Outro Você
1 No qual acham um lugar muito belo
Notas iniciais
Meio dia o sol no topo do céu iluminou mais uma vez a casa da rua Aroeira, ela brilhava com toda sua magnitude, uma das maiores casas da rua encontrava-se agora abandonada, seus antigos donos? Ninguém sabia o que tinha acontecido com eles, um dia eles estavam lá, no outro não mais, algumas teorias foram formuladas pelos vizinhos, talvez a casa tinha sido palco de um terrível assassinato, alguns pensavam que os moradores tinham sido sequestrados. De qualquer forma os rumores foram lentamente morrendo ao perceberem que aquele local era tão calmo que cada uma das explicações parecia estúpida, a mais plausível era que os donos tinham novamente viajado e da mesma forma abrupta que tinham chegado deveriam ter ido, dona Margarida falava isso desde o primeiro dia no qual os rumores começaram a aparecer, tinha criado um laço com o casal e sabia, eram quase nômades, a chegada deles no bairro ocorreu no meio da noite de forma apressada e desde então estavam morando lá, uma saída tão inesperada quanto sua vinda não seria incomum.
Os antigos donos passavam o dia correndo pelo gramado do jardim, às vezes ficavam sentados na grama lendo, taças de vinho branco acompanhando a leitura preguiçosa, apreciavam cada palavra e cada frase como se fosse única, por vezes paravam no meio da leitura para falar em voz alta uma parte interessante do livro, poderia ser um poema inteiro, assim davam um pequeno intervalo para apreciar o que tinha sido compartilhado entremeado por sorrisos e notas que achavam pertinentes entrando em vastos debate ou em um simples aceno de cabeça concordando com o que havia sido dito. Aos sábados ocasionalmente botavam música alta, geralmente jazz e quem passava pelas ruas em frente a casa, se olhasse pela janela podia ver o casal dançando juntos com sorrisos largos nos seus rostos, cada passo completando o do outro. Eram um casal barulhento, risadas barulhentas e argumentos acalorados, apaixonados pelos detalhes mais simples que a vida os proporcionava, sabiam amar.
Dona Margarida visitava frequentemente a casa batia na porta, nas mãos habitualmente portava uma torta recém saída do forno, outras sobremesas também faziam sua aparição, mas as principais eram as deliciosas tortas, suas mãos aquecidas pela forma arrepiava com o vento que fazia o favor de levar a metros à frente o cheiro apetitoso, abria-se a porta e Helga a recebia de braços abertos, passariam a tarde comendo e conversando sobre coisas que interessavam a ambas, as vezes só jogavam conversa fora, falando sobre a vida ou sobre plantas. Quando Júlio estava em casa passavam os três em jogos de tabuleiros ou cartas, e era arrastada a participar de seus debates, uma vez tinha se prolongado tanto em qual pimentão era mais adequado para uma salada que ao sair da casa já era de noite, ela e Helga achavam que era o amarelo, Júlio o único do contra dizia "não gosto de pimentão nenhum" e por assim ficou.
Dona Margarida ficou sabendo por eles mais tarde o motivo da mudança para a vizinhança no meio de uma dessas conversas casuais que enquanto se conversa todos se sentem nostálgicos, Júlio estava contando sobre uma oferta de trabalho que havia surgido ali perto e daí ele e Helga, sua esposa, resolveram se mudar para aquele bairro, antes de "desaparecerem" eles estavam comentando com Margarida no meio de um jogo de cartas sobre outra proposta de trabalho que tinha surgido para Helga dessa vez e estavam começando a avaliar uma outra possível mudança.
Aos poucos o barulho da casa foi se exaurindo, passaram-se dois sábados e não se ouvia mais as músicas, ou os debates e as risadas, não se via mais os dois no quintal e depois de tão viva agora a casa parecia morta, assombrada, por isso os rumores surgiram. Dias depois foi publicado no jornal um anúncio sobre a vacância do local e aos poucos todos do bairro começaram a viver sua vida normalmente esquecendo-se do lugar que inspirara tanta curiosidade, como a casa era muito bela não demorou para chegarem visitantes para avaliar o local.
Nenhum dos visitantes, apesar dos vários atrativos da casa aceitavam alugar, o jardim estava completamente negligenciado a grama tinha crescido incontrolavelmente, as árvores estavam necessitando de poda, era uma grande bagunça que ninguém queria se responsabilizar, mas mesmo sendo um completo caos os passarinhos iam para montar seus ninhos nos galhos das árvores e todas as manhãs cantavam dando um ar angelical ao lado de fora da casa, o imóvel era extenso com pisos de madeira, grandes janelas com cortinas brancas criavam uma iluminação magnífica no interior da casa, na primavera quando os ventos eram mais frequentes os tecidos se moviam em tal delicadeza criando uma dança silenciosa por entre os móveis, a brisa inundando cada cômodo passava por todos como um abraço refrescante, no inverno a lareira aquecia a sala e no verão havia sempre o jardim para andar, sentar debaixo das sombras providas pelas árvores, ou deitar na grama e simplesmente fechar os olhos e aproveitar o calor da estação. No entanto nenhum dos visitantes sabiam desses detalhes, ficavam sempre por 10 ou 15 minutos andando em seu interior e saiam da mesma forma que entravam, achando um lugar muito belo, mas apenas isso.
Nas 18:00 horas da quinta esse destino mudou, sendo final de tarde as luzes da casa encontravam-se todas ligadas para receber seus dois últimos visitantes do dia, um casal de amigos, Iago e Melissa dois nomes melódicos, como o canto dos passarinhos no quintal da casa. Os dois se permitiram explorar a casa com minúcia, cada um reparou em coisas diferentes a moça ficou particularmente impressionada com o tamanho dos cômodos e a iluminação perfeita deles, especificamente boa para ressaltar suas fotos emolduradas, olhando para as paredes conseguia imaginar quase sem esforço nenhum cada uma das suas fotografias penduradas neles. Iago achou interessante o escritório da casa, era grande e havia prateleiras o suficiente para caber todos os seus livros e revistas que possuía, ambos concordaram em outras coisas, como nas madeiras que revestiam o chão de um marrom-avermelhado criando uma atmosfera calorosa receptiva, passearam pela casa toda antes da corretora os levar ao quintal, duas portas de vidro da sala de visitas abriam-se de forma convidativa para fora, diretamente para ele, o quintal, os amigos se entreolharam, sorriram, adoravam um desafio.
“Nada que um pouquinho de dedicação não desse conta” Melissa falou com um entusiasmo quase palpável, Iago concordou, sempre gostou de jardinagem e finalmente tinha um lugar pra sujar suas mãos de terra, se puseram a imaginar quais plantas, onde eles as colocariam e engataram uma conversa animada sobre cada detalhe e cada planta, já pensavam em como o quintal ficaria com um aroma agradável e tão convidativo que já calculavam as horas do dia que passariam nele.
Voltaram ao interior da casa junto com a corretora de imóveis e já conseguiam sentir, aquela casa era a casa ideal para ambos, sentaram-se na mesa de jantar para discutir os preços e outros detalhes do aluguel, em alguns minutos já tinham entrado em um acordo, nenhuma das partes ofereceu resistência para concordar com os termos, no dia posterior a este eles iriam assinar o contrato e então começar a trabalhar na mudança para a casa, os três sentiram o alívio se alojar em seus corações, a corretora por ter alugado essa casa depois de haver ficado aberta para exposição por tanto tempo e os amigos que conseguiram finalmente achar uma casa adequada para eles, finalmente. Levantaram-se os três e deixaram a casa, escura e silenciosa naquela noite, um das poucas noites a qual ainda seria encontrada desta forma.
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