sasuke com a sua — Eu acho que você nunca vai conseguir me fazer tão feliz como me fez agora, Sasuke!
Subitamente, o Uchiha desprendeu suas mãos à dele, ficando frente a frente e forçando-o a abaixar seu braço. Fitou os olhos azuis iluminados pelo sol nascente com muita ternura, tendo a completa certeza de que Naruto seria eternamente a aurora de sua existência. Não havia cenário que combinasse mais com Naruto do que aquele, e ele não era o único extremamente realizado naquele instante.
Uma nova vida para os dois se iniciava, e o nascer belo do sol, justamente naquele lugar de tantos encontros, desencontros e divisores de água, só podia significar um maravilhoso presságio.
— Olha, eu acho que eu posso te fazer ainda mais feliz. — Sasuke respondeu, dando-lhe um beijo promissor nos lábios, não escondendo suas intenções devassas — Você cumpriu sua parte do nosso acordo, não cumpriu?
Naruto demorou um pouco a perceber o que Sasuke se referia, mas quando finalmente se deu conta, não pode deixar sua animação de ficar evidente em seu olhar. Agarrando Sasuke e beijando seu pescoço e qualquer outra parte do corpo do outro que estava a vista.
— Eu é que vou te fazer muito feliz agora, Sasuke. — o Hokage afirmava entre a troca de beijos estalados, arrancando risadas e arrepios de seu amor — Você vai gemer meu nome tantas vezes que vai ficar até rouco.
— Mas é logico que é você quem vai gemer meu nome sem parar, seu idiota.
Naruto parou de beijá-lo, olhando o rosto desafiador do Uchiha com surpresa e divertimento.
— Isso é um desafio? — ele questionou, de forma brincalhona — Por que se for, você está ferrado.
— Oh Naruto, vou te fazer engolir essas palavras. — Sasuke falou, aproximando-se dos lábios de Naruto como se fosse dar-lhe um beijo, mas parando centímetros antes de seus lábios — Eu também tenho fama de só prometer o que posso cumprir, sabia?
Foi neste momento que Naruto decidiu que não havia mais a necessidade de continuar assistindo o nascer do sol. O momento foi lindo e tudo mais, mas um desafio de Sasuke Uchiha não podia ser menosprezado. Ele tinha um casamento a consumar, afinal de contas!
‘Bom... ao menos dessa vez o casamento vai ser tudo menos “morno” como das outras vezes!’
Ow ow, auto lá! Você pode ter presenciado nosso casamento e tudo mais, mas nem vem se intrometer nisso!
O demônio não respondeu, se limitando apenas em rir na mente de Naruto, divertindo-se da forma como ele se ficava extremamente envergonhado com essa perspectiva e como Sasuke, desconhecendo totalmente a conversa que os dois trocavam, interpretava aquele gesto como uma demonstração de submissão.
Kurama! Seu amigo da onça! Quem vai ser submisso hoje é o Sasuke! Você tá do lado de quem, hein?! KURAMA!
Mas Kurama não respondeu Naruto, deixando com que Sasuke logo direcionasse sua atenção novamente para si. Apesar de jamais admitir ao garoto, ele estava feliz por vê-lo feliz: mesmo que isso significasse aguentar o Uchiha por mais algumas décadas. E o que era um detalhe tão pequeno perante a felicidade de ver a sua pessoa mais especial atingir o nirvana?
'Urgh, acho que essa convivência com os moleques tá me deixando meloso também. É contagioso!'
FIM
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