Over x Lupus - Interativa
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A imagem em minha frente era composta por uma garota de cabelos curtos e pretos, olhos amendoados, mas pequenos, e um olhar fixo nos meus. O vento chacoalhava suas madeixas e trazia o aroma de baunilha vindo das mesmas. Antes que eu decidisse alcançá-la, despertei com as mãos de Marin balançando levemente meus ombros. Seus olhos estavam cansados e quase fechados de como alguém que acabou de acordar, mas suas palavras saíam firmes e claras.
— Keith, precisamos sair, incêndio no armazém – continuava falando, esperando que eu despertasse por completo.
— O quê? – levantei-me, sentando-se na cama e olhando para a janela acima da cabeceira. Tossi assim que o cheiro de queimado me atingiu, mas consegui ver uma nuvem de fumaça que começava a se formar atrás do edifício enquanto as diversas árvores ao redor do portão brilhavam entre chamas.
— Já guardei suas coisas, vamos! – Marin jogou duas mochilas minhas, lotadas de coisas, e, recolhendo as suas do chão, andou apressadamente até a porta.
Saindo para o corredor, percebi o barulho dos outros estudantes abandonando o edifício de dormitórios e a voz da coordenadora do campus através do interfone.
“Alunos, sigam para o pátio da entrada em fila única. Mantenham a calma e cooperem um com os outros. Não é um treinamento, repito, não estamos em um treinamento.”
No começo do corredor, deixei que Marin entrasse na minha frente na fila e passei a mão em meus cabelos curtos, naquela hora já molhados pelo suor. Um suspiro soltado por mim fez com que minha vizinha de quarto se voltasse para trás. Mesmo depois de todo o susto e correria, seus cabelos, que iam até o quadril, não deixavam de emanar o cheiro de baunilha daquele sonho e quebrar um pouco daquele ar já pesado.
— O que foi? – perguntou inocentemente.
— Eu estava tendo um bom sonho – retruquei chateado. Sonhar com uma bela garota lhe encarando, afinal, alegrava qualquer um.
A brasileira se limitou a rir ligeiramente e voltar à posição de antes.
Fora do edifício, vários alunos estavam em pé na frente do portão principal esperando que professores e funcionários voltassem e dessem ordens. Naquela altura, todos sentiam mais forte o cheiro do fogo assolando outras áreas do campus. Logo os dormitórios que protegiam alunos de diversas gerações seriam as únicas coisas do local. Virei-me para o que sobrou das árvores, inutilmente atingidas por extintores de incêndio minutos antes. Todas dentro de um raio de pelo menos 30 metros foram atingidas. Aquele incêndio, sem dúvidas, não tinha cara de acidente.
(...)
A sala ampla, completa de sofás e puffs, estava cheia com os jovens que frequentavam o local. As aulas já haviam acabado e agora aproveitavam os momentos de descanso que tinham. Uns conversavam entre si, outros só descansavam e havia os que desfrutavam do jogo de dardos.
O clima estava tranquilo, ou o máximo que era possível, quando um garoto entrou em passos rápidos no lugar, atraindo a atenção dos outros.
— Novidades, novidades! Parece que vamos ter novos colegas – contou rindo sarcasticamente. Sabia o quanto os outros odiavam quando chegava alguém novo.
— E o que tem de mais? Todo ano tem isso, Kenan — um outro aluno comentou descontraído, com a atenção voltada para o celular.
— Não sei se lembra, mas o tempo para os novatos entrarem acabou semana passada – respondeu irônico, mas logo decidiu ignorar o mesmo e continuar sua explicação, assim que notou os olhares de todos sobre si. – Estava vindo pra cá quando passei por umas funcionárias e escutei que tinham que arrumar os quartos vazios para os alunos que virão.
— Pelo menos não vamos ter nossa privacidade tirada. Lembra ano passado que colocaram uns estranhos nos nossos quartos? – alguém relembrou do episódio, fazendo todos rirem orgulhosos de como haviam feito esses novatos saírem dali em menos de uma semana.
— Certo, certo, dá pra me deixarem terminar? – Kenan revirava os olhos impaciente, pois odiava quando ficavam interrompendo-o quando voltava com novidades. – Então, consegui extrair mais informações... – mordeu o lábio inferior, fazendo os outros entenderem seu método "sedutor" de recolher informações. — E são os filhinhos de papai da Over.
— Over? O que eles fariam aqui? – uma das garotas perguntou, estranhando a informação e quase duvidando que fosse verdade.
— Kenan, brincadeiras agora? Sinceramente, achei que era algo sério – pronunciaram-se, levantando múrmurios alheios. Alguns discordavam enquanto outros xingavam o “informante” antes de voltarem as suas atividades.
— O prédio deles pegou fogo, foi destruído quase completamente, algumas turmas foram mandadas para internatos daquela área e outras mandadas para cá. – aumentou o tom de voz para que a sua pudesse se sobressair, assim todos o escutavam. – Ah, e irei ignorar os xingamentos, mas só porque estou me sentindo legal hoje.
— Hmm, isso é interessante – o primeiro garoto que havia contestado comentou, largando o celular e dirigindo os olhos para o amigo ao lado. – Estava com saudades de ter alguém para infernizar.
— Você não chega nem perto de infernizar alguém – uma voz dura ecoou, fazendo todos virarem os olhos para a entrada. Encostado no batente da porta estava Alec. Alto, loiro, olhos castanhos, rosto sério e o protegido do diretor.
— Alec! – Kenan o cumprimentou com euforia. – Já sabe das melhores?
— Saberia mesmo se não estivessem gritando feito porcos no matadouro – respondeu rispidamente.
Enquanto alguns se encolhiam insatisfeitos com a resposta, outros tentavam continuar a conversa.
— Vamos mostrar pra eles que foram pro lugar errado, Alec!
— Sabe que eles não durarão um mês aqui! – falavam entre risos maldosos.
— Vamos dar uma festa de boas-vindas!
— Idiotas – mesmo em tom menor que os que falavam, todos se calaram para prestar atenção no garoto. – É claro que daremos uma festa – encarava um por um daquela sala – E os receberemos com decência.
— Decência?! – rebatiam exaltados.
— É – começou a se virar para sair dali. – Decência – já de costas para todos, permitiu-se sorrir sarcasticamente.
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