I.

Estavam no bosque sagrado. Jon sentia-se sufocado pelos dissabores e preocupações. Por sugestão de Arya, haviam saído para caminhar um pouco.

—Preciso de tempo...Mas já sei, de antemão que eles não vão me dar. Já há candidatas a postos para substituirem Sansa.

Arya sentou-se ao lado dele , na raiz do carvalho secular.

—Mas você sabe o que fazer, caso consiga o tempo que pretende?

Ele suspirou fundo e triste. Ainda estava dividido. Não queria voltar as costas a Daenerys, pois a considerava uma mulher admirável e não sabia como ela levaria uma decisão dessas. Sua coragem, sua capacidade de se lançar em grandes empreitadas, seu senso de justiça, tudo isso o impressionava muito. Era altamente lisonjeiro ser amado por uma mulher assim. Sem falar na grande atração física que sentiam um pelo outro. Ele nunca havia sentido isso por ninguém. Nem mesmo por Ygritte.

Porém, havia Sansa. E ela era, naquele momento, uma incógnita. A mais nova de sua vida, uma vez que finalmente desvendara o segredo de sua origem. Não conseguia imaginar-se construindo alguma coisa em sua vida sem ela, fosse um reino ou apenas uma família. E, de uma forma totalmente diversa, ele reconhecia que ela também era uma mulher admirável. Sansa era o resultado de um grande trabalho de depuração obtido através de grandes sofrimentos. Jon amava Winterfell e ele tinha certeza que no amor que votava ao lugar, entrava uma grande parte desse indefinível sentimento que ela lhe inspirava. Finalmente abandonou seus pensamentos e lembrou da pergunta de Arya.

—Preciso organizar minha vida. Preciso entender melhor o que sinto, pois gosto de Daenerys, mas não concebo viver sem Sansa perto de mim. Preciso resolver a situação de Gendry, para que vocês possam ter um futuro juntos.

—Não tem obrigações para conosco.

—Tenho com nosso pai. Gendry tem que ser legitimado e só Daenerys pode fazer isso. Ela pode também restituir-lhe Storm's End.

—Não me agrada saber que por nossa causa você terá que pedir favores a Daenerys Targaryen.

—Ela é uma boa pessoa. Não verá isso como um favor, mas como justiça. Estará restaurando uma das casas mais antigas dos Sete Reinos.

Vinham chegando ao bosque Brienne e Lyanna Mormont. Estavam à procura de Arya. A menina adiantou-se e fez uma reverência.

—Meu rei...

Jon sorriu. Gostava muito daquela garota. Ela tinha muita personalidade. Arya ficou olhando.

—Acabo de ter uma ideia para ganharmos o tempo que você necessita. Lady Mormont... Lyanna... o rei e eu precisamos muito conversar com você.

II.

O grande salão de banquetes estava lotado. Jon tomou a palavra, desejava liquidar logo aquele assunto.

—Como devem estar cientes, minha prima, Lady Sansa Stark achou por bem cancelar nosso noivado por razões de foro íntimo. Teríamos voltado à estaca zero se não fossem os sábios conselhos de Sor Davos Seaworth e de minha prima, Lady Arya Stark.

Lady Arya Stark estava ali impávida, baixinha, de calças, botas, espada e adaga de aço valiriano, encarando os lordes sem se intimidar.

As vozes se elevaram. Jon se pôs de pé, com uma expressão tão fechada, que o silêncio retornou e ele pode falar.

—Desde que tomaram conhecimento da ruptura de meu noivado com Lady Sansa, tenho recebido sugestões diretas e indiretas para me casar com diversas damas. Diga-se de passagem, todas belas, virtuosas e bem nascidas, mas sinto que ao escolher alguma, estarei causando dissabores e acentuando rivalidades. Resolvi, pois, escolher como noiva, alguém, que junto com a minha família, sempre me mostrou apoio incondicional e absoluta fidelidade. Falo de Lady Lyanna Mormont, da Ilha dos ursos.

Todos os olhos se fixaram na menina. Muitos surpresos, outros incrédulos.

—Mas é só uma criança de dez anos!

—Já tenho onze completos. E quem decide o que lhe convém é o rei. -falou Lady Mormont com autoridade, mas seu estava rosto muito vermelho.

—Lady Lyanna é da família de meu querido mentor, o falecido Comandante Jeor Mormont, e também de Sor Jorah Mormont, grande amigo da minha tia, a rainha Daenerys. É uma noiva que agradará muitíssimo à rainha. Sem falar que Lady Lyanna tem mais juízo e bom senso que a maior parte das pessoas que conheço. Já acertamos todos os detalhes. Assim que ela entrar na puberdade, realizaremos o casamento, a não ser que ela mude de ideia na ocasião. Mas de minha parte já temos a futura rainha do Norte.

Dito isso, deu as costas e se retirou levando consigo Arya e Lyanna.

III.

Em seu quarto, Sansa refletia. Sabia que havia agido certo, que se o pai e a mãe estivessem ali concordariam com a sua atitude de não submissão a um casamento que já nascia atrelado à infidelidade. Mas sentia que o último elo que a prendia a Jon se partira. Ele renunciara de vez a ela. Aquilo a entristecia, porque ele fora seu primeiro amor verdadeiro, de mulher adulta. Sentia um buraco no peito, um vazio enorme. Ela ainda o amava e temia amá-lo pelo resto da vida. Mas entendia que deveria ser fiel a si mesma e se colocar em primeiro lugar. Nunca mais aceitaria entrar numa relação onde receberia menos do que julgava merecer.