Ouvir-te dizer
5 Pensado bem, deixa para lá.
Estava frio, e ele tinha a estranha sensação de que estava cometendo um grande erro. Teve o impulso de dar meia volta e ir embora dali, mas... Ele já estava ali, afinal de contas. O que tinha a perder? Inspirando fundo, bateu na porta.
– Entre. – disse uma voz abafada.
Alemanha entrou. A casa era apenas um pouco mais aquecida que as ruas lá fora. Em uma mesa, várias garrafas vazias estavam jogadas de qualquer jeito. Perto da lareira, um cão cinzento examinava a visita, a língua rosada de fora.
– Um husky siberiano...
O cachorro saiu de seu cesto e caminhou até Alemanha, balançando a cauda com euforia. Então, sem nenhum aviso, começou a rosnar, os afiados dentes brancos parecendo navalhas cruéis.
– Ei... Pare com isso. Sou eu, o Alemanha. Vamos, você não vai me morder, vai?
Um barulho vindo do corredor chamou a atenção da potência européia. Rússia surgiu na sala. Fitava Alemanha com curiosidade.
– Arf! Arf! – fez o husky, saltitando alegre em volta do dono. Voltou a abanar a cauda.
– Olá, Alemanha! Que surpresa agradável! Veio beber um pouco comigo? – ele abriu um sorriso enganosamente gentil.
– Não. Hoje não, obrigado.
– Certo. Mas, se mudar de ideia...
– Eu queria fazer uma pergunta.
– O que você quiser, Alemanha.
– Eu...
O europeu olhou as garrafas na mesa. De repente, sentiu vontade de beber. Talvez assim fosse mais fácil falar. Estava prestes a pedir uma bebida ao Rússia, quando um brilho chamou sua atenção.
Ele olhou com calma. Uma torneira. Rússia segurava uma torneia em uma das mãos. Com a outra, afagava os pelos do husky cinzento.
– Pensando bem, deixa pra lá. Eu volto mais tarde.
– Não quer beber nada antes de ir embora?
– Não, obrigado.
– Ah, vai me deixar sozinho?
Alemanha sentiu uma aura perigosa emanando daquele enorme país. Olhou de esguelha para o cachorro. Seus olhos pareciam hostis, e seus pelos estavam eriçados.
– Desculpe. Eu volto outro dia. Até logo!
Ele virou as costas – o cachorro começou a latir no mesmo instante – e deu dois passos largos até a porta. Abriu-a e saiu para a rua fria. A porta bateu com um estrondo.
“Mas que calafrio! Acho melhor voltar para a Europa!”
Estava descendo as escadas para ir embora quando esbarrou de leve em alguém. A garota ergueu a cabeça para olhá-lo nos olhos.
– Bielorrússia? Desculpe por isso, está bem? Bem, eu vou indo. Cuide-se.
Ele seguiu seu caminho, e Bielorrússia adentrou a casa. Alemanha estava virando a esquina quando ouviu um ruído alto que parecia misturar lamento e horror e um ganido tão profundo, que parecia atingir a sua alma.
Fale com o autor