Outsider - A Estrangeira
3 Árvore do Lago
Notas iniciais
–Olá! – disse uma voz alegre e conhecida, logo na primeira aula.
–Oi, Rose. – respondeu Annita, de leve. O sono era um dos maiores defeitos dela. Era impossível acordar com uma disposição o suficiente para sorrir para o espelho às seis da manhã. Não que ela precisasse, mas estava acostumada com o horário de antes. – Maldito Jetlag.
–Deve ser complicado, mesmo – disse a outra de forma solidária.
Sua primeira aula hoje era de Adivinhação, com a mesma turma do dia anterior, o que deixava Annita mais relaxada. Não teria que se esforçar para ignorar os olhares interessados sobre si, e ainda tinha a companhia de Rose, uma conhecida ao menos.
–Sabe, — começou ela – eu nunca achei que acharia um centauro tão.. .atraente. — Rose riu com o comentário.
–Não é muito difícil. Se você conhecesse outros, veria que são uma espécie muito charmosa, sabe. – Respondeu ela.
–Você conhece mais algum?? – disse Annita com surpresa. O interesse brotou nela. Ela já tinha lido em certo lugar que o rebanho de centauros de Hogwarts é o que mantém as relações mais diplomáticas com os humanos bruxos.
–Eu não, mas minha mãe também teve aula com o Prof Firenze, e já teve de lidar com um rebanho real na floresta negra. – disse a menina orgulhosa.
–Uau! E sua mãe estudou em que ano?
–Hm... – começou a menina sem jeito; não queria se exibir – Estudou na época da guerra. – disse — Minha mãe é Hermione Jean Granger.
–... Sério mesmo? – Perguntou incrédula. “Ai que anta! Ela é uma Weasley, de Ronald Weasley.” – Isso é alguma coisa, sabe? Agora não me surpreende você ser tão inteligente, sabe. – completou.
–Ora, minha mãe com certeza é muito mais inteligente que eu. Sem contar, que ela me disse que eu lembro muito meu pai; alguma coisa relacionada com “esquecer de não ferir sentimentos” – disse abrindo aspas no final, dando de ombros, voltando à seu livro.
–Não diga isso. Você está só no terceiro ano. – Annita passou a mão pelo prórpio cabelo – Eu realmente não sei como não fiz a conexão, me desculpe. – disse sem graça.
–Ah!, Imagina!! – e a menina riu em resposta – Você é a primeira que não fica me perguntando o quanto “Deve ser demais ser filha de quem eu sou” ou que não sai com uma boca inchada de tanto me encher o saco. – disse dando de ombros – E isso sim é alguma coisa. — Annita sorriu e voltou à leitura do “céu” magicamente demonstrado no teto da sala.
Alguns minutos depois, um garoto se sentou do lado de Rose, despertando Annita de sua concentração. Foi quando reconheceu a pessoa, o simpático dos livros do dia anterior.
–Olá, Rose! – disse ele com um sorriso de quem se desculpa no rosto – Eu sei que estrou atrasado. – completou.
–Não que eu me surpreenda, claro – disse ela com o sorriso ácido. – Ah, sim! Deixe-me apresentá-lo à Annita. – disse ela apontando para tal – Annita esse é o Alvo. – A garota sorriu e acenou para ele.
–Olá. – disse ele de leve, vermelho.
–Ah, oi você! – disse Annita em português. – Se não me engano, você me ajudou a chegar até a aula de poções. – disse sorrindo.
–Ei!, sim, isso é verdade. – respondeu o outro. – Desculpe-me, que língua foi essa?
–Português, Alvo. – disse Rose, como se fosse óbvio. – Annita é do Brasil, e está no nosso ano. Vai passar pela seleção semana que vem... Molly me contou. – acrescentou no fim, quando a cara de “Como é que você sabe?” apareceu no rosto de Annita.
–Não diga “Português, Alvo”, como se fosse óbvio. – ele disse indignado, alterando a voz para imitá-la. – Não é.
Isso fez Annita rir. Era bom saber que as duas únicas pessoas simpáticas que conheceu também se conheciam. Isso tornava mais difícil o silêncio constrangedor tomar conta dos momentos.
Enquanto prendia o cabelo, ouviu que a discussão dos dois continuava ao fundo.
–Sabe, — Annita disse, interrompendo a argumentação de ambos – se eu pudesse escolher, escolheria uma casa com pessoas como vocês.
–Ora, obrigada Annita! – Rose disse, sorrindo de leve. Não esperava por uma sinceridade como essas. – Você é muito doce, sabe? Não esperava isso de você, você é menina muito alta, parece forte, tem todos esses músc...- Parou quanto sentiu o cotovelo de Alvo em suas costelas. – Ai, alvo!– Annita riu.
–Desculpe por isso – disse Avlo, já baixando o tom de voz quando Firenze passava por eles – Ela pode ser brilhante, mas é sem noção como o pai.
Annita riu.
–Acho que ela me disse algo sobre isso.
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“Eu nunca dei muita importância para isso antes, mas depois de ver como Rose e Alvo lembram seus pais (e sim, eu tive um sincope quando percebi que sou péssima para conexões familiares, quando percebi que Alvo é filho de Harry Potter), eu passei a prestar mais atenção nisso. Meus cabelos são da cor natural dos da minha mãe, castanho escuro, mas mais lisos do que os dela. Meus olhos são escuros; à primeira vista parecem castanhos, mas na verdade são verdes, assim como os do meu pai.
“Quando penso, eu fico muito feliz em ter herdado isso deles. É como se uma parte deles não tivesse ido embora de fato. Mas me olhar no espelho só me faz doer a saudade deles. Eles eram tudo para mim; literalmente a única família que eu conheci, pois meus avós eu nunca cheguei a conhecer. Não sei de onde são, nem se estão vivos.
“Eu amava quando eles me olhavam enquanto eu treinava algum feitiço simples em casa; logo recebia uma carta da Facção Brasileira do Ministério da Magia, mas isso nunca importou. Era puro orgulho.”
Annita descansou a pena na mesa empoeirada da biblioteca. Estava esperando pela próxima aula, que não era com os dois novos conhecidos. Coçou os olhos. “Maldita ardência.”, pensou.
Um vulto quieto se aproximou dela sem que percebesse, e quando ele puxou a cadeira para se juntar à ela, ela deu um grito.
–Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! – disse o garoto – Por favor, mas que escândalo.
–Escândalo nada! – disse ela com a mão no peito. – Menino, não me assuste! E eu mal te conheço, o que é que você quer?! – disse à ele quando percebeu que era Scorpius Malfoy.
–Minha próxima aula é Trato de Criaturas Mágicas (TCM), no próximo tempo. Eu só vim passar um tempo aqui, e acabei te vendo sentada sozinha. Achei que quisesse companhia. – respondeu ele. Ele tinha o dom de dizer as coisas como se elas fossem as mais óbvias e naturais do mundo, como respirar.
–Ai! – reclamou a menina, mas já mais calma. – Só me chame, não aparece como um fantasma, Malfoy.
–Hmm, então a Weasley te explicou quem eu sou, não? – concluiu ele.
–Na verdade, eu já sabia. – começou ela, prendendo a atenção dele. – Eu li sobre sua família à alguns anos.
–Ah. “A Guerra de Hogwarts”. – concluiu ele de novo, arrancando um aceno de cabeça dela – Me diga uma coisa; de onde você é? – jogou, mudando de assunto – Seu sotaque é bem engraçado, é uma mistura com o nosso e o americano. É muito bom seu inglês, na verdade – acrescentou ele não querendo parecer grosso.
–Obrigada. – disse ela – Brasil, a propósito.
–Mas isso sim é alguma coisa! – disse ele com um sorriso maravilhado – Sempre quis ir ao Brasil, mas meu pai disse que a população mágica de lá só voltou a aparecer à pouco tempo, e que ele não saberia lidar com trouxas. – deu de ombros.
–Sim, é verdade – Annita sorriu.
–Você não parece me odiar. Na verdade está se saindo muito agradável – disse ele.
–Obrigada. Embora você pareça ser um pouco excêntrico. – ela disse, fazendo graça do assunto. O garoto não era ruim, ela não tinha por que ser desagradável com ele só por ser um pouco estranho. “Um estranho interessante”, completou a nota mental.
–Bem, — disse ele olhando para o relógio – minha aula vai começar em quinze minutos, então acho melhor eu ir.
–Se importa se eu te fizer companhia?
–Como? – perguntou ele sem entender
–Minha próxima aula também é TCM. – explicou ela, levantando-se.
–Oh!... Claro, eu adoraria, na verdade. – disse ele com um sorriso inesperado no rosto. “Ele também está acostumado a ficar sozinho.”, pensou ela. – Vamos, então.
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“Pelo que eu vi hoje, parece que unicórnios costumam ser solitários, e que raramente é possível ver mais de um no mesmo lugar; são criaturas puras e extremamente fortes, com o sangue encantado. O Prof Hagrid ficou emocionado (e eu não digo isso na brincadeira; tiveram de pegar uma blusa velha e dá-lo para limpar suas lágrimas) quando vimos quatro unicórnios juntos. Pelo que li sobre o assunto, existem duas possibilidades para isso acontecer; uma é estar simplesmente no período reprodutivo e o filhote ainda ser muito pequeno para ficar só; o que não faria sentido pelo número de unicórnios que vimos.
“A outra seria o fato de que, muito raramente, unicórnios podem entrar em uma sincronia extremamente única com outros unicórnios, e eles se tornam dependentes das companhias uns dos outros; em outras palavras, se dão tão bem, que não conseguem ficar uns sem os outros. Mas como eu disse antes, isso é muito raro.
“A propósito, eu e Scorpius acabamos formando um ‘grupo de dois’ para a aula. Sobramos, na verdade. Então fizemos companhia ao Professor. Hagrid é um meio-gigante muito, mas muito, doce. Ele é muito gentil com todos os seres do universo, e por isso ganhou meu respeito. Aliás, ele também parecia me conhecer. Parece que todos os professores se interessaram em saber se eu estava me dando bem com a escola.
“A resposta era sim.”
Annita descansou a pena dentro do caderno. Ela tinha avisado à Rose que iria almoçar com um colega que conhecera.
–Com o Malfoy, na verdade. – respondeu ela à pergunta sorridente de Rose.
–Jura? – perguntou ela sem entender – Ele não costuma ter muita companhia, sabe.
“Ao menos sua reação não foi a de ódio profundo que eu esperava. Skeeter consegue mesmo exagerar as coisas.”
–Sim. – respondeu Annita – Nós temos algumas aulas juntos, e ele pode ser bem agradável quando faz sentido.
–Que bom para você. Mais um amigo, não? – disse Rose inocentemente. “Oh!”, pensou Annita, “Ela me considera uma amiga.”, concluiu tocada. Não esperava se importar tanto com isso, mas o fato era que não se sentia assim em anos. Sabia que, mesmo com poucas horas de convivência, Rose seria uma das pessoas mais confiáveis que conhecera.
–Obrigada, Rose. – disse Annita felizmente, com um sorriso genuíno em anos. – Agora eu vou almoçar. – e saiu deixando uma Rose sorridente para trás.
–Sabe, eu realmente o acho um garoto estranho. – comentou Alvo que acabava de chegar à mesa da Grifinória, ouvindo o fim da conversa.
–Mas ele é uma boa pessoa.
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Annita desceu as escadas do saguão principal para os campos, procurando uma árvore grande na beira do lago. Depois de cerca de dez minutos achou o lugar. Lá se encontrava um garoto enfiado em livros.
Ao se aproximar o garoto olhou para cima. Parecia curioso por vê-la ali.
–O que foi? – perguntou Annita
–Não achei que viria mesmo. – disse ele a encarando. Como sempre, com a expressão de quem fala algo tão trivial quanto falar do clima. Então sorriu de leve. Isso a incomodou.
–Bem, — começou uma tentativa em mudar de assunto – achei que fossemos almoçar, não?
–Ah, sim na verdade, sim. – disse ele puxando a longa varinha escura das vestes. Acenou e fez aparecer uma toalha com diversos pequenos pratos, que pareciam ser pequeninas porções do que tinha para o almoço no Salão Principal.
–Como conseguiu isso?
–Conjurando, claro.
–Não é como se você pudesse conjurar comida. É uma das leis da transfiguração. – retorquiu a garota – Me refiro ao fato de serem os pratos da escola.
–Eu conjurei, oras. – respondeu ele, quase rindo – E não custa nada pedir aos elfos às vezes.
–Ah, sim. – entendeu ela – Bom, no Brasil podíamos escolher o que comeríamos, sabe. – disse ela, sentando-se na frente dele, deixando a bolsa cair ao seu lado.
–Mesmo? – perguntou ele se servindo de purê de abóbora e carne, não dando a mínima.
–Não. – respondeu ela. Ele olhou pra cima sem entender. – Nós escolhíamos do que tinha na mesa. – disse ela.
–Isso não faz muito sentido.
–Agora sabe como eu me sinto perto de você. – ela deu de ombros. Inesperadamente, ele riu.
–Agora entendi. – e riu de novo. Annita balançou a cabeça e se serviu também.
Eles passaram a maior parte do tempo em silêncio só comendo, e olhando para o lado. Não era tão constrangedor; ambos estavam acostumados com o silêncio, e ter uma presença para almoçar era bom.
Remexendo nos pergaminhos que estavam em volta dele, ela notou o jornal que tinha visto no dia anterior. O jornal trouxa. Tinha a foto de uma mulher na primeira página, com o rosto sujo de tinta. Ela segurava uma placa escrita “Quero Existir”.
–O que significa isso? – perguntou Annita quebrando o silêncio. Malfoy olhou o que ela segurava e deu de ombros. A manchete dizia: “Quem São Eles?”. O resumo falava de um grupo de pessoas:
“Nesta manhã (dia 3 de setembro de 2019), um grupo de pessoas misteriosamente colocaram sobre toda a Londres folhetos com os dizeres “Quero Existir”.
“O mais curioso, tirando o fato de terem feito tal coisa em apenas uma noite, é que ninguém sabe quais são as intenções do grupo, nem conseguiram uma entrevista com nenhuma pessoa que participava do movimento. Parece também, que um telefone público quebrado foi o alvo principal desse grupo.
“Veja mais informações na pág...”
–Por que estava lendo esse jornal trouxa? – perguntou Annita.
–Você não ficou sabendo? – perguntou Malfoy, pousando o prato na toalha e tirando outro jornal da bolsa. Era uma edição d’O Profeta Diário. – Essa mesma matéria saiu no nosso jornal também. – disse ele estendendo o papel.
–Não, não fiquei. – respondeu a garota. Era uma imagem de diversas pessoas conversando com o ministro. A mesma bruxa com tinta no rosto estava cara a cara com ele. A manchete dizia: “Devemos aparecer?”. ”O Ministro Shacklebolt parecia preocupado.”, pensou. No segundo seguinte o jornal já estava de volta à mochila do garoto.
–Ei! – exclamou a garota – Eu ia ler! – e ela se esticou para pegar dele, o que só fez ela se apoiar no garoto para tentar alcançar a mochila.
Ele, não esperando o contato físico, deixou a mochila cair na sua cabeça.
–Aii! – reclamou, puxando suas coisas de volta – Vamos terminar de comer, pode ser?
Curiosamente ele parecia constrangido com a cena. Foi quando Annita percebeu ainda estar com a mão nas coxas do rapaz.
–Ah, me desculpe! – disse ela sem graça. Fazendo com que o garoto finalmente ganhasse uma cor diferente do branco habitual de sua pele.
–Tudo bem, Annita. – respondeu de leve. Ela não esperava ouvir seu primeiro nome; parecia que naquele lugar todos se chamavam pelo sobrenome. Ela sorriu. – O que foi? – indagou ele.
–Nada. – disse ela. – Nada mesmo. Vamos comer? Mas eu realmente quero ler isso depois, sabe?
–Você é muito curiosa, sabe? – retrucou.
–Foi você quem me mostrou o jornal, pra começo de conversa! – disse ela indignada. – A culpa é toda sua! Não consigo deixar de ser curiosa se algo me chama atenção. Mas afinal, do que se tratava?
–Hmmmmm – resmungou em resposta
–Deixa de preguiça! Me diz!
–Ahhhh...
–Scorpius, me fala! – disse ela ansiosa. De repente parou, percebendo que ele também tinha feito a conexão. Era primeira vez que usava seu primeiro nome. Disposta a ignorar isso, ela insistiu mais uma vez, porém com menos veemência. – Ei, me conte.
–Bem, — respondeu ele, pondo a cabeça em ordem – Mais tarde, então. – disse. Vendo que ela ia protestar, continuou: — É sério, hoje depois da aula, pode ser?
–Hm, não dá. Rose vai me ajudar com as matérias da semana passada – murmurou ela. Até que uma brilhante ideia lhe veio à mente. Como não tinha pensado nisso? – A não ser... – começou.
–Que eu vá junto? – perguntou ele com a costumeira expressão simplista. Tudo parecia irrelevante quando ele fazia essa cara. – Eu não sei, não.
–Ora, vamos! – insistiu ela de leve – Sabe, seria interessante ver como as únicas pessoas com quem eu falo se relacionam. – comentou ela. – Eu tenho certeza de que ela não vai ligar.
–A questão não é a Weasley, — disse ele, passando a mão no cabelo – e sim o fato de que Potter também possa estar lá, e eu realmente não sei como lidar com eles. – disse sinceramente.
–Então já passou da hora de tentar, não acha? – comentou ela. Apoiou de leve a mão no ombro dele, o que fez ele ter um leve sobressalto, mas não retirou a mão dela. A verdade era que a sensação era boa. – Você vem comigo?
Ele a olhou seriamente. Ninguém lidava de forma tão simples com ele; as pessoas ainda o tratavam com receio, mesmo depois de tanto tempo. O nome que ele carregava ainda influenciava em sua vida. Nesse momento, Scorpio imaginou qual seria a reação de seu pai se ele soubesse que a única amizade em potencial que ele tem é uma nascida trouxa.
–Ok. – disse ele. – Qual seu último tempo?
–Hmm... é transfiguração, com a Profa Lovegood. – disse Annita com um sorriso no rosto. “A maior parte dos professores daqui participaram da guerra.” – Enfim, e a sua?
–É Astronomia. – respondeu.
–Então que tal assim: Depois da aula, jantamos todos nós, e vamos para a biblioteca estudar? – propôs.
–Na mesa da Grifinória? – ponderou ele. Nada como um pequeno desafio à conduta das pessoas. – Pode ser então.
–Isso! – disse a garota exultante. Era animador lidar com pessoas intrigantes como ele. – Eu vou falar com a Rose no último tempo, e te mando uma coruja.
Ela se levantou, ajudando o garoto a arrumar as coisas.
–É isso. – disse ela, obviamente tentando dar um “até logo” que soasse razoável. Acabou por pingar um beijo na bochecha do menino, que a olhou assustado. “Talvez não tenha sido a melhor maneira.”, ponderou. – Até mais tarde. – disse, por fim, indo.
–Até, Annie. – disse ele sorrindo. Ela parou e virou para ele. – O que foi? – perguntou sem jeito. “Talvez, chama-la por um apelido tenha sido íntimo demais.”, concluiu ele.
–Não, é só que... Normalmente as pessoas dizem “Eny”, não “Aní”. As únicas pessoas que me chamavam assim eram meus pais. – disse sem perceber. Seu pequeno discurso foi encantador para o garoto.
–“Annita” é muito longo, fica cansativo dizer seu nome inteiro toda vez. – respondeu, fazendo a garota rir. – Aliás, “Annie” também lhe cai bem.
–Obrigada. – disse ela sorrindo. Por fim virou às costas e partiu para o castelo.
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“Hoje ainda é sexta, e eu não aguento mais esperar para saber qual será a minha casa. Não que isso me incomode; se não fosse pelo de eu saber que minha rotina mudaria, eu poderia ficar sem casa até o final do curso. Mas a questão é que isso iria acontecer. E eu odeio esperar.”
Annita pousou a pena na mesa. Estava no meio da aula de astronomia, com Rose e Alvo, na mesma mesa. Tinha acabado de falar com eles sobre Scorpius, e ambos não viram problema com isso. A única dificuldade seria mandar a carta; o corujal era cansativamente longe, e ela tinha o próximo período de aula, o que significava que ela teria exatos vintes minutos para fazer a volta toda, e conseguir chegar na aula.
–Annita, você não disse que ficou com a coruja no seu quarto? – perguntou Rose.
–Eu não fiquei com ela. Ela só não quis ir embora. – justificou. Mas era verdade; não teria que dar uma volta tão grande assim para mandar a carta. A menina pediu licença para professora, já era quase o fim da aula, e correu para o quarto.
Chegando lá, encontrou não só a pequena coruja cinza, como outra preta com penas brancas nas asas, segurando uma carta no bico. Era da monitoria; ela tinha sido aceita. Depois de sua seleção, que ocorreria na segunda (esse trecho a fez engolir em seco) ela seria orientada pelos outros monitores, para começar suas rondas.
–É, bolinha de penas. Eu sou monitora. Só falta saber minha casa. – disse ela à pequena coruja, entregando-lhe a carta. – Leva pro Scorpio pra mim, pode ser? – a coruja piou alegremente em resposta, e levantou voo.
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