— Você fez o que? Lorena Cristina Arantes, eu vou acabar com você! – a minha melhor amiga fazia o favor de gritar comigo e me lembrar da merda que eu tinha feito.

— Você parece a minha mãe quando me chama pelos dois nomes e o sobrenome. – me joguei na minha cama, enquanto ela me encarava do outro lado do quarto. — Queria que eu fizesse o que, Priscila?

Eu fugi, porque era óbvio pra mim. Era algo que eu fazia quando eu poderia me interessar por alguém. Isso começou a acontecer depois dos meus últimos relacionamentos fracassados. E, quando eu poderia me interessar por alguém, eu fugia por medo de não encontrar a pessoa perfeita, como se eu estivesse procurando em cada ficada de uma noite, um Heitor na minha vida de novo, mesmo acreditando no amor, eu tinha aquele medo de me decepcionar.

— Agarrar o boy, Lorena! Era isso que você tinha que fazer, amiga, Pelo amor de Deus! O Heitor foi o seu amor da adolescência.

— E foi isso, Pri. Ele foi o meu amor da época que eu não sabia nada da vida! – e eu tentei pensar nisso todas as vezes que eu achava que tinha encontrado alguém perfeito pra mim.

— Lorena Cristina, eu te conheço! Você nunca superou o fim do namoro de vocês. Tudo bem que você teve outros namoros, mas nenhum deles foi igual ao da sua adolescência. Eram jovens? Sim! Mas ainda pode ter a chama da paixão entre vocês, hein?!

— Depois de dez anos? Meio difícil! Muitas coisas mudam durante dez anos das nossas vidas. Tenho certeza que você não se lembra de metade das coisas que fez há dez anos.

— Ah, eu dava uns pegas em um menino lindo da escola, mas depois eu nunca mais o vi, o que é uma pena. – sentou-se ao meu lado, olhando pra mim. — Porém, eu te conheço, Lore. Você sofreu nas mãos dos seus relacionamentos anteriores, mas eu sei que acredita no amor.

A Pri me conhecia muito bem. Ela era como a minha irmã mais velha que dava as melhores broncas, conselhos e abraços. Moramos no mesmo apartamento, graças a Deus, porque morar sozinha não seria fácil pra mim. Ela também trabalhava no mesmo prédio que eu, só que com outro chefe e outro departamento da empresa. Ela era formada em direito e estava esperando o momento certo para que o seu trabalho fosse valorizado, e eu espero que fosse logo, porque a Pri era uma excelente advogada e não é porque ela é a minha melhor amiga, mas a mulher arrasa!

— Fora que você é uma sortuda, Lorena. Meu Deus, você trabalha com o Caio Ferraz! Caio gostoso tesudo Ferraz! Se eu trabalhasse pra ele, eu não iria conseguir ler nenhum contrato sequer. Aquele homem quando passa no andar que eu trabalho, eu quero morrer... De prazer!

— Priscila!

— Estou mentindo? – neguei. — Então, querida amiguinha. Aquele homem é muito lindo para ser de verdade. Não sei como você não deu em cima dele. Eu acho que vocês combinam.

— Para perder o emprego? Não, obrigada. Eu já perdi muitos empregos por ai, e quando eu acho algo que realmente eu amo fazer, a última coisa que eu quero fazer é perder o emprego só para dar em cima do meu chefe bonitão.

— Pior que isso é verdade. Não dá para ficar perdendo emprego por ai. – mordeu um pedaço do lanche que tinha feito para nós. — Aliás, o que você vai fazer para não perder a coluna na revista? Qual será o seu texto bombástico.

— Hum, então, eu ainda estou pensando. – coloquei o prato no meu colo e voltei a olhar pra ela. — É difícil pensar em algo inovador atualmente.

— Lore, você escreve muito bem, isso não podemos negar. Você só precisa escrever sobre algo que realmente esteja confiante e que sinta que esteja bom o suficiente para publicar, não o que o Caio quer, seja lá quem for. Quem tem que gostar do seu trabalho é você mesma. Você precisa colocar o seu coração nos eu trabalho.

— Eu sei, Pri. E eu sinto que tenho tanto para escrever e mostrar que eu sou uma boa jornalista. Eu adoro ter o meu espaço lá e quero continuar sempre escrevendo. Eu preciso encontrar o meu caminho.

— Ah, mas isso você consegue, Lore. Você vai escrever algo tão incrível, que todo mundo vai te amar e o Caio irá beijar os seus pés.

— Em quinze dias?

— Bem... – ela pensou em algo que eu não imaginava o que poderia ser. — Pode parecer difícil, mas eu acho que irá conseguir. Tenta alguns rascunhos e vai anotando tudo, porque pode aparecer a criatividade por ai.

E eu precisava mesmo conseguir. Mesmo sem entender nada, eu tinha que alavancar a minha carreira, nem que eu vire a noite trabalhando horas e horas. Era o meu emprego em jogo e eu faria de tudo para conseguir que eu tenha sucesso na minha profissão.

*

Quase hora do almoço, e eu me dividi a manhã toda em fazer planilhas para aperfeiçoar o meu tempo no trabalho. Eu teria que me dividir agora em pesquisar as mudanças de assunto que eu faria na coluna semanal. Eu sei muito bem que o que está dando sucesso atualmente são as revistas online e redes sociais. A maioria das pessoas leem pelos celulares e acaba sendo bom para as pessoas que não tem tempo de ir a uma banca de revista e querem ler alguma coisa em casa, trabalho, ou quando as pessoas estão indo trabalhar, ou até para entretenimento. O celular é o ponto inicial para isso, então eu começaria por ele mesmo.

— Lorena, venha até a minha sala. – Caio passou feito um furacão, sem nem olhar na minha cara direito. Nem boa tarde eu ganhei.

Era a primeira vez que eu iria falar com ele após toda a aquela confusão de ontem, principalmente depois de ele me ver correndo para longe que Heitor que, aliás, não apareceu por aqui e eu nem imaginava que o meu chefe conhecia o meu namorado da adolescência.

A secretária dele me olhou com um jeito de piedade, coitada. Ela deve aguentar todas as broncas e o mau humor do nosso chefinho.

— Boa tarde, Caio! Eu achei que você não iria vir hoje, já que...

— De onde você conhece o Heitor? – jogou o terno em sua cadeira, virando-se para mim.

— Então, é até uma coisa do destino. Mas faz tanto tempo, que...

— Lorena!

— Nós namoramos. – pela a cara dele, os olhos pareciam que iam saltar do rosto. — Mas isso não importa.

— Há quanto tempo?

— Nós éramos adolescentes na época. Foi no ensino médio, mas isso não importa mais. Porque você quer saber? – que eu saiba, ele nunca se interessou pela a minha vida pessoal.

— Você sabe que eu não gosto de relacionamentos entre os funcionários. Isso não dá certo.

— Não sei por que está dizendo isso pra mim, porque eu nunca me relacionei com ninguém daqui. – tirando o Pierre, mas nem foi um namoro e ele logo foi despedido.

— E o que eu faço da minha vida não tem nada a ver com você, Caio. Você é o meu chefe? Sim, é, mas apenas isso. A minha vida pessoal não tem que interferir na minha vida profissional, que já está uma bosta por sua causa. – ele me olhou furioso.

Eu e a minha boca grande. Já estou vendo ter que voltar para os classificados da vida, sem emprego, ou voltando a morar no interior e escutar as minhas tias falarem da minha vida.

— Não tenho nada a ver mesmo, Lorena, só que a empresa é minha e eu não quero que um casinho atrapalhe todo o andamento daqui.- ele não disse isso, disse?

— Se tem uma coisa que eu sei ser na vida, é ser profissional e não misturar a minha vida pessoal da profissional, então fique tranquilo, chefe. Posso sair, ou ainda quer interferir ainda mais na minha vida?

Ele negou, virando-se para a enorme janela da sua sala e eu sai bufando de raiva. A pobre secretária teria que aguentar as paranoias dele, enquanto eu tinha muito trabalho para fazer e não pensar no meu chefe curioso e doido. Agora eu vi, meu Deus! O homem enlouqueceu de vez e quer tomar conta da minha vida pessoal. Escutei o vibra do meu celular e já imaginei quem seria.

Pri: E ai, amiga. Como vão as coisas por ai? O chefe bonitão chegou?

Eu: Chegou encapetado. Você acredita que ele quis saber sobre o Heitor. Eu quase soquei a cara dele por querer cuidar da minha vida. Coloquei o meu celular do lado, voltando as minhas planilhas e anotações. Eu precisava acabar isso ainda hoje, de qualquer jeito.

Pri: Meu chefe aqui está de terno azul escuro. Eu já disse que ele fica lindo de azul?

Ri ao ler a mensagem dela. Priscila tinha uma quedinha pelo chefe dela, principalmente quando ele ia de terno azul escuro.

Eu: Sim, você já me falou umas quinhentas vezes, miga.

Pri: Pois essa será quinhentas e uma. Sério! Ele é muito gato! O que esses homens andam bebendo para ficarem tão gostosos?

Eu: Eu não sei. Só quero saber mesmo como eu vou salvar o meu emprego. Desviei o meu olhar do celular e olhei para a sala a porta da sala do Caio. Ele era estressado, mas hoje ele tinha superado as expectativas do estresse do mundo todo.

Pri: Vou sair para comer alguma coisa agora. Topa ir comigo?

Fechei o notebook, salvando todos os sites e as planilhas. Peguei a minha bolsa e celular e sai, sem perguntar o bonitão ali queria alguma coisa para comer, porque eu não estou paciência para ser simpática com ele. Por isso que eu sempre falo, meninas: nunca deixem um homem sair por cima de você só por ser seu chefe, porque grosseria já basta dos boletos que veem todos os meses. Se ele conseguir essa proeza, se vingue de alguma forma. Eu mesma não vou perguntar se ele vai querer o almoço e, se continuar assim, eu fico pior.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.