Over x Lupus - Interativa
11 Capítulo 11
Notas iniciais
A segunda terça dos Over tinha chegado e, com ela, a simulação. As turmas de todo o ensino médio foram agrupadas em um único time, pegando quase sete alunos de cada uma. A escolha de alunos por parte da Over não foi difícil, no entanto — após a festa de boas-vindas, os novatos tentavam se distanciar dos velhos moradores quando podiam, tendo como voluntários apenas os alunos mais aventureiros e curiosos.
Aria estampava um sorriso enquanto ela e seu time esperavam no ponto inicial do mapa.
— É melhor não nos dividirmos — Amélie dizia. — Assim dificultará pra eles se aproximarem.
— Exato — Dylan concordou. — Todos prontos? — virou-se para os dezoito alunos restantes. Entre eles, Keith, Marin e outros estudantes dos anos inferiores se encontravam. Vendo que responderam positivamente, continuou. — Certo, vamos revisar: eu ficarei como sniper novamente e Loop me dará proteção, andando ao redor. Vocês ficarão juntos e explorarão o mapa até tivermos suprimentos o suficiente.
— Poderemos sair e eliminar os zumbis assim que recolhermos trezentos de munição — Aria o ajudou. — Isso dará um pente com trinta e cinco balas para cada um.
— E supondo que cada um de nós precise matar um zumbi, isso deve bastar por enquanto. Marin, você ficará na retaguarda? — olhou para a garota sentada em um canto, distraída em seus pensamentos.
— Por mim tudo bem — disse após despertar e sorriu.
— Dessa vez não teremos como nos comunicar, pessoal — Dylan retomou. — Achem os rádios e tragam um para mim e Loop, é uma prioridade para termos mais vantagens.
— E se não tiver nenhum no mapa? — uma garota do segundo ano questionou. Ela segurava uma metralhadora leve.
— Então terei que abandonar o posto e ficaremos sem uma boa visão. Se eu atirar, saberão onde estou e poderemos ficar com menos dois no time.
A aluna assentiu com a cabeça. Uma das condições da simulação consistia em ambos os times terem seus pontos fortes: enquanto os denominados sobreviventes teriam acesso a armas e mais equipamentos, os zumbis possuiriam um radar que apontaria a posição de seus alvos sempre que estes atirassem. Além disso, sua eliminação se dava apenas por headshot — no entanto, precisavam ter contato direto por cinco segundos com a vítima se quisessem infectá-la. Parecia equilibrado.
— É isso. Procurem primeiro por munição e rádio. Depois recolham armadilhas e o que mais encontrarem de útil — Dylan passou a corda de sua sniper pelo corpo e parou na entrada da salinha, dessa vez decorada como uma cozinha abandonada.
Pouco depois a buzina tocou, simbolizando o início do teste. O grupo de vinte alunos disparou para a frente, liderado por Aria e um rapaz do primeiro e guardada por Marin e Keith no final. Dylan e Loop logo se separaram, buscando um ponto mais alto e distante. O resto correu por mais de três minutos por ruas abandonadas, compostas por carros queimados, malas rasgadas e portas quebradas, até que encontrassem uma construção livre para acesso. Os cenários eram incríveis com o nível de realismo, arrancando suspiros e exclamações de parte da equipe. Até os poucos acessórios que deram à equipe Over, como lenços para pescoço e bonés, ajudavam na imersão da missão.
O grupo entrou apressado num edifício velho e fechou a porta. Aria guiou-o escadas acima até entrarem no primeiro cômodo, uma sala com poucos móveis. Separaram-se em dois, uma metade continuando suas buscas nos próximos andares. Marin e Keith ficavam nas poucas janelas, atentos para qualquer movimento lá fora.
— Achei três balas e um saco de dormir — Amélie falou em meio ao barulho de gavetas e armários sendo vasculhados.
— Ótimo, Méli — Aria enviou um sorriso a amiga enquanto ajudava na busca.
— Mais duas balas aqui — uma garota chamada Fernanda disse do fundo do cômodo.
Em seguida, o grupo se reuniu e contou seus achados: no total possuíam um pente de dez balas, mas nenhum rádio. Dividiram a munição entre Marin e Tom, um rapaz de cabelos castanhos da mesma turma da mestiça, considerados como os melhores atiradores disponíveis. Agora com Tom na frente, a equipe da Over deixou o edifício de dois andares. Contornaram uma esquina e avistaram outra porta com sinal verde. Antes de atravessarem a rua, procuraram silenciosamente qualquer sinal de inimigos.
— Ok, vamos — Tom avisou.
Seguiram-no até o segundo edifício, encontrando um ambiente similar ao anterior. Espalharam-se outra vez em busca de suprimentos enquanto Tom e Marin agora ficavam de guarda. A garota se sentia ligeiramente desconfortável por não ter mais Keith ao seu lado, mas tentou manter o foco em sua missão. Após poucos minutos, ouviam a boa notícia de dois rádios terem sido encontrados, apesar de não verem mais nenhuma munição.
— Precisamos levar um até eles agora — alguém do primeiro ano falou.
— Você pode ir? — Tom olhou para Marin.
— Claro — respondeu após algum tempo. Percebeu o olhar inquisitivo de Keith e o de compaixão de Aria. Sorriu levemente e recolheu o rádio que estendiam em sua direção.
O amigo talvez reclamasse mais tarde, porém deram-lhe uma segunda missão, e bem melhor que a primeira.
— Voltarei o mais rápido que puder — disse antes de descer a escada e desaparecer para seu grupo.
Fora do edifício, Marin olhou ao redor tentando encontrar os pontos mais altos do mapa. À sua esquerda, numa distância do que pareciam cem metros, viu uma construção maior que os sobrados até então achados. Atentamente caminhou até lá, sempre parando e se agachando para ouvir os ruídos ao redor que, por sorte, não sinalizavam perigo. Ao chegar, empurrou levemente a porta de madeira e entrou. Era um edifício aberto, com poucas paredes contornando-a e várias escadas. Apesar de ter uma boa altura, Marin poderia ser vista com facilidade ali. Tentando subir o mais rápido que podia, anulou os andares até o último. Deitou-se e puxou seu rifle, apoiando-o de forma que pudesse usar sua mira, facilitando a visão do mapa. Apontando para o lado de onde vieram, percorreu com o olhar uma área de quase 130 graus até um edifício parecido com o que estava chamar sua atenção. Era mais fechado e alto, além de ter várias casinhas ao redor. Parecia perfeito para Dylan e Loop.
Colocou-se de pé, arrumando sua arma ao lado do corpo, e correu escadas abaixo. Estava prestes a empurrar a porta quando ouviu passos, que ficavam cada vez mais claros. Voltou o corpo para trás, escondendo-o numa das pilastras que sustentavam a entrada, e aguardou até que não os ouvisse mais. Seu coração batia rapidamente quando ultrapassou a porta de madeira e seguiu na direção do ruído, enxergando, já distante, um amontoado de cinco zumbis — ou Lupus — caminhando distraídos pela via esburacada. Suas roupas pareciam cosplays simples, cinzas e amassadas em quase toda sua extensão. O que um grupo pequeno fazia ali, como se passeando ao ar livre? Sentindo-se em perigo, Marin retornou ao trajeto até Dylan que, por sorte, estava em outra direção.
Enquanto revezava entre corrida e caminhada, começou a pensar nas possíveis estratégias que seus adversários poderiam criar. Estariam eles criando armadilhas ou preferiam, ao contrário dos Over, trabalhar sozinhos, dividindo-se significativamente? Talvez quisessem que pensassem isso. Tentando não se distrair tanto, parou de refletir e se focou no ambiente que a cercava. Um barulho distante de alarme de carro preenchia o ar junto com o ruído de água ali perto, contrastando com a gravação de fumaça escapando de usinas saindo em caixas de som ocultas. Marin saltou algumas cercas baixas de metal que cercavam as vias à frente, acessando mais facilmente a área das casas que vira anteriormente. Ao redor, edifícios altos, como uma área empresarial, davam uma boa cobertura para a construção menor em que Dylan poderia estar. Convencida, percorreu todas as casas a procura de um Loop em guarda, sem, no entanto, achá-lo. Estranhou e se deixou sentar por instantes atrás de um muro que limitava a calçada, imaginando qual seria a situação em que ele e Dylan se encontravam. Teria Loop sido surpreendido e o sniper forçado a continuar escondido? Marin não soube o que fazer de início. Olhou para os lados e respirou profundamente. Então voltou a andar sorrateira por trás das escadas das casas, observando tudo. Não havendo sinal de qualquer transeunte, alcançou em instantes o prédio que marcara como seu alvo, passando por portas de “vidro” (que pareciam feitas de plástico) quebradas e encontrando escadas dos dois lados do grande cômodo. Escolheu aleatoriamente a esquerda e começou a pular todos os degraus até o segundo andar, quando uma figura maior a surpreendeu de frente.
— Te vi lá embaixo — logo disse. — Achei melhor te encontrar antes que um zumbi fosse mais rápido.
Ofegando pela corrida e pelo susto, a garota direcionou a mão até a mochila pequena em suas costas, pescando o rádio e dando-o ao colega.
— E Loop?
— Ele estava andando pelas casas quando três Lupus apareceram do nada — contava enquanto ligava e configurava o aparelho. — Correu para fora do meu campo de visão, não o achei mais.
Assentindo, encostou na parede da escada.
— Alguém? — Dylan direcionou sua voz ao walkie-talkie.
— Estamos aqui — a voz de Amélie apareceu.
— Ótimo. Algum problema? Perdi Loop de vista aqui.
— Bem, vasculhamos mais três lugares e só achamos mais três balas. Com Tom aqui, temos oito.
— Quantas você tem? — sussurrou para Marin antes de continuar e receber um “cinco” como resposta. — Certo. Ainda não achei para a sniper, então mudarei minha posição, aqui não me parece mais tão seguro.
— Tudo bem, avise sobre qualquer coisa — a voz parou por instantes.— Ah, Aria está perguntando se Marin irá voltar.
— Eu gostaria de roubá-la, pelo menos por enquanto — respondeu calmamente.
— Ok, Tom disse que fará o possível para equilibrar isso — riu levemente.
— Obrigado — Dylan deu um breve sorriso. — Desligando, pessoal — e travou o aparelho em seu cinto grosso. — Tudo bem se você ficar no lugar do Loop até que eu tenha munição?
— Claro — Marin sorriu e, seguindo-o, passou pelas escadas novamente até se ver na rua deserta. — Acha que marcaram essas casas?
Dylan contraiu os olhos, pensativo. Andava apressadamente lado a lado da mestiça.
— Loop estava entrando naquela casa — apontou para um sobrado pequeno a quase vinte metros à direita. — procurando por munição. Saiu de lá seguido pelos zumbis depois de um minuto, então pode ser que estejam.
Marin assentiu. Precisavam de munição, ainda mais por estarem longe de seu grupo, mas era arriscado demais passar novamente naquelas casas.
— Tem uma outra área residencial a três quadras daqui. Não vi nenhum movimento por lá e é menor que essa, acho que não protegeriam lá como aqui — sugeriu.
— Certo.
Marin deixou que Dylan tomasse a frente para mostrar o caminho. Manteram-se em silêncio até chegarem num condomínio privado de portões amarelados. O agrupamento não possuía mais de seis casas e quase não tinha espaço entre as construções, o que facilitava a missão da dupla. Dylan entrou na primeira moradia, seguido pela mestiça, e encontrou um cenário simples, com poucas cadeiras na sala de estar e um papel de parede no segundo cômodo imitando uma cozinha.
— Os cenários estão bem mais caprichados onde o pessoal está… — Marin comentou.
— O orçamento não deve cobrir — deu de ombros divertidamente antes de subir para o segundo andar.
Lá, encontraram dois quartos com uma cama e uma cômoda. Das gavetas, recolheram duas balas de metralhadora, sendo úteis apenas para Marin. Enquanto esta guardava seus novos presentes, Dylan questionou em voz baixa, indo para a janela espiar a rua.
— Onde aprendeu a atirar?
— Hm...nunca tentei na vida real — sorriu. — Só tenho FPS como base.
— É sério? — Dylan lançou-lhe um olhar rápido, logo voltando a se concentrar na janela. — Você tem uma boa base então.
— E você? Ter precisão com sniper é difícil.
— Atirei algumas vezes com meu pai, mas nunca tive tanto gosto por isso até ser necessário na semana passada — soltou um riso breve, como se lembrando as situações inesperadas, mas positivas, da primeira simulação.
— Entendi — Marin sorriu. — Costumo gostar de jogar com essa classe, mas não que eu seja decente. Às vezes penso que até um camelo pouco sóbrio jogaria melhor.
O garoto sorriu com as palavras e se afastou da cortina.
— Parece tudo calmo ainda. Vamos para a próxima casa?
Marin assentiu e, guardando as costas do companheiro, revistou todas as casas da área. Agora tinham quatro balas para Dylan e mais uma para Marin, totalizando oito para a última.
— Melhor que nada — Dylan deu de ombros após saírem da última casa.
— O que faremos agora?
Enquanto atravessavam a saída larga do estacionamento do condomínio, vozes baixas e animadas o atingiram. Rapidamente se jogaram para trás de um carro abandonado, esperando as vozes se aproximarem e passarem por onde sairiam.
— E eu vou, vou, vou caçar ao pôr-do-sol— algum garoto cantava distraidamente, tendo o coro de mais um pequeno grupo no refrão. - Sob sua luz e a força do formol!
Dylan comprimiu os olhos, levemente desconfortável com o que cantarolavam. Marin percebeu e soltou um sorriso de diversão. Era difícil ficar surpreendida com humanos. Lentamente esticou as pernas para ver através da janela do automóvel, contando três pessoas com roupas velhas.
— Gostaria de eliminá-los — aproveitou o barulho que o próprio trio fazia para falar.
— Bem… Podemos tentar — parecia analisar a situação.
Satisfeita, sorriu e puxou em silêncio sua MP7. Olhou para o colega brevemente antes de se colocar numa corrida atrás dos inimigos, controlando sua respiração para que fizesse menos ruído. Apontando para suas cabeças, disparou uma sequência de três tiros, esperando que tivesse a sorte de acertar o que queria somente com aquelas balas. Um logo se jogou no chão, encenando sua morte. Os outros dois pareciam ter sido acertados no pescoço, fazendo-a suspirar pelo seu erro. Andando de costas para abrir distância da dupla, que agora corria para ela, atirava em intervalos grandes, tentando aumentar sua precisão e deixá-los longe de onde Dylan estava. Um tiro cruzou sua visão e marcou o crânio do zumbi à esquerda, aliviando o receio de Marin de ser pega. Com menos peso em seus ombros, acertou facilmente o último inimigo, que se jogou no chão como os outros e gargalhou.
— Aproveita, querida — o rapaz encarava Marin enquanto continuava deitado na via, posicionando-se como se estivesse na praia tomando sol. Um sorriso malicioso rondava sua face.
— A gente já sabe quem eliminar primeiro ou por último — a única garota do grupo continuou.
Marin apenas levantou o polegar positivamente, sorrindo, e se juntou a Dylan, que saía de trás de uma lata de lixo.
— Obrigada — agradeceu-o gentilmente.
O garoto devolveu o sorriso.
— Acho que devemos correr agora — Marin avisou.
— Concordo sem hesitar — balançou a cabeça e iniciou uma corrida aparentemente sem destino certo. — Tem um parque grande ao leste. Não acho que tenha suprimento lá, então podemos tentar nos esconder.
O aluno do Over mais uma vez guiou-a, agora até uma área aberta e arborizada. No centro parecia existir uma depressão — talvez um antigo lago seco. Vários bancos tomavam espaço ao redor de trilhas mal-acabadas e cheias de folhas.
Marin queria suspirar com o clima de outono do local — adorava aquela estação -, mas o silêncio era sempre importante naquelas novas aulas. Como se lendo seu pensamento, Dylan a observava de esguelha com um sorriso discreto nos lábios fechados. Subiram um pequeno monte, fazendo Marin se lembrar do morro em que matara, com Keith, três Lupus na terça anterior. Lá se agacharam atrás de um grupo de árvores baixas, mas bem folheadas. A sombra deu-lhes um gentil alívio no calor em que seus corpos haviam entrado desde a buzina de início, deixando que esticassem seus músculos lentamente.
— Acho que ficarei aqui até o fim do teste — Dylan encostou num dos troncos.
— Se não se importar, gostaria de copiá-lo — respondeu divertidamente. Após um tempo, continuou. — O que acha que eles disseram com “sabemos quem matar primeiro”?
O loiro ficou pensativo e sério.
— Acha que foi para você, ou nós?
— Não sei… Talvez sejam amigos do Trojan, que quer vingança — deu de ombros e sorriu um tanto receosa.
— Você é mais importante que eu para nossa equipe. Não deixarão que morra tão fácil. No caso, que se torne um zumbi — sua face se contorceu brevemente com a confusão criada por si mesmo, roubando um riso de Marin.
Fale com o autor