Owari

5 Capítulo 5


Notas iniciais
N/A: Olá leitores, finalmente estou atualizando Owari! Desculpe mais uma vez pela demora, dessa vez os motivos foram outros: eu mudei de carreira profissional, e isso gerou uma reviravolta na minha vida. Eu era autônoma, agora estou trabalhando como assalariada e focando em um novo objetivo, e a fase de adaptação foi um pouco mais complicada do que eu antevi. Isso não é uma reclamação, pois eu estou feliz com a escolha, só que toda fase de mudança é complicada, né? Em meio a esse processo, Haunted precisava desesperadamente de atualização, então eu tive que focar naquela fanfic. Eu ia escrever Owari na sequência, mas aí veio o maldito Gaiden de Naruto e eu me estressei muito, muito, MUITO com tudo que aconteceu. Para não ter uma crise criativa, eu escrevi uma fanfic de outro fandom (“Q.I. é diferente de Q.E.” - Operação Big Hero) e respirei com mais calma para agora voltar em Owari com foco e disciplina, sem grandes empecilhos. Owari está no final, e eu espero terminar a fanfic em breve. o/ Bom, sobre o Gaiden de Naruto, eu disse que não iria acompanhar e inicialmente eu tentei não acompanhar, mas os leitores ficam falando comigo, me pedindo opinião, me mandando mensagens sobre isso, e para não ser a chata que deixou todo mundo no vácuo eu fui ler para respondê-los. O resultado disso, como podem ver, não foi bom. Olha gente, vou ser bem sincera, por favor não falem comigo sobre o Gaiden. Isso em vez de me animar pra escrever coisa de Naruto me deixa cada vez mais distante do fandom, pois eu estou detestando tudo isso. Se eu já estava insatisfeita com Gaiden/filme do Bolt/The Last/ Light Novels ANTES de eles começarem, imagina agora. Eu peço encarecidamente que se você leitor decidir comentar a fanfic (por favor comentem) não fiquem mencionando o que o Kishimoto ou Shonen Jump/Studio Pierrot fizeram; comentem a minha fanfic, comentem o que eu estou fazendo, e não o que os outros estão fazendo, ok? Nem reclamar do Kishimoto eu aguento mais, eu estou saturada demais mesmo. Eu quero ignorar que isso está acontecendo, seguir meu trabalho como ficwriter, e espero que vocês compreendam isso. Eu estou falando isso de antemão, porque eu sei que vai ter gente comentando e falando coisas do tipo “PC o que você achou da Sarada e Bolt no mangá? Vai mudar a personalidade deles aqui?” ou “PC você adivinhou algumas coisas do mangá”. Gente, eu não adivinhei nada, eu não vou mudar nada, isso aqui é uma fanfic pós-série e tem que ser vista como tal, e sinceramente tá totalmente diferente do Gaiden (com orgulho). Se o Gaiden está em andamento ao mesmo tempo que a fanfic, são coisas totalmente diferentes e devem ser interpretadas de formas distintas. Para que eu consiga lidar com todo esse ódio, por favor não mencionem o Gaiden em reviews, conversas, ask e tudo mais. Eu já pedi isso em vários lugares, e agora eu achei melhor pedir nas notas de Owari também. Comentem Owari como vocês comentam qualquer outra fanfic, certo? =) Esqueçam o Gaiden, os novels e os filmes: ele não existe aqui. Muuuito obrigada ELO e Dray pelas recomendações à fanfic! Amei suas palavras, de coração! *-* Beijinhos e boa leitura a todos!

Owari

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Capítulo 5

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Faltavam apenas algumas horas de caminhada para finalmente chegarem à Kirigakure e encerrarem aquela viagem desconfortável, mas Naruto resolveu parar para acampar antes de chegarem no local, afirmando não ser muito educado aparecer na vila em meio a madrugada. Sasuke, que não se importava nem um pouco com a etiqueta e só queria ficar um pouco de tempo a sós, teve que aceitar a ordem do Hokage sem muito questionar. Afinal, Naruto sabia sobre política, coisa que ele não sabia e não pretendia aprender tão cedo.

Irritado com a companhia distante do Uzumaki nos últimos dias, o Uchiha não tentou dormir, afirmando que faria a ronda naquela noite. Naruto argumentou que eles não precisavam se preocupar com vigília, pois Kurama iria cuidar de qualquer problema que surgisse, mas Sasuke não lhe deu ouvidos, brincando com as chamas alaranjadas da fogueira enquanto o Hokage tentava a todo custo fazê-lo entrar em sua barraca para descansar algumas horas.

O problema era que Sasuke não aguentava mais dividir a tenda com Naruto: era masoquismo, e ele estava farto disso. Tanto ele quanto Naruto sofriam durante a noite, muitas vezes fingindo dormir enquanto na verdade prestavam atenção na respiração um do outro. Eles não dormiam próximos um do outro, mas inconscientemente eles se aproximavam cada vez mais durante a noite, e na madrugada anterior Sasuke acordou com as costas grudadas às costas de Naruto. Isso foi a gota d’agua, ele não estava nem um pouco disposto a se machucar ainda mais. Tudo que ele queria era chegar logo em Kirigakure e ter uma bendita noite de sono num quarto separado de Naruto, porque aquela rotina era passageira e ele não podia se acostumar com esse tipo de contato.

A noite foi cansativa, mas bem menos frustrante do que as anteriores. As horas passaram lentamente e, no presente momento, Sasuke estava melancolicamente apreciando o lento e nublado nascer do sol, quando a tenda se abriu e Naruto saiu da barraca.

— Atento desta forma você parece até um adulto, Uchiha.

Ou, pelo menos, ele achou que era Naruto...

Sasuke franziu o cenho, observando a aproximação do corpo à sua frente: era o corpo de Naruto, mas não era de fato aquela pessoa. Tratava-se da raposa de nove caudas, o sorrisinho superior com caninos longos, os olhos avermelhados, as marquinhas mais selvagens no rosto e o cabelo arrepiado deixavam bem claro isso. Sasuke não reagiu inicialmente, sabia que Naruto nunca permitiria que Kurama controlasse o corpo se imaginasse que ele ofereceria qualquer tipo de perigo a Sasuke; mesmo assim, não gostou nem um pouco daquela interação.

— Eu sou um adulto, Kyuubi. — Sasuke rebateu, estreitando o olhar em ares de desavença.

Kurama não pareceu nem um pouco intimidado, se aproximando ainda mais e resolvendo se sentar de pernas cruzadas bem à frente do Uchiha, erguendo uma das mãos, que agora exibiam as garras típicas de quando ele controlava aquele corpo, e passando-as sobre as pontas dos cabelos morenos cobertos de fuligem, como se avaliasse o comprimento.

Sasuke estapeou sua mão para longe e instintivamente ativou seu sharingan; Kyuubi não pareceu se importar.

— Acho que é a ausência do corte de cabelo ridículo de antes, não que esse esteja muito melhor.

— Que tentativa frustrada de ter um senso de humor. — Sasuke comentou secamente, sem sequer piscar enquanto olhava para Kurama da forma mais ameaçadora que conseguia — Ficar tanto tempo dentro de Naruto com certeza não te fez muito bem.

— E quem está falando isso é alguém que daria de tudo pra estar dentro de Naruto, né? — Kurama pontuou, cruzando os braços de maneira vencedora, agora aparentando sentir algum prazer ao ver a expressão irada de Sasuke.

Era revigorante ver um sharingan e saber que agora estava forte o suficiente para não conseguir ser dominado por esse tipo de artimanha dos Uchiha. O vínculo que ele tinha com Naruto era grande demais para que outra pessoa o controlasse, nem mesmo um Uchiha conseguiria essa façanha atualmente. Essa era uma das vantagens que um demônio podia ter ao conseguir um jinchuuriki forte e criar afinidade com ele: ele protegia Naruto e, em contrapartida, Naruto também o protegia. Era o tipo de relação perfeita, a qual, até hoje, ele só conseguiu com a sua atual companhia.

Kurama tinha que confessar: ter escolhido ficar com Naruto ao fim da guerra foi uma decisão sábia e prazerosa, apesar de toda a chatice do casamento de seu jinchuuriki. À sua maneira, Kurama gostava muito de Naruto e ficar distante dele seria difícil. Ele já sofria em antecipação por saber que, cedo ou tarde, Naruto morreria e ele voltaria a ficar só. Contudo, evitava pensar a respeito disso: Naruto também ficava muito triste quando esse pensamento cruzava a sua mente.

Alheio aos devaneios de Kurama e concentrando-se apenas na implicação pornográfica que a raposa rebatera, Sasuke precisou de muito esforço para não corar com aquele comentário, não acreditando que o outro era capaz de fazer uma insinuação tão atrevida.

— Chega de besteira! — Sasuke exclamou, após pigarrear e controlar sua compostura — Não sei o que você está fazendo aqui, mas o corpo de Naruto precisa descansar. Volte para a barraca e deite.

— Naruto disse para eu fazer a vigia essa noite. — Kurama pontuou, dando de ombros. — Ele descansa enquanto eu estou no comando, fizemos isso várias vezes nas missões que ele pegou antes de se tornar Hokage.

— Não demorou um pouco demais pra começar a cumprir o ordenado dele, demônio? A noite já acabou.

— Ordens são para vocês, subordinados do Hokage. Comigo e Naruto a relação é de “favor”. Mas respondendo sua pergunta: só porque eu não estava fora não quer dizer que eu não tenha feito vigia lá de dentro. Meus sentidos são dezenas de vezes mais fortes do que os de um humano, caso não se lembre deste pequeno detalhe. Você precisa ficar fora e vigiar com os olhos, mas eu possuo outras maneiras de fazer isso.

Sasuke expirou com força, irritado e sem o mínimo de paciência pra bater papo com um demônio que o odiava (e, de certa forma, o sentimento era recíproco). Preparou-se para ficar de pé e sair do acampamento por alguns minutos, pelo menos até Naruto acordar; todavia, Kurama o agarrou pelo braço e forçou de volta ao chão, segurando seus pulsos com firmeza e fincando as unhas na terra para imobilizá-lo.

Sasuke poderia arremessá-lo para longe facilmente, era só ativar o Susano’o, ou talvez nem precisasse de tanto. Mas era o corpo de Naruto e ele sofreria as consequências, não Kurama: por isso, ele simplesmente ergueu uma sobrancelha, desafiando o demônio atrevido a explicar suas ações.

— Nós precisamos conversar. — ele disse, sua expressão agora perdera o ar chacoteador de antes e parecia séria, seus olhos avermelhados exibiam um certo grau de preocupação — Sobre Naruto, é claro.

— Eu não tenho nada para falar sobre ele.

— Pois eu tenho, então cala essa sua boca de Uchiha insuportável e escuta com atenção.

A paciência de Sasuke se esgotou naquele momento e ele decidiu que iria reagir, Naruto que o perdoasse depois pela surra que ia indiretamente receber. Mas Kurama fez algo que o deixou extremamente confuso e perdido antes que Sasuke pudesse tomar uma atitude: ele corou intensamente e se afastou, soltando seus braços e engolindo em seco.

— O que diabos foi isso? — O Uchiha perguntou, piscando forte pra ter a certeza de que era ainda Kurama no comando do corpo de Naruto. Aquela atitude certamente não era algo que ele vira a raposa fazer em algum momento de sua vida. Kurama, corar? Impossível.

— Naruto, aquele moleque idiota, está sonhando com você. — Kurama respondeu, fechando os olhos com força e rosnando em frustração — O inconsciente dele deve estar sonhando contigo por ouvir sua voz, e esse é o corpo é dele afinal de contas. Eu não consigo controlar esse tipo de efeito.

Sasuke deixou uma risada curta e vitoriosa escapar, divertindo-se em ver Kurama sem jeito daquela forma. Era, no mínimo, interessante.

— E o que ele está sonhando? — ele perguntou, visando encabular ainda mais a raposa.

No entanto, Kurama nunca foi e nunca será o tipo de demônio que se encabularia tão facilmente:

— Você quer que eu pegue sua mão e ponha na virilha dele pra ver se você consegue adivinhar, Uchiha?

Foi a vez de Sasuke engolir em seco e suspirar fundo para acalmar sua libido latente pelo corpo de Naruto e sua raiva crescente pela raposa inescrupulosa.

— Diga de uma vez o que você quer dizer e volte pra tenda. Se você não consegue controlar isso, ao menos nos poupe de constrangimento.

— Antes de mais nada, o que o pivete de Kirigakure disse a você antes do Naruto perder o controle daquele jeito? — Kurama questionou, e sua expressão compenetrada agora nada batia com o corar de prazer do corpo de Naruto, tornando a conversa bem mais difícil de se levar a diante com seriedade — Eu disse para o Naruto ouvir antes de fazer qualquer coisa, mas o sangue subiu à cabeça dele e ele agiu sem pensar.

— Suigetsu? — Sasuke questionou, surpreso pelo conteúdo da pergunta — Ele ia me dizer algo relevante sobre os grupos de rebelião, mas o Usuratonkachi interferiu antes e destruiu o clone dele. Suigetsu sabia para onde nós íamos e eu imaginei que ele fosse mandar outro clone atrás de nós em breve, mas pelo jeito ele mudou de ideia ou não achou que a informação fosse tão relevante assim para ser repassada.

— Eu imaginei que você estivesse pensando assim. — Kurama respondeu, dando de ombros — Naruto tentou se redimir, ele mandou dois clones atrás de Suigetsu para pegar o restante da informação, mas não o encontrou.

— Suigetsu cumpre minhas ordens para não ser interceptado por ninguém fora do Time Taka.

— É um Uzumaki quem está atrás dele, Uchiha. Não interessa se ele quer ser encontrado ou não, Naruto o encontraria.

Sasuke ficou quieto por alguns instantes, deixando sua mente assimilar o que aquela implicação significava. Se Karin era uma boa ninja rastreadora, imagina Naruto com o auxílio do modo bijuu. A raposa estava certa, se Naruto mandou clones eles já deveriam ter encontrado Suigetsu.

Aconteceu alguma coisa.

— Eu acho que não faria mal nenhum tentar checar. — Kurama complementou depois de um período longo de silêncio — Naruto não quis te contar isso para não te preocupar, mas eu acho que você tem o direito de saber.

Meio relutante com a informação, Sasuke balançou a cabeça de forma afirmativa, se recusando solenemente a agradecer Kurama pelo auxílio. Mas ele intimamente se sentia grato, pois Suigetsu não era apenas um dos membros de seu time: era uma pessoa que ele aprendeu a suportar com os anos, quase como um amigo. Por mais que Sasuke não desse a mínima para ele quando se conheceram e o Time Taka foi formado, as situações mudaram e agora ele não podia negar que estava um pouco preocupado com o colega.

— Esse não é o único assunto que eu tenho para tratar com você. — Kurama declarou, tomando de volta a atenção de Sasuke — Você precisa saber que Naruto está infeliz com Hinata Hyuuga.

— Infeliz?

Ok, essa informação não pegou Sasuke de surpresa. Ele sabia que Naruto estava numa negação intensa e, colocando-se no seu lugar, ele possivelmente estaria infeliz também. Sasuke sentia o que Naruto sentia, era inevitável para ele não compreender a infelicidade que Naruto com o seu casamento. O problema é que Naruto não admitia isso nem mesmo para si, e ele não imaginou que a raposa teria percebido isso sem seu jinchuuriki admitir a si próprio a verdade.

— Ele se recusa a aceitar isso, mas ele está infeliz. — Kurama falou, cruzando os braços e aparentando um pouco de irritação, desta vez direcionada a Naruto — Ele se mantém o maior tempo que pode longe de casa por causa dela; mesmo que ela não cobre nada dele, ele se culpa por não conseguir retribuir os sentimentos da mesma intensidade que ela, e prefere se afastar do que decepcioná-la. Qualquer oportunidade que ele tenha de ficar longe de Hinata, ele acata. Ele faz isso sem perceber; eu já vi esse filme antes.

— Como assim “já viu esse filme antes”?

— Mito Uzumaki. — Kurama respondeu, sua voz soando mais grave e arrastada, possivelmente por conta dos sonhos eróticos de Naruto — Hinata me lembra Mito em grandes aspectos. A diferença é que na época eu estava na companhia da pessoa rejeitada, e não do rejeitador. Hashirama também evitava Mito do mesmo jeito que Naruto evita Hinata. Hashirama levou esse casamento infeliz até o fim, e eu não quero que Naruto passe pelo mesmo que ele passou por conta de covardia de dar um basta em algo que não deveria ter começado.

— O que você está intencionando ao me contar isso?

Sasuke não estava mais irritado, talvez ainda um pouco envergonhado por conta da aparência evidentemente excitada do corpo de Naruto (ainda mais por estar sob o controle de Kurama), mas não irritado. Ele estava curioso e, céus, esperançoso. Ele sabia que nunca era bom dar ouvidos ao demônio de nove caudas, mas era inevitável não deixar seu coração acelerar um pouquinho com aquela conversa.

— Eu quero que Naruto se separe dela. — Kyuubi declarou, sua respiração um pouco mais acelerada do que antes, xingando Naruto mentalmente por agir como um adolescente hormonal só por ouvir a voz do Uchiha enquanto dormia — Eu quero que o pirralho fique feliz, ele merece isso. Se ele se sente feliz ao seu lado, eu acho que consigo aguentar algumas décadas humanas suportando a sua presença; o tempo passa mais rápido pra alguém que já vive há séculos, não será um grande sacrifício.

Sasuke se viu sem palavras inicialmente: Kyuubi estava propondo aceitar anos ao lado dele somente para deixar Naruto feliz? O Uchiha não imaginava que a raposa teria mudado tanto a sua natureza, que agora se mostrava até um pouco benevolente. Era impressionante o poder que Naruto tinha em mudar os outros para melhor; o problema é que ele parecia ter dificuldade em fazer o mesmo com si próprio, mantendo aquela filosofia básica de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

— E o que elequer? — Sasuke indagou, pensativo.

— No momento? — Kurama exibia um sorriso torto e amarelo, fitando o Uchiha de cima a baixo — Bom, de acordo com o sonho, Naruto tá louco pra ficar dentro de você.

Ok, dessa vez Sasuke não conseguiu conter o leve rubor em seu rosto, afastando-se inconscientemente do corpo de Naruto que, mesmo controlado por Kurama, ainda oferecia alguma forma de tentação. Só por precaução.

— Eu me refiro a separação, demônio.

— Naruto quer conseguir resolver isso sem machucar ninguém. Mas nós sabemos que dessa vez isso vai ser impossível, e que estando com Hinata ele machuca muito mais sua família do que machucaria com a separação.

— Eu não posso fazer nada. — Sasuke respondeu, controlando perfeitamente suas emoções e não deixando Kyuubi notar a forma como seu coração acelerara ainda mais com aquela perspectiva — É a escolha dele.

Kurama soltou uma gargalhada cínica; Sasuke ativou o mangekyou sharingan em uma demonstração clara de irritação, mas a raposa continuou a não se intimidar.

— Ora Uchiha, seu moralismo pode até ter enganado o Naruto, mas a mim não engana: vocês todos desse clã maldito são egoístas, prepotentes e territorialistas. Não pense que eu não sei sobre a sua ligação com Madara Uchiha. — seu tom de voz deixou bem claro que, apesar da aparente trégua, Kurama não perdoara os Uchihas pelo passado — Vai logo, pega o que você acha ser seu e me poupe desse casamento destrutivo que eu tenho que aturar.

— Não que eu tenha que me explicar para um demônio como você, mas eu não sou o Madara.

— Qualquer um poderia cair nessa conversinha, mas não se esqueça que eu estou na cabeça do Naruto e sei de tudo que ele pensa. Eu sei a verdade sobre você, Madara Uchiha e Indra Otsutsuki. Se você se lembrou de alguma coisa, saiba que Naruto também se lembrou. Tudo que ele sabe, eu também sei.

— Não interessa o que você sabe. — Sasuke declarou, sentindo-se bastante desconfortável em entrar nesse assunto — Eles são o passado, eu não sou assim. Você estaria certo em me comparar com eles há uns anos, mas não mais. Quando eu disse para Naruto que eu não era propriedade dele, a reciproca também valia. Ele não é meu, e ele pode tomar as escolhas dele por conta própria. Ele já é bem grandinho pra isso.

Por mais que eu queira, de todo coração, que ele se separe dela e tenha uma chance de ser feliz de verdade: ao meu lado ou não.

Isso dito, Sasuke se colocou de pé em um pulo, ignorando o olhar impressionado de Kurama. Deu-lhe as costas e se aproximou do rio mais próximo do acampamento, pretendendo se recompor para finalizar de uma vez por todas a primeira parte daquela viagem.

Não era mentira ou exagero afirmar que tanto Sasuke quanto Kurama se surpreenderam bastante com o que aprenderam um sobre o outro com essa conversa. Talvez eles conseguiriam se dar um pouco melhor depois dessa troca de experiências... Única e exclusivamente pelo bem de Naruto, é claro.

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(***)

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Tanto Naruto quanto Sasuke já foram para Kirigakure mais vezes do que se recordavam, mas voltarem a esse lugar em conjunto os deu uma sensação de nostalgia impressionante. A última vez que os dois estiveram juntos naquela vila foi à época de sua primeira missão com o Time Sete, quando encontraram e enfrentaram Zabuza e Haku. Aquele, sem sombra de dúvidas, foi um momento extremamente marcante para os dois.

Naruto discretamente espiava Sasuke pelo canto do olho, não se surpreendendo ao vê-lo adotar sua máscara da estoicidade como forma de defesa. Decerto ele também recordava-se muito bem das emoções vividas àquela época, e do trágico momento em que ele quase morreu ao defendê-lo do ataque de Haku.

— Eu espero que nossa estadia aqui seja mais pacifica do que a última que viemos.

— Hn. — Sasuke respondeu, seu humor se mostrando realmente péssimo.

Vir à Kirigakure trazia ainda mais lembranças para Sasuke: afinal, foi naquele lugar que ele finalmente admitiu a si próprio os sentimentos que tinha por Naruto. Ainda não sabia que eram tão intensos e complexos, mas depois de abraçar a morte para salvá-lo certamente não havia mais como se prender ao “eu o odeio”. Não... Definitivamente “ódio” foi algo que ele nunca sentiu por Naruto.

Mal deram os primeiros passos dentro da Vila quando o olhar de Naruto cruzou com os olhos cor-de-âmbar tão conhecidos e detestados de Orochimaru, os quais ainda não perderam o hábito de fitar Sasuke de cima a baixo toda vez que ele entrava em seu foco de visão.

— Talvez eu tenha esperanças grandes demais... — Naruto murmurou para si mesmo, mas Sasuke ouviu sua afirmação e prestou atenção no horizonte para entendê-la, logo cruzando olhar com Orochimaru.

Sasuke acelerou o passo e Naruto caminhou mais lentamente de forma proposital: o Uchiha tinha assuntos sérios a tratar com o Sannin, principalmente sobre o desaparecimento de Suigetsu, e Naruto entendia a necessidade daquela conversa. Ainda sim, ela impossível para ele não sentir receio em ver Sasuke e Orochimaru próximos daquela forma e, pelo bem de sua sanidade, era melhor se manter longe.

‘Receio? Isso se chama ciúmes.’

Kurama, me dá um tempo vai...

— Olá Sasuke-kun. — Orochimaru cumprimentou, dando o seu típico sorriso de canto de boca, o que fazia muitos duvidarem da sua famigerada “mudança de espírito” com relação aos planos antiéticos que costumava fazer no passado; uma vez horripilante, sempre horripilante — Olá, Nanadaime, meus parabéns pela nomeação que há tantos anos era esperada com afinco por todo o mundo Shinobi.

— Ao contrário de você. Afinal, não era você quem queria se tornar Yondaime, mas nunca conseguiu um título de Hokage, ou estou falando besteira?

Orochimaru sorriu um pouco mais largamente, curvando-se para frente em uma reverência exagerada e irônica, e tratou de ignorar solenemente a presença e provocação de Naruto, depositando toda sua concentração em Sasuke Uchiha.

Naruto odiava encontrar Orochimaru. Raramente isso acontecia, mas nas raras ocasiões o Sannin conseguia tirá-lo do sério sem muito esforço. Orochimaru era irônico sem nunca ser mal educado, e isso o deixava ainda mais furioso, porque ele não tinha desculpas para dar uma surra nele e vingar um pouco de todo aquele sentimento de raiva que ele guardara durante anos. Naruto nunca teve dificuldade para perdoar as pessoas; Orochimaru era uma exceção à essa regra.

‘Isso porque Orochimaru tirou seu amadinho de perto de você.’

KURAMA! VAI DORMIR!

— Suigetsu entrou em contato com você? — Sasuke questionou ao Sannin, preferindo ir direto ao ponto antes de Naruto causar brigas desnecessárias.

— Faz um bom tempo que não ouço notícias de Suigetsu. — Orochimaru respondeu com sinceridade, parecendo um pouco mais curioso com aquela pergunta.

— Nós precisamos conversar em um lugar mais reservado; aqui tem muitos ouvidos.

— Nanadaime-sama nos dará a honra de sua companhia?

Naruto suspirou fundo e olhou de uma forma que beirava à ameaça de morte para Orochimaru: Naruto não tinha sharingans, mas qualquer outra pessoa que recebesse aquele olhar teria um colapso mental. Orochimaru, no entanto, apenas deixou uma risadinha prepotente e anasalada escapar, aparentando não estar nem um pouco temeroso.

— Teme. — o loiro ao companheiro de viagem sem, contudo, desviar sua atenção para ele — Quando terminar essa “conversa”, apresente-se à equipe de elite do Mizukage e solicite um quarto para passar a noite. Eles estão avisados que você viria em minha companhia. A reunião será amanhã ao amanhecer, esteja pronto.

Isso dito, Naruto deixou os dois ex-integrantes do bingo-book para trás, caminhando em direção à torre do Mizukage para se apresentar formalmente.

— Naruto-kun anda um pouco estressado. Achei que uns dias em sua companhia o deixariam mais... hm... maleável, talvez?

— Temos assuntos mais importantes pra tratar do que os problemas pessoais do Dobe. — Sasuke declarou, sentindo uma sensação estranha de borboletas no estomago pela clara demonstração de ciúmes de Naruto; dessa vez ele não perdeu o controle, então o sentimento foi até mesmo um pouco bem-vindo. Era bom saber que Orochimaru causava esse tipo de sensação nele, mesmo que ela fosse estúpida, ridícula e infundada — Siga-me.

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(***)

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Depois que Orochimaru e Sasuke foram conversar sobre assuntos particulares, Naruto precisou se ocupar com alguma coisa para não ter reminiscências do passado e arrancar Sasuke de perto do Sannin. Não era nada confortável para ele presenciar os dois trocando informações como velhos colegas, ignorando tudo que Orochimaru já quis fazer com Sasuke (mais precisamente com o corpodele); Naruto não era uma pessoa rancorosa, mas havia situações que fugiam de seu controle. Confiar em Orochimaru era uma coisa praticamente impossível, mas ele sabia que Sasuke era forte o suficiente para cuidar bem da sua própria pele. Além disso, o chakra do Sannin estava monitorado, e ele saberia de qualquer intenção maléfica que pudesse surgir de suas condutas.

Por isso, o Hokage se apresentou rapidamente e logo foi liberado para um merecido descanso de vinte e quatro horas. Sem saber o que fazer com tanto tempo vago, decidiu subir para os seus aposentos e tentar relaxar. Aceitou um quarto de casal que lhe foi oferecido, comodidades típicas para os Kages quando visitavam outras vilas, mesmo que geralmente o fizessem na condição de solteiro — talvez para deixar os ninjas do posto mais alto das vilas integrantes à Aliança Shinobi em maior conforto possível. Naruto não gostava desse tipo de aposento, parecia uma insinuação grande de que os Kages costumavam passar suas noites em companhias de outras pessoas, mesmo aqueles que, como ele, eram casados. Ainda sim, ele não estava ali para questionar tradições daquela vila.

Sentou-se na cama e pensou em Hinata por alguns instantes, imaginando o que ela e as crianças estariam fazendo. Himawari deve ter insistindo bastante para passar o maior tempo possível com Sarada, já que ele gostava muito da menina. Bolt e Himawari se davam bem, mas Himawari tinha uma adoração especial por Sarada, talvez por ser uma menina mais velha e, aos olhos dela, um exemplo feminino a se seguir. Bolt, com toda certeza, estava com ciúmes da irmã e, por conta disso, implicando com Sarada. Os três tinham uma dinâmica engraçada e bonitinha aos olhos de Naruto, pois, apesar das briguinhas, eles tinham uma relação muito boa e se divertiam bastante juntos.

Mais uma vez, o Uzumaki deixou seus pensamentos sobre Hinata fugirem pela tangente e perdeu um tempo considerável imaginando seus filhos. Quando se deu conta, já estava imaginando como seria se Sasuke e ele morassem juntos com as três crianças.

‘Naruto, acho que isso já nem é um sonho, é um delírio. Quando você separar de Hinata, as crianças com certeza ficarão com ela.’

Eu não vou me separar de Hinata, Kurama. Eu decidi.

‘Decidiu mesmo? Não estou vendo muita convicção nessa sua decisão.’

— Se não quer ajudar, não prejudique. — Naruto murmurou rispidamente, tentando fechar seus pensamentos para não ouvir Kurama bagunçá-los pouco a pouco.

Colocou-se de pé, caminhando até a sacada do seu quarto e apreciando a vista de Kirigakure. A vila, sempre encoberta em névoas, não tinha o mesmo brilho quente que Konoha, mas também tinha sua beleza particular, principalmente durante o dia. Poucos minutos depois de apreciar o céu nublado e as áreas verdes da cidade, seu olhar foi atraído para a estrada do hotel onde se encontrava, e não foi difícil reconhecer Sasuke parado à frente dele, conversando com uma criança que não parecia ter mais do que cinco anos de idade.

— Sasuke Uchiha voltou para Konoha e você não me falou nada.

A voz não o assustou: apesar de não ter ouvido um único som que acusasse a presença da nova companhia, Naruto já sentira a presença de Gaara antes mesmo de ele se anunciar. Era comum que seu amigo viesse falar a sós com ele quando estavam na mesma região, e geralmente entrava sem se anunciar. Eles já tinham intimidade o suficiente para esse tipo de conduta.

No entanto, a curiosidade de Naruto em ver a interação de Sasuke com a criança era grande demais para que ele desviasse seu olhar e cumprimentasse Gaara do jeito que a etiqueta mandava: a criança era uma garotinha, possivelmente nativa, e Sasuke parecia confortável em sua presença, abaixando-se a sua altura e retirando algo brilhante do bolso para mostrá-la. A interação era simples e o loiro não conseguia ver o rosto de Sasuke, mas a mãe da menina parecia estar por perto e ela sorria diante da cena.

— Eu estava ocupado. — Naruto respondeu à Gaara, ainda surpreso com a naturalidade de Sasuke ao lidar com aquela abordagem.

Naruto também era perseguido por crianças em todos os lugares que ia: ser um herói vivo de guerra o obrigava a lidar com fanatismo de forma constante, principalmente dos civis. Ele imaginou que a menina estaria conversando com Sasuke pelo mesmo motivo, mas nunca achou que ele seria tão paciente com esse tipo de abordagem.

— Possivelmente estava ocupando tentando decidir como agir com essa novidade, estou certo? — Gaara questionou, não falhando em perceber para quem Naruto olhava com tanta atenção.

O Uzumaki suspirou de forma cansada, espionando Gaara por cima do ombro e se surpreendendo com a sua mudança de corte de cabelo: o ruivo rejuvenesceu vários anos adotando o penteado da adolescência, e parecia muito mais atraente agora do que com aquele penteado sério que de nada combinava com sua pessoa. O Hokage sentiu-se um pouco menos melancólico ao se lembrar da última conversa que tivera com Gaara, rindo baixinho e melhorando consideravelmente seu humor.

— Você ficou muito melhor assim. — Naruto comentou, sorrindo largamente e não deixando de notar a forma como o rosto de Gaara corou um pouquinho com o elogio.

— Você não foi o primeiro a pontuar isso. — o Kazekage murmurou, aproximando-se da sacada, se debruçando nela ao analisar com mais atenção a figura de Sasuke Uchiha — Se eu soubesse antes que estava tão ruim assim, não tinha ficado tanto tempo com aquele penteado.

— Bom, tem coisas que são óbvias demais para serem ditas, né?

— Ah Naruto, às vezes o óbvio precisa ser dito sim... — Gaara comentou, ainda fitando Sasuke com sua total atenção.

Naruto não sabia ao certo quando foi que a conversa mudou de conteúdo, mas parecia que Gaara agora não falava mais do próprio corte de cabelo, não com a forma penetrante com que ele olhava para Sasuke.

— Sasuke tem jeito com crianças. — o Kazekage comentou depois de um longo silêncio de apreciação dos dois; agora Sasuke carregava a menina no colo, a qual estava totalmente radiante pela atenção recebida.

— Ele está muito diferente... — Naruto comentou, suspirando fundo e sentindo seus próprios lábios se repuxarem em um sorriso satisfeito — Eu acho que o tempo fora da vila o fez bem. Mas... jeito com crianças? Quem diria, não é mesmo? Sarada pareceu gostar muito dele logo de cara, e ela é uma garota difícil de agradar. Entendi melhor agora.

— Eu tenho a sensação que Sasuke tem um coração essencialmente puro. — Gaara comentou; Naruto o fitou, agora com total atenção — Por seu coração ser puro, foi fácil o ódio se instalar ali e formar uma espécie de moradia. Agora que Sasuke voltou a lidar melhor com tudo isso, talvez ele esteja voltando a real natureza dele.

— Eu acho que você e Sasuke tem muito mais em comum do que imaginam, Gaara. — Naruto comentou sinceramente, se perguntando se havia condutas de Sasuke que o Kazekage poderia compreender melhor do que ele.

O ruivo deixou um sorriso triste brotar-lhe os lábios, agora retribuindo o olhar de Naruto e deixando seus olhos verdes focarem intensamente em seus olhos cansados pela longa viagem.

— Você acha? — Gaara questionou, piscando pesadamente e suspirando fundo — Eu tenho certeza.

Kurama riu baixinho na cabeça de Naruto, e ele ficou sem entender o que a raposa captou e ele, pelo jeito, perdeu.

— Eu e Sasuke estamos com problemas de convívio, no entanto. — Naruto disse, saindo da sacada e voltando para dentro do quarto, sendo seguido de perto por Gaara, quase que mecanicamente — Na verdade, acho que a culpa maior é minha, mas...

— Naruto, vamos facilitar as coisas para nós dois e sermos francos: você ama o Uchiha.

Naruto sentiu seu coração pular uma batida e sua pele empalidecer rapidamente. Um calafrio grande percorreu sua espinha e, antes de conseguir se recompor e dar alguma resposta convincente à Gaara, o ruivo girou os olhos, escorando-se à parede com os braços cruzados.

— Para alguém que enfrentou uma deusa e salvou a humanidade, se assustar com uma simples afirmação óbvia como essa é um pouco demais, não acha?

— E-eu... De onde você tirou isso? — a voz de Naruto soou falha e desafinada; Kurama gargalhava intensamente na sua cabeça.

Seu traidor! Pare de rir da minha desgraça!

‘Eu tenho culpa se a situação é engraçada, pirralho?’

— Está evidente, sempre esteve. — o ruivo respondeu, dando de ombros, não parecendo compreender porque Naruto se desesperava tanto com o que ele acabou de falar — Você perseguiu Sasuke por três anos, você olha pra ele do mesmo jeito que olhava quando estava na presença dele e nós éramos crianças. Sempre houve algo entre vocês, e parece que nada mudou.

Naruto sentiu suas pernas perderem as forças e caiu sentado na borda da cama, escondendo o rosto com as mãos, envergonhado e assustado por alguém ter descoberto seu segredo. Será que era tão óbvio assim? Será que Hinata era capaz de perceber a mesma coisa que Gaara? Ela certamente tinha uma convivência mais íntima com ele e poderia descobrir.

‘Ou talvez não, né? Já que você nem fica em casa e tudo mais...’

— Se serve de consolo, eu sou mais observador quando se trata de você do que as outras pessoas. — Gaara complementou, se dando conta de quais eram as preocupações do Uzumaki; não pegava nada bem para ele uma fofoca do tipo envolvendo um Hokage casado — Eu e Shikamaru, possivelmente, mas acho que ninguém mais desconfia disso. Claro que todo mundo desconfiava antes de você e Hinata se casarem, mas...

— Se essa é uma tentativa de consolo, não está adiantando.

O ruivo se aproximou à cama, sentando-se ao lado do colega e lhe dando um tapinha sem jeito nas suas costas.

— O que eu faço, Gaara? — Naruto perguntou, erguendo a cabeça e mostrando os olhos vermelhos, deixando evidente seu nervosismo e sua vontade de chorar — Eu sou casado, muito bem casado, e tenho uma família linda. Às vezes eu gostaria que o Sasuke não tivesse voltado, mas aí eu... eu... não, eu não gostaria disso. Eu... Argh.

— Sasuke sabe? — Gaara questionou, apenas para tentar ajudar Naruto a organizar seus pensamentos; estava bem claro para ele que Sasuke sabia.

Ainda sim, Naruto respondeu à pergunta feita, sem desconfiar o quão intensamente Gaara entendia toda aquela dinâmica dos dois:

— Sasuke voltou pra mim. Sasuke não sabia de Sarada, ele voltou pra Konoha por minha causa. — Naruto suspirou, contando para Gaara a forma mais rápida que conseguiu condensar a história dos dois depois da guerra. Falou sobre a promessa de Sasuke, sua dificuldade de lidar com a gravidez de Sakura, seu medo de que Sasuke ficasse com ela depois de conhecer o neném e sua aproximação com Hinata.

Muito daquela história Gaara já sabia, não porque alguém o contou, mas porque ele conseguia interpretar muito bem Naruto e Sasuke. Gaara nunca mencionou isso a outra pessoa, mas ele e Sasuke se encontraram uma ou duas vezes durante suas peregrinações, e o ruivo havia notado suas mudanças evidentes. São mudanças que apenas a aceitação do amor e companheirismo podiam fazer, e o Kazekage sabia muito bem como funcionava esse processo de mudança.

Ele entendia tão perfeitamente os sentimentos de Sasuke por Naruto que praticamente doía pensar neles. Em contrapartida, Naruto sempre foi um livro aberto de se ler para quem tinha paciência o suficiente, e Gaara com certeza adorava gastar horas e horas de sua vida tentando entender cada suspiro de seu melhor amigo.

— Ou seja, — Gaara disse assim que o loiro parou finalmente de falar — vocês dois são uns idiotas que não sabem se comunicar.

Naruto fez uma expressão indignada, não aceitando sua parcela de culpa naquela confusão.

— Ele que demorou bem mais do que eu imaginei pra voltar!

Gaara balançou a cabeça em negativa, se perguntando quando que algum dia ele imaginou que iria defender Sasuke Uchiha para Naruto Uzumaki.

As coisas realmente mudam...

— Naruto, se você tinha dúvidas, deveria ter perguntado a ele. — ele disse solenemente — Ele mesmo te disse para mandar um clone se precisasse de alguma coisa, certo? Eu entendo que ele se foi por muito tempo, mas você não aguentou esperá-lo nem por uns meses, e isso foi pouco tempo da sua parte.

O Uzumaki aparentava intensa frustração, estreitando um pouco o seu olhar irritado. Gaara não estava com medo de Naruto, não era a primeira vez que ele tinha que jogar verdades evidentes nas fuças do amigo para ver se ele aceitava os fatos; mas era a primeira vez que Naruto parecia se irritar com isso.

— A culpa agora é minha? — o loiro indagou, indignado — Se você visse o quanto Sarada se parece com o Itachi Uchiha, você entenderia o que eu senti!

— A culpa é dos dois. Do Sasuke, por achar que sumir por alguns anos é algo normal de se fazer; e sua, por não colocar tudo em pratos limpos antes de tomar uma decisão tão importante na sua vida.

Naruto ficou quieto, tentando aceitar as verdades que Gaara o forçava a engolir. Era real, ele não esperou nem um ano; ele duvidou de tudo quando viu o nascimento de Sarada, achou que nunca conseguiria ter algo com Sasuke quando ele a conhecesse. Ele foi covarde, mais covarde do que um dia admitiria ser. Tão covarde quanto-...

Não, não vamos entrar nesse mérito. Por favor.

— O que eu faço? — sua voz fraca, sem qualquer vestígio da intensidade jovial que sempre possuía — Eu não quero perdê-lo de novo.

Gaara fitou silenciosamente os olhos desesperados de Naruto, sentindo uma dor forte em seu coração por vê-lo sofrer daquela forma. Perguntou-se, mais uma vez, se deveria falar o óbvio; sabendo que desta vez o óbvio era algo que Naruto não aceitaria tão facilmente. Por fim, decidiu que era seu dever tentar ajudá-lo acima de qualquer coisa, quer seja ele aceitando sua opinião ou não.

— Termine com a Hinata.

— Eu amo a Hinata também, Gaara! — Naruto exclamou, começando a se desesperar — É um tipo de amor diferente, mas é amor. Eu não quero que ela sofra, eu quero que ela seja feliz, e Bolt, e Himawari!

— Naruto, deixe eu te falar um pouco sobre amor. — Gaara pediu, suspirando fundo e engolindo em seco, tentando organizar suas ideias para explicar algo tão complexo em palavras — O amor verdadeiro aceita a realidade e suporta as dores. Ele liberta, já que o amor verdadeiro nunca é uma prisão. Ele pode doer às vezes, mas não deixa cicatrizes. O amor é doação, e se você afirma amar Hinata, não é ficando ao lado dela que você demonstra seu amor.

— O que você quer dizer?

— Você finge não ver, mas está mais do que claro para todos ao seu redor. Hinata não está feliz ao seu lado, e pode até ser que ela realmente o ame da mesma forma que você diz amá-la, mas o amor não deve nunca se transformar em uma prisão. O amor que vocês sentem um pelo outro não é o suficiente.

— Você não entende a Hinata, Gaara.

— Acredite, eu entendo mais do que você imagina.

— Como pode dizer algo assim? Vocês mal conversam, vocês-...

— Lembra-se do que eu te disse há uns dias sobre a pessoa que eu amar estar casada?

— Você... ama... a Hinata?

Gaara riu abertamente, divertindo-se com a forma como Naruto parecia perdido e evidentemente irritado pela sua conclusão estúpida.

— Você é tão idiota. — Gaara comentou, ainda com um sorriso saudosista nos lábios; essa patetice de Naruto era algo que ele nunca cansaria de apreciar.

— Ei!!

— Não, eu não amo a Hinata, eu mal a conheço, mas eu a compreendo. — Gaara respondeu, e Naruto deixou sua expressão de ciúmes e indignação esvair — A pessoa que eu gosto me ensinou o que é amor, e eu acredito que Hinata tenha compreendido o mesmo ensinamento de você. Quando eu digo que eu quero ver a pessoa que eu amo feliz, eu não espero que ela seja feliz necessariamente ao meu lado. E mesmo que eu tivesse a oportunidade de tê-la ao meu lado, caso ela não se mostrasse feliz, eu a deixaria ir.

— Você está querendo dizer que a Hinata não sofreria com um divórcio?

— Claro que sofreria, qualquer um sofreria. — ele respondeu, girando os olhos — Mas se ela realmente te amar, e você for feliz com o Uchiha, ela vai acabar deixando o sofrimento de lado com o tempo e sentindo felicidade ao ver você feliz.

— Você se sente assim? — Naruto questionou, curioso. Não era todo dia que Gaara falava dessa forma sobre sentimentos, era inevitável para ele querer saber mais — Digo, com relação à pessoa que você ama?

Novamente Gaara deu um de seus sorrisos breves e enigmáticos, passando a Naruto a impressão de que ele deveria saber quem era essa pessoa misteriosa. O loiro, no entanto, não conseguia pensar em ninguém; quando foi que Gaara se aproximou de outra pessoa além dele?

— Eu me sentiria, se essa pessoa ficasse com quem ama de verdade. Como eu te disse, essa pessoa está num relacionamento que não é feliz... E eu quero a sua felicidade acima de tudo. — o ruivo respondeu, achando engraçado o olhar perdido de Naruto.

O Uzumaki ainda ficou algum tempo refletindo sobre suas palavras, olhando para a sacada de longe, sem andar até ela e conferir se Sasuke ainda estava no mesmo lugar, mas evidentemente pensando nele e conseguindo compreender melhor o que seu amigo acabara de dizer.

— Você acha que um dia essa pessoa vai estar com você, Gaara? — Naruto questionou, ainda pensativo, sua voz soando distante e pouco concentrada.

— Eu tenho certeza que não.

Isso fez Naruto piscar forte e olhar para Gaara, agora atento, até mesmo um pouco preocupado.

— E isso não te entristece?

— Não. — a sinceridade era evidente em sua resposta — Acho que foi muito difícil aprender a amar, compreender esse sentimento tão complexo e confundido com tantos outros meramente carnais e possessivos. Mas agora que eu consegui compreender o amor, ele me basta. Não é preciso ter para amar, eu amo de forma incondicional e sou feliz assim.

Naruto sorriu de forma radiante ao perceber a veracidade do que Gaara dizia. Ele parecia feliz e acreditava mesmo naquilo que acabou de dizer.

— Eu também quero te ver feliz, Gaara. E se você está feliz, eu fico feliz por você.

O ruivo corou da cabeça aos pés com o que Naruto falou, captando nas entrelinhas o conteúdo daquela mensagem e sabendo que, de alguma forma, Naruto dizia a verdade. Naruto o amava, mas definitivamente não era do mesmo jeito que ele amava.

Virou o rosto, escondendo seu momento emotivo de Naruto, o qual não prestou muita atenção em sua reação, possivelmente voltando a pensar sem seus próprios problemas.

— Você acha que o Sasuke ficaria feliz se eu decidisse continuar meu casamento com Hinata?

Gaara nem precisou pensar para responder essa pergunta.

— Não. — ele disse, bastante convicto de sua afirmação — Sasuke não ficaria feliz pois você não estaria feliz; isto é, se ele realmente te amar. Você entende o que eu quero dizer? Não é tanto o fato de ter a pessoa para si ou não, mas sim o ato de vê-la feliz. E você, Naruto Uzumaki, só será feliz ao lado dele.

— Eu sou feliz com Hinata. — o Uzumaki respondeu de forma teimosa.

— Se você fosse qualquer outra pessoa, eu concordaria que Hinata seria a pessoa ideal para você. Hinata é a mulher dos sonhos de muitos homens da face da Terra, e não só pela beleza que ela tem. Mas é de você e Sasuke que nós estamos falando, e vocês parecem seguir contra todas as regras esperadas e consideradas “normais” nesse nosso planeta. Pode até parecer idiota, mas às vezes eu tenho a impressão de que essa ligação que vocês possuem não é deste mundo.

‘Ou não é desta vida, né Naruto?’

O Hokage optou por ignorar Kurama mais uma vez.

— Não é bem assim, ela-...

— E mesmo que você fosse feliz com esse casamento: ela está feliz ao seu lado, Naruto? — Gaara o interrompe; Naruto calou-se imediatamente — Você está confundindo comodismo com amor, é tudo que eu tenho a dizer sobre esse casamento.

O ruivo teve a impressão de que havia acabado de cruzar um limite implícito no relacionamento dos dois, possivelmente porque Naruto não rebateu sua afirmação, mas também não parecia nada contente com o que acabara de ouvir. Optou naquele momento por se retirar, despedindo-se com um breve acendo de cabeça e usando um jutsu de teleporte.

Ele não queria brigar com Naruto, mas como ele mesmo havia pontuado há poucos minutos: às vezes o óbvio precisa ser dito, e ele fez a sua parte.

.

(***)

.

Quando Naruto saiu do banho naquela noite, ele não esperava sentir a presença de Sasuke Uchiha caminhando lentamente no corredor dos quartos de hóspedes em direção aos seus aposentos. Inconscientemente seu coração acelerou de uma forma estupenda, e ele tratou de se enxugar e vestir roupas limpas em tempo recorde. Antes mesmo de o Uchiha bater na porta, o Hokage já estava parado atrás dela, com a mão na maçaneta, pronto para abri-la e convidá-lo a entrar.

Sasuke, também sentindo a presença de Naruto do outro lado, apenas cruzou os braços e aguardou. Alguns segundos depois, a porta se abriu.

— Eu achei que você quisesse um período a sós essa noite. — o loiro falou, baixinho e incerto, mas mantendo firmeza em seus olhos azuis ao fitar Sasuke com grande esperança.

— Eu vou ficar sozinho daqui a pouco; antes, eu preciso te falar algumas coisas.

O hospede se afastou, permitindo a entrada de seu visitante. Quando os dois ouviram o click suave da porta se fechando, adotaram uma postura envergonhada e desconfortável de imediato. Ficar sozinhos em um cômodo causava um ar de extrema intimidade; uma coisa era ficarem sozinhos ao ar livre, mas agora eles estavam a sós dentre quatro paredes, o que dava uma impressão de intimidade que, apesar de bem-vinda, não era muito correta.

Mas Sasuke prometeu a si mesmo que iria falar sobre esse assunto; mesmo que Naruto não estivesse na melhor condição no momento para ouvir, ele tinha que falar. E longe de Konoha e todos os olhos que vigiavam seu Hokage, seria a melhor hora.

Era a hora de colocar um ponto final naquilo tudo.

— Quando eu sai de Konoha pela segunda vez, eu disse que manteria isto comigo até que pudéssemos resolver as coisas entre nós. — Sasuke retirou a sua antiga bandana de Konoha do bolso, mostrando-a para Naruto, o qual arregalou o olhar em compreensão.

Naruto sentiu novamente uma vontade grande de chorar. Ele sonhara durante muito tempo com o momento que Sasuke voltaria e falaria essas palavras, mas ele não imaginava que isso aconteceria depois de tanto tempo, ainda sobre as atuais circunstâncias.

— Sasuke... Eu sinto muito, eu...

— Você sempre falou demais em nossas conversas. — Sasuke o interrompeu, abaixando o olhar para a bandana surrada, agora até mesmo um pouco fosca, mas que sempre foi muito especial para si levá-la em suas viagens, como se ela fosse um voto de uma promessa e um compromisso que nunca de fato aconteceu — Eu acho que dessa vez sou eu que tenho que falar.

Sentindo um nó na garganta gigantesco, Naruto engoliu em seco e balançou a cabeça levemente em tom afirmativo.

— Quando eu comecei a minha jornada, eu fui com a intenção de avaliar o tudo sobre um novo ângulo, com a perspectiva que você me fez acreditar ser a verdadeira. Eu sempre tive meu olhar muito cego pelo ódio para compreender as nuances do mundo e da vida, e eu consegui ver coisas belas que nunca tinha apreciado. — Sasuke falou calmamente, recordando-se de muitos momentos especiais que tivera em durante aqueles anos de viagem; agora ele percebia o quão necessária tinha sido todo aquele tempo de peregrinação para o seu amadurecimento pessoal — Foi um renascimento, e talvez isso tenha atrasado mais do que deveria o meu retorno. Eu me sentia bem, e eu sentia a segurança de que você estaria me esperando pelo tempo que fosse. Mas eu não imaginei que você ainda não tivesse superado as amarras particulares quando eu voltasse para Konoha.

— O quê... O que você quer dizer, Teme?

— Eu vou ter uma conversa franca com você agora, Naruto. Um assunto que muito provavelmente nem você quer discutir a respeito, e eu prometo que essa será a primeira e a única vez que eu vou falar sobre isso.

Naruto sentiu seu rosto empalidecer, adivinhando o assunto no mesmo momento que Sasuke suspirou fundo e abriu a boca para anunciá-lo.

— Nós precisamos falar sobre Ashura, Indra, Hashirama e Madara.

A primeira vontade de Naruto era de escancarar a porta do quarto e expulsar Sasuke de lá. Quem ele pensa que era em querer discutir esse tipo de assunto com ele? Tudo bem, Sasuke estava bem mais maleável agora, mas Indra e Madara nunca foram grandes exemplos; se Sasuke tinha alguma vergonha na cara, ele não traria à tona esse lado passado para ele, não é mesmo?

No entanto, a curiosidade falou mais alto: Sasuke definitivamente tinha algo sério para falar se estava disposto a revirar tão longe no passado, e Naruto queria saber a sua motivação. Ele não entendia muito sobre o passado de sua alma, mas sabia o suficiente.

Mesmo que não se lembrasse de cada momento vivido na pele de Ashura e de Hashirama, ele conseguiu recordar em forma de déjà vu algumas sensações deste passado: as vezes olhava para pequenos detalhes no rosto de Hinata e lembrava-se do sorriso doce de Mito; as vezes uma paisagem especial o fazia se lembrar de alguma conversa besta que Hashirama tivera com Madara quando eram crianças; as vezes um momento de estresse intenso o fazia se lembrar das dificuldades de relacionamento de Ashura e Indra. Eram memorias turvas, incertas, como sonhos recordados em pequenos flashes sem sentido, mas intensas em graus sentimentais; Naruto ainda vivenciava esse tipo de coisa em seu dia a dia, e sabia que se Sasuke mencionou aquilo naquele momento, ele possivelmente passava pelo mesmo tipo de sentimento.

— Diga. — foi o que ele conseguiu responder, sua voz soando áspera e fraca.

— Eu andei pesquisando sobre a nossa ligação. — Sasuke falou, um pouco tímido, mas convicto — Além de minha necessidade de rever o mundo sobre uma nova perspectiva, eu sai em busca de respostas. Respostas espirituais.

— Espirituais... — Naruto repetiu, preocupado em entrar naquele mérito.

Naruto sempre foi meio covarde com assuntos espirituais, principalmente quando era mais novo, mas agora ele não podia deixar o medo impedi-lo de compreender as palavras de Sasuke. Era, de fato, uma ligação espiritual: ele gostando disso ou não.

— Cada religião diz uma coisa, algumas desacreditam até mesmo que esse tipo de ligação que nós possuímos possa existir. — Sasuke explicou, suspirando fundo e deixando claro que descartara qualquer explicação daquelas religiões descrentes; assim como Naruto, ele não tinha dúvidas de que a ligação existia: não apenas pelo que Hagoromo dissera, mas por tudo que os dois sentiram durante todos aqueles anos — Mas outras conseguem explicar o que nós sentimos, com palavras bonitas e vazias como “almas gêmeas” e outras formas românticas e fracas de definirem o que nós somos. Ainda sim, em uma coisa elas estavam certas: além de resolver os problemas que nós dois tínhamos um com o outro decorrentes de vidas passadas, nós possuíamos desafios pessoais e intransferíveis para superar. E eu acredito que você não superou esse seu desafio pessoal.

Naruto não parecia muito contente com o que acabara de ouvir, mas Sasuke não estava esperando uma reação diferente.

— Você tem a audácia de me dizer que eu não superei meus desafios? — Naruto indagou, estupefato, estreitando o olhar e sentindo irritação perante ao que ele julgava ser uma demonstração de falsa superioridade de Sasuke Uchiha — Eu, o órfão humilhado e indesejado de Konoha, superei meus desafios e me tornei Hokage. Acho que essa sua peregrinação não abriu seus olhos tão bem como você imaginava.

— Você superou todos os seus desafios desta vida, Usuratonkachi. — Sasuke explicou, exibindo estoicidade em sua aparência, tentando ao máximo evitar demonstrar como a irritação de Naruto o deixava igualmente irritado — Eu estou falando dos desafios de outras vidas, os quais você aparentemente não conseguiu superar.

— Do que você está falando então, seu bastardo idiota?

— O seu medo de aceitar a verdadeira natureza dos seus sentimentos por mim.

— Sasuke, eu não nego meus sentimentos por você, você sabe disso. Mas...

— Mas Ashura foi o primeiro a se casar, deixando Indra ainda mais irritado com o irmão, o qual ele julgava ter uma relação diferenciada. — Sasuke respondeu, sua voz soando acusadora, até mesmo um pouco dura — E Hashirama fez a mesma coisa.

— Você está me culpando pelas coisas que Ashura e Hashirama fizeram? Achei que você era uma pessoa racional, e não uma mulherzinha rancorosa.

— Não, eu não sou irracional. — Sasuke sentia seu tom de voz alterar um pouco, estava ficando nervoso ao ponto de não conseguir mais manter suas reações neutras — Eu estou pontuando que você fez exatamente a mesma coisa; por medo de aceitar o que você sente por mim, assim como eles fizeram no passado.

— Teme, escute. — Naruto murmurou, juntando as mãos na frente do rosto e tentando se acalmar para falar — Eu errei em não te esperar, eu errei em manter as dúvidas em meu coração se você voltaria ou não, eu deveria ter falando com você, te enviado clones, ter passado nossa história a limpo antes de tomar a decisão se me casaria com Hinata ou não. Mas... Sasuke, não é uma repetição do passado, eu não... Eu... eu vi Sarada, e tive certeza que você iria ter mais filhos. Eu te expliquei, eu...!

— Você regrediu ao ver Sarada. — Sasuke explicou, cansado demais em pensar sem parar sobre esse assunto nos últimos dias, aproximando-se de Naruto, o qual instintivamente deu um passo para trás. — Você estava indo bem, estava quebrando o padrão, mas ao ver Sarada você regrediu, voltou a duvidar de mim, das minhas intenções, assim como Hashirama e Ashura duvidaram da mudança de Madara e Indra.

— Não Sasuke, eu...

— Pare de mentir para si mesmo. Pare! — o Uchiha ordenou, sua voz soando alta e um pouco descontrolada, rompendo a troca de olhares para tentar se controlar emocionalmente — Somente vendo suas falhas você pode mudar, e eu sei que é difícil aceitar suas falhas e se tornar uma pessoa melhor. Acredite, pra mim foi muito pior do que você pode imaginar.

Naruto subitamente agarrou as mãos de Sasuke. Sua pele estava fria, e ele tremia de leve pelo nervosismo daquela conversa. O Uchiha, pego totalmente de surpresa, voltou a encarar o Uzumaki no rosto, e seu coração partiu ao ver as lágrimas se acumularem nos olhos azuis.

— Por favor, Teme, por favor não me deixe de novo. — Naruto implorando, soluçando, deixando finalmente as lágrimas escorrerem de seu rosto junto com todo seu orgulho e toda a farsa de falsa maturidade — Por favor não saia de Konoha de novo, não apenas como você fez nesta vida, mas nas outras. Não suma por um tempo e volte para me matar, não faça como Indra fez, não faça como Madara fez, eu não...! Eu... eu prometo que eu te perdoo pelo passado, eu prometo que eu tento, eu vou dar o melhor de mim pra isso! Só, pelo amor de Deus, não me deixe de novo!

Sasuke pegou o rosto de Naruto com as mãos, aproximando-o ao seu, quase unindo seus narizes em uma tentativa final de transparecer calma e esperança com o seu olhar. O loiro agora respirava de forma ofegante e piscava lágrimas espessas, resultantes de traumas de três vidas acumulados em uma única alma; e Sasuke sabia que isso era totalmente culpa dele.

— Você não tem que me perdoar... — Ele disse, lentamente e com clareza, unindo a sua testa a de Naruto, segurando pela nunca e sorrindo docemente para o seu irmão de alma, e amor de toda eternidade — Não importa o que você decida fazer a partir de agora, eu sempre vou te amar.

Sasuke soltou os cabelos de Naruto, acariciando-os enquanto deslizava a mão pela lateral de seu rosto, sabendo que dependendo da escolha de Naruto, ele nunca mais poderia ter o prazer de tocar em seu rosto de tal maneira afetuosa. O Uzumaki, por sua vez, parecia abobalhado, sem reação perante suas palavras, e seu choro havia se cessado totalmente.

Sasuke sabia que algum tempo iria demorar até Naruto digerir o que lhe foi dito; era intenso ouvir uma declaração de amor e compreensão daquela magnitude. Paciente, despediu-se com um pequeno sorriso e um suspiro cansado, depositando a bandana surrada acima da mesa de cabeceira, dando-lhe as costas para sair do quarto e ter uma boa noite de sono em seus aposentos temporários.

— Eu não vou te abandonar Naruto, nunca mais, eu juro. — ele disse ao colocar a mão na maçaneta, e fechar a porta logo atrás de si com um ruído seco e suave — Essa não será a última vez.

Ele não iria abandonar Naruto. Isso era um fato. E, talvez, o loiro conseguisse dizer as palavras que Sasuke queria tanto ter pronunciado à Itachi se ele não tivesse deixado o mundo dos vivos logo depois de declarar seu amor para ele. Eram amores diferentes, mas não menos intensos, e Naruto agora tinha uma oportunidade de ouro de fazer o que Sasuke não conseguiu fazer. Bastava ele abrir os olhos a tempo e tomar uma atitude que mudaria o curso da história repetitiva que eles sempre tinham que enfrentar.

Ele certamente esperará sua vida toda por isso; e as próximas vidas também, se fosse preciso.

.

... Continua...

Notas finais
N/A: Os leitores mais observadores devem ter percebido a correlação que eu fiz com as palavras finais de Itachi para Sasuke nesta última cena (tanto na primeira morte de Itachi, quanto na morte final de Itachi-edo-tensei). Eu pensei muito se faria ou não esse paralelo, afinal, muitos do que estão aqui não gostam de Uchihacest. Todavia, eu julguei necessário fazê-lo, mesmo que deixando claro que no universo desta fanfic o amor de Sasuke por Naruto certamente é diferente do amor que ele tem por Itachi, e cheguei a conclusão de que isso se fazia necessário por conta da cena de Sasuke e Sakura no capítulo 699. Deixando essa correlação aqui nesta cena final do capítulo, eu acho que ficaria mais clara a atitude do Sasuke no 699 de maneira implícita, pelo menos sob a minha interpretação. Se não ficou, vou explicar: ao dar o toquinho na testa de Sakura, houve um claro paralelo com o que Itachi fazia com Sasuke quando ele era criança. O fandom SasuSaku achou que isso era uma demonstração de amor da parte de Sasuke, uma promessa a ser cumprida no futuro. Eu interpretei de um jeito diferente. Por quê? Porque o toquinho na testa, para mim como shipper e defensora do fandom itasasu, não é demonstração de amor: é pedido de distância. “Se distancie de mim para não se machucar. Se distancie de mim para não se envolver nos problemas que eu tenho que lidar. Se distancie de mim porque você não é maduro ainda para entender.” – era isso que Itachi dizia implicitamente com esse gesto, e é por isso que Sasuke se estressava tanto com ele. Itachi tratou Sasuke como um igual apenas na batalha contra Kabuto quando, ao fim, disse seu discurso sobre amor, seus arrependimentos e demonstrou o sentimento puro e intenso que ele tem por Sasuke. Eu acho que Sasuke é a pessoa que Itachi mais amou na sua vida, mas creio que o amor dele por Sasuke é muito parecido com o amor de Gaara por Naruto: é um amor que vai muito além da definição de casal, é um amor puro, que nada exige em troca além da felicidade da pessoa amada. Eu defendo o casal ItaSasu nessa visão, e não como algo carnal, apesar de obviamente haver interações carnais nas fanfics que eu escrevo no site (quem lê minhas itasasus sabe o quão imensurável é o amor que o Itachi tem pelo Sasuke, e algumas vezes até se irritam com o tanto que Itachi se sacrifica por ele). Eu vejo o amor de Gaara por Naruto muito semelhante ao de Itachi por Sasuke, e o de Sasuke por Naruto muito semelhante ao de Itachi por Shisui. Enfim, como shipper ItaSasu eu não gostei de SasuSaku “roubar” um momento importante do casal que eu gosto, e eu detestei ainda mais aquelas montagens que fizeram do Sasuke dando um toquinho na testa do Naruto depois que o 669 saiu. Mas se o casal SasuSaku teve esse privilégio, eu quis dar um privilégio maior ao casal que eu estou defendendo nesta fanfic, que é o NaruSasu. Por isso, eu compartilhei a maior demonstração de amor do Itachi para Sasuke com a cena de Sasuke e Naruto em Owari: não é o toque na testa, é a união da testa de Itachi com a de Sasuke, enquanto ele declara que o amará para sempre. Espero que entendam a correlação, que não a achem grosseira ou asquerosa, e que compreendam que acima de minhas interpretações sobre o Itachi no mangá, pois independente de shippar ou não o casal, aquele gesto foi sim um gesto de amor incondicional. Eu procurei desvincular a cena de qualquer contexto incestuoso, e espero não ter ofendido ninguém com a minha comparação. Espero que os shippers de itasasu que também leem Owari entendam o meu propósito: eu não faria essa correlação no meu final ideal para o mangá (tanto que não fiz isso em “Roda de Samsara”), mas como essa fanfic é um tapa-buraco das coisas que eu achei mal feitas no fim de Naruto, eu achei interessante correlacionar isso por conta do toque na testa que Sakura recebeu de Sasuke no 669, para deixar claro qual é o verdadeiro gesto de amor de Itachi Uchiha e o que ele significa. Obrigada a todos pela leitura, espero que tenham gostado! Aguardo opiniões, críticas, e apoio em forma de reviews. Amo você! S2 Links relevantes: Página do Facebook: https://www.facebook.com/pcspuzumaki Tag de atualizações do tumblr: http://uchihalicius.tumblr.com/tagged/atualizacaofics Aviso sobre plágio: Plágio é crime (artigo 184 do Código Penal) e quem plagiar qualquer fanfic minha, seja totalmente, parcialmente, ou seguindo os mesmos acontecimentos e apenas escrevendo com outras palavras (plágio conceitual) será denunciado e processado judicialmente. Eu sou advogada, sei meus direitos e não vou hesitar em buscá-los, pois pra mim vai ser só mais um processo pra levar a diante, enquanto para você será uma imensa dor de cabeça. Tenha em mente o que te aguardará caso você decida plagiar algo meu, e tenha certeza do seguinte: se eu ou algum leitor meu encontrar o seu plágio de fanfics de minha autoria, eu não terei piedade. Quem não teve respeito com minhas obras não merece minha consideração e meu perdão.