Overdose
10 Cara de Pau
Notas iniciais
NARRAÇÃO TRIS
*leia ouvindo isso"
Acordei, mas não abri os olhos. Eu sentia que estava deitada em algo macio e não naquela dureza de colchão da sala, e braços fortes me envolviam num abraço afetuoso, quente que me fazia querer ficar ali até minha morte, e com a cabeça deitada eu seu peito eu podia escutar os batimentos do seu coração.
– Eu sei que você está acordada. — falou Tobias, começando a afagar meus cabelos.
– Observador você. — eu respondi, me aninhando ainda mais a ele. Mesmo tendo o conhecido há pouco mais de um mês, eu me sentia a vontade em ficar assim com ele. Seu cheiro, sua voz, seu jeitinho de me irritar e de me fazer rir me deixavam boba.
Talvez eu estivesse...apaixonada pelo meu sequestrador?
– Dormiu bem? — ele perguntou.
– Melhor impossível, e você?
– Dormi bem, como se você fosse meu ursinho de pelúcia. — ele riu — Ei, é assim que vou te chamar a partir de agora, minha ursinha.
Comecei a dar risada, o jeito como ele falou foi muito fofo e tive que me controlar para não o beijar. Quem gostaria de beijar alguém com o bafo à lá gambá morto? Eu tinha acabado de acordar e ele também.
– Creio que não poderá me chamar assim na frente dos outros. — eu disse.
Ele permaneceu em silêncio por uns instantes.
– Eu acho que estou me apaixonando por você, Tris... — ele falou de tal forma que eu fiquei sem ar num sentido bom.
– Você acha? — encarei seu rosto.
– Tenho certeza. Apesar de você me deixar careca, você está me conquistando.
– Pois eu digo o mesmo, meu caro. — eu disse, dando-lhe um peteleco no nariz.
– Sua besta. — ele riu, mas logo ficou sério — Não podemos ficar juntos, Tris.
Eu logo entendi o que ele quis dizer. Ele era da máfia e eu só estava ali para "manter meu pai na linha", e ele não poderia ter nenhum afeto a mim, afinal, ele poderia muito bem me ajudar a fugir dali. E mesmo que tudo aquilo acabasse e ele saísse da Dauntless, ele iria ser preso, afinal, ele também vivia no crime.
Sem perceber, meus olhos já estavam cheios de lágrimas.
– Ei — ele percebeu — Nós ainda estamos descobrindo nossos sentimentos, eu sei que é doloroso, mas tem que agir como se não tivéssemos nada.
– E o que nós temos? — eu perguntei.
Ele ficou sem fala.
– Logo vamos descobrir. — depois de uns segundos ele respondeu e me deu um beijo na testa. Ficamos assim abraçados por um tempo, antes de levantar.
– Me promete uma coisa? — ele perguntou — Como vamos ter que agir diferentemente um com o outro, e se em algum momento eu tiver que agir de forma rude, não fique magoada, ok? É tudo encenação.
– Prometo.
Levantamos e ele foi usar o banheiro primeiro, aproveitei para me trocar, a mesma roupa de ontem. Ele saiu e foi minha vez, fiz minhas necessidades e escovei meus dentes, em seguida prendi meus cabelos num coque desajeitado e sai. Tobias estava todo de preto, mas isso não lhe tirava a beleza, assim que me viu me deu um longo beijo, sabíamos que não poderíamos ter esse tratamento mais lá fora.
– Você é linda, minha ursinha. — Tobias disse encostando a testa na minha.
– Isso é injusto.
– O que?
– Você tem um apelido para me dar, eu não tenho um para você.
Tobias riu alto, e me abraçou, me rodou no ar e assim que me parou me encarou sorrindo.
– Logo você terá. — ele me deu um selinho e me abraçou novamente, era hora de ir.
Tínhamos que ter uma desculpa por eu ter passado a noite fora da cela, e as câmeras iriam indicar eu indo a casa dele.
– Direi que tive piedade e te trouxe pra dormir no sofá de casa, afinal, lá não tem câmeras para provar o que fizemos. — ele disse quando quase chegávamos ao refeitório, ele piscou pra mim.
Minha mão formigava todo o percurso para pegar em sua mão, mas todas as câmeras ali não pude.
Assim que chegamos, me sentei ao lado dele. Não demorou muito para Shauna perceber nossos sorrisos bobos em ambos rostos.
– Se eu fosse vocês, disfarçava mais. — ela se inclinou sobre a mesa e disse baixinho.
Não deu 2 segundos e uma garota aparecer na mesa. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo alto e o seu decote era imenso, dando uma boa visão de boa parte de seus seios. Sua calça era agarrada, o que chamava mais a atenção para suas grandes coxas.
– Quatro! — ela exclamou abraçando Tobias.
– Oi, Nita. — ele respondeu seco não correspondendo o abraço.
Uma coisa se embrulhou no meu estômago e quase senti a torrada que havia comido voltar pelo lugar de onde entrou. Desviei o olhar, olhei para Shauna, que observava Nita.
Todos observavam Nita e Tobias.
– Nita e Quatro, o casal mais lindo do mundo! — Yudi gritou para todos das outras mesas olharem para eles.
Nita lhe deu um beijo bem estalado na bochecha.
Senti uma fúria enorme surgir dentro de mim.
– E aí, lindo. Não vai mandar essa princesinha aí sair pra que eu possa sentar? — Nita disse olhando com desdém para mim.
Não, eu não ia aturar por muito mais tempo.
– Nita, por favor! Saia daqui antes que todos comentem que estamos juntos de novo. — Tobias (finalmente) disse, a afastando.
– Mas e aquela conversa que tivemos outro dia? Você disse que me perdoou. — a confusão na cara da piranha era perceptível.
– Eu disse que te perdoei, não que íamos voltar. — ele respondeu rude.
– Mas que porra, TOBIAS EATON! — ela gritou.
Tobias se levantou e olhou furioso para Nita.
– Você não é NINGUÉM para me chamar pelo meu nome, escutou vadia? — Tobias falou frio e calmo, mas eu sabia que ele estava com raiva por dentro.
– Eu não sou nenhuma vadia. Vadia é essa criatura esnobe aí do seu lado, esta sim você pode chamar de vadia! — Nita gritou, o lugar todo estava em silêncio e observando a briga.
Dessa vez quem se levantou foi eu.
– Quem é você na fila do pão pra me chamar de vadia? — empurrei Tobias e eu fiquei na frente dela.
Escutei vários "eita, a princesa vai entrar na briga", "agora o bicho vai pegar", "vamos ver quem ganha essa", "cadê a Madame pra apartar isso", "Nita vai ganhar", "que nada, a princesa vai lacrar o cú dela".
– Pode ter certeza que sou muito mais importante que você. — Nita disse me desafiando — Tão importante que além de até os chefes me paparicarem, ainda mexo com o coração daquele ali.
Ela apontou para Tobias que revirou os olhos.
– Você não tá esquecendo de uma coisa, fofa? — perguntei.
– Tipo o que, querida? — ela revidou com a mesma falsidade na voz.
– Um verniz pra passar na sua cara de pau! — falei.
Todos riam da cara de Nita com o que eu falei e ela levantou a mão para me acertar um tapa, mas eu fui mais rápida e acertei um nela.
– Sua quenga! — ela gritou, agarrando os meus cabelos.
Comecei a arranhar seus braços e a chutar para que me soltasse.
– Vagabunda, vê se me solta! — eu gritei.
– Vou te mostrar a vagabunda!
Tobias tentava nos separar enquanto o resto do refeitório gritava animados, uns torciam para mim e outros para Nita.
– O que está acontecendo aqui? — uma voz ligeiramente com raiva fez todos se calarem e olharem para a entrada principal.
A mesma mulher que eu tinha visto aquele dia estava lá, observando tudo com os olhos arregalados.
– Nita, o que está fazendo com ela? — ela caminhou até nós.
– M-m-madame... — ela começou a gaguejar enquanto começava a explicar.
A "Madame" colocou sua mão na frente de sua cara, indicando que ela parasse.
– Encrenqueira você, Prior. Mas sua festa acaba aqui, não virá mais para o refeitório. A escoltei para a cela, JÁ! — ela ordenou e se retirou, não sem antes me lançar um olhar assustador.
– Vamos, eu te levo. — escutei a voz de Tobias e fomos.
Ele me levou até a cela e quando paramos em frente a porta, ele me virou e olhou cada centímetro de meu corpo conferindo se aquela Nita não tinha me machucado. Apesar de alguns arranhões nos braços e minha cara estar um pouco vermelha, eu estava bem.
– Nita vai me pagar... — ele disse baixinho.
– Vocês namoraram? — eu não resisti em perguntar.
– Sim, há muito tempo. Mas flagrei ela com outro cara e terminei, ela nunca se conformou mas ficou quieta, embora desde aquele dia às vezes ela vem me infernizar pedindo perdão e pra voltar.
– E você perdoou ela.
– Apenas para me deixar em paz, mas voltar eu nunca voltarei. — ele pegou numa mecha do meu cabelo e a enrolou no dedo — Ainda mais agora que eu tenho minha ursinha.
Não pude conter minha risada.
– As câmeras. — eu o lembrei.
Ele fez uma carinha de cachorrinho abandonado e me disse que a noite viria me buscar, se despediu triste e me deixou na cela com meus pensamentos.
NARRAÇÃO AUTORA
Layla dirigia em silêncio voltando para sua casa em Chicago.
No começo, ela pensou que Andrew só queria tirar o corpo fora para não se dar mal, afinal, de honesto ele não tinha nada e pelo visto só não queria deixar sua lista de coisas erradas que ele fez maior.
Mas após encontrar evidências de desvio de dinheiro indo para uma conta russa, ela não precisava de provas.
Estava ajudando novamente Erudition, e ela não deixaria barato.
Já até sabia como havia se envolvido de novo com aquela máfia. Conhecia muito bem os encantos de Jeanine Matthews e os chifres que seu marido, Edgar Matthews tem (não sabia como ele ainda passava da porta).
Aquilo fez seu coração se apertar. Ela se lembrou da noite maravilhosa com Andrew, um dia antes dele partir, despedaçando seu coração e lhe deixando a única coisa boa que ela tinha em sua vida: Natasha.
Mas não era hora dela lembrar disso.
Não era hora de ninguém saber do passado dela e de Andrew.
–--
"- Você escutou sua mãe falando o que? — Yoko perguntou ainda não entendendo o que sua amiga lhe falou.
– Isso mesmo, meninas. Desconfio que minha mãe está envolvida com a Dauntless e com o desaparecimento de Beatrice Prior. — Natasha repetiu para as outras 4 meninas sentadas em sua cama, que a olhavam espantadas.
– Isso é uma acusação grave. — Gabi disse.
– E se você ouviu mal? — Lucy perguntou.
– É muito sério. — Mari reforçou.
– Tenho certeza do que eu ouvi, meninas. E vou investigar isso! — Natasha respondeu a todas determinada."
A lembrança da noite passada com suas amigas lhe veio em mente.
Ela tinha acabado de retocar seu cabelo verde e esperava a tinta pegar antes de lavar, enquanto isso, ela pesquisava sobre a Dauntless em seu quarto.
Algumas datas coincidiam com as "viagens de negócios" que sua mãe fazia, e aquilo a deixava ainda mais intrigada. Nunca souberam quem era o chefe da Dauntless e nunca tiveram suspeitas.
Enquanto mordiscava um biscoito feito pela cozinheira querida, Leonor, Natasha deixou algumas coisas importantes que havia descoberto em sua pesquisa anotada no seu caderno da faculdade de música, sua mãe nunca mexeria lá. Após terminar de anotar, apagou o histórico e todos os registros da pesquisa, ela usava um navegador anônimo que lhe permitia poder usar a Deep Web sem ninguém a rastrear, o que lhe tranquilizava, ninguém saberia o que ela estava fazendo tão fácil.
Para pesquisar sobre aquela máfia, a Deep Web era perfeita.
Fechou o laptop e olhou o relógio, já tinha passado uma hora e meia e ela foi em direção ao banheiro lavar os cabelos, que assim que fosse secado estaria no verde que ela tanto amava, era sua cor favorita.
Sua mãe voltava aquele dia e ela não queria ser pega pesquisando aquelas coisas, então assim que sua mãe saísse novamente (o que era sempre) ela voltaria com as pesquisas.
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