I.

Estava apoiado na balaustrada de madeira, conversando calmamente com Sor Davos e Lord Tyrion- que desta vez viera com ele para prestigiar Arya e Gendry-, quando teve a sua atenção subitamente desviada, porque entraram dois cavalos trotando. No baio estava Arya e no outro, um negro de crinas eriçadas, uma moça de com uma longa cabeleira castanha, agitada ao sabor do vento. As duas vinham muito animadas. Jon tentou adivinhar se era alguém conhecido. Apertou os olhos para tentar ver melhor. Sor Davos abaixou a cabeça, para disfarçar o riso, mas Jon percebeu. Tormund foi direto ao encontro das amazonas. Enquanto segurava as rédeas do negro, deu um sorriso amplo e maroto. Arya também ficou ali, no meio do pátio, indisfarçavelmente rindo para ele, como fazia desde os quatro anos.

A moça era alta, magra, de cintura fina. Usava calças justas e gibão de couro como Arya e Brienne . Só que elas não eram tão exuberantes. Era muito bem feita de corpo e as pernas longas destacadas pelas botas terminavam num belo e firme par de nádegas. Jon engoliu seco. Aquilo não era comum em Winterfell, talvez fosse gente do Tormund. Tentou parecer casual.

—Quem é essa senhora, Sor Davos?

Nesse momento, Sor Jorah se aproximou e balançou a cabeça aprovadoramente. Sansa vinha com ele. Não se cumprimentaram. Aliás, desde a véspera, mal haviam trocado meia dúzia de palavras. Jon voltou sua atenção para Lord Tyrion, que mantinha o ar circunspecto, mas não tirava os olhos da bunda da jovem amazona.

Sor Davos já havia recomposto totalmente a fisionomia.

—Não está reconhecendo, Majestade?

Jon sacudiu a cabeça, intrigado. Poderia jurar que nunca vira aquela moça em sua vida.

—Não, de jeito nenhum. Eu deveria?

Os homens começaram a dar risadinhas. Ele percebeu que Sansa olhava-o de soslaio, mas sem dizer uma única palavra.

—É a sua prometida, Majestade.- atalhou Davos.

Jon sentiu um golpe. Sim, aquilo. Tormund, Arya e a moça — finalmente identificada- subiam a escada alegremente. De perto reparou que ela era apenas uma adolescente, ainda que o corpo fosse de mulher. Tormund deu uma gargalhada e olhou direto para Jon, para testemunhar sua reação. Ele estava contido, como se temesse quebrar alguma coisa. Os outros ficaram quietos. Mas Tormund não ligava, percebendo o desconcerto do rei, aproveitou a oportunidade para gracejar.

—Olhe só, meu rei, como cresceu a nossa Lady dos Ursos...

Preparou-se para ouvir um protesto, pois Lady Lyanna Mormont sempre tivera temperamento forte. Em criança argumentava com qualquer adulto e sempre com bom senso e propriedade.

Surpreeedentemente, ele não pareceu ofendida, nem desagradada. Parecia estimar Tormund. Definitivamente, as coisas haviam mudado e muito por ali nos últimos tempos.

Ela fez uma reverência graciosa, depois ergueu os olhos e deu um sorriso amistoso.

—Meu rei...

—Lady Mormont... é um prazer revê-la. – o nome parecia não querer sair de sua boca. Sentia-se ligeiramente engasgado.

Havia crescido muito, estava quase da altura de Sansa. E tinha seios. Aquilo o deixou meio escandalizado. O rosto ficara mais suave, mas guardara aquele ar decidido que era a sua marca.

Arya pegou-a pelo braço e fez um sinal para Sansa, que seguiu-as.

—Minha parenta ficou uma beleza, não é, Majestade.- o tom de Jorah era irônico.

Jon nem percebeu. Estava muito surpreso.

—O que houve com essa menina? Parece outra pessoa. Como alguém pode mudar tanto?

Tyrion filosofou.

—É, e o tempo foi generoso, Majestade.

—Ficou uma jovem bastante bonita.-opinou Sor Jorah.

—Como está...desenvolvida.- sentenciou Jon.

II.

—E, agora, Sor Davos?

—Agora é seguir com o planejado. Qual a dúvida?

Tyrion, deu uma risadinha cínica.

—Esse noivado me parece meio desajeitado

Jon concordou inteiramente.

—Falei que isso não ia dar certo.

Sor Davos não se deu por vencido.

—Como não deu? A moça cresceu, botou corpo... tanto que o senhor nem mesmo a reconheceu. Qual a complicação? Agora é casar, e tratar de ter filhos, homem! Desculpe, Majestade.

Tyrion estava com a cara séria, mas sorria com os olhos.

—Está maluco, Sor Davos? Isso foi combinado para que eu ganhasse tempo e resolvesse certas pendências.

—Mas o senhor já as resolveu, não foi? Cinco anos deram de sobra.

Jon ficou meio chocado com a fala dele.A expressão de Sor Davos era inquisitiva. Não entendia a complicação toda.

—Sim, essa situação está definida. E a legitimação de Gendry, também. Arya finalmente vai poder se casar.

Lord Tyrion encheu a taça generosamente. Tomou um gole largo, estalou a língua e sugeriu.

—Podemos casar os dois primos. Lady Arya Stark com o Gendry Waters, digo Baratheon, e Vossa Majestade, com a Lady dos Ursos.

—Ela é Lady Lyanna Mormont , da Ilha dos Ursos, prima de Sor Jorah. Seja mais respeitoso, Lord Tyrion.

—E sua noiva, Majestade. Perdão pela familiaridade.

Jon sentia-se acabado. Mas procurava não deixar transparecer.

—Não posso me casar com ela. Eu a vi criança. Era um toco de gente, mas sempre teve muita opinião.

Tyrion olhou-o com desconfiança.

—Mas isso foi há muito tempo. Hoje é outra pessoa, tanto que nem a reconheceu.

O rei olhou para Sor Davos e notou que ele concordava com o raciocínio de Tyrion Lannister.

—Não foi esse o combinado.

Aí foi a vez de Tyrion olhar para Sor Davos, que encolheu os ombros.

—O que vocês não me contaram?

Jon fez uma cara desanimada.

—O noivado foi ideia de Sor Davos e de Arya, para que pudéssemos ganhar tempo. Foi logo quando descobrimos que eu não era filho, mas sobrinho de Lord Stark. Targaryen, por parte de pai. Os senhores do Norte ficaram ressabiados, nós tínhamos acabado de exterminar o exército dos mortos.

—Eles fecharam questão sobre o casamento do rei. Queriam que meu senhor desposasse uma das primas. Para ter herdeiros com sangue do Norte.

Tyrion assentiu.

—Estou ciente, a rainha Daenerys comentou o assunto comigo, na ocasião. E por que não se casou?

Jon protestou com veemência, desviando ligeiramente da pergunta.

—Arya é minha irmã. Troquei suas fraldas sujas, brinquei com ela. É mais que uma irmã, é quase uma filha. Como poderia eu me casar com ela e produzir herdeiros? Hipótese absurda, impraticável.

Tyrion balançou a cabeça dubitativamente.

—Mas porque Lady Arya Stark? A Sansa seria a escolha natural. Pela idade e, segundo soube, não eram tão próximos na infância. Sem falar que ela é uma beleza.

Jon não gostou muito do tratamento familiar com a prima, mas lembrou que ela era amiga de Tyrion, pois o falecido Lord Tywin forçara os dois a se casarem quando ela era apenas uma menina. Tyrion havia se portado como homem de honra e jamais tirara vantagem da infeliz situação de Sansa Stark. Nunca lhe tocara num fio de cabelo. Repetidas vezes ela elogiara a retidão de Tyrion para com ela. Vendo que Tyrion aguardava uma resposta convincente, Jon rompeu o seu mutismo e admitiu.

—Na verdade, assim que eles me impuseram a condição, eu a pedi.

—E...?

—Inicialmenente ela aceitou, pareceu até lisonjeada, mas depois voltou atrás e acabou por recusar formalmente o meu pedido. Juntou suas coisas e foi tratar de assuntos do testamento de Lady Olenna Tyrell, em Highgarden. Ela nomeou Sansa como sua testamenteira. Sansa passa muito tempo por lá, até hoje. Nós mal nos vemos. Ela sempre dá um jeito de nós nos desencontrarmos.- a última frase revelava uma ponta de amargura.

A Mão de Daenerys olhou para a Mão do Rei do Norte.

— Agora, mal se veem..., entendo. -Tyrion encheu outro copo e tomou uma generosa talagada. Foi então, que pôs o dedo bem em cima da ferida.

—E o senhor sabe por que Lady Sansa ... reconsiderou, Majestade?

Jon abaixou a cabeça e olhou fixamente para o espaço entre os pés. Estava basatante desconfortável com o interrogatório. O passado lhe estava sendo extraído dolorosamente, através de perguntas feitas sem o menor tato. Respirou fundo e explicou.

—Ela disse que não se casaria pela terceira vez, sabendo antecipadamente que seria infeliz.

—E infeliz por quê?

Sor Davos pôs-se de pé, ia sair. Tyrion percebeu.

—Por favor, Sor Davos Seaworth.

Ele capitulou e voltou para o escabelo onde estava sentado até então. Jon finalmente admitiu, algo que Tyrion já sabia.

—Porque ele descobriu que eu e a rainha Daenerys, na ocasião, éramos amantes.

Sor Davos prendeu a respiração. Parecia mortificado. Tyrion não mostrou nenhuma emoção.

—Ah... Bem, não se pode culpá-la. Lady Sansa só faz crescer em meu conceito.

Jon percebeu que aquele elogio a Sansa, no fundo era uma crítica a ele. Mas não se ofendeu. Gostava muito de Tyrion.

—A questão é o que fazer, agora?

—A sua noiva, a jovem Mormont, devo entender que já pode ter filhos?

—Sim, ela está apta desde os treze anos. Agora está com dezesseis completos e floridos.-respondeu Davos.

—Muito floridos, realmente...- murmurou Tyrion.

Jon estava calado, parecia não saber que partido tomar.

—O que esperava?

—Esperava que com o tempo, minha prima talvez reconsiderasse.

—E por que ela o faria?

III.

Lady Lyanna Mormont terminara de se vestir. Usava um vestido veludo vinho, com mangas compridas e uma saia ampla. Levava o cinto de ouro que pertencera à mãe e os cabelos soltos. Estava simples, mas linda. Lady Arya Stark estava sentada na beira da cama.

—O que foi?

—Nada de mais. Estou achando engraçado. Você ficou noiva antes de mim.

Lyanna riu, divertida.

—Mas o seu noivado é um noivado de verdade, enquanto o meu...

Arya ficou séria e pareceu até apreensiva.

—Não fale isso, alguém pode ouvir. Aliás, vamos ter uma reunião para tratar do assunto.

—Como assim?- Lyanna ficou séria.

—Vamos ter que replanejar. As coisas não estão saindo da forma esperada. Você viu a cara dele ...e a dela.

Lyanna pareceu triste. Mas realmente era muito jovem e não lhe ocorria o que pudesse ser feito para salvar a situação.

—Agora fiquei preocupada. Não há o risco, bem ...

—Espero que não. Apesar de que ele ficou impressionado com você. Todos ficaram. Jon achava que você ainda era uma menininha. Há muito vocês não se encontravam...

Lyanna sorriu, penalizada.

—Oh, será que eu vou acabar me casando com o rei? Ele é muito bonito, mas não foi esse o combinado. Se ele casasse comigo, não teria o mesmo efeito para o Norte.

—Eu sei. Mas você sabe como eles são teimosos. Os dois.

—Eu me lembro, ele é especiamente empacado.

—Empacado? –riu Arya, estirando-se no leito.

—Sim!

—Não se engane, ela também pode ser terrivelmente obstinada.

—Ela está cada vez mais linda. Quantos anos ela têm?

—Vinte e quatro anos de teimosia. Mas eu não posso falar nada, é mal de família.

—A reunião é com quem?

—Lord Tyrion, Lady Brienne , Sor Davos e o rei.

—E você, Arya?

—Melhor que eu não participe. Prefiro agir naturalmente. Tenho medo de parecer forçada e ela desconfiar de alguma coisa.

Arya levantou-se. Usava um vestido cinza, com galões prateados. Caprichara para a ocasião.

—Está elegante demais.-elogiou Lyanna.

—Vamos à sua reunião e depois à festa de noivado.

IV.

Lyanna Mormont sorria, divertida, como poucas vezes na vida. Sempre fora muito séria, mas perto de pessoas de quem ela gostava, ficava bem mais relaxada. Lord Tyrion era do outro mundo. Porém, Lady Brienne parecia escandalizada com a preleção de Tyrion Lannister. Aquele anão além de cínico, era completamente descarado. Era bem irmão de Jaime.

—Mas, Lord Tyrion, o senhor acha apropriado?- perguntou Lyanna.

—Já passamos dessa fase, milady. Agora é ou tudo ou nada.

O rei ouvia a preleção, com os olhos muito abertos. Perto de Lord Tyrion todos se sentiam meio provincianos. Sor Davos concordava com tudo.

—Vá por mim, Lady Mormont. Entendo muito de casamentos. E não quer sair da Ilha dos Ursos?- argumentou Tyrion.

A moça ficou muito sem jeito. Dirigiu-se a Jon.

—Meu rei, com todo o respeito, o senhor será um marido maravilhoso para alguém, mas eu não posso casar... Porque não pretendo sair do meu lugar. E o senhor sabe como eu sou, gosto de mandar. Mas disse o ajudaria sempre e estou cumprindo a minha parte.

Jon sorriu da sinceridade da garota.

—Eu sei, minha cara lady Mormont.

Ela sorriu de volta.

"Sabe muito de combate, mas de mulheres... ", pensou Lord Tyrion. Mas retomou o fio.

—Então, já sabem o que fazer?

Todos concordaram, Lady Brienne se sentia péssima. Mas era tudo pela causa.

V.

Assim que acabou de se vestir, despachou o criado e colocou no bolso o colar de ouro que mandara fazer para presentear Arya. Gostava bastante de Gendry e esperava que ele a fizesse feliz. De qualquer maneira, pretendia fiscalizar o futuro parente porque punha todo o seu empenho em que a vida da sua querida Arya desse certo.

Alguém bateu.

—Entre.

Levou um choque. Era Sansa e estava linda. Trajava um vestido de seda azul claro, com flores bordadas em prata na barra e nos punhos. Os cabelos estavam presos num coque, destacando as orelhas pequenas, usava um colar de prata com safiras. As roupas eram sofisticadas, coisa de Highgarden, provavelmente. Hoje de manhã ela mal o olhara. Agora, ela vinha procurá-lo em seus aposentos. Muito estranho.

—Em que posso ajudá-la, prima?-Jon reencontrara o jeito tímido de sua infância e adolescência.

Sansa sentiu-se mais à vontade, a expressão dele era quase a dos velhos tempos. Tomou coragem e falou.

—Eu preciso discutir um assunto com você, Jon. É sobre o meu futuro.

—Claro, sente-se.

Indicou-lhe uma cadeira, ele acomodou-se em outra, atrás da mesa repleta de livros.

Sansa estendeu-lhe um rolo lacrado com cera. Ele mirou a mão branca com dedos afilados. Sansa tinha lindas mãos. Pegou-o com desconfiança, teve uma sensação desagradável. Conforme lia, seu rosto se fechava.

—Quem é esse Lord Torvald?- disse Jon, descartando a missiva e sentindo o coração acelerar.

Sem se dar conta Jon elevava o tom da voz. Sansa baixava cada vez mais a sua. Não queria por nada se aborrecer no dia do noivado da irmã. Tentou contemporizar.

—É um homem muito honrado e gentil, Jon. Eu o conheci em Highgarden. Mencionei-o várias vezes em minhas cartas.

Foi aí que Jon explodiu. Deu uma pancada na mesa, pôs-se de pé e começou a andar, agitado, na frente dela.

—Cartas, Sansa? Cinco cartas curtas em três anos! Nós mal nos vimos e nos falamos. Você me virou as costas. Não me lembro de você ter dito que estava arranjando pretendentes.

Sansa estava desconcertada. Realmente, ela o estava evitando. Mas tinha motivos para isso e ele sabia quais.

—Sinto muito. Aconteceram alguns desencontros, peço-lhe que me perdoe.

Jon estava irritado porque ela estava contornando, quando ele estava louco para puxar uma briga. Pelo menos assim ela demonstraria alguma emoção. As palavras expressavam seu azedume.

—Digo só uma coisa, se esse Lorde Torvald quer a sua mão, ele que venha aqui pedi-la. Quero olhar na cara dele. Olho no olho. Não vou entregar minha prima a qualquer um. Você é uma Lady de Winterfell, é uma herdeira. Seu casamento é assunto do reino. Não confio naquela gente de Highgarden.

"E você é linda"- mas isso ele não teve coragem de acrescentar.

—Mas eu aceitei me casar com ele, Jon... Não vejo a razão...

—Você já se casou antes, Sansa. E mal, nas duas vezes. Eu tenho responsabilidade sobre o Norte e sobre você. Escreva para esse homem e convide-o para conhecer a sua família. Por hora, assunto encerrado. Vamos ao banquete de noivado. E inesperadamente, virou-se e ofereceu o braço à prima. Tremendo ligeiramente, ela aceitou.