I.

Assim como a convocou Arya e Sansa, a rainha determinou a Missandei que trouxesse o sobrinho aos seus aposentos. Gendry Baratheon não foi convocado. Lutava consigo mesma para aceitar aquele casamento com Sansa Stark. Percebia que mais uma parte do homem que amava lhe estava sendo subtraída. Sentia um enorme vazio que nada no mundo parecia ser capaz de preencher. Era muito injusto perder definitivamente o homem amado. O que dependia dela: lutas, conquistas, coragem, grandes feitos, ela garantia sem hesitação. Mas aquela parte do destino que era obra do acaso, sempre lhe falhava. Perdera Drogo, o filho e agora ia perder Jon. Acreditava que Sansa agira de caso pensado todos esses anos, recusando o casamento de conveniência, adoecendo, se exilando voluntariamente na Campina, arranjando um pretendente para enciumar o primo. Sansa era uma hábil estrategista. Aprendera a lição da manipulação e agora a revertia em seu favor. Daenerys precisava apenas que Jon enxergasse a quem estava se unindo para o resto da vida.

Ele entrou sem bater, com excelente disposição de espírito e deu-lhe um beijo suave no alto da cabeça. Ele sempre era muito terno com ela.

—O que houve, Dany?

Daenerys respirou fundo. Queria abrir os olhos de Jon, mas não queria descer ao nível de uma reles intrigante. Nunca se imaginara numa situação semelhante.

—Eu espero que você não me queira mal...mas eu preciso saber...Você e Sansa Stark estão dormindo juntos?

Jon ficou chocado com a pergunta tão direta sobre a intimidade deles. Encarou-a com o cenho franzido. Teve que se controlar para que sua voz não soasse rude.

—E em que isso lhe diz respeito?

—É difícil explicar. Eu apenas preciso saber...

—Perdoe-me, mas não vou responder. Esse tipo de conversa não fará bem a nenhum de nós. Lembre-se de quem você é, antes de qualquer coisa...

—Eu sei que sou uma rainha. Mas não deixo de ser mulher e estou sofrendo, Jon. Isso me diz respeito porque eu ainda te amo...

Jon ficou passado. Aquelas palavras o entristeciam. Não queria causar mágoa a ninguém com a sua felicidade.

—Dany, nós já superamos isso. Estou tentando refazer a minha vida, ser feliz. Você também deve fazer o mesmo. É uma mulher maravilhosa...

Ela pareceu não ouvi-lo.

—Não falo por mal, só temo que possa estar sendo manipulado. Não quero que se decepcione.

Ele ficou perplexo com a declaração. Há mais de três anos haviam cessado qualquer contato íntimo. Aquela reação era tão exagerada quanto inesperada.

—Baseada em que acusa Sansa?

Daenerys se sentia desconfortável. Não tinha o hábito de falar mal de ninguém, e não desejava que os seus temores soassem como intrigas.

—Em estratégia. Sansa é inteligente. Recuou para conquistá-lo. Ficou doente, você se compadeceu e se culpou...As coisas nunca mais foram as mesmas pra nós a partir desse momento.

Ele respirou fundo. Refletiu para responder de forma correta, mas sem despertar-lhe a ira.

—Ela não ficou doente de propósito. Como pode imaginar uma possibilidade dessas? Sam disse que ela teve uma febre cerebral. Ninguém pode fingir ou premeditar esse tipo de coisa. Depois ela saiu de Winterfell. Se ela tivesse ficado, eu teria me casado com ela. Ela sabia disso. Mas ela não me culpou em momento algum. Eu tomei o compromisso com Lyanna Mormont para ganhar tempo, Dany. Tempo para terminarmos a nossa relação, tempo para ajeitar a vida de Gendry com Arya e tempo para eu ter certeza do que sentia por ela.

Ela o olhava com um ar expectante. Parecia apenas uma mulher sofrendo.

—E o que você descobriu?

—Eu senti falta dela o tempo todo. Agora que nos reencontramos, ela pediu permissão para casar com outro. Eu neguei porque ela foi feita para mim, eu não aguentaria abrir mão dela e vê-la com outro, por melhor que ele fosse.

Daenerys recebeu um golpe com a fala de Jon.

—Vejo que ela está entranhada em você...

Jon aproximou-se dela. Abaixou-se e beijou suas mãozinhas delicadas. Não queria que ela sofresse por causa dele, mas não havia como se dividir entre as duas. E a situação deles já pertencia ao passado.

—Lamento, Dany. Acho melhor encerrarmos esse assunto por aqui.

—Você não gostou do que eu disse. Mas eu não me arrependo. É o meu pensamento.

—Com o tempo você perceberá que está equivocada. Sansa é uma mulher direita. Ela não é esse monstro manipulador que você quer acreditar.

—Em momento algum eu a chamei de monstro.

—Vamos parar por aqui.

Jon fez uma reverência e retirou-se profundamente abalado.

II.

Estava com a cabeça quente. Precisava conversar com alguém. Foi direto atrás de Arya. Ela estava terminando de se aprontar para a cerimônia com ajuda de duas criadas. Quando a viu tão formosa, sua raiva se abrandou.

—Minha irmã querida, como você está linda...

O vestido de brocado cor de bronze tinha sido ajustado e agora vestia Arya como uma luva. Tinha um decote em forma de coração e mangas longas e justas. O cabelo estava levemente cacheado nas pontas e ela usava o colar que ganhara do irmão no dia do noivado.

—Gostou?

—Muito. Uma verdadeira lady. Nosso pai estaria orgulhoso.

Arya abriu um sorriso, mas percebeu que algo estava acontecendo.

—O que o trouxe aqui?

—Precisava falar com você por um instante.

Ela mandou as criadas saírem.

—Aconteceu alguma coisa?

—Daenerys me chamou para conversar.

Arya não disse nada, mas aquilo não a surpreendia.

—Sobre o quê?

—Tentou me dissuadir...me alertar contra Sansa.

—Mas o que Sansa fez? Daenerys está é contrariada com o casamento de vocês. Foi apanhada de surpresa. O interessante é que hoje cedo ela conversou com nós duas, alegando que seremos parentes e que temos que conviver em harmonia.

—Ela sugeriu que Sansa me manipulou para casar. Até a doença de anos atrás ela colocou sob suspeita.

Arya não pareceu impressionada com aquele relato.

—Deixe isso para lá. Ela está com ciúme. No fundo ainda é louca por você. Dê um desconto, pois não deve ser fácil para ela perder o rei do Norte. Você é muito lindo, meu irmão.

Jon acabou sorrindo. Aquela Arya, sempre aliviava o seu coração. Era só estar perto dela para se sentir melhor, mais leve e seguro.

—Ela é uma boa pessoa. E eu sei que Sansa não planejou nada. Confesso que sempre soube que Sansa não gostava de Daenerys, mas nunca percebi que ela retribuía esse sentimento negativo.

—Mas vocês brigaram?

—Não, eu encerrei o assunto.

—Então deixe o tempo passar. Tudo se ajeita. Ela vai acabar se resignando. E lembre-se que Sansa só tomou certas atitudes em relação a você, depois que Lyanna Mormont esclareceu que o noivado de vocês era de fachada, um expediente pra ganhar tempo. E foi ela quem fez com que Sansa percebesse que você a amava.

—Lady Mormont é uma amiga leal. Sempre serei seu devedor.

—Bom, em breve você poderá lhe retribuir.

Jon não entendeu.

—Ned Umber está decidido a casar com ela. E tem o apoio de Sor Davos, Lord Manderly e até de Tormund. Só esqueceram de perguntar a Lyanna.

—Não se preocupe. Lady Mormont só casará com quem ela quiser. Mas confesso que já pensei em alguém.

—E quem é o felizardo?

—Segredo. Prefiro que eles se encontrem primeiro.

Bateram na porta. Era Sor Davos.

—Vim avisar que Samwell Tarly, Gilly e o menino chegaram há pouco. Quase junto com Lord Greyjoy, das Ilhas de Ferro e sua comitiva.

—Lord Greyjoy?

—Theon Greyjoy.

A cara de Jon era de puro desconsolo.

—Mas por que ele veio?

—Sansa escreveu uma mensagem de seu próprio punho. -Arya explicou.

—Ela deveria ter me avisado.

—Bem, ele a ajudou muito.

—Inacreditável.

Sor Davos e Arya ficaram quietos.

—Bem, vou me aprontar.