Outra vez
13 Capítulo 13
I.
Na segunda noite em que Jon velou por Sansa, junto com Sam e Arya, notaram uma pequena mas significativa melhora. Ela passou a respirar com mais facilidade, suou muito, e logo a febre diminuiu. Sam fazia com que ela bebesse bastante água, a tisana medicinal e aplicava compressas frias em sua testa. Periodicamente trocavam sua camisola, mas antes refrescavam seu corpo com uma pano umedecido. Foi numa dessas vezes, quando Sam e Arya iam virá-la para trocar a roupa úmida, Jon ia se afastar, como sempre fazia para não ver a nudez da prima. Mas quando finalmente a moveram, ele viu as costas nuas de Sansa. Não conseguiu se conter, ficou assombrado.
—Mas o que é isso? Que marcas são essas?
Sentou-se na borda do leito e tocou levemente diversas cicatrizes finas e esbranquiçadas. Eram estranhamente regulares, como se traçadas com uma arma branca. Sam jogou a coberta do leito sobre a doente. Foi Arya quem respondeu.
—Isso foi feito por Ramsay Bolton, durante o casamento deles. Ela me explicou que ele sentia prazer em torturar as pessoas. Sansa disse que ele chegou a cortar pedaços de Theon Greyjoy. Ele a cortava repetidas vezes com a faca. Mas já está tudo cicatrizado agora.
Jon levantou a coberta e ficou olhando fixamente para as costas de Sansa. Nunca ela havia entrado em detalhes sobre as maldades de Ramsay, e muito menos lhe mostrado aquilo. Tornou a cobri-la e saiu do quarto.
Finalmente se dava conta de que o que sabia dela era muito pouco. Ele via apenas aquilo que ela permitia. Tudo isso limitado pelo pudor e pela vergonha que ela certamente dissimulava. Assim era mais fácil para ele entender porque ela adoecera. O tempo sob a tutela dos Lannister, os maus tratos de Joffrey, a tortura infligida pelo degenerado Ramsay, as maquinações de Mindinho e mesmo ele. Ele tinha sido o detalhe final. Nunca pensara que Sansa fosse tão fechada e tão densa. A calma, a ponderação, a responsabilidade sobre os outros- tudo isso escondia um extremo sofrimento que ele nunca a julgara capaz de suportar.
II.
—Bran...
—Sim, Jon.
—Eu preciso saber e só você pode me dar as respostas.
Bran teve aquele seu costumeiro ar enfastiado.
—Ela correu risco, mas agora vai melhorar. Não precisa se sentir culpado.
—Eu me sinto um idiota.
A expressão de Bran continuou inalterada. Parecia desinteressado das questões de consciência do primo.
—Isso é com você.
Jon riu pela primeira vez, depois de muitos dias de tensão.
—Você não é só o Corvo de três olhos, é também o coração de pedra.
Bran ficou calado, mas deu um sorriso que evocava a criança adorável que ele fora na infância. Tinha virado um tipo esquisito, cheio de poderes, mas Jon o amava muito. Eram família. Alguns lobos tinham morrido, mas a matilha sobrevivera.
III.
Brienne observava o Rei do Norte na cabeceira de Sansa. Apesar da má vontade contra ele, não via um gesto que lhe pudesse reprovar. Sor Davos notou também que, desde a chegada, não havia enviado nem um único corvo à rainha Daenerys Targaryen. Quem havia chegado para ver Sansa era a pequena Lady Mormont. Sansa melhorava lentamente, mas já recobrara a consciência. Ficara muito vermelha e perturbada ao saber que Jon estava se desvelando para cuidar dela. Estava muito feliz por estar viva. Vendo tantos se ocupando de sua saúde, sentiu-se querida e isso lhe fez um grande bem.
—Como está se sentindo?- disse Jon sentando-se na borda do leito.
Ela fitava a trama da coberta, pois sentia muita vergonha por ter causado transtornos.
—Estou bem. Obrigada por tudo o que fez.
Ele pegou a mão dela, como fizera diversas vezes enquanto ela estava desacordada. Sentiu que a mão estava tensa, mas não a largou.
—Não podia deixá-la ir...
Ela ficou emocionada. Mas nesse instante chegou Brienne. Jon cumprimentou-a, colocou a mão de Sansa delicadamente sobre a coberta e saiu.
—E então, milady?
Sansa acordara da doença para perceber que ainda amava Jon, e provavelmente o amaria pela vida inteira. Mas, tinha tido uma grande chance. Graças aos deuses e a Samwell Tarly, ela estava de volta e ia começar uma nova vida.
—Eu tenho planos. Assim que ficar totalmente boa, vou passar uma temporada em Highgarden. Gostaria que viesse comigo, Lady Brienne.
—Pode contar com isso, milady. Sabe que estou a seu serviço, assim como de Lady Arya.
—O clima de lá é muito ameno. Vamos ficar bem, tenho certeza.
IV.
—Tem certeza disso, Arya?
—Sim, Jon. Ela vai deixar Winterfell por uns tempos. Vai com Brienne.
—Vai deixar você aqui, sozinha?
Arya teve vontade de rir. Mas se manteve séria. Ele estava decepcionado. Arya não sabia ao certo o que ele esperava.
—Bem, tenho você, Bran, e agora, Gendry.
Jon franziu o cenho quando ouviu o nome do rapaz.
—Em algum momento, mais à frente, precisaremos conversar sobre ele... bem, sobre vocês dois.
—Não há nada a conversar, Jon. Já deve ter percebido que Gendry é o único homem pelo qual me interessei até hoje.
—Arya, apesar de suas habilidades de luta, você é, por nascimento, uma Lady de Winterfell. Não pode se envolver...
—Com um bastardo Waters? Jamais esperei ouvir isso de você.
—Não vai ouvir. Mas sou responsável por você. Agora que Sansa se curou, você fica andando de baixo para cima com um homem. Saem a cavalo e só voltam ao anoitecer... Enfim...
—Mas eu já passei dias com ele e outros rapazes, Jon.
—Você era uma menininha. E teve muita sorte. Podia ter sido violentada ou até mesmo morta.
—Mas estou aqui. Não se preocupe, eu e Gendry seremos discretos e prudentes.
Percebeu que Jon ainda parecia triste.
—O que está havendo?
—Eu pensei que poderia resolver as coisas entre mim e Sansa.
—E por que não podem?
—Não tenho tempo. Quando souberem que rompemos o noivado, terei que me casar logo com outra.
Arya parecia intrigada.
—Então você ainda pensa em casar com Sansa? Mas você disse que não a amava...
—Sabe, é que eu não paro de pensar naquelas duas perguntas que você me fez em Dragonstone...
—E...?
—Bem, eu não gosto de vocês duas do mesmo jeito.
—Isso eu já sabia. E a outra pergunta?
—Sexo é uma coisa poderosa, Arya. Não estou dizendo que seja só sexo. Eu gosto de Dany, mas não me vejo compartilhando meu destino com ela. É confuso...
—Não, não é. Só é complicado.
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