Outsider - A Estrangeira
17 O Olho da Coruja
Notas iniciais
Já estava na biblioteca a quase todo o período do almoço.
Quando saíra naquela manhã de segunda afirmando que precisava pesquisar sobre algo na biblioteca, recusou educadamente a companhia dos colegas. Afirmou que provavelmente demoraria, e não queria que ficassem sem comer. No fim levara mesmo muito tempo entre os livros, mais do que previra, pois faltavam cerca de vinte minutos para terminar o almoço quando chegou ao Salão Principal, e seus colegas não mais estavam lá.
Acontece que precisava ir sozinha daquela vez. Não sabia bem o porquê, mas sabia que não queria partilhar o que quer que fosse que encontrasse. E não sabia se tinha encontrado, mas deixou as estantes com três livros de couro velho pesados nos braços, esperando que tivesse feito um bom trabalho.
Estando quase vazio o salão, sentou-se na ponta da mesa da Sonserina, colocou os livros ao seu lado no banco e prendeu os cabelos de qualquer jeito com um palito de cabelo que achara em suas coisas.
Passara o domingo inteiro arrumando o baú que trouxera para Inglaterra, e não sabia que tinham colocado coisas de sua mãe junto com as suas, como aquele palito que usava agora.
Dila, sua mãe, tinha o gosto por esse tipo de prendedores, ainda mais quando pincelava as telas com tinta como tanto gostava de fazer. Annita decidiu que usaria tudo o que pudesse de seus pais, se isso fizesse com que ficasse mais perto deles.
Serviu-se de algo parecido com pães e ovos, engolindo-os. Logo em seguida virou-se para os doces. Se havia uma coisa que gostara desde que chegara a esse país, essa coisa eram os doces. Que delícia!
A garota servia-se de torta de limão e gelatina de uva quando notou alguém parado à sua frente. Olhou para cima com a colher enfiada desajeitadamente na boca.
–Capitão! – cumprimentara a garota, meio engasgando.
–Se importa? – perguntou ele, indicando o assento em sua frente. A garota gesticulara para que ele se sentasse e se servisse.
–Achei que todos já teriam almoçado à uma hora dessas. – comentou ela, simpaticamente. Ele dera de ombros.
–Estive ocupado. – comentou, servindo-se.
Comeram em silêncio por alguns minutos.
Annita terminou os doces mais rápido do que pretendia, e acabou pegando duas maçãs na cesta à sua frente antes de se levantar para sair.
O sinal tocou logo em seguida, e ela enfiou as frutas na bolsa, jogando-a nas costas, fazendo menção de pegar os livros depositados no banco.
–Deixa-me ajudar. – ofereceu o rapaz, levantando-se e tirando dois livros da pilha pesada, passando sua própria mochila pelos ombros.
–Ah!, mas não precisa! – disse ela sem jeito – Eu estou indo para a sala da diretora agora, não para a aula. – explicou.
–Eu estou seguindo no mesmo caminho, vou para a aula de adivinhação. – disse indiferente – E dá pra ver que está ficando corcunda com o peso da mochila. Devia coloca-la em ambos os ombros. – adicionou olhando-a de esguelha, como que evidenciando o óbvio – Faz mal para rebatidas. – e deu de ombros.
A garota balançou a cabeça em descrença.
–Bem, muito obrigada então.
Seguiram alguns minutos em um silêncio tranquilo até a porta da sala da diretoria, até que ele parasse e lhe esticasse os livros, não sem antes observar as capas curiosamente.
–O que anda estudando? – perguntou com as sobrancelhas franzidas, lendo o título de um dos livros.
–AH! – a garota o puxou de suas mãos – Nada de mais! É só uma leitura adicional para a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. – disse sorrindo nervosamente.
Ele encarou a menina, levantando uma sobrancelha em incredulidade. Como ela não continuou, disse:
–Vocês só veem criaturas noturnas no final do semestre. – comentou ele, como se dissesse: “Não, não acredito em você.” Quem leria um livro de seiscentas páginas como leitura adicional sobre As Feras Noturnas Que Habitam a Grã-Bretanha?
–Bom e de que importa? – perguntou um pouco nervosa – Gosto de ler. – adicionou de maneira grosseira.
Ele endireitou as costas, lembrando-se de repente de sua aula.
–Bem percebo. – respirou fundo — Até. – disse virando-se para o corredor, já se encaminhando para a aula do centauro.
Annita revirou os olhos e gritou um “Obrigada!”, antes que ele virasse o corredor. O rapaz continuou andando e levantou a mão num aceno, logo sumindo de vista.
A contragosto, a garota fez uma pausa antes de entrar na sala, colocando os três livros dentro da bolsa, e suspirou.
Teria de tomar cuidado com esses livros; se estivesse mesmo no caminho certo, não gostaria de alarmar os estudantes antes de avisar o guarda-caça da possibilidade de uma criatura noturna rondar a Floresta do Castelo.
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Estava sentado embaixo da árvore do lago, com o queixo nos joelhos, quando sentiu a carta Instantânea vibrar e ficar quente. Suspirou.
“Chega de faltar às aulas. Vai se prejudicar absurdamente, e, embora eu não me importe, não posso passar os próximos quatro anos passando a matéria de aulas que você decide não assistir.
Venha para a aula. Preencha sua cabeça com algo útil.
Ela não é a única pessoa que já se importou com você, primo.
Alyann.”
Suspirou mais uma vez. “Patético”, pensou. Sabia que a prima tinha razão, e ele iria fazer isso mesmo. Sentia-se exausto e esmagado pela sensação de solidão.
Sabia que ela descobrira a verdade. Ela sabia que ele a machucara. Sabia que deixara que tudo aquilo acontecesse, e não suportava a ideia de ter de olhar para o rosto dela e ver aquela fina cicatriz na bochecha, que fazia com que lembrasse que não só tinha pesadelos com aquilo, mas que vivia um no momento.
Culpa.
“Merda!”
Esfregou os olhos exaustos, que já não dormiam direito há meses. O trabalho com Hagrid era a única coisa boa que tirara daquilo tudo. O gigante parecia confuso no começo, mas logo na primeira semana empolgou-se de uma maneira, pronto para passar todo o seu conhecimento, e feliz por ter alguém com quem partilhar sua admiração pelas criaturas, que quase sempre o levava para conhecer novos pedaços da Floresta Proibida.
Scorpius poderia encontrar-se ali sozinho, que na verdade não estaria realmente perdido. Já conhecia boa parte da mata, e tivera até oportunidade de encontrar parte do rebanho de Centauros que ocupavam o lugar.
Levantou-se, limpando a roupa de leve.
Ao menos o estardalhaço nos jornais fora épico. Por um tempo. Sabia que sua Mãe tentaria abafar a “balbúrdia” do caso em favor da exceção que McGonagall abrira para seu filho rebelde. Acontece que não esperava que fosse ser tão rapidamente contido.
Todos os fotógrafos presentes no dia ou tiveram seus empregos perdidos, ou foram processados por invasão de propriedade particular. “Vê se pode!”, pensou indignado. A benção fora que seu nome não apareceu uma vez se quer nos jornais. Nenhuma.
Mas não era disso que tinha receio. E, ironicamente, fora ele mesmo o causador da própria dor de cabeça, além da de sua mãe. Seu pai escutara a conversa incriminadora na manhã de natal, e nada pôde fazer além de explicar tudo o que aconteceu no castelo. Seu pai permaneceu quieto, com aquela cara impassível. Poucos bruxos seriam capazes de passar pelas barreiras de Oclumência que seu pai dispunha, mas era fácil saber o que ele pensava quando se viveu a vida com Draco Malfoy.
Scorpius lembrava bem do dia.
Seu pai franziu os lábios quando terminou de explicar, respirando fundo. Sua mãe já se levantava da poltrona quando ele resolveu arriscar:
–Ninguém sabe que fui eu. Seu nome não foi relacionado. – dissera o garoto, encarando o pai de baixo. Ainda faltavam-lhe uns anos, mas logo Scorpius atingiria o pai em altura, se não o passasse.
A mulher apenas fechou os olhos.
–Ele é apenas um garoto, Draco. – dissera a mãe em defesa do rapaz, esfregando as têmporas – Como você já foi.
Ele virou para a esposa, com uma raiva contida.
–Nunca tive a chance de ser garoto, Astoria. – disse, virando-se então para o filho – Não é apenas o nome que carrega, mas a história em si. Não sabe, não faz ideia de como é difícil estar do lado errado da guerra. – seus olhos já não eram mais aquela barreira de antes. A cor cinzenta parecia se agitar, como uma tempestade de vento.
–Não, não sei. – disse o garoto em tom baixo, sem conter as palavras – Não teria tomado essa decisão.
Mas ele se arrependeu de imediato. Seu pai ajeitou a postura, olhando o garoto com uma frieza incontida.
–É o que pensa. – respondeu muito baixo – Acha que é simples viver nesse mundo o qual você idealiza. Acha que todos compreendem o motivo de ter essa opinião, mas não compreendem. Quando você estiver sozinho do lado da guerra que luta, quando mais ninguém concordar com você, me diga então que decisão tomaria. – finalizou, no mesmo tom, com as narinas infladas. Virou as costas e deixou o cômodo, com a mãe olhando tristemente o filho, cujo os punhos estavam cerrados.
–Você não compreende seu pai, Scorpius. Ele não é o covarde que pensa que ele é.
O garoto chutou um cascalho para dentro do lago. “Não existe guerra!”, pensou frustrado. Recolheu a bolsa do chão, e passou a alça única pelo ombro direito.
O frio voltava aos poucos, anunciado pelos ventos gelados, mas ele gostava assim. Ficou alguns instantes sentindo a brisa de olhos fechados, esquecendo-se das coisas por um momento.
Abriu os olhos ao ouvir o sinal de que a aula logo começaria, e começou a caminhar preguiçosamente para o castelo, e depois para a aula. Estudo dos Trouxas. Não dividia aquela aula com quase nenhum conhecido; os alunos que tinham mais interesse eram da Lufa-lufa ou Corvinal, embora a segunda casa fosse muito menos representativa.
Apenas um sonserino fazia aquela matéria em seu ano. Uma sonserina, na verdade. Alyann tinha uma curiosidade contida sobre os trouxas, quase inexistente, apesar de nunca ter faltado a uma aula sequer. Nunca soube o motivo de a prima ter se inscrito para o curso.
Entrou na sala quando a professora já começava a falar, e sentou-se ao fundo, ao lado de Alyann. A garota sorriu de leve em cumprimento, e ele respondeu com um aceno de cabeça. Ela notou que ele andava mais desleixado do que já o vira antes; não estava penteando os cabelos do modo como fazia, se ainda o estivesse fazendo. Estes, crescidos, caiam em algumas mechas nos olhos, adornados com pesadas olheiras, que ele não parecia notar. Adquiriu também o hábito de arregaçar as mangas, e soltar a gravata.
Parecia-se ridiculamente com alguém que sofria de coração partido. “Poupe-me.”, pensou revirando os olhos, voltando-se à bruxa simpática que dava aula.
–As anotações da última aula. – disse a garota, passando um rolo de pergaminho para o primo, sem desviar os olhos da professora. Ele agradeceu com um sorriso desanimado.
Ele leu por cima as informações, e copiou o que achava relevante, devolvendo-o alguns minutos depois. Agora observava a aula com um pouco mais de desinteresse, apoiando o queixo no cotovelo. Repassou os acontecimentos do semestre passado na cabeça.
“O que dera errado, afinal?”, pensou “Eram para serem simples fogos, não projéteis!”, protestou mentalmente. Não deveriam ter explodido janelas e quebrado mesas, só iluminado o salão no meio do feitiço Apagão. Suspirou pesadamente, com o cenho franzido.
Alyann notou o espírito do rapaz.
–O que foi? – perguntou olhando-o – Com o que anda enchendo sua cabeça?
–Nada de interessante. – respondeu com a voz monótona, apesar de não conseguir desfranzir as sobrancelhas. A prima revirou os olhos copiosamente, olhando para ele como quem diz “Ah, é mesmo?”.
Ele bufou em resposta.
–Só estive pensando. – murmurou por fim.
–E? – incentivou a garota.
Ele suspirou pesadamente antes de se virar para ela e continuar, com os olhos agitados.
–E me parece que não havia motivos para o feitiço de fogos ricochetear. – disse impacientemente. A prima pareceu surpresa, mas entendeu, e ponderou por alguns segundos.
–E por que acha isso? – perguntou por fim.
–Porque eu coloquei uma barreira em volta dos fogos, isolei-os. Não sei como foi quebrada, mas não havia possibilidade, mesmo que o feitiço estourasse, de que acertasse algo. – disse frustrado.
–Feitiços falham, Scorpius. – explicou a garota.
–Os meus raramente. – rebateu – Sabe disso. – completou com menos certeza.
Alyann suspirou, virando o corpo para encarar o primo. “Aonde quer chegar, Scorpius?”, pensou.
–E o que você acha que aconteceu? – perguntou ela, dando ênfase no “acha”.
Ele parou alguns segundos, pensando no que dizer.
–Eu não sei. – admitiu por fim, voltando a prestar atenção na aula. Tinha uma ideia, mas era tola e improvável.
Afinal, quem iria querer sabotá-lo?
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–Posso dar a resposta amanhã.
Esse era o fio de esperança ao qual a menina se agarrava. Não era um “Não” definitivo, mas também não sabia por que a Diretora não poderia responder naquele momento. Naquela hora, mesmo.
Annita suspirou ansiosa. Se ela aprovasse, viajaria com Alvo. Conheceria sua família, seus animais de estimação e sua casa. E isso incluía Rose, também. Ela sorriu contida. Só não tinha certeza quanto à Mona.
Se fosse para casa de Mona, o que diriam seus pais? No Brasil poucas famílias tinham sangue mágico puro, uma ou duas talvez, e vinham de tribos indígenas antigas, desconhecidas aos trouxas de lá. O mundo mágico aqui era muito diferente.
Era tudo muito restrito, muito exclusivo. Havia diversos vilarejos e bairros onde somente bruxos moravam, e Annita nunca presenciara tal coisa. O mais isolada que ficava de trouxas no Brasil era na escola. Todo bairro trouxa tinha uma loja bruxa, e nenhum bairro era exclusivamente bruxo, com exceção, é claro, da vilas indígenas antigas e do bairro onde ficava o Ministério Brasileiro de Magia, em São Paulo.
A menina esperava que os pais fossem como a colega; simpática e fiel, do seu jeito excêntrico.
Continuou caminhando pelos corredores sem muita pressa, sabendo que logo o sinal tocaria e teria de se dirigir para a aula de Adivinhação. Suspirou novamente, dessa vez de raiva. Esquecera-se de deixar os livros no dormitório, e teria de correr para não se atrasar.
Annita fez o caminho mais rápido do que achava possível, e em cerca de dez minutos, já saía pelo arco do Salão Comunal. Em algum lugar pôde-se ouvir o sinal tocar, e ainda estava a dez minutos de pura correria da torre de Astronomia. A menina soltou um gemido baixo.
“Sorte que ando praticando Quadribol, se não já teria desmaiado sem fôlego.”, pensou rabugenta. Odiava correr.
Estava prestes a virar o corredor quando trombou violentamente com outra pessoa, caindo de joelhos ao lado do rapaz sentado no chão.
–Ai..! – gemeu, sentando-se – Me desculpa, eu não vi aonde ia, e eu estou atrasada para a... – a menina se interrompeu quando finalmente percebeu que sua vítima fora Scorpius.
O rapaz a encarou com a boca levemente aberta, em surpresa. Segundos depois pareceu lembrar-se de que podia falar.
–Não... tudo bem! – disse de maneira brusca, levantando-se. A garota ainda permanecia sentada, meio chocada.
Scorpius não sabia bem o que fazer, e decidiu por arrumar o material que a garota deixara cair; agachou-se e colocou os livros de volta na bolsa, e não conseguiu evitar olhar para a menina e para a cicatriz agora clara como um fio de prata em sua bochecha.
Ela retribuiu o olhar, com receio. “Sim, ela sabe.”, concluiu.
Ele baixou os olhos por um instante, notando então o estado dos joelhos da garota. Franziu o cenho. Ela seguiu o olhar.
Havia uma bolota perigosamente vermelha no joelho direito, e agora que olhara direito, podia ver que rasgara a meia esquerda com a queda.
–Deveria ir à enfermaria. – disse o rapaz em tom baixo – Pode estar pior do que parece.
A garota pareceu avaliar por um momento.
O joelho ficaria roxo no dia seguinte, com certeza, mas nada que impedisse a menina de andar ou treinar. Já a meia era fácil de consertar, apesar de nunca ter gostado verdadeiramente delas.
–Não precisa. – disse simplesmente, tentando levantar-se, exibindo uma careta de dor.
Por reflexo, ele estendera os braços para ajuda-la, mas logo os trouxe de volta, uma vez que ela só fez olhá-los. Tomou um passo de distância da menina.
–Desculpa, — disse ela sem olhar o rapaz nos olhos, com a expressão, meio vazia – eu não deveria correr pelos corredores. – completou, pegando sua bolsa da mão dele, e virando-se para sair.
Scorpius ficou olhando para o lugar onde ela estivera, absorvendo a informação por alguns segundos. Então, antes dela desaparecer pelo corredor, chamou-a:
–Annita! – disse com a voz meio rouca. A menina estacou no lugar, sem olhar para trás – Feliz ano novo.
Ela engoliu em seco e continuou andando.
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Eles saíram pelo corredor assim que a última aula do dia terminou, conversando de leve. Ele sabia que ela tinha visto ele. Annita raramente não tinha algo a dizer, e chegou extremamente distraída na aula.
Alvo levou apenas segundos para notar o hematoma no joelho dela, o que o fez ficar preocupado.
–Está tudo bem. – disse a menina sorrindo de leve – Eu caí no corredor, estava correndo porque estava atrasada. – e deu de ombros.
O garoto continuou a olhá-la com a testa franzida, então Annita pegou sua mão.
–Eu estou bem. Foi só uma pancada. – disse suavemente — Prometo que não corro mais se isso fizer com que você melhore essa cara. – adicionou sorrindo.
O garoto agora caminhava com ela e Rose em direção ao Salão Principal, segurando a mão da namorada firmemente. Annita revirou os olhos.
–Não pode estar cem por cento do tempo comigo, sabe disso. – disse rindo, mas feliz com o calor agradável da mão dele na sua.
–Eu posso tentar. – respondeu ele, dando de ombros.
Alvo não corava mais, notou Annita, pelo menos não tão facilmente. Poucas situações agora o deixavam sem graça uma vez que estavam juntos. Geralmente quem conseguia isso era Rose, com algum comentário inconveniente. Ela parou e segurou ele por um tempo, deixando-a ir na frente.
–O que foi? – perguntou ele. Annita deu de ombros, puxando-o para o outro lado da escadaria que era menos visível.
–Nada de mais. – respondeu ela, com um sorriso maroto no rosto. Alvo arqueou uma sobrancelha – Ora, preciso de motivos para te beijar? – disse por fim, rindo meio vermelha.
Ela colocou a mão direita no braço do rapaz, que a olhava com um sorriso adorável no rosto.
Annita não era muito boa com demonstrações de afeto em público, Alvo sabia disso. Por isso evitava tocar demais nela quando não estavam sozinhos, com medo que ela ficasse sem graça. Mas ela estava tomando a iniciativa, apesar de estarem relativamente escondidos. Só quem viesse do Arco de entrada poderia talvez nota-los, se olhassem bem as sombras.
Mas Alvo tirou dela a oportunidade de partir, pois ele já havia encostado a menina na parede. Beijou-a com mais vontade do que se lembrava de ter feito, segurando-a pela nuca e pela cintura.
Ele sentiu a menina rir surpresa quando encostou os lábios no dela, mas ela correspondeu com a mesma vontade. Ele sentiu o cheiro suave do xampu dela, e a delicadeza dos lábios. Era inebriante.
Quando se separaram meio eufóricos, ele parou para olhá-la nos olhos.
Ela deu um sorriso terno para ele. Annita não conseguia se lembrar porque estava chateada à alguns minutos atrás.
–Sabe, deveríamos fazer isso mais vezes. – comentou risonha.
–Por mim nós não teríamos muitos motivos para assistir aula, isso eu te garanto. – respondeu Alvo passando o dedão na bochecha dela. Annita riu em resposta – Mas você é muito mais tímida do que demonstra, Annita. – acrescentou ele, dizendo o nome dela com carinho.
A menina baixou os olhos de leve, sem graça.
–Vamos comer? – perguntou ela, sem conter o sorriso no rosto.
–Mas já? – perguntou o rapaz, tirando uma risada dela, mas que concordou em ir. Segurou a mão dela firmemente antes de deixarem o lugar, e seguiram para o Salão.
Annita colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, meio sem graça. Era iniciante naquele assunto de namoro, mas sabia que estava indo muito bem, muito obrigada, para alguém de primeira viajem. Alvo era fácil de conversar, e uma pessoa leal, e Annita não podia deixar de amolecer ao ver seus olhos verdes toda vez que ele olhava para ela com aquele sorriso feliz.
Era fácil como respirar.
Sentaram-se à mesa da Grifinoria, alheios ao olhar divertido de um rapaz encostado na coluna do Arco de entrada para o castelo que observava seus movimentos. Voltava da Aula de Trato de Criaturas Mágicas. Praticamente comia os movimentos do casal com os olhos, principalmente o da garota. Estava com as mãos nos bolsos e a cabeça levemente inclinada para o lado.
Ian sacudiu a cabeça, sorrindo de maneira canalha.
–Tirei um do caminho para deixar que outro ganhasse a vez.
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Annita tomou um banho relaxante, com direito a tudo. Lavou os cabelos vigorosamente com seu xampu favorito e deixou a água quente relaxar os músculos do corpo.
Colocou as vestes e a capa da escola, pregando o brasão de monitora no peito do tecido escuro. Deixou o cabelo secar naturalmente, e acabou um pouco mais cacheado do que de costume.
Subiu para a ronda da monitoria. A garota achava que faria ronda com Radmilla, mas essa estava ocupada ajudando Molly com alguns papéis, e disse que Annita já estava a tempo suficiente no castelo para saber andar sozinha. A notícia trouxe um alívio para a menina.
Sem mais rondas incômodas!
Decidiu começar pelo terceiro andar, já que quase nunca ia pra lá. Caminhou durante vinte minutos tranquilos, até chegar à Sala dos Troféus. Annita observou as fotos e honrarias nas estantes.
Leu o nome do avô e do pai de Alvo com um sorriso no rosto. Jogaria contra ele nesse fim de semana, e o Capitão ficou preocupado que ela fosse ter dó de machuca-lo.
“-Não vou arremessar um balaço na cabeça dele, se é o que quer saber. Mas também não quero perder meu primeiro jogo contra Grifinória. – dissera ela quando Capitão fez menção de tirá-la do jogo.”
A menina riu com a lembrança. “Vamos ganhar, vai ver!”, pensou animada.
Já estava se virando para deixar o lugar quando finalmente percebe a presença de uma sombra encostada na parede. A menina dera um pulo, e então revirou os olhos quando percebeu que era Ian.
Ela respirou fundo, levemente irritada. “É uma habilidade especial! Me irritar apenas de existir!”, pensou ela, observando ele se aproximar.
–Boderdad. – disse ele com um aceno de cabeça, parando na frente dela a uma distância que Ian não estava habituado a manter. Era possível balançar os braços esticados na frente do corpo sem tocá-lo.
A menina suspirou de leve, tentando não se irritar, e deu um aceno breve com a cabeça. Virou-se para sair, mas se interrompeu quando ouviu a voz atrás dela.
–Você gostou da Sala de Troféus? – perguntou ele, com um sorriso enigmático no rosto. O cabelo dela estava mais cheio que o comum, que irônico. Agora seria quase impossível dizer a diferença entre ela e...
Annita franziu o cenho, como se pedisse para explicar.
–Bem, é que você não vem muito aqui, vem? – disse ele, encostando-se no pilar ao lado dela, cruzando os braços. – Interesse repentino, ou resolveu vir me ver? – adicionou com um sorriso torto no rosto.
Annita revirou os olhos, bufando, o que fez o rapaz rir.
–Eu não sei onde você está e o que faz da sua vida, Belveredere, a não ser quando treinamos juntos. – disse dando ênfase ao sobrenome do rapaz – Fora isso, de que te interessa saber o que me interessa? – perguntou acidamente, estreitando os olhos.
O rapaz levantou as mãos como quem se rende.
–Ai! – disse com uma sobrancelha arqueada – Eu só perguntei porque achei que estivesse aqui por causa daquela foto. – disse ele apontando para a estante. Annita virou-se para olhar.
Essa era repleta de cortes de jornal e fotos. Ele apontava para um onde um grupo grande de alunos celebrava a abertura de algo chamado “Clube de Defesa”. Ela franziu o cenho.
–E por que estaria interessada nisso? – perguntou, sabendo que talvez não quisesse ouvir a resposta.
Ele deu de ombros, aproximando-se dela e parando ao seu lado.
–Oras, achei que essa aqui fosse alguma parenta sua. – disse apontando para a garota sorridente que segurava a placa. Era bem bonita, dava para imaginar como ela era. Apesar da foto sem cores, podia-se ver que seus cabelos eram escuros e cacheados, com a pele alva adornada por eles.
Com certo incômodo, Annita notou a semelhança entre elas.
–E não é? – perguntou ele, com os olhos cravados na foto, agora sem o sorriso sugestivo no rosto.
Annita sacudiu a cabeça. Não cairia num jogo ridículo desses. Sua mãe também lembrava aquela mulher, mais até do que ela mesma, mas não eram a mesma pessoa. Sua mãe além de mais baixa, não era musculosa como a mulher na foto.
Eram parecidas, mas não eram a mesma pessoa.
–E o que quer dizer com isso, Ian? – perguntou ela, esquecendo a animosidade por um instante.
–Achei que pudesse ser sua mãe. – disse com um sorriso sombrio no rosto. Annita balançou a cabeça negativamente.
–Impossível. – disse irritada. Não queria que ele falasse de sua mãe como se soubesse mais dela do que ela mesma.
–Tem certeza? – insistiu.
–Absoluta. Minha mãe era nascida trouxa, não possuía magia. – disse agora com certa rigidez no maxilar. – Já dei minha varinha para ela diversas vezes. Nunca nem chegou a piscar. E bruxos sentem outros bruxos. – explicou ela, querendo sair dali.
O garoto pareceu avaliar a informação. Deu de ombros no final, sem tirar os olhos da foto.
–Pode ser uma coincidência. – disse saindo de lá, deixando uma Annita para trás com os pensamentos a mil.
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“Odeio quando ele faz isso. Odeio, Sr. Caderno.
“Ele parece que finalmente deixou de babaquices e então planta uma intriga dessas! Mãe, se você estiver lendo isso, saiba muito bem ele não presta! Não presta!”
A garota pousou a pena ao lado do caderno, observando Lamona parada na janela. Andou até ela, e acariciou a cabeça da ave de leve.
Lamona estava enorme; tinha alcançado o tamanho do antebraço da garota, sempre com aqueles olhos gigantes. Era linda de se olhar.
Mas agora a coruja parecia alheia à menina, com os olhos fechados, aproveitando o frio gelado que vinha de fora. Logo Annita teria de fechar a vidraça; notou que Mona começara a bater os dentes em meio ao sono.
A coruja abriu os olhos, e parecia encarar a lua. “Lua crescente.”, pensou Annita, acompanhando o olhar. “Lua crescente..??”.
A garota correu para seu baú, onde os livros estavam guardados. Abriu o de nome “Hábitos de Criaturas Noturnas” e sentou-se na cama para ler.
Ela observou o céu, voltando para a janela.
A lua estava quase cheia, apontando para ela a resposta. Ela não ouvia os gritos todas as noites. Ouvira nesse fim de semana apenas uma vez, como se a criatura que gritava sofresse miseravelmente naquele instante.
Mas então lembrou-se de outra ocasião, quando não fora um grito que ouvira. Algo animalesco, selvagem, um chamado. Um uivo.
Subitamente a menina compreendeu.
–Obrigada, Lamona. – murmurou a menina, encarando a lua.
Annita fechou a janela mais cedo naquela noite.
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