Fernanda corria para acompanhar os outros, que iam na direção contrária às casas que serviram de esconderijo por longos minutos, já que um grande grupo de Lupus resolveram, aparentemente, montar um piquenique imaginário naquela rua. Agora que finalmente tinham desaparecido, Tom os levava até um ponto mais afastado do mapa, onde pensavam encontrar segurança o suficiente para conversar com Dylan pelo rádio e definir um plano.

Estava curiosa quanto a estratégia que criariam e a hora em que entrariam em ação. Apesar de não se considerar uma aluna ideal para aquele tipo de simulação, queria se aventurar e sentir a energia que seus companheiros Over demonstraram dias atrás. Usava suas forças sem impor limites, chegando com ânimo até um riacho calmo junto aos sobreviventes. O local era uma mistura de cidade com floresta.

Tom parou e o grupo se dispersou levemente, cada um aproveitando o ambiente ao seu jeito. Nanda continuou perto dele, que puxava um walkie-talkie da cintura, e de Aria, ouvindo o que conversavam.

— Como estão aí? — o aluno falava ao aparelho.

Um minuto depois, uma voz calma e jovem o respondeu. Reconheceu-o, lembrando-se do rapaz liderando a equipe na sala inicial.

— Escondidos em um parque. Eliminamos três em um condomínio e viemos correndo pra cá. Tentem não se aproximar de um condomínio amarelo.

— Ok, ainda têm munição? — disse enquanto Aria sorria de aprovação.

— Pouquíssimas balas — após um tempo continuou. — Esses que matamos disseram coisas estranhas. Insinuaram que já possuem uma estratégia e irão eliminar as pessoas certas primeiro.

Tom encarou Aria misteriosamente.

— Tem ideia do que querem dizer?

— Talvez. Preciso que fiquem com Marin de volta, não posso protegê-la e acho que ela é um, ou um dos, alvo.

— Realmente — suspirou. — Estamos num riacho na área oeste. Tentem encontrar um lugar bom para nos encontrarmos e me avise, ficaremos aqui esperando.

— Certo, até então.

Ao desligar, Aria questionou pensativamente:

— O que acha?

— Acho que estão aprontando algo. Não tiveram peso na consciência ao usar os túneis contra vocês na primeira vez, certo? — disse um tanto revoltado. — Não ligariam pra algo do tipo dessa vez.

A garota balançou a cabeça positivamente.

— Bem, o Dylan e a Marina sabem disso, devem estar tomando cuidado. Só nos resta esperar.

— Sim — deu um sorriso fraco. — Estou preocupada que Loop desapareceu e Dylan ficará sozinho outra vez.

— Talvez deixar alguém com ele? — sugeriu e olhou para Nanda. — Fernanda, né? Sabe atirar?

Os olhos arredondados da jovem se arregalaram levemente pelo inesperado chamado.

— Hm… Não… Desculpe — sorriu com culpa.

— Não se desculpe — Tom disse gentilmente, mas com pressa. — Sabe de alguém que consiga, pelo menos de uma forma razoável?

Negou com a cabeça.

— Meus amigos escolheram as simulações de quinta, então não conheço ninguém daqui.

— Entendo.

— Ei, você gosta de aventuras? — Aria sorria para ela.

— Hm, sim — retornou o sorriso. — Só não tenho muitas habilidades.

— Ah, nada disso! Nós todos temos coisas que dão orgulho — respondeu animadamente.

Nanda apenas sorriu contente. Só conhecia Aria por vê-la nos corredores do antigo campus, já que estava dois anos abaixo de sua turma, mas logo se acostumou com a presença forte, mas agradável, da morena. Naquele momento, um rapaz alto, de cabelos claros e olhos extremamente azuis se aproximou. Sua expressão era de calma e descontração.

— O que faremos, líderes?

— Bem, precisamos pegar Marin de volta e protegê-la — Tom disse.

— Dylan e ela estão longe de nós, mas vão procurar um lugar em que possamos nos encontrar — continuou Aria.

— Tudo bem — o garoto sorriu e começou a se afastar.

— E Ethan, tentem não ficar muito espalhados por aqui… Ok?

— Pode deixar — respondeu ao atirador naturalmente e se afastou.

— Não se preocupe, Nanda — Aria a chamou após um tempo. — Vá descansar e explorar um pouquinho, chamaremos vocês quando tudo estiver resolvido — sorriu.

— Fique de olho nele também, estudo com ele e sei que é individualista — disse como se fosse suspirar de cansaço.

Fernanda não sabia o que fazer. Sentia-se confortável ao lado deles, mas a ideia de explorar, ao menos um pouco, o local parecia divertida. Acabou assentindo com a cabeça e se retirou, olhando ao redor e pensando por onde começar seu novo passatempo.

— Estou indo lá pra cima — o garoto de antes apareceu, apontando para onde o riacho descia tranquilamente. — Quer vir? Acho que você também quer fazer algo pra se distrair — falou simpaticamente.

— Ah, claro — sorriu, agradecendo pelo convite, e o seguiu.

Tentando ficarem sempre no campo de visão dos outros, andaram na beira do rio de água clara até um ponto mais acima de onde estavam. Conseguiam ver, agora, quase toda a equipe de uma vez, que também se dividia em duplas, trios ou até quintetos. Era tranquilo ali, com o som da corrente viajando metros de distância em meio às árvores. Ambos não estavam na simulação anterior, mas assistiram a tudo depois que a coordenação da Lupus disponibilizou o vídeo no site da instituição, e automaticamente se lembraram do cenário que parecia, por inteiro, uma floresta deserta digna de emboscadas em uma guerra.

— Queria ter participado antes — Ethan falou em voz baixa. — Pareceu divertido.

Nanda sorriu.

— Não foi sorteado?

— Sim… Mas fico feliz em abrirem para todos agora — seus lábios se alargaram em um sorriso. — Você estava no teste de quinta, não é?

— Ah, eu estava… Não fiz muita coisa — respondeu com um tanto de culpa.

— Era um teste em grupo até então. Todos fazem algo.

A garota apenas esboçou um sorriso. Mesmo que lesse muito — e adorasse isso — parecia que seus conhecimentos adquiridos dessa forma nunca eram necessários.

— Queria que essas aulas fossem mais longas — Ethan contou distraidamente.

— Não se cansaria? — Nanda sorriu. — Dessa vez eles cortaram o tempo pela metade para que outras salas também participassem.

— Sei que é justo, mas queria me divertir mais… Mesmo sendo numa aula — deu um sorriso.

— Os alunos que saíram da Over perderam isso — respondeu contente.

— Sim… — falou com um tom nostálgico. — Mudanças podem ser boa e talvez eles ainda não saibam.

A garota assentiu com a cabeça, mas depois imaginou o que seria aquela atmosfera em volta das palavras do rapaz. Ficaram ali, aproveitando o ar leve daquele local entre agradáveis raios de sol que passavam pelos topos verdes das árvores, até que uma garota do segundo ano os alcançasse e chamasse, dizendo que Aria e Tom haviam recebido notícias do sniper do time. Desceram a elevação e se aproximaram do grupo.

— Bem, Dylan disse que tem um galpão grande, daqueles abandonados, perto de um rio ao norte — Tom explicava. — Se seguirmos esse riacho, acho que conseguiremos chegar, e não nos perder — e começou a caminhar. — Nao fiquem longe do grupo e todas as outras coisas óbvias…

Com Tom liderando, andaram por mais de cinco minutos até encontrarem construções quadradas e mal acabadas no fim do rio, que se alargou consideravelmente. Atrás da barreira de árvores que delimitavam a floresta, esperavam pela resposta de Dylan, que provavelmente já se encontrava no galpão.

— Podem ter zumbis lá — Ethan falou de repente em voz baixa. Ainda continuava ao lado de Nanda. — Acho que vou dar a volta.

— Não vai entrar conosco? — a garota ficou ligeiramente surpresa, mas logo se lembrou das palavras de Tom. “Sei que ele é individualista”.

— Teremos mais chance de ganhar se alguém não for pego em nenhuma armadilha — explicou naturalmente. — Quer vir? Hm… — pensou novamente. Tom pedira para ficar de olho no rapaz, mas se afastar do grupo não era certo. O argumento de Ethan também fazia sentido, no entanto. — Bem, sim…

Nanda se sentia confusa, dividida entre suas obrigações. Agir como uma pessoa solitária e independente não parecia muito bom naquele tipo de aula. Tentando espantar a sensação negativa que sentia, seguiu o rapaz até o outro lado do galpão, contornando-o sem que nem seu time percebesse. Encontraram uma entrada lateral, pequena e com uma tábua fina passando-a pelo meio, fazendo-o se esticarem o mais flexivelmente que conseguiam para pulá-la em silêncio. Dentro, descobriram um pátio extenso e com dois andares, que tinham acesso através de escadas de metal escondidas entre pilhas e mais pilhas de caixas cor de caramelo. Ethan andou em passos lentos e atentos até a escada mais próxima, guardada pela coluna de caixas que se erguia em sua frente.

O ambiente parecia vazio, instalando uma sensação levemente tranquila na dupla. Subiram os degraus e se encontraram num corredor perfurado por mais de seis portas até seu fim. Ethan sinalizou silenciosamente para que Fernanda o esperasse analisar todos os cômodos antes de prosseguir. Paciente, assentiu e ficou assistindo-o andar sorrateiramente até as primeiras portas. Nenhum dos dois possuía uma arma, o que fez Nanda imaginar o que poderiam fazer caso encontrassem “zumbis”. Disposta a despistá-los caso aparecessem, contou a quantidade de caixas perto dali que seriam capazes de bloquear o caminho em pouco tempo. Memorizou suas posicionamento e voltou a prestar atenção em Ethan, que agora entrava na terceira porta. Parecia tudo bem até que grunhidos mal imitados viessem de sua direita, perto de uma das entradas do galpão. Lá seis Lupus andavam animadamente na direção da escada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.