Over x Lupus - Interativa
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Soren estava distante do grupo, que se concentrava na área mais clara da floresta. Lá, quatorze alunos, Lupus misturados com Overs, conversavam enquanto esperavam por Mark, um aluno do reformatório que dizia ser realmente veloz. Com sua habilidade, adiantariam uma boa parte da missão daquele dia, na simulação de sobrevivência.
Mesmo longe, Soren ouvia atentamente.
— Assim que o Mark voltar, teremos que nos mover – um rapaz moreno, de cabelos curtos, dizia. – Se ele encontrar o ponto onde precisamos ir, beleza. Caso não, a gente vai ter que se separar para encontrar o mais rápido possível.
— Não temos rádio – outro rebateu. – Como acha que vamos nos reunir de novo?
— Marcando um ponto e um horário – deu de ombros. – Espero que alguns de vocês tenham boa noção do tempo.
Em meio à conversa alta, a equipe começava a se dividir para ter o plano B. Tinham exatamente sete estudantes da Lupus e sete do Internato Over, mas isso não impediu as unidades de se isolarem – uma das regras daquela aula consistia em nunca ter um Over sem um Lupus por perto, ou vice-versa.
— E ele voltou – uma aluna proclamou assim que avistou um rapaz de cabelos ralos e claros descendo até a depressão onde se encontravam.
— E aí, Mark? – o moreno de antes o fitou.
— Bom, aparentemente temos que andar uns dois quilômetros até onde marcaram o chão com uma fita amarela – dizia enquanto enxugava, com a manga da blusa, a testa molhada — Lá deve ser a partida.
— Ok. Caras, movam-se – o primeiro retomou.
Seguindo as palavras do garoto, Soren se posicionou na retaguarda do grupo e começou a caminhar. A cada passo, uma garota de olhos castanhos e amendoados, que seguia em sua frente, foi diminuindo a velocidade até que o alcançasse.
— Olá – cumprimentou-o assim que parou ao seu lado.
— Ahn... O-olá – Soren deu um sorriso quase imperceptível tentando camuflar seu nervosismo. Sua lista de costumes não contava com “conversas entre pessoas”, principalmente com pessoas aleatórias.
— Você é um Lupus, né? Seus amigos me contaram – sorriu.
— Quem? – questionou com naturalidade, visto que não considerava ninguém ali como amigo. – A-ah, sim, sou um – respondeu.
— Bem, eu sou da Over. Podemos ficar em dupla, o que acha? Acho que você não se juntou a ninguém ainda, né?
— Hm, sim... – disse após um tempo. — Tudo bem.
— Então... – a aluna sorriu timidamente, feliz com a resposta. – Qual o seu nome?
— Soren. Soren Nimble.
“Ah, eu sou a Fernanda, mas pode me chamar de Nanda, é um...”, foi o que Soren conseguiu escutar antes de voltar ao seu próprio mundo, onde observar ao redor era mais produtivo que trocar informações pessoais com a garota, que agora adotara como dupla. Por estar sempre longe dos outros, sejam alunos ou familiares, não sentia que tinha a habilidade necessária para participar de diálogos ou histórias em grupo. Além do mais, não dava para confiar em qualquer coisa que falassem.
Com Nanda, agora em silêncio, acompanhando seus passos, Soren guardava o máximo de detalhes que conseguia captar daquele cenário. Árvores com galhos intactos, grama verde, poucas pedras no chão, céu limpo, ar leve e, tirando a depressão de antes, geografia homogênea – até a fita citada por Mark, não subiram ou desceram qualquer colina. Ao chegarem na fita marcando o objetivo, todos pararam. Na frente, uma trilha parecia seguir por mais de cem metros até virar para a esquerda. Uma placa de plástico colocada ao lado da fita avisava que os alunos não deveriam sair daquela passagem.
— Não se separem — Rogue, o moreno da Lupus, aconselhou. — Essas simulações costumam nos obrigar a ficar juntos para conseguir. E sim, é spoiler — disse quando um Over retorceu o nariz.
O grupo começou a caminhar pela trilha. As árvores ao redor estavam tão perto, e em grande quantidade, que não conseguiam enxergar além de cinco metros. Na primeira virada, deram de cara com uma segunda placa.
— “Para continuar, toque na resposta correta. A pergunta é: se o olho humano se depara com um ambiente escuro e tenta focalizar um objeto próximo, a íris irá” — um dos garotos no começo do grupo leu, passando os olhos pelas outras duas placas que vinham a seguir. — “Aumentar” ou “diminuir”.
— Nós temos que tocar na certa…? — um Over questionou, suspeito.
— Sim — Rogue assentiu. — Quer fazer as honras?
— Bem, acho que diminui.
— Vá em frente — o garoto sorriu torto.
Estendendo a mão, o garoto do Over tocou a placa com a resposta que escolhera. No mesmo instante, um som agudo invadiu a floresta. “Vamos continuar”, Rogue disse após nada acontecer. Segundo ele, era um sinal de que tinham passado no primeiro desafio. Caminharam por mais três minutos antes de encontrarem outra questão. Dessa vez, perguntava sobre a constelação de Cassiopeia. Outro estudante do Over a respondeu e seguiram em frente, deparando-se com mais de cinco questões teóricas. Até que a situação mudou. No sexto “obstáculo”, a pergunta podia ser respondida por todos. Quem achasse que a resposta fosse a primeira opção, ficava no lado esquerdo da trilha, enquanto os que preferiam a última alternativa ficavam no lado contrário. A partir dali o grupo começou a diminuir. Diversos alunos eram eliminados da prova de uma vez, respondendo da forma errada. Em menos de dez minutos, somente treze alunos continuavam caminhando.
Soren ainda andava com Fernanda ao lado, que havia parado um pouco com o falatório. Parecia mais pensativa — ou cansada — ao longo do tempo e Soren agradeceu mentalmente por isso. Não que o irritasse, mas continuar quieto, em seu canto, sempre parecia mais fácil.
— “Quantas padarias existem na província de Shizuoka?” — um Lupus riu. Que tipo de pergunta era aquela?
O grupo, mais uma vez, separou-se. Enquanto nove alunos ficavam a direita, na opção de “2152 padarias”, Soren, Fernanda e mais dois alunos do Over se locomoveram para a esquerda, escolhendo “2990” como resposta. Logo o círculo desenhado na esquerda brilhou, sinalizando a resposta correta. Os oito alunos trocaram murmúrios negativos e se retiraram para onde uma placa, posta numa árvore próxima, apontava.
— Foi por instinto? — Nanda finalmente disse em voz baixa, mantendo-se ao lado do garoto.
— Hm, sim…
— Eu li uma vez, numa revista qualquer, sobre isso — comentou envergonhada.
Soren apenas assentiu com a cabeça e voltou a seguir a dupla que restara. Não entendia aquela simulação — mesmo já tendo passado por algumas — e aquilo cutucava seu cérebro levemente. Tentava entender a regra de ter sempre um Over por perto, mas não parecia combinar com o tipo de teste que estavam fazendo. Por que fazer obstáculos que dividiriam, no fim, as pessoas? Com a pergunta na cabeça, chegou ao último obstáculo, que pedia pela resposta de uma questão diferente: qual a tonalidade das primeiras cinco placas vistas até agora? A primeira opção apontava que eram todas da mesma cor, enquanto a segunda citava branco, bege claro, cinza e branco novamente. Enquanto a dupla de garotos ia para a primeira resposta, Soren se demorou um pouco para andar na direção oposta. Nanda o encarou brevemente antes de fazer o mesmo enquanto os rapazes os olhavam de forma cômica, como se estivessem cometendo um grande erro. Soren estava acostumado. Sempre o subestimavam por parecer inocente e desligado. Ignorou os olhares e esperou até que um círculo verde aparecesse ao seu redor, levantando reclamações alheias em sua frente.
Uma voz começou a ecoar pela trilha, parabenizando Soren e Fernanda e encerrando a simulação.
— Dessa vez acreditei em você, não notei nenhuma cor — Nanda sorriu. — Obrigada, você é uma boa dupla.
— Obrigado… — desviou o olhar, questionando-se se deveria continuar. — Você também foi — disse após um tempo.
Ambos seguiram os rapazes derrotados e voltaram a sala de monitoração, com alguns curiosos e professores que acompanharam o treinamento presentes. No caminho, Soren pensou no que Nanda dissera. Ela acreditara nele quando, como sempre, todos achavam que ele estivesse errado. Ela não o julgou e, mais uma vez, agradeceu-a em silêncio.
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